29 de janeiro de 2018

Capítulo 38

Embora Kashin fosse leal demais para forçar seu pai em público ou no privado, ele certamente não era desprovido de recursos. E quando Chaol se aproximou das portas fechadas para a reunião comercial do khagan, ele escondeu o sorriso quando descobriu Hashim, Shen e outros dois homens com quem ele treinou guardando a porta. Shen piscou para ele, sua armadura brilhando na luz baça da manhã e rapidamente bateu com sua mão artificial antes de abrir a porta.
Chaol não se atreveu a dar Shen, Hashim ou aos outros guardas um aceno de gratidão ou reconhecimento. Não enquanto conduzia a cadeira para a ensolarada sala do conselho e encontrou o khagan e três vizires vestidos de dourado em torno de uma longa mesa de madeira polida preta.
Todos o encararam em silêncio. Mas Chaol continuou aproximando-se da mesa, a cabeça erguida, o rosto preso em um sorriso agradável e submisso.
— Espero não interromper, mas há uma questão que eu gostaria de discutir.
Os lábios do khagan pressionaram em uma linha apertada. Ele usava uma túnica verde-clara e uma calça escura, com um corte que revelava o corpo do guerreiro ainda à espreita sob o exterior envelhecido.
— Eu lhe disse antes e mais uma vez, Lorde Westfall, que você deveria falar com meu Vizir Chefe — um aceno de cabeça para o homem com rosto azedo em frente a ele — se deseja marcar um encontro.
Chaol parou diante da mesa, flexionando e movendo os pés. Ele fizera todos os exercícios possíveis para as pernas esta manhã, depois do treino com os guardas do palácio, e apesar de ter recuperado o movimento até os joelhos, colocar peso sobre eles, ficar de pé...
Ele tirou o pensamento de sua mente. Estar de pé ou sentado não tinha nada a ver com isso, neste momento.
Ele ainda poderia falar com dignidade e dominar estivesse de pé ou deitado no chão. A cadeira não era uma prisão, nada que o tornasse menor.
Então Chaol inclinou a cabeça, sorrindo fracamente.
— Com todo o devido respeito, Grande Khagan, não estou aqui para conversar com o senhor.
Urus piscou, sua única demonstração de surpresa quando Chaol inclinou a cabeça para o homem com vestes azuis que Kashin descrevera.
— Estou aqui para falar com seu vizir de comércio exterior.
O vizir olhou entre seu khagan e Chaol, como se estivesse pronto para proclamar sua inocência, mesmo que interesse brilhasse em seus olhos castanhos. Mas ele não ousou falar.
Chaol segurou o olhar de khagan por longos segundos.
Ele não lembrou a si mesmo que havia interrompido um encontro privado de talvez o homem mais poderoso no mundo. Não se lembrou de que ele era um convidado em uma corte estrangeira e o destino de seus amigos e compatriotas dependiam do que ele realizasse aqui. Ele apenas olhou para o khagan, de homem para homem, guerreiro para guerreiro.
Ele já havia lutado contra um rei e vivido para contar.
O khagan finalmente moveu o queixo para um lugar vazio na mesa. Não um gesto de boas vindas, mas era melhor do que nada.
Chaol acenou com a cabeça e se aproximou, mantendo a respiração constante mesmo quando olhou para os quatro homens e disse ao vizir do comércio exterior:
— Recebi a informação de que dois grandes pedidos de lanças de fogo foram feitos pela armada do capitão Rolfe, uma antes da chegada de Aelin Galathynius em Baía da Caveira, e uma ainda maior depois.
As sobrancelhas brancas do khagan subiram. O vizir do comércio exterior remexeu-se em seu assento, mas assentiu.
— Sim — ele confirmou na língua de Chaol. — É verdade.
— Quanto, exatamente, o senhor diria que cada lança de fogo custa?
Os vizires se entreolharam, e foi outro homem, que Chaol presumiu ser o vizir de comércio interno, que falou a soma.
Chaol apenas esperou. Kashin lhe dissera o número astronômico na noite passada. E, assim como ele esperava, o khagan virou a cabeça para o vizir a esse custo.
— E quantas estão sendo enviadas para a Rolfe – e, portanto, para Terrasen? — Chaol perguntou.
Outro número. Chaol deixou o khagan fazer a matemática. Observou pelo canto do olho como as sobrancelhas do khagan subiram ainda mais.
O Vizir Chefe apoiou os antebraços sobre a mesa.
— Está tentando nos convencer das boas ou más intenções de Aelin Galathynius, lorde Westfall?
Chaol ignorou a farpa. Ele simplesmente disse ao vizir do comércio exterior:
— Eu gostaria de fazer outro pedido. Gostaria de duplicar a ordem da Rainha de Terrasen, na verdade.
Silêncio.
O vizir de comércio exterior parecia flutuar em sua cadeira.
Mas o Chefe Vizir zombou:
— Com que dinheiro?
Chaol virou um sorriso preguiçoso para o homem.
— Cheguei aqui com quatro baús de tesouro inestimável, penso que deve cobrir o custo.
Silencio absoluto mais uma vez.
Até que o khagan perguntou a seu vizir de comércio exterior:
— Cobrirá?
— O tesouro teria que ser avaliado e pesado...
— Já está sendo feito — disse Chaol, recostando-se na cadeira. — O senhor deverá ter o número esta tarde.
Outro momento de silêncio. Então o khagan murmurou em halha para o vizir de comércio exterior, que reuniu seus papéis, levantou e apressou-se para fora da sala com um olhar cauteloso para Chaol. Uma palavra do khagan para o Vizir Chefe e o vizir de comércio interno, e ambos os homens partiram também, o primeiro lançando outro olhar de fria zombaria para Chaol antes de partir.
