29 de janeiro de 2018

Capítulo 37

Nesryn estava ficando sem tempo.
Falkan precisou de dez dias para se recuperar, o que deixou ela e Sartaq com pouco tempo para visitar as outras ruínas das torres de vigia ao sul. Ela tentou convencer o príncipe a ir sem o metamorfo, mas ele se recusou. Mesmo com Borte agora com a intenção de se juntar a eles, ele não arriscaria.
Mas Sartaq encontrou outras maneiras de preencher seu tempo. Ele levou Nesryn para outros abrigos para o norte e o oeste, onde se encontraram com os líderes – as mães postiças e os capitães, que podiam ser do sexo masculino ou feminino, que lideravam suas forças.
Alguns eram acolhedores, saudando Sartaq com festas e animação que duravam toda a noite. Alguns, como o Berlad, eram distantes, suas mães postiças e outros líderes diferentes não os convidando para ficar por mais tempo do que o necessário. Certamente traziam jarras do leite de cabra fermentado que bebiam – e era forte o suficiente para colocar pelo no peito, rosto e dentes de Nesryn. Ela quase sufocou na primeira vez que tentou, ganhando aplausos e batidinhas nas costas e um brinde em sua honra.
Era a recepção calorosa que ainda a surpreendia. Os sorrisos dos rukhin que pediam, alguns timidamente, outros corajosamente, para mostras de sua habilidade com arco e flecha. Mas, apesar de tudo, ela mostrava, assim como também aprendia.
Foi subindo com Sartaq através das passagens através da montanha, o príncipe marcando alvos e Nesryn os acertando, aprendendo a disparar através vento, como o vento.
Ele até mesmo a deixou montar Kadara sozinha – apenas uma vez, e o suficiente para ela voltar a se perguntar como eles permitiam que crianças de quatro anos fizesse isso, mas... ela nunca se sentiu tão livre.
Tão aliviada e desenfreada e ainda centrada em si mesma.
Então eles foram, de clã em clã, lar em lar. Sartaq verificando os montadores e seus treinamentos, parando para visitar novos bebês e idosos doentes. Nesryn permaneceu na sua sombra – ou tentou.
Sempre que se demoravam um pouco, Sartaq a empurrava para frente. Sempre que havia uma tarefa a ser feita com os outros, ele lhe pedia para fazê-la. Lavar a louça após uma refeição, recolher as flechas depois da prática de tiro, limpar os excrementos de ruk dos salões e dos ninhos.
Na última tarefa, pelo menos, o príncipe se juntou a ela. Sem importar sua posição, seu status como capitão, ele fez todas as tarefas sem nenhuma queixa. Ninguém estava acima do trabalho, ele disse a ela quando perguntou uma noite.
E estivesse ela raspando crostas de fezes do chão ou ensinando jovens guerreiros como segurar um arco, uma inquietação se instalou nela.
Ela não conseguia mais enxergar em sua cabeça – os encontros silenciosos no palácio em Forte da Fenda, onde ela dera suas ordens solenemente aos guardas e depois dividiram seus caminhos entre os elegantes pisos de mármores. Não conseguia se lembrar do quartel da cidade, onde ela ficava alocada nos fundos de um quarto apertado, recebia suas ordens e depois ficava de pé numa esquina por horas, observando as pessoas comprarem, comerem, conversarem e caminharem.
Outra vida, outro mundo.
Aqui nas montanhas profundas, respirando o ar puro, sentada ao redor da fogueira para ouvir Houlun narrar histórias de rukhin e dos senhores dos cavalos, histórias do primeiro khagan e de sua amada esposa, cujo nome de Borte homenageava... Ela não conseguia se lembrar de sua vida anterior.
E não queria voltar para ela.
Foi numa dessas fogueiras, Nesryn fazendo a trança apertada que Borte lhe ensinara, que ela surpreendeu até a si mesma.
Houlun se instalara no banco, uma pedra de amolar na mão uma adaga na outra, preparando-se para trabalhar enquanto conversava com o pequeno grupo – Sartaq, Borte, Falkan – de rosto cinza e mancando –, e outros seis que Nesryn descobrira serem primos de Borte. A mãe de coração examinava os rostos, que cintilava em dourado com a chama e perguntou:
— E quanto a uma história de Adarlan?
Todos os olhos se voltaram para Nesryn e Falkan.
O metamorfo estremeceu.
— Temo que as minhas sejam bastante enfadonhas — ele considerou. — Tive uma visitante interessante no Deserto Vermelho uma vez, mas... — Ele gesticulou o máximo que pôde para Nesryn. — Eu gostaria de ouvir uma de suas histórias primeiro, capitã.
