15 de janeiro de 2018

Capítulo 4. Crânio raciocina

Quando Miguel e Chumbinho fecharam o alçapão depois de pular para o esconderijo secreto, da gaitinha do Crânio vinha uma melodia lenta, que se espalhava por todo o forro do vestiário do Elite.
— Por que você fez o sinal de silêncio, Miguel?
O líder dos Karas sorriu quando olhou para o menino. No dedo indicador da mão esquerda do Chumbinho, aquele que havia levado uma espetadinha para a tal “cerimônia de iniciação”, havia um enorme curativo. O dedo do garoto estava enrolado com gaze e esparadrapo como se tivesse sofrido um sério acidente...
— Está rindo de quê, Miguel? Eu perguntei por que você fez o sinal de silêncio.
— Ahn? Não sei, Chumbinho. Eu achei que havia alguma coisa estranha, alguma coisa que me deixou desconfiado. Achei melhor não falar nada agora. Além do mais, nós sabemos muito pouco.
— Mas tem aquele jeito estranho do Bronca. Ele nunca foi obediente assim.
— Pois é, Chumbinho. É só isso que temos. E não vamos contar nada para ninguém. Pelo menos por enquanto.
Magrí e Calú chegaram juntos, e a menina foi a primeira a apresentar seu relatório. Enquanto Magrí falava, o som da gaitinha do Crânio ficou suave como uma carícia.
— O Bronca tinha uma namorada, sim, mas a garota não sabe de nada. Não viu nada, nem ninguém estranho. Está tão “desconsolada” com o desaparecimento do Bronca que até já arranjou outro namorado pra ter com quem se “consolar”...
— E você, Calú?
— Nada estranho, Miguel. Ninguém se lembra de ter visto o Bronca falando com alguém desconhecido, nem sabem dizer se o Bronca estava diferente. Nada, nada mesmo.
— Eu descobri que o Bronca era um sujeito meio reservado — relatou Miguel. — Não deu para saber se ele frequentava algum lugar especial fora do colégio. Acho que estamos empacados, Karas. Nem sei por onde começar.
— E eu, Miguel? — perguntou Chumbinho apontando para si mesmo com o dedo enfaixado. — Ai, ai, ai, Miguel tinha se esquecido do Chumbinho! Era preciso manter o menino interessado até que fosse possível despistá-lo. Se o moleque se sentisse à margem, poderia botar a boca no mundo e revelar todos os segredos dos Karas. O jeito era seguir com o jogo:
— E você, Chumbinho? Descobriu alguma coisa?
— Eu grudei no Bino o dia todo, como você mandou, e descobri que ele é legal. Gente fina, bom papo. Só que não é de nada no flíper...
— Não diga, Chumbinho!
— Descobri também que ele não era muito ligado no Bronca. Parece que papearam uma ou duas vezes, só isso.
Nessa altura, todos os olhares estavam fixos no Crânio. O rapazinho parou de tocar a famosa gaitinha, bateu-a na coxa para enxugar, e falou, correndo os olhos por todos os companheiros até encontrar os grandes olhos de Magrí. Enrubesceu um pouco e começou:
— Este não foi um sequestro comum, Karas. Acho que não devemos esperar por algum bilhete ou telefonema misterioso
Crânio espalhou as cópias de recortes de jornal pelo chão:
— O Bronca é o vigésimo oitavo estudante a desaparecer em cerca de dois meses. Vejam: desapareceram três estudantes de nove colégios diferentes. E fácil concluir então que o Bronca é a primeira vítima do Elite.
— A primeira vítima?! O que é que você quer dizer com isso?
— Quero dizer que estamos agindo contra uma organização poderosíssima, na certa dirigida por uma cabeça privilegiada. Finalmente, um rival à minha altura!
— Mas os sequestras...
— Não são sequestras comuns. Há um método. Um método científico de amostragem. Estão sendo recolhidas três amostras de cada um de pelo menos dez diferentes colégios, todos do mesmo padrão. Pelo jeito, eles querem jovens da classe alta, bem alimentados, saudáveis, boas cabeças, atléticos...
— Então quer dizer que...
— Quer dizer que mais dois alunos do Elite devem ser sequestrados ainda esta semana. Hoje mesmo, talvez!

* * *

Os Karas se entreolharam. A lógica do raciocínio do Crânio era indiscutível. O perigo estava presente. E a ameaça era grave.
— Eles vão pegar mais dois de nós! — espantou-se a menina. — Mas, para quê?
— Não sei ainda, Magrí. Cheguei a pensar em um sequestro em massa para a obtenção de um vultoso resgate das maiores fortunas de São Paulo. Mas, nesse caso, por que exatamente três alunos de cada colégio? Por que sempre os mais saudáveis, atléticos e inteligentes? Por que não simplesmente os mais ricos? Está claro! Ele não vai pedir resgate...
— Ele? Ele quem?
— Não sei quem é ele. Mas eu sinto que estou diante de um grande cérebro, alguém muito especial. Perigosamente muito especial...
— Mas o que esse tal cérebro pretende com os estudantes sequestrados?
— Acho que esse cérebro criminoso não está sequestrando estudantes, Calú. Está recolhendo cobaias!
— Cobaias humanas?! — assustou-se Chumbinho.
— Exatamente. Cobaias sadias, bem nutridas, para algum tipo de experiência maluca. Maluca e macabra!
Chumbinho entendeu de repente toda a extensão do perigo que rondava o Elite:
— Então era por isso que o Bronca estava estranho daquele jeito! Tão obediente e tão careta. Vai ver eles hipnotizaram o Bronca pra facilitar o sequestro!
— Nada disso, Chumbinho — interrompeu Crânio. — Em hipnose eu sou especialista. Cientificamente, a hipnose é um método muito interessante, mas tem as suas falhas. Não é todo mundo que pode ser hipnotizado. E o nosso genial inimigo não admite falhas. O método dele é certeiro!
— Então... — raciocinou Magrí — se o Bronca estava diferente, de olho parado, alguma coisa fizeram com ele. Se não foi hipnose, então...
— Então?
— Então vai ver deram uma droga pra ele!
— Isso mesmo, Magrí — Miguel confirmou. — Uma droga. Só o efeito de uma droga poderia explicar o comportamento do Bronca...
Chumbinho entusiasmou-se:
— É isso! Eles agarraram o Bronca e obrigaram o coitado a tomar a tal droga!
— À força? — sorriu Crânio. — Se eles pegaram o Bronca à força e aplicaram-lhe uma droga, por que não carregaram logo com ele? Por que ele ficou livre para circular por aí e ainda bater um papinho com você?
Chumbinho calou-se, e a hipótese mais terrível surgiu clara na cabeça de Miguel:
— Então o Bronca tomou a droga por sua livre vontade? Nesse caso...
— Nesse caso a droga foi oferecida a ele tranquilamente, por alguém que ele conhecia e em quem confiava — ajuntou Crânio. — E, se o Bronca estava no Elite sob o efeito da droga, o mais lógico é supor que ele tenha tomado a droga aqui dentro, não é?
— É... Parece lógico.
— Então esse tal oferecedor de drogas que ele conhecia e em quem confiava... — começou Calú.
Crânio arrematou:
— É daqui, de dentro do Elite!
— Barbaridade! E ele vai agir de novo! Duas vezes! Talvez até já esteja agindo!

5 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!