Sozinho com o khagan, Chaol esperou em silêncio.
Urus ergueu-se de sua cadeira, indo para a parede de janelas que dava um jardim florido e sombreado.
— Suponho que se ache muito inteligente, usar isso para conseguir uma audiência comigo.
— Eu falei a verdade. — disse Chaol. — Eu queria discutir o acordo com o seu vizir de comércio exterior. Mesmo que seus exércitos não se juntem a nós, não vejo como alguém pode se opor à compra de suas armas.
— E, sem dúvida, isso foi para me fazer perceber quão lucrativa essa guerra poderia ser, se o seu lado estiver disposto a investir em nossos recursos.
Chaol permaneceu em silêncio.
O khagan virou-se da vista do jardim, a luz do sol brilhando em seu cabelo branco.
— Eu não aprecio manipulação nesta guerra, lorde Westfall.
Chaol manteve o olhar do homem, mesmo quando segurava os braços de sua cadeira.
— Você sabe mesmo o que é a guerra? — o khagan perguntou calmamente.
Chaol apertou o queixo.
— Suponho que estou prestes a descobrir.
— Não são meras batalhas, provisões e estratégias — o khagan respondeu. — A guerra é a dedicação absoluta de um exército contra seus inimigos. — Um olhar longo e pesado. — É isso que você coloca contra Morath, uma frente sólida. Sua convicção em dizimá-los até a poeira.
— Eu sei bem.
— Sabe? Entende o que Morath já está fazendo com vocês? Eles constroem, planejam e atacam, e vocês mal conseguem se manter. Vocês estão jogando pelas regras que Perrington definiu – e vão perder por causa disso.
O café da manhã virou-lhe no estômago.
— Nós ainda podemos triunfar.
O khagan balançou a cabeça mais uma vez.
— Para fazer isso, seu triunfo deve ser completo. Cada último resquício de resistência, esmagada.
Suas pernas coçaram – e ele apenas moveu os pés. De pé, ele implorava a elas. De pé.
Ele abaixou os pés, os músculos gritando em protesto.
— Que é o motivo — Chaol sibilou quando suas pernas se recusaram a obedecer — pela qual precisamos de seus exércitos para nos ajudar.
O khagan olhou para os pés de Chaol se movendo, como se pudesse ver o esforço que travava em seu corpo.
— Eu não gostei de ser abordado como um cervo na floresta. Eu lhe disse para esperar; disse para me conceder o respeito do sofrimento pela minha filha...
— E se eu lhe dissesse que sua filha poderia ter sido assassinada?
O silêncio, horrível e oco, encheu o espaço entre eles.
— E se eu lhe dissesse que os agentes de Perrington poderiam estar aqui, e talvez já estejam caçando você, manipulando-o para dentro ou para fora disso? — Chaol continuou.
O rosto de khagan apertou. Chaol preparou-se para o rugido, pois Urus talvez puxasse a adaga em sua cintura e golpeasse seu peito. Mas o khagan só disse calmamente:
— Você está dispensado.
Como se os guardas estivessem ouvindo cada palavra, as portas se abriram, um Hashim de aparência sombria vindo na direção de Chaol.
Chaol não se moveu. Passos se aproximaram por trás. Para removê-lo fisicamente.
Ele bateu os pés nos pedais de sua cadeira, empurrando e esticando, rangendo os dentes. No inferno. Eles o levariam para fora daqui; no inferno, ele os deixaria arrastá-lo para longe...
— Eu não vim salvar apenas o meu povo, mas todos os povos deste mundo — grunhiu Chaol para o khagan.
Alguém – Shen – segurou os punhos de sua cadeira e começou a puxá-lo.
Chaol se torceu, os dentes à mostra o guarda.
— Não toque nisso.
Mas Shen não soltou os puxadores, mesmo que desculpas brilhassem em seus olhos. Ele sabia – Chaol percebeu, o guarda sabia exatamente qual a sensação de ter a cadeira tocada, movida, sem ser pedido. Assim como Chaol sabia o que desafiar a ordem do khagan para escoltá-lo para fora da sala poderia significar para Shen.
Então, Chaol novamente fixou seu olhar no khagan.
— Sua cidade é a melhor que já vi, seu império, o padrão pelo qual todos os outros devem ser medidos. Quando Morath vier destruir tudo, quem se manterá com você se formos todos carniça?
Os olhos de khagan queimavam como carvões.
Shen continuou empurrando a cadeira para a porta.
Os braços de Chaol tremiam com o esforço para evitar empurrar o guarda, as pernas tremendo enquanto tentava se levantar. Chaol olhou por cima do ombro e grunhiu:
— Fiquei do lado errado da linha por muito tempo, e isso me custou tudo. Não cometa os mesmos erros que eu...
— Não presuma que pode dizer a um khagan o que ele deve fazer — disse Urus, seus olhos frios. Ele fez um movimento com o queixo para os guardas trocando o peso de pé na porta. — Acompanhem lorde Westfall de volta aos seus aposentos. Não permitam que ele entre novamente em minhas reuniões.
A ameaça estava sob as palavras calmas e frias. Urus não teve necessidade de levantar a voz, rugir para fazer sua promessa de punição clara o suficiente para os guardas.
Chaol empurrou e empurrou contra sua cadeira, seus braços se esticando enquanto lutava para se levantar, até subir levemente.
Mas então Shen atravessou o limite das portas com sua cadeira, e eles desceram pelos corredores brilhantes.
Ainda assim, seu corpo não obedeceu. Não respondeu.
As portas para a câmara do conselho do khagan fecharam com um clique suave que reverberou através de todos os ossos e músculos de Chaol, o som mais condenatório do que qualquer palavra que o khagan houvesse proferido.