Nesryn tentou não se mexer sob o peso de tantos olhares.
— As histórias com as quais cresci — ela admitiu — eram principalmente de vocês, dessas terras.
Sorrisos amplos. Sartaq apenas piscou. Nesryn abaixou a cabeça, o rosto aquecendo.
— Conte uma história dos feéricos, se você souber — sugeriu Borte. — Do príncipe feérico que você conheceu.
Nesryn balançou a cabeça.
— Eu não tenho nenhuma dessas – e não o conheço tão bem. — Enquanto Borte franzia a testa, Nesryn acrescentou: — Mas eu posso cantar para vocês.
Silêncio.
Houlun passou a pedra de amolar pela adaga.
— Uma canção seria apreciada. — Uma carranca para Borte e Sartaq. — Meus filhos não poderiam sustentar uma melodia nem que fosse para salvar suas vidas.
Borte revirou os olhos para a avó, mas Sartaq inclinou a cabeça em desculpas, um sorriso torto agora em sua boca.
Nesryn sorriu, mesmo enquanto seu coração batia em sua oferta ousada. Ela nunca se apresentara para ninguém, mas isso... Não era uma apresentação, era compartilhar uma cultura. Ela ouviu o vento sussurrando do lado de fora da boca da caverna por um longo momento, os outros ficando em silêncio.
— Esta é uma música de Adarlan — disse ela finalmente. — Do sopé ao norte de Forte da Fenda, onde minha mãe nasceu. — Uma dor velha e familiar encheu seu âmago. — Ela costumava cantá-la para mim... antes de morrer.
Um brilho de simpatia no olhar de aço de Houlun. Mas Nesryn olhou para Borte enquanto falava, encontrando o rosto de jovem incomumente suave – olhando para Nesryn como se não a tivesse visto antes. Nesryn deu-lhe um pequeno aceno sutil. É um peso que ambas carregamos.
Borte ofereceu um sorriso pequeno e silencioso em troca.
Nesryn ouviu o vento novamente. Deixou-se voltar ao seu lindo quarto de criança em Forte da Fenda, até mesmo sentiu as mãos de seda de sua mãe acariciando seu rosto, seus cabelos. Ela fora mais apegada com o pai, pedia histórias de sua pátria distante, dos ruks e dos senhores dos cavalos, raramente havia pedido sobre a própria Adarlan, apesar de ser filha de ambas as terras.
E essa música de sua mãe... Uma das poucas histórias que teve, na forma que mais amava. Da pátria em dias melhores. E ela queria compartilhar com eles – esse vislumbre do que sua terra poderia se tornar novamente.
Nesryn limpou a garganta. Respirou fundo.
Então abriu a boca e cantou.
O crepitar da fogueira como seu único tambor, a voz de Nesryn encheu o Salão-Montanha de Altun, ressoou através dos pilares antigos, saltando pela rocha esculpida.
Ela tinha a sensação de que Sartaq estava muito quieto, tinha a sensação de que não havia nada duro ou risonho em seu rosto.
Mas ela se concentrou na música, nas palavras antigas, na história de invernos distantes e gotas de sangue na neve; na história de mães e filhas, como amaram, lutaram e cuidaram umas das outras.
Sua voz subiu e desceu, corajosa e graciosa como um ruk, e Nesryn poderia ter jurado que mesmo os ventos pararam para ouvi-la.
E quando terminou, uma nota dourada e alta do sol da primavera que atravessava terras frias, quando o silêncio e o fogo crepitante encheu o mundo mais uma vez...
Borte estava chorando. Lágrimas silenciosas caindo pelo rosto bonito. A mão de Houlun estava bem embrulhada em torno da mão da neta, a pedra de amolar deixada de lado. Uma ferida ainda cicatrizando – para ambas.
E, talvez, para Sartaq também – havia dor em seu rosto. Pesar e admiração, e talvez algo infinitamente mais terno quando ele comentou:
— Outra história para espalhar sobre a Flecha de Neith.
Ela abaixou a cabeça novamente, aceitando o louvor dos outros com um sorriso. Falkan bateu palmas do jeito que podia e pediu outra música.
Nesryn, para sua surpresa, cantou outra. Uma música alegre e brilhante da montanha que seu pai lhe ensinara, de córregos em meio a campos de flores silvestres.
Mas, mesmo enquanto a noite passava, enquanto Nesryn cantava naquele belo salão-montanha, ela sentiu o olhar de Sartaq.
Diferente de qualquer outro que tivesse lhe lançado antes. E, embora dissesse a si mesma que não deveria, Nesryn não desviou o olhar.



