29 de janeiro de 2018

Capítulo 36

A atrofia nas pernas... estava se revertendo.
Três semanas depois, Yrene se maravilhava com isso. Eles recuperaram o movimento abaixo do joelho, mas não da parte superior. Chaol podia dobrar as pernas agora, mas não podia mover as coxas. Não conseguia se erguer sobre eles.
Mas os exercícios de manhã com os guardas, as tardes passadas a curar, emaranhadas na escuridão e memória e dor...
Aquilo era músculo envolvendo suas pernas. Preenchendo aqueles ombros já largos e impressionantes. Graças ao treinamento sob o sol da manhã, seu bronzeado se aprofundara em um rico marrom, a cor caindo bem em seus braços ondulados com músculos.
Eles trabalhavam todos os dias com um ritmo fácil, estabelecendo uma rotina que se tornou parte de Yrene, como lavar o rosto, fazer a limpeza dos dentes e ansiar por um copo de kahve ao acordar.
Ele se juntou a ela novamente nas aulas de defesa, as acólitas mais jovens ainda desesperadamente risonhas ao redor dele, mas pelo menos nunca chegaram atrasadas desde que ele começara a vir. Ele ensinou à própria Yrene manobras contra atacantes maiores. E enquanto muitas vezes sorriam no pátio da Torre, ele e Yrene ficavam sérios quando treinavam aqueles métodos, como se pensassem que ela realmente precisaria deles um dia.
Mas não havia nenhum sussurro de quem a tivesse atacado – nenhuma confirmação de que era realmente um dos valgs. Uma pequena misericórdia, pensou Yrene.
Ainda assim ela prestou atenção em suas aulas e, ainda assim, Chaol a treinou cuidadosamente.
Os príncipes tinham chegado, ido embora e chegado novamente, e ela não viu mais Kashin além do jantar onde o procurou para agradecer-lhe por sua ajuda e generosidade na noite do ataque. Ele havia respondido que era desnecessário, e ela de qualquer forma tocara seu ombro em agradecimento antes de ele levá-la ao assento em segurança do lado de Chaol.
A causa de Chaol, em separado com o khagan... Chaol e Yrene não arriscaram falar sobre a guerra – a necessidade de exércitos. E o Oásis Aksara e seu conhecimento que poderia muito bem estar escondido além das palmeiras, sobre porque esse lugar tinha tais informações sobre os valg...
Nenhum dos dois encontrara uma maneira de manipular Hasar para levá-los lá sem levantar suas suspeitas. Sem arriscar que a princesa se tornasse consciente dos pergaminhos que Yrene e Chaol haviam escondido em seu quarto.
Mas Yrene sabia que o tempo o pressionava. Via como seus olhos às vezes se afastavam, como se estivessem olhando para uma terra distante. Lembrando dos amigos que lutavam lá. Do seu povo. Ele sempre se se esforçava mais depois disso – e cada centímetro de movimento ganhado em suas pernas era tanto devido a si mesmo quanto à magia dela.
Yrene também se esforçava. Se perguntava se as batalhas começaram; se ela conseguiria encontrar tempo para ajudar. Imaginava o que poderia restar para ela voltar.
A escuridão que eles encontravam quando o curava, o demônio que morava dentro do homem que destruíra tanto do mundo... Trabalharam também contra isso. Ela não foi arrastada para suas memórias como antes, não foi forçada a testemunhar os horrores de Morath ou suportar as atenções daquilo que estava nele, mas sua magia ainda empurrava contra a ferida, pulando como mil pontos de luz branca, comendo e engolindo e arranhando aquilo.
Ele suportava a dor, atravessando o que a escuridão lhe mostrava. Nunca recuou, nem no dia seguinte. Apenas parava quando a força dela oscilava e ele insistia para que Yrene fizesse uma pausa para comer ou tirar um cochilo no sofá dourado, ou apenas para conversarem com copos de chá gelado na mão.
Yrene supôs que seu ritmo constante tinha que terminar em algum momento.
Ela pensou que provavelmente seria devido a uma discussão entre eles. Não por notícias de longe.
O khagan voltou ao jantar formal depois de duas semanas de distância em uma propriedade litorânea para escapar do calor do verão, instalado com sua esposa ainda de luto. Um encontro alegre – ou assim, pareceu de longe. Sem mais ataques no palácio ou na Torre, a vigilância silenciosa diminuíra consideravelmente estas últimas semanas.