Yrene deixara Chaol com seus pensamentos na noite anterior.
Deixou-os enquanto voltava para a Torre e decidia que Hasar... Oh, ela não se importava de manipular um pouco a princesa. E percebeu exatamente como faria a princesa convidá-la para aquele maldito oásis.
Mas parecia que mesmo uma manhã na área de treino com os guardas não suavizou a aresta afiada do temperamento de Chaol. Ele ainda queimava enquanto esperava na sala de estar, quando Yrene enviou Kadja outra busca tola – leite de cabra e vinagre – e finalmente preparou-se para trabalhar com ele.
O verão fervia em direção a um fim fumegante, os ventos selvagens do outono começando a chicotear nas águas turquesa da baía. Era sempre quente em Antica, mas o Mar Estreito tornava-se agitado e instável do Yulemas até o Beltane. Se um exército não saísse do continente do sul antes disso... Bem, Yrene supôs que, depois da noite anterior, ninguém navegaria de qualquer jeito.
Sentado perto do habitual sofá dourado que usavam, Chaol não a cumprimentou com mais do que um olhar superficial. De modo algum como o seu habitual sorriso de lado. E as sombras sob seus olhos... Qualquer pensamento de ir até ali para lhe contar seu plano saiu da cabeça de Yrene enquanto perguntava:
— Você passou a noite toda acordado?
— Mais ou menos isso — ele respondeu, a voz baixa.
Yrene se aproximou do sofá, mas não se sentou. Em vez disso, simplesmente o observou, cruzando os braços sobre o abdômen.
— Talvez o khagan considere. Ele está ciente do esquema de seus filhos. É inteligente demais para não ter visto Arghun e Hasar trabalharem em conjunto – por uma vez – e não suspeitar.
— E você conhece o khagan tão bem? — Uma pergunta fria e mordaz.
— Não, mas certamente vivi aqui muito mais do que você.
Seus olhos castanhos brilharam.
— Não tenho dois anos sobrando. Para jogar os jogos deles.
E ela tinha, aparentemente.
Yrene sufocou sua irritação.
— Bem, pensar nisso não adiantará nada.
Suas narinas se alargaram.
— De fato.
Ela não o via assim há semanas.
Já fazia tanto tempo? Seu aniversário seria em uma quinzena. Mais cedo do que ela tinha percebido.
Não era hora de mencionar isso, ou o plano que tinha bolado. Era irrelevante, de fato, dado tudo em torno deles. Os fardos que ele suportava. A frustração e o desespero que ela via agora pesando naqueles ombros.
— Conte-me o que aconteceu. — Algo deveria ter acontecido – algo mudou desde que se separaram na noite passada.
Um olhar cortante para ela. Ela se preparou para sua recusa quando a mandíbula dele se apertou. Mas então ele disse:
— Eu fui ver o khagan esta manhã.
— Você teve uma audiência?
— Não exatamente — seus lábios afinaram.
— O que aconteceu? — Yrene apoiou uma mão no braço do sofá.
— Ele me fez sair da sala. — Palavras frias e diretas. — Eu não pude nem tentar contornar a guarda. Fazê-lo escutar.
— Se você estivesse de pé, eles o teriam tirado da mesma forma. — Provavelmente machucando-o no processo.
Ele pareceu furioso.
— Eu não queria lutar contra eles. Eu queria implorar para ele. E não pude nem me ajoelhar para fazer isso.
Seu coração apertou enquanto ele olhava para a janela do jardim. Raiva e tristeza e medo, todos cruzando seu rosto.
— Você já fez um progresso notável.
— Eu quero poder lutar com meus homens novamente — Chaol falou em voz baixa. — Morrer ao lado deles.
As palavras eram uma lâmina gelada de medo através dela, mas Yrene disse rigidamente:
— Você pode fazer isso de cima de um cavalo.
— Eu quero fazê-lo de ombro a ombro — ele grunhiu. — Quero lutar na lama, em um campo de batalha.
— Então você veio aqui se curar só para poder morrer em outro lugar? — As palavras saíram dela.
— Sim.
Uma resposta fria e dura. Assim como o rosto.
Esta tempestade se formando nele... Ela não veria o progresso deles arruinado por causa disso.
E a guerra estava realmente atravessando a casa deles. Independentemente do que desejasse fazer consigo mesmo, ele – eles não tinham tempo. Seu povo em Charco Lavrado não tinha tempo.
Assim, Yrene se aproximou dele, segurou-o por baixo de um ombro e disse:
— Então, levante-se.