Alguns dias depois, quando Falkan finalmente se curou, eles ousaram aventurar-se para as outras três torres de vigia que Houlun descobrira.
Eles não encontraram nada nas duas primeiras, ambas distantes o suficiente uma da outra para exigirem viagens separadas. Houlun os proibiu de acampar na selva – então em vez de arriscar sua ira, eles retornaram todas as noites, ficando alguns dias para permitir que Kadara e Arcas, a doce ruk de Borte, descansassem depois de tanto esforço.
Sartaq ficou apenas uma fração mais caloroso com o metamorfo. Ele vigiava Falkan com tanta atenção quanto Kadara, mas pelo menos tentava conversar de vez em quando.
Borte, por outro lado, bombardeava Falkan com um fluxo interminável de perguntas enquanto faziam buscas através de ruínas que eram pouco mais do que escombros.
Como é ser um pato, remando abaixo d’água, mas deslizando tão suavemente sobre a superfície?
Quando você come como um animal, a carne cai bem no estômago humano?
Você tem que esperar entre comer como um animal e voltar a ser humano por causa disso?
Você defeca como um animal?
A última ganhou uma risada afiada de Sartaq, pelo menos. Mesmo que Falkan estivesse vermelho e evitasse responder a pergunta.
Mas depois de visitar duas torres de vigia, eles não encontraram nada sobre por que elas foram construídas e com quem esses guardiões há muito tempo haviam lutado – ou como os derrotaram.
E com uma torre faltando... Nesryn fizera uma conta dos dias e percebeu que as três semanas que prometera a Chaol tinham acabado.
Sartaq sabia disso também. A procurara quando ela estava em um dos ninhos de ruk, admirando os pássaros descansando, ou se preparando ou andando por ali. Ela frequentemente ia até ali durante as tardes mais silenciosas, apenas para observar os pássaros: sua inteligência de olhos afiados, seus laços amorosos.
Ela estava encostada na parede ao lado da porta quando ele emergiu. Por vários minutos, eles ficaram observando um casal aconchegando-se antes de um deles pular para a borda da boca da enorme caverna e descer no vazio abaixo.
— Aquele ali — disse o príncipe finalmente, apontando para um ruk avermelhado sentado ao lado oposto da parede. Ela já o tinha visto muitas vezes – principalmente observando que ele estava sozinho, nunca visitado por um cavaleiro, ao contrário de alguns outros. — Seu cavaleiro morreu alguns meses atrás. Apertou o peito durante uma refeição e morreu. O cavaleiro era velho, mas o ruk... — Sartaq sorriu tristemente para o pássaro. — Ele é jovem – ainda não tem nem quatro anos.
— O que acontece com aqueles cujos cavaleiros morrem?