Mas quando Yrene e Chaol entraram no grande salão, quando ela leu a tensão borbulhando ao longo daqueles sentados na mesa alta, ela pensou em dizer a ele para sair. Vizires se deslocaram em seus assentos. Arghun, que certamente não perdera nada quando se juntou aos seus pais à beira-mar, sorriu.
Hasar sorriu amplamente para Yrene – um sorriso sabido. Não era bom.
Eles tiveram talvez quinze minutos de comida antes de a princesa se pronunciar. Hasar inclinou-se para frente e disse a Chaol:
— Você deve estar satisfeito esta noite, lorde Westfall.
Yrene manteve-se perfeitamente ereta em sua cadeira, o garfo continuando seu caminho enquanto o erguia com um pedaço do peixe com gosto de limão, mastigava e se forçava a engolir.
Chaol respondeu suavemente, bebendo de seu cálice de água:
— E por que eu deveria estar, Sua Alteza?
Os sorrisos de Hasar podiam ser horríveis. Mortais. E o que ela usou quando falou em seguida fez Yrene se perguntar por que ela já se incomodara em responder as convocações da princesa.
— Bem, se alguém fizer os cálculos, a capitã Faliq deve voltar com meu irmão amanhã.
A mão de Yrene apertou em torno de seu garfo enquanto calculava os dias.
Três semanas. Fazia três semanas que Nesryn e Sartaq partiram para as Montanhas Tavan.
Nesryn voltaria amanhã. E apesar de nada – nada – ter acontecido entre Yrene e Chaol...
Yrene não conseguiu parar o sentimento que surgiu em seu peito. Não conseguiu deter a sensação de que uma porta muito permanentemente bateu no rosto dela.
Eles não falaram de Nesryn. Do que houvesse entre eles. E ele nunca mais tocou Yrene além do que era necessário, nunca a olhava como naquela noite da festa.
Mas claro – é claro que ele estava esperando por Nesryn. A mulher com quem ele era leal.
Yrene se forçou a comer outra garfada, mesmo quando o peixe ficou azedo em sua boca. Idiota. Ela era uma idiota, e...
— A senhorita não soube da notícia? — Chaol perguntou, tão irreverente quanto a princesa. Ele baixou o seu cálice, suas juntas roçando as de Yrene onde a mão dela estava pousada sobre a mesa.
Se fosse qualquer outro, poderia ter sido um toque acidental, mas com Chaol... Todo movimento dele era controlado. Focado. O roçar de sua pele contra a dela, um sussurro de tranquilidade, como se ele pudesse sentir aquelas paredes que estavam de fato se aproximando dela...
Hasar disparou a Yrene um olhar descontente. Por que não me informou sobre isso?
Yrene retraiu-se inocentemente de volta. Eu não sabia. E era verdade.
— Suponho que nos contará? — Hasar respondeu friamente ao lorde.
Chaol deu de ombros.
— Recebi a notícia hoje da capitã Faliq. Ela e seu irmão decidiram prolongar a sua viagem por mais três semanas. Acontece que sua habilidade com arco e flecha estava em alta demanda entre os rukhin. Eles imploraram para que ficasse por mais um tempo. Ela os favoreceu.
Yrene deixou seu rosto neutro. Mesmo que alívio e vergonha a atravessassem.
Uma boa mulher – uma mulher corajosa. Era quem ela estava tão aliviada ao ouvir que não retornaria. Não... interromperia.
— Nosso irmão é sábio — disse Arghun de um lugar mais distante na mesa — em manter uma guerreira hábil tanto tempo quanto possível.
A farpa estava lá, enterrada profundamente.
Chaol novamente deu de ombros.
— Ele é mesmo sábio, para saber quão especial ela é. — As palavras foram faladas com verdade, e ainda...
Ela estava inventando coisas. Interpretando-o, assumindo que seu tom não tivesse afeição além do orgulho.
Arghun inclinou-se para dizer a Hasar:
— Bem, então há a questão das outras notícias, irmã. Que assumo que lorde Westfall também ouviu.
Alguns lugares para baixo, a conversa do khagan com seus vizires mais próximos vacilou.
— Ah, sim — disse Hasar, girando seu vinho enquanto se esticava na cadeira. — Eu tinha esquecido.
Yrene tentou captar o olhar de Renia, ver se a amante da princesa revelava algo sobre o que ela agora sentia estar sendo armado, a onda que estava prestes a quebrar. A razão pela qual o salão estava tão carregado. Mas Renia só tinha olhos para Hasar, uma mão em seu braço como se dissesse, Cuidado.