Chaol estava com um humor de merda, e sabia disso.
Quanto mais pensava nisso, mais percebia a facilidade com que o príncipe e a princesa brincaram com ele na noite passada... Não importava o movimento que Aelin fizera. Qualquer passo que ela desse, eles teriam voltariam contra ela. Contra ele. Se Aelin tivesse fingido a donzela, eles a chamariam de aliada fraca e incerta. Não havia como ganhar.
O encontro com o khagan foi uma loucura. Talvez Kashin também tivesse jogado com ele. Pois, se o khagan estava disposto a ouvi-lo antes, certamente não estava agora. E mesmo que Nesryn voltasse com o rukhin de Sartaq... sua carta do dia anterior fora cuidadosamente redigida.

Os rukhin são arqueiros hábeis. Eles também acham intrigantes minhas próprias habilidades. Eu gostaria de continuar instruindo. E aprendendo.
Eles voam livremente aqui.
Vejo você em três semanas.

Ele não sabia o que fazer com isso. A penúltima linha. Era um insulto para ele, ou uma mensagem codificada que o rukhin e Sartaq poderiam desobedecer os comandos de seu khagan se ele se recusasse a deixá-los partir? Sartaq realmente arriscaria a traição para ajudá-los? Chaol não se atreveu a deixar a mensagem sem queimar.
Voar livre. Ele nunca conheceu tal sentimento. Nunca descobriria. Essas semanas com Yrene, jantar na cidade sob as estrelas, conversar com ela sobre tudo e nada... Chegava perto, possivelmente. Mas não mudava o que aconteceria.
Não, eles ainda estavam muito sozinhos nesta guerra. E quanto mais ele demorava, com seus amigos agora combatendo, agora em movimento...
Ele ainda estava aqui. Nesta cadeira. Sem exército, sem aliados.
— Levante-se.
Ele lentamente se virou para Yrene enquanto ela repetia seu comando, uma mão agarrada firmemente sob seu ombro, com desafio ardendo.
Chaol piscou para ela.
— O quê. — Não era uma pergunta.
— Vamos. De pé. — Sua boca apertou. — Se quer tanto morrer nessa guerra, levante-se.
Ela também estava mal-humorada. Bom. Ele estava sôfrego por uma briga – as lutas com os guardas ainda insatisfatórias nesta cadeira condenada pelos deuses. Mas Yrene...
Ele não se permitira tocá-la nessas semanas. Mantivera distância, apesar dos momentos de contato involuntários, os momentos em que a cabeça dela se aproximava da dele e tudo o que ele podia fazer era assistir a sua boca.
No entanto, ele vira a tensão nela no jantar na noite passada, quando Hasar zombou do retorno de Nesryn. A decepção que ela tentou e não conseguiu manter escondida, então o alívio quando ele revelou a viagem estendida de Nesryn.
Ele era um grande bastardo. Mesmo que conseguisse convencer o khagan de salvar suas peles nessa guerra... Ele iria para lá de mãos vazias ou com um exército, mas iria embora. E apesar dos planos da Yrene de retornar ao seu continente, ele não estava certo de quando a veria de novo. Se alguma vez a veria.
Nenhum deles faria isso, de qualquer maneira.
E essa tarefa, essa única tarefa que seus amigos lhe deram, que Dorian lhe dera... Ele falhou.
Mesmo com tudo o que suportou, tudo o que aprendeu.. Não foi o suficiente.
Chaol olhou com força para as pernas.
— Como? — Eles fizeram mais progresso do que ele poderia ter sonhado, e ainda assim...
O aperto dela aumentou a ponto de doer.
— Você mesmo disse isso: você não tem dois anos. Eu reparei o suficiente para que agora você consiga ficar de pé. Então, levante-se.
Ela chegou mesmo a puxá-lo.
Ele olhou para ela sob as sobrancelhas baixas, deixando seu temperamento escorregar de sua coleira por alguns momentos.