— Nós lhes oferecemos liberdade. Alguns voam para as selvas. Alguns permanecem. — Sartaq cruzou os braços. — Ele permaneceu.
— Algum deles ganha um novo cavaleiro?
— Alguns sim. Se o aceitarem. É escolha do ruk.
Nesryn ouviu o convite em sua voz. Leu-o nos olhos do príncipe.
Sua garganta tremeu.
— Nossas três semanas acabaram.
— De fato.
Ela encarou o príncipe de frente, inclinando a cabeça para ver seu rosto.
— Precisamos de mais tempo.
— Então, o que você disse?
Uma pergunta simples.
Mas ela levara horas para descobrir o que escrever em sua carta a Chaol, então a entregara ao mensageiro mais rápido de Sartaq.
— Pedi mais três semanas.
Ele inclinou a cabeça, observando-a com aquela intensidade implacável.
— Um grande negócio pode acontecer em três semanas.
Nesryn se forçou a manter os ombros esticados, o queixo erguido.
— Mesmo assim, no fim desse período, deverei retornar a Antica.
Sartaq assentiu, embora algo como desapontamento tenha brilhado em seus olhos.
— Então suponho que o ruk no abrigo terá que esperar por outro cavaleiro.
Isso acontecera um dia atrás. A conversa que a tornou incapaz de olhar na direção do príncipe por muito tempo.
E durante as horas de voo esta manhã, ela lançou um olhar ou dois para onde Kadara voava, Sartaq e Falkan em suas costas.
Agora Kadara se virava de lado, espiando as ruínas da torre muito abaixo, localizada em uma planície rara em meio às colinas e os picos das Montanhas Tavan. No final do verão, estava cheia de gramas cor de esmeralda e córregos em tons de safira – a ruína pouco mais que um monte de pedras.
Borte dirigiu Arcas com um assobio através dos dentes e um puxão nas rédeas, a ruk virando para a esquerda antes de nivelar. Ela era uma montadora experiente, mais ousada do que Sartaq, principalmente graças ao tamanho e à agilidade de sua ruk menor. Ela ganhara os últimos três campeonatos anuais de corrida entre todos os clãs – competições de agilidade, velocidade e pensamento rápido.
— Você escolheu Arcas — Nesryn perguntou por cima do vento — ou ela te escolheu?
Borte se inclinou para a frente para dar um tapinha no pescoço da ruk.
— Foi mútuo. Eu vi essa cabeça penugenta sair do ninho, e foi isso. Todos me disseram para escolher uma maior; minha própria mãe me repreendeu. — Um sorriso triste nisso. — Mas eu sabia que Arcas era minha. Eu a vi, e soube.
Nesryn ficou em silêncio enquanto desciam para a linda planície e para a ruína, a luz do sol dançando nas asas de Kadara.
— Você deveria levar aquele ruk no abrigo para um voo algum dia — disse Borte, deixando Arcas descer para um pouso suave. — Testá-lo.
— Eu vou embora em breve. Não seria justo para nenhum de nós.
— Eu sei. Mas talvez você devesse, de qualquer maneira.