Não pelo o que ela deveria revelar, mas a maneira como Hasar revelaria.
Chaol olhou entre Arghun e Hasar. Pelos sorrisos do príncipe e da princesa, ficou claro o suficiente que eles estavam cientes de que ele não sabia. Mas Chaol ainda parecia debater os méritos de parecer saber ou admitir a verdade...
Yrene o poupou da escolha.
— Eu não ouvi a novidade — ela falou. — O que aconteceu?
Sob a mesa, o joelho de Chaol tocou o dela em agradecimento. Ela disse a si mesma que o prazer que a atravessava era meramente pelo fato de que ele conseguia mover aquele joelho. Mesmo com o medo enrolando em seu intestino.
— Bem — Hasar começou, os acordes de abertura para uma dança que ela e Arghun haviam coordenado antes dessa refeição. — Tem havido alguns... desenvolvimentos no continente vizinho, parece.
Yrene agora pressionava seu joelho contra o de Chaol, uma solidariedade silenciosa. Juntos, ela tentou dizer através do toque.
Arghun disse a Yrene, a Chaol, e também a seu pai:
— Tantos desenvolvimentos no norte. Membros da realeza desaparecidos, agora revelando-se mais uma vez. Tanto Dorian Havilliard quanto a Rainha de Terrasen. A última fez isso de forma bastante dramática também.
— Onde? — murmurou Yrene, porque Chaol não podia. Na verdade, o ar tinha saído dele à menção de seu próprio rei.
Hasar sorriu para Yrene – aquele sorriso satisfeito que ela lhe deu na chegada.
— Baía da Caveira.
A mentira, o palpite que Chaol lhe dera para alimentar a princesa... se provara verdade.
Ela sentiu Chaol ficar tenso, embora seu rosto não revelasse nada além de um interesse suave.
— Um porto pirata no sul, Grande Khagan — explicou Chaol a Urus, sentado na mesa, como se estivesse realmente ciente dessas novidades – e fosse parte desta conversa. — No meio de um grande arquipélago.
O khagan olhou para seus vizires visivelmente desagradados, e franziu a testa para eles.
— E por que eles apareceram em Baía da Caveira?
Chaol não tinha resposta, mas Arghun estava mais do que feliz em fornecê-la.
— Porque Aelin Galathynius pensou em enfrentar o exército que Perrington acampara na ponta do arquipélago.
Yrene deslizou a mão da mesa – para agarrar o joelho de Chaol. Tensão irradiava por toda linha dura do corpo dele.
— A vitória foi em seu favor, ou de Perrington? — perguntou Duva, uma mão em sua crescente barriga. Como se fosse uma partida esportiva. Seu marido olhava para a mesa, vendo as cabeças virando de um lado para o outro.
— Oh, na dela — disse Hasar. — Já tínhamos olhos na cidade, então eles puderam despachar um relatório. — Aquele sorriso sombrio e secreto novamente na direção de Yrene. Espiões que ela enviara usando a informação de Yrene. — Seu poder é considerável — acrescentou ela ao pai. — Nossas fontes dizem que ela queimou o próprio céu. E depois destruiu a maior parte da frota reunida contra ela. De uma só vez.
Deuses santos.
Os vizires se mexeram, e o rosto do khagan endureceu.
— Os rumores da destruição do castelo de vidro não foram exagero, então.
— Não — disse Arghun suavemente. — E seus poderes cresceram desde então. Assim como seus aliados. Dorian Havilliard viaja com a corte dela. E Baía da Caveira e seu lorde piratas agora ajoelham-se diante dela.
Conquistadora.
— Eles lutam com ela — Chaol cortou. — Contra as forças de Perrington.
— Lutam? — Hasar assumiu a conversa com facilidade. — Pois não é Perrington quem está navegando agora e descendo a costa de Eyllwe, queimando aldeias como quer.
— Isso é mentira — Chaol disse muito suavemente.
— É? — Arghun deu de ombros, então encarou seu pai, o retrato do filho em questão. — Ninguém a viu, é claro, mas aldeias inteiras foram deixadas em cinzas e ruínas. Dizem que ela navega para Banjali pretendendo dobrar a família Ytger à sua vontade e reunir um exército para si.
— Isso é uma mentira — Chaol estalou. Seus dentes brilharam, viziress titubearam e ofegaram, mas ele se virou para o khagan. — Eu conheço Aelin Galathynius, Grande Khagan. Não é o estilo dela, não é de sua natureza. A família Ytger... — Ele parou.