— Solte.
— Ou o quê?
Ah, ela estava brava.
— Quem sabe o que os espiões dirão para a realeza? — Palavras frias e duras.
A boca de Yrene se apertou.
— Não tenho nada a temer de seus relatórios.
— Não? Você não pareceu se importar com os privilégios que vieram quando estalou os dedos e Kashin correu para cá. Talvez ele se canse das suas rédeas.
— Isso é bobagem e você sabe disso. — Ela puxou o braço dele. — Levante-se.
Ele não fez tal coisa.
— Então um príncipe não é bom o suficiente para você, mas o filho renegado de um lorde é?
Ele nunca expressara o pensamento. Mesmo para si mesmo.
— Só porque está irritado com o fato de Hasar e Arghun terem-no superado, que o khagan ainda não o escutou, isso não lhe dá o direito de tentar me arrastar para uma briga — seus lábios se curvaram sobre seus dentes. — Agora levante-se, já que está tão ansioso para correr para a batalha.
Ele se soltou do aperto dela.
— Você não respondeu a pergunta.
— Eu não vou responder — Yrene não agarrou seu ombro novamente, mas deslizou todo o braço sob ele e grunhiu, como se fosse levantá-lo por si mesma, quando ele devia ter quase o dobro de seu peso.
Chaol apertou os dentes, e apenas para evitar que ela se machucasse, libertou-se dela de novo e pôs os pés no chão. Apertou as mãos nos braços da cadeira e se elevou para frente tanto quanto conseguiu.
— E?
Ele podia mover os joelhos e abaixo deles, e suas coxas estiveram formigando da semana passada até agora mas ainda assim...
— E você se lembra de como ficar de pé, não?
— Por que você ficou tão aliviada quando falei que Nesryn ficaria fora mais algumas semanas? — ele atirou de volta.
Cor floresceu em sua pele com sardas, mas ela se aproximou novamente, envolvendo-o com os braços.
— Eu não queria que isso o distraísse do nosso progresso.
— Mentirosa. — O perfume dela enrolou-se ao seu redor enquanto ela puxava, a cadeira gemeu quando ele começou a empurrar os braços para baixo.
E então, Yrene parou e continuou a ofensiva, elegante como uma cobra:
— Acho que você ficou aliviado — ela disse, a respiração quente contra sua orelha. — Acho que você ficou feliz por ela ficar longe, assim pode fingir que é honrado com ela e deixar que isso seja um muro. E quando estiver aqui, comigo, não precisa vê-la assistindo, não precisa pensar sobre o que ela é para você. Com ela longe, ela é uma lembrança, um ideal distante, mas quando está aqui, e você olha para ela, o que ? O que sente?
— Eu a tive em minha cama, então acho que isso diz o suficiente sobre meus sentimentos.
Ele odiava as palavras, mesmo que o temperamento, a agudeza... também fossem um alívio.
Yrene sugou uma respiração, mas não recuou.
— Sim, você a teve na sua cama, mas acho que ela era provavelmente uma distração, e ficou cansada disso. Talvez tenha ficado cansada de ser um prêmio de consolação.
Seus braços se esforçaram, a cadeira balançou quando ele empurrou e empurrou para cima, só assim poderia ficar parado por tempo suficiente para ver o rosto dela.
— Você não sabe do que está falando.
Ela não mencionara Aelin, não perguntou depois do jantar da noite passada. Até...
— Ela escolheu Dorian, então? A rainha. Fico surpresa de que ela tivesse estômago para qualquer um dos dois, dada a sua história. O que o seu reino fez com o dela.
Um rugido encheu seus ouvidos quando ele começou mover o peso para seus pés, desejando que sua espinha o suportasse enquanto ele cuspia para ela:
— Você não pareceu se importar nem um pouco, naquela noite da festa. Estava praticamente implorando para mim.
Ele não sabia o que diabos estava saindo de sua boca.
Suas unhas cravaram nas costas dele.
— Você ficaria surpreso com as coisas que o opiáceo o faz considerar. Com quem você se encontra disposto a se envolver.
— Certo. Um filho de Adarlan. Um quebrador de juramentos, um traidor. Isso é o que eu sou, não é?
— Eu não saberia, você raramente faz uma tentativa de falar sobre isso.
— E você é tão boa nisso, suponho?
— Isto é sobre você, não sobre mim.
— No entanto, você foi designada para mim porque sua Alta Curandeira viu de outra forma. Viu que não importa o quanto suba naquela torre, ainda é aquela garota de Charco Lavrado. — Uma risada saiu dele, fria e amarga. — Conheci outra mulher que perdeu tanto quanto você. E sabe o que ela fez com isso? Com a perda? — Ele mal conseguiu impedir que as palavras se derramassem, mal podia pensar sobre o rugido em sua cabeça. — Ela caçou as pessoas responsáveis e as massacrou. O que diabos você se incomodou em fazer estes anos?
Chaol sentiu que as palavras atingiam seu alvo.
Sentiu a quietude estremecendo pelo corpo dela.
Na mesma hora que ele avançou – na mesma hora que seu peso se ajustou e os joelhos inclinaram, ele se encontrou de pé.
Muito longe. Ele tinha ido longe demais. Nunca pensou essas coisas.
Não sobre Yrene.
O peito ergueu-se com uma respiração que roçou nele, e ela piscou para ele, fechando a boca.
E com o movimento, ele conseguiu ver uma parede subindo. Selando.
Nunca. Ela nunca o perdoaria, sorriria para ele, pelo o que havia dito.
Nunca perdoaria. De pé ou não.
— Yrene — ele disse, mas ela tirou os braços que o envolviam e recuou um passo, balançando a cabeça. Deixando-o de pé – sozinho. Sozinho e exposto quando ela recuou outro passo e a luz do sol atingiu a água começando a se juntar em seus olhos.
Isso rasgou o seu peito.
Chaol colocou uma mão sobre ele, como se pudesse sentir a espiral lá dentro, mesmo enquanto suas pernas tremiam debaixo dele.
— Eu não sou ninguém para mencionar essas coisas. Não sou nada, e era sobre mim que...
— Talvez eu não tenha lutado contra reis e estilhaçado castelos — ela falou friamente, a voz tremendo de raiva quando continuou sua réplica — mas eu sou a herdeira aparente da Alta Curandeira por meu próprio trabalho, sofrimento e sacrifício. E você está de pé agora por causa disso. Pessoas estão vivas por causa disso. Então posso não ser uma guerreira balançando uma espada, posso não ser digna de suas histórias gloriosas, mas pelo menos eu salvo vidas – não acabo com elas.
— Eu sei — ele falou, lutando contra o impulso de segurar os braços da cadeira, agora parecendo tão abaixo dele que seu equilíbrio vacilou. — Yrene, eu sei.
Longe demais. Ele tinha ido longe demais, e nunca se odiara mais por querer escolher uma briga e ser tão idiota, pelos deuses, quando na verdade estava falando sobre si mesmo...
Yrene recuou outro passo.
— Por favor — disse ele.
Mas ela estava indo para a porta. E se ela saísse...
Ele havia deixado todos irem embora. Também caminhara para longe de si mesmo, mas com Aelin, com Dorian, com Nesryn, ele os deixara ir, e não os seguiu.
Mas aquela mulher recuando para a porta, tentando evitar que as lágrimas caíssem – lágrimas da dor que ele causara, lágrimas da raiva que ele merecia...
Ela alcançou a porta. Procurava cegamente a maçaneta.
E se ela partisse, se ele a deixasse sair...
Yrene empurrou a maçaneta para baixo.
E Chaol deu um passo em direção a ela.