Borte gostava de encontrar as armadilhas escondidas deixadas pelos feéricos.
O que era bom para Nesryn, já que a garota era muito melhor em percebê-las.
Esta torre, para desapontamento de Borte, sofreu um colapso em algum momento, bloqueando o nível mais baixo. E acima deles, apenas uma câmara aberta para o céu permanecia.
Era onde Falkan entrava.
À medida que a forma do metamorfo se borrava e encolhia, Sartaq não se preocupou em ocultar seu estremecimento. E estremeceu mais uma vez quando o bloco de pedra caído onde Falkan estivera sentado revelava agora um milípede. Que prontamente se levantou e acenou para eles com as inúmeras patinhas.
Nesryn se encolheu de aversão, enquanto Borte riu e acenou.
Falkan se virou, deslizando entre as pedras caídas para descobrir o que poderia permanecer lá embaixo.
— Não sei por que isso te incomoda tanto — disse Borte a Sartaq, estalando a língua. — Eu acho encantador.
— Não é o que ele é — admitiu Sartaq, observando a pilha de rocha pelo retorno do milípede. — É a ideia do osso derretendo, carne fluindo como água... — Ele estremeceu e se virou para Nesryn. — Sua amiga, a metamorfa. Isso nunca a incomodou?
— Não — Nesryn respondeu com leveza. — Eu nunca a tinha visto mudar até aquele dia que seus agentes reportaram.
— O Tiro Impossível — murmurou Sartaq. — Então, de fato, foi um metamorfo que você salvou.
Nesryn assentiu.
— O nome dela é Lysandra.
Borte cutucou Sartaq com um cotovelo.
— Você não gostaria de ir para o norte, irmão? Conhecer todas essas pessoas de que Nesryn fala? Metamorfos, rainhas que respiram fogo e príncipes feéricos...
— Estou começando a pensar que sua obsessão por qualquer coisa relacionada aos feéricos pode ser insalubre — Sartaq resmungou.
— Eu só peguei um punhal ou dois — insistiu Borte.
— Você carregou tantos de volta da última torre de vigia que a pobre Arcas mal conseguiu sair do chão.
— É o meu tino para os negócios — Borte bufou. — Sempre que nossa gente sai do próprio buraco e lembra podemos ter negócios lucrativos.
— Não é de se admirar que tenha tanto em comum com Falkan — disse Nesryn, ganhando uma cotovelada nas costelas de Borte. Nesryn se afastou, rindo.
Borte colocou as mãos nos quadris
— Pois saibam vocês dois que...
As palavras foram cortadas por um grito.
Não de Falkan vindo de baixo.
Mas de fora. De Kadara.
Nesryn tinha uma flecha pronta e apontada antes de correrem para o campo.
Somente para encontrá-lo cheio de ruks. E cavaleiros de rosto sombrio.
Sartaq suspirou, os ombros caíram. Mas Borte passou por eles, praguejando sujo enquanto mantinha sua espada desembainhada – de fato, uma lâmina forjada pelos Asterion do arsenal da última torre de vigia.
Um jovem da idade de Nesryn desmontou do ruk, o pássaro tão marrom escuro que era quase preto, e agora ia na direção deles, um sorriso no rosto bonito. Foi para ele que Borte seguiu tempestuosamente, praticamente pisoteando a grama alta.
A unidade de rukhin assistia, imperiosa e fria. Nenhum curvou-se para Sartaq.
— O que diabos está fazendo aqui? — exigiu Borte, uma mão no quadril quando parou uma saudável distância do jovem.
Ele usava couros como os dela, mas as cores da faixa em volta do braço... o Berlad. O abrigo menos acolhedor que ela visitara, e um dos mais poderosos. Seus cavaleiros eram meticulosamente treinados, suas cavernas impecavelmente limpas.
O jovem ignorou Borte e disse para Sartaq:
— Nós avistamos seus ruks enquanto voávamos lá em cima. Você está longe, capitão.
Questões cuidadosas.
— Vá embora, Yeran — Borte sibilou. — Ninguém o convidou para cá.
Yeran ergueu uma sobrancelha franca.
— Ainda rosnando, pelo o que vejo.
Borte cuspiu aos seus pés. Os outros cavaleiros ficaram tensos, mas ela os encarou.
Todos baixaram os olhos.
Atrás deles, som de pedra triturando, e os olhos de Yeran se alargaram, os joelhos flexionando como se ele estivesse prestes a pular para frente de Borte – para atirá-la para trás dele quando Falkan emergiu das ruínas.