É importante para ela. Yrene sentiu as palavras em sua língua, como se estivessem na dela própria. A princesa e Arghun inclinaram-se para frente, esperando confirmação. Prova da fraqueza potencial de Aelin Galathynius.
Não em magia, mas em quem era vital para ela. E Eyllwe, situada entre as forças de Perrington e o khaganato... Ela podia ver as engrenagens girando em suas cabeças.
— A família Ytger seria melhor usada como uma aliada do sul — terminou Chaol, os ombros rígidos. — Aelin é inteligente o suficiente para saber disso.
— E suponho que você saiba — disse Hasar — já que foi seu amante em algum momento. Ou foi o Rei Dorian? Ou ambos? Os espiões nunca foram precisos sobre quem estava na cama e quando.
Yrene engoliu sua surpresa. Chaol e Aelin Galathynius?
— Eu a conheço bem, sim — disse Chaol com força.
Seu joelho pressionou o dela, como se dissesse Depois. Explicarei mais tarde.
— Mas isto é guerra — respondeu Arghun. — A guerra faz as pessoas fazerem coisas que normalmente não considerariam.
A condescendência e a zombaria foram suficientes para que Yrene apertasse os dentes. Este foi um ataque planejado, uma aliança temporária entre dois irmãos.
— Ela colocou olhos nestas margens? — Kashin cortou. Era uma pergunta de soldado. Destinada a avaliar a ameaça à sua terra, ao seu rei.
Hasar examinou suas unhas.
— Quem sabe? Com tal poder... Talvez devêssemos nos preparar...
— Aelin já tem uma guerra para lutar — afirmou Chaol. — E ela não é um conquistadora.
— Baía da Caveira e Eyllwe sugeririam o contrário.
Um vizir sussurrou no ouvido do khagan. Outro se inclinou para ouvir. Já calculando.
Chaol disse a Urus:
— Grande Khagan, eu sei que alguns podem torcer essas notícias em desvantagem de Aelin, mas juro-lhe que a Rainha de Terrasen quer apenas libertar nossa terra. Meu rei não seria aliado dela se fosse de outra forma.
— Você poderia jurar, porém? — refletiu Hasar. — Jurar pela vida de Yrene?
Chaol piscou para a princesa.
— De tudo o que você viu — Hasar continuou — tudo o que testemunhou sobre ela... você juraria? Sobre a vida de Yrene Towers, Aelin Galathynius não usaria tais táticas? Não tentaria tomar exércitos, em vez de erguê-los? Incluindo o nosso?
Diga sim. Diga sim.
Chaol não olhou lançou um olhar para Yrene enquanto fitava Hasar, depois Arghun. O khagan e o seus vizires separados.
Chaol não disse nada. Não jurou nada.
O pequeno sorriso de Hasar era nada menos que triunfante.
— Foi o que pensei.
O estômago de Yrene revirou.
O khagan mediu Chaol.
— Se Perrington e Aelin Galathynius estão reunindo exércitos, talvez eles se destruam e me poupem do problema.
Um músculo apertou na mandíbula de Chaol.
— Talvez se ela for tão poderosa — Arghun observou — ela possa derrotar Perrington sozinha.
— Não se esqueça do rei Dorian — Hasar acrescentou. — Porque aposto que os dois poderiam lidar com Perrington e qualquer exército que ele tenha construído sem muita ajuda. É melhor deixá-los lidar com isso do que desperdiçar nosso sangue em solo estrangeiro.
Yrene tremia. Tremia com... com raiva ao cuidadoso jogo de palavras, o jogo de Hasar e do irmão, feito para manterem-se afastados da guerra
— Mas — Kashin acrescentou, parecendo notar a expressão de Yrene — também pode-se dizer que, se ajudarmos tais reis poderosos, os benefícios em anos de paz podem valer os riscos agora. — Ele se virou para o khagan. — Se os ajudarmos, pai, a enfrentar essa ameaça, imagine esse poder voltado contra os nossos inimigos.
— Ou se virado contra nós, se acharem mais fácil quebrar seus juramentos — Arghun cortou.
O khagan estudou Arghun, seu filho mais velho agora franzindo a testa com desgosto para Kashin. Duva, uma mão ainda em sua barriga grávida, apenas assistiu. Despercebida e não solicitada, mesmo pelo marido.
Arghun voltou-se para o pai.