3 comentários:

  1. Pô Chaol quando é que você vai aprender? Bom pelo menos agora ele tá andando. Só pra te lembrar se você está onde está hoje é graças a rainha assassina

    ResponderExcluir
  2. Foi essas idiotices dele que fizeram a gente tomar ranço.
    Vê se aprende Chao, ainda dá tempo de uma redenção.

    ResponderExcluir
  3. "— Conheci outra mulher que perdeu tanto quanto você. E sabe o que ela fez com isso? Com a perda? — Ele mal conseguiu impedir que as palavras se derramassem, mal podia pensar sobre o rugido em sua cabeça. — Ela caçou as pessoas responsáveis e as massacrou. O que diabos você se incomodou em fazer estes anos?"

    Cara isso doeu até em mim, pensei que quando ele finalmente voltasse a andar eu ficaria emocionada, mas estou com lágrimas nos olhos só de raiva. Que merda hein Chaol, pelo menos a Yrene não escutou calada, mesmo que esteja doendo nela
    "— mas eu sou a herdeira aparente da Alta Curandeira por meu próprio trabalho, sofrimento e sacrifício. E você está de pé agora por causa disso. Pessoas estão vivas por causa disso. Então posso não ser uma guerreira balançando uma espada, posso não ser digna de suas histórias gloriosas, mas pelo menos eu salvo vidas – não acabo com elas."
    Só li verdades.

    ResponderExcluir

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!