Em forma de lobo.
Mas Borte saiu do alcance de Yeran e declarou docemente:
— Meu novo animal de estimação.
Yeran observou entre garota e lobo enquanto Falkan sentava ao lado de Nesryn. Ela não pôde resistir a coçar suas orelhas felpudas.
Para seu crédito, o metamorfo deixou, até virando a cabeça sob a palma da mão dela.
— Estranha companhia que você mantém esses dias, capitão — Yeran conseguiu dizer a Sartaq.
Borte estalou os dedos no rosto dele.
— Você não pode falar comigo?
Yeran deu-lhe um sorriso preguiçoso.
— Finalmente tem algo que valha a pena ouvir?
Borte se irritou. Mas Sartaq, sorrindo levemente, foi para o lado de sua irmã de coração.
— Temos assuntos nestas partes e paramos para nos refrescar. O que o trouxe até o sul?
Yeran envolveu uma mão ao redor do punho de uma longa adaga ao seu lado.
— Três filhotes desapareceram. Nós pensamos em rastreá-los, mas não encontramos nada.
O estômago de Nesryn apertou, imaginando aquelas aranhas atravessando os abrigos, passando por entre os ruks e seguindo para os ovos tão ferozmente guardados. Pensando nas famílias humanas que dormiam tão perto.
— Quando eles foram levados? — O rosto de Sartaq era duro como pedra.
— Duas noites atrás — Yeran esfregou o queixo. — Nós suspeitamos de caçadores furtivos, mas não havia cheiro humano, sem trilhas ou acampamento.
Olhe para cima. O aviso sangrento na torre de tigia de Eidolon reverberou em sua mente.
E na de Sartaq, se o aperto de sua mandíbula era de qualquer indicação.
— Volte para casa, capitão — disse Sartaq a Yeran, apontando para o muro das montanhas além, a rocha cinzenta tão desnuda em comparação com a vida que cantarolava em torno deles. Sempre – os Montes Dagul sempre pareciam assisti-los. Esperando. — Não acampe mais longe do que aqui.
Cautela inundou os olhos castanhos de Yeran enquanto olhava entre Borte e Sartaq, depois para Nesryn e Falkan.
— As kharankui.
Os cavaleiros se agitaram. Mesmo os ruks mexeram suas asas ao nome, como se também o conhecesse.
— Você ouviu meu irmão — Borte declarou, alto para todos ouvirem. — Volte para o seu abrigo.
Yeran fez-lhe uma reverência zombeteira.
— Volte para o seu também, e voltarei para o meu, Borte.
Ela exibiu os dentes para ele.
Mas Yeran montou o ruk com uma graça fácil e poderosa, os outros se afastando no mesmo instante a um movimento de seu queixo. Ele esperou até que todos subissem aos céus antes de dizer a Sartaq:
— Se as kharankui começaram a se mexer, precisamos reunir uma tropa para fazê-las recuar. Antes que seja tarde demais.
Um vento balançou a trança de Sartaq, soprando-a em direção àquelas montanhas. Nesryn desejou poder ver seu rosto, ver como estaria à menção de tropas.
— Será tratado — respondeu Sartaq. — Esteja em guarda. Mantenha as crianças e os filhotes por perto.
Yeran assentiu gravemente, um soldado recebendo a ordem de um comandante – um capitão sendo ordenado por um príncipe. Então ele olhou para Borte.
Ela lhe deu um gesto vulgar.
Yeran apenas piscou para ela antes de assobiar para sua ruk e atirar-se nos céus, deixando um vento poderoso para trás, as tranças de Borte balançando.
Borte observou Yeran até que ele estava voando em direção à massa dos outros, depois cuspiu no chão onde o seu ruk tinha parado.
— Bastardo — ela sibilou, e girou, pisando forte e indo até Nesryn e Falkan.
O metamorfo mudou, oscilando enquanto retornava à sua forma humana.
— Nada lá embaixo valha a pena ver — ele anunciou enquanto Sartaq vinha para onde eles tinham se reunido.
Nesryn franziu o cenho para os Montes.
— Acho que é hora de criar uma estratégia diferente, de qualquer maneira.
Sartaq seguiu seu olhar, aproximando-se o suficiente ao lado dela de modo que o calor de seu corpo ondulou para o dela.
Juntos, eles olharam para a parede das montanhas. O que esperava além.
— Esse jovem capitão, Yeran — Falkan falou com cuidado para Borte. — Você parece conhecê-lo bem.
Borte franziu o cenho.
— Ele é meu noivo.