— A magia do nosso povo é mínima. O céu eterno e os trinta e seis deuses abençoaram principalmente os nossos curandeiros. — Um cenho franzido para Yrene. — Contra esse poder, o que é aço e madeira? Aelin Galathynius capturou Forte da Fenda, então Baía da Caveira, e agora parece estar preparada para tomar Eyllwe. Uma pessoa sábia teria ido para o norte, fortalecido seu reino, depois forçado para o sul das fronteiras. No entanto, ela alonga suas forças, dividindo-as entre norte e sul. Se ela não é uma tola, então seus assessores o são.
— Eles são guerreiros bem treinados, que viram mais guerras e batalha do que você jamais verá — Chaol disse friamente.
O príncipe mais velho ficou rígido. Hasar riu baixinho.
O khagan novamente pesou as palavras ao seu redor.
— Esta questão continuará a ser discutida em salas de conselho, não em mesas de jantar — disse ele, embora não desse garantias. Não para Chaol, nem para Yrene. — Embora eu esteja inclinado a concordar com o que os simples fatos oferecem.
Para seu crédito, Chaol não discutiu mais. Não se encolheu nem fez uma careta. Ele apenas assentiu uma vez.
— Eu que agradeço pela honra da sua consideração, Grande Khagan.
Arghun e Hasar trocaram olhares de zombaria. O khagan voltara para sua refeição.
Nem Yrene nem Chaol tocaram o resto da comida.



Cadela. A princesa era uma vadia, e Arghun era o maior bastardo que Chaol jamais encontrara.
Havia alguma verdade em sua relutância – seus medos ao poder de Aelin e a ameaça que ela poderia ser. Mas ele conseguia lê-los. Hasar simplesmente não queria deixar o conforto de sua casa, os braços de sua amante, para navegar para a guerra. Não queria essa confusão.
E Arghun... O homem navegava no poder, no conhecimento. Chaol não tinha dúvidas de que a discussão com Arghun era mais para forçar Chaol a um lugar onde ele ficaria desesperado.
Ainda mais do que estava. Com vontade de oferecer qualquer coisa em troca de sua ajuda.
Kashin faria o que seu pai dissesse. E quanto ao khagan...
Horas depois, Chaol ainda cerrava os dentes enquanto se deitava na cama e olhava para o teto. Yrene o deixara com um aperto no ombro, prometendo vê-lo no dia seguinte.
Chaol mal conseguiu responder.
Ele deveria ter mentido. Devia jurar que confiava em Aelin com a sua vida.
Porque Hasar sabia que se pedisse que ele jurasse com a vida de Yrene...
Mesmo que seus trinta e seis deuses não se importassem com ele, ele não podia arriscar.
Ele tinha visto Aelin fazer coisas terríveis.
Ainda sonhava com ela estripando Archer Finn a sangue frio. Ainda sonhava com como ela deixara o corpo de Cova naquele beco. Ainda sonhava com seus homens massacrados como gado, com Forte da Fenda e em Endovier, e sabia quão insensível e brutal ela poderia se transformar. Ele havia brigado com ela no início deste verão sobre isso – o seu poder. A falta deles.
Rowan era um bom homem. Totalmente sem medo de Aelin, de sua magia. Mas ela escutaria o seu conselho? Aedion e Aelin eram tão propensos a começar uma briga quando de chegar num acordo, e Lysandra... Chaol não conhecia a metamorfa o suficiente para julgar se ela manteria Aelin na linha.
Aelin realmente mudara – crescera em uma rainha. Ainda estava crescendo como uma.
Mas ele sabia que não havia restrições, nem internas, até onde Aelin iria para proteger aqueles que amava. Proteger seu reino. E se alguém se colocasse no meio, a impedisse de protegê-los... Não existiam limites interno em Aelin em relação a isso. Sem limites.
Então ele não pôde jurar, não sobre a vida de Yrene, que acreditava que Aelin poderia estar acima desses tipos de métodos. Com sua história carregada com Rolfe, ela provavelmente usou o poder de sua magia para intimidá-lo a se juntar à causa dela.
Mas com Eyllwe... Eles deram algum sinal de resistência, para levá-la a aterrorizá-los? Ele não podia imaginar que Aelin consideraria ferir pessoas inocentes, e muito menos pessoas que eram parentes de sua amiga querida. E ainda conhecia os riscos que Perrington – Erawan representava. O que faria com todos eles, se ela não os unisse. Por qualquer meio necessário.