26 comentários:

  1. "Ele é meu noivo." Hahahahahahaha. Não aguentei.

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  2. Mas q coisa, td mundo ja viu e falou com a Aelin mas n sabe quem ela é de vdd, e ta me dando nos nervos n sabe como ela esta depois de td aquilo em Imperio de Tempestades

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    1. kkkkkkkkkkk
      PQP! Eu to lendo esse livro aqui com uma raiva enquanto to LOUCA querendo saber o que rolou depois daquele final horrendo de Império de Tempestades!! Ahhhhhhh!

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  3. kkkkkkkkkkkkkk
    "Ele é meu noivo." Quanta simpatia um pelo outro kkkkk

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  4. Tive uma visitante interessante no Deserto Vermelho uma vez, mas... — Ele gesticulou o máximo que pôde para Nesryn. — Eu gostaria de ouvir uma de suas histórias primeiro, capitã.
    FODASSE CONTA AGORA!

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    1. Eu fiquei tipo: aaaaaaaa pq que ele não contou??!!!

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  5. Como é ser um pato, remando abaixo d’água, mas deslizando tão suavemente sobre a superfície?
    Quando você come como um animal, a carne cai bem no estômago humano?
    Você tem que esperar entre comer como um animal e voltar a ser humano por causa disso?
    Você defeca como um animal?
    - eu na vida
    e nós já tivemos uma demonstração da segunda pergunta com Lorcan e Lyssandra, não é mesmo

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  6. Mas eu sabia que Arcas era minha. Eu a vi, e soube.
    flashback dejavu de Manon e Abraxos

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  7. — Ele é meu noivo.
    relação mais amorosa que já vi
    como gostaria de ser filha deles
    (ironia tá)

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  8. Todos me disseram para escolher uma maior; minha própria mãe me repreendeu. — Um sorriso triste nisso. — Mas eu sabia que Arcas era minha. Eu a vi, e soube.
    Só eu lembrei da Manon e do abraxos

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  9. Achei a Borte parecida com a Aelin

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  10. Adorei a Borte. E se tá assim quando noivos, imagina depois de casar! Kkkkkkkkk

    Flavia

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  11. KKKKKKKKKKKKKKKKK meu Deus tô morrendo de rir com essa !ele é meu noivo"

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  12. Gente, eu sempre tive uma pergunta q sei q nao tem nada a ver com o livro nem o momento mas vou fazer assim mesmo kkkkkkk


    Suponhamos q Lyssandra esteja na forma de um leopardo fantasma, ai ela encontra outro leopardo fantasma do sexo oposto (no caso um macho), Se ela fizer sexo com ele ainda na forma de leopardo ai engravidar (do leopardo fantasma macho) e então voltar pra forma humana, quando ela for dar a luz, nascerá filhotes leopardo fantasma, humanos ou híbridos?


    Nao tenho certeza se entenderam mas espero q sim kkkkkkkk
    E me digam q nao sou a única louca q ja pensou nisso por favor kkkkkkkk

    *Me perdoem se sem querer eu fizer o mesmo comentario duas vezes*

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    1. Não, eu nunca pensei nisso kkkkk
      Acho que nasceria um leopardo-fantasma - isso se nascesse né, provavelmente nem vingaria.

      E seu comentário não foi duas vezes, foi cinco! Kkkk

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    2. kkkkkkkkkkkkkkk
      MORTA!!
      Mas esse é um ponto interessante a se pensar.

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    3. Não ia haver uma fecundação bem sucedida. Quando ela voltasse a forma humana, todo o sistema reprodutor dela mudaria. Com isso, acredito que seja impossível.

      -Victoria Vidal

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    4. Acho q seria impossível ela ter esse tipo de relação e se tivesse não vingaria..agora se ela tiver um filho com o aedion por exemplo pode ser q seja metamorfo

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  13. " ele é meu noivo" q?!?! Por essa eu não esperava kkkkkkkkk

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  14. Odio e amor sempre juntos.kkkk. Porque o metamorfo nao contou sobre a Cel. Que droga. Achei a Borte mais parecida com a Manon.

    E tambem estava as lagrimas com a musica da arqueira. Fiquei pensando no feerico ajoelhado na areia sem saber o que estaria acontecendo com Aelin.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!