Chaol esfregou o rosto. Se Aelin tivesse se mantido sob controle, se tivesse desempenhado o papel de rainha aflita... Isso teria facilitado sua tarefa.
Talvez Aelin lhes custasse essa guerra. Esta chance de um futuro.
Pelo menos Dorian fora encontrado – sem dúvida, tão seguro quanto se poderia esperar com a corte de Aelin.
Chaol enviou uma oração silenciosa de agradecimento para a noite por essa pequena misericórdia.
Uma batida suave o fez disparar. Não do vestíbulo, mas nas portas de vidro para o jardim.
Suas pernas se contraíram, dobrando ligeiramente no joelho – mais uma reação do que movimento controlado. Ele e Yrene estavam passando pelos exercícios das pernas duas vezes ao dia, as várias terapias comprando-o movimento centímetro a centímetro. Juntamente com a magia com que ela penetrava seu corpo enquanto ele suportava a escuridão horrenda das lembranças. Ele nunca disse o que viu, o que o deixava gritando.
Não havia nenhum motivo. E contar a Yrene o quanto ele falhou, quão erroneamente julgou, o deixava tão enjoado. Mas o que estava no jardim oculto sob a noite... Não era uma lembrança.
Chaol entrecerrou os olhos para a sombra da alta figura masculina ali de pé, com uma mão erguida em silêncio. A própria mão de Chaol se aproximou da faca sob seu travesseiro. Mas a figura se aproximou da luz da lanterna, e Chaol soltou uma respiração e acenou para o príncipe.
Com uma pequena faca, Kashin destrancou a porta do jardim e escorregou para dentro.
— Abrir fechaduras não é uma habilidade que eu esperaria de um príncipe — disse Chaol como saudação.
Kashin se demorou sob a moldura, a lanterna do lado de fora iluminando seu rosto o suficiente para que Chaol visse um meio sorriso.
— Aprendi mais por entrar e sair dos quartos das senhoras do que por roubar, temo.
— Pensei que sua corte fosse um pouco mais aberta em relação a esse tipo de coisa do que a minha.
Aquele sorriso cresceu.
— Talvez, mas os velhos maridos irritáveis permanecem os mesmos em qualquer continente.
Chaol riu, balançando a cabeça.
— O que posso fazer por você, príncipe?
Kashin estudou a porta da suíte, Chaol fazendo o mesmo – procurando por sombras paradas do outro lado. Quando ambos não encontraram nenhuma, Kashin disse:
— Suponho que não tenha descoberto nada dentro da minha corte sobre quem pode estar atormentando Yrene.
— Eu gostaria de poder dizer o contrário. — Mas sem Nesryn, ele teve poucas chances de procurar em Antica por quaisquer sinais de um suposto agente valg. E as coisas haviam sido bastante silenciosas nessas três semanas, em parte por que ele esperava que eles simplesmente... fossem embora. Uma atmosfera consideravelmente mais calma se instalou sobre o palácio e a Torre desde então, como se as sombras estivessem de fato atrás de todos eles.
Kashin assentiu.
— Eu sei que Sartaq partiu com sua capitã para buscar respostas sobre essa ameaça.
Chaol não ousou confirmar ou negar. Ele não estava inteiramente certo de como Sartaq deixara as coisas com a família, se tinha recebido a benção de seu pai para ir.
— Pode ser por isso que meus irmãos montaram uma frente tão unificada contra você esta noite — Kashin continuou. — Se o próprio Sartaq levar essa ameaça a sério, eles sabem que podem ter uma janela limitada para convencer nosso pai a não se juntar a essa causa.
— Mas se a ameaça é real — disse Chaol — se poderia chegar nessas terras, por que não lutar? Por que não pará-la antes que possa chegar a estas margens?
— Porque é guerra — disse Kashin, e da maneira como ele falou, a maneira como estava de pé, de alguma forma fez Chaol sentir-se jovem de verdade. — E embora a maneira com a qual meus irmãos apresentaram seus argumentos tenha sido desagradável, suspeito que Arghun e Hasar estão conscientes dos custos que a união à sua causa exigirá. Nunca antes o poder dos exércitos do khaganato foi enviado para uma terra estrangeira. Ah, algumas legiões, seja rukhin, exércitos ou meus próprios senhores dos cavalos. Às vezes unidos, mas nunca todos, nunca o que você precisa. O custo da vida, o simples dreno nos nossos cofres... será enorme. Não cometa o erro de acreditar que meus irmãos não entendam isso muito, muito bem.
— E seu medo de Aelin?
Kashin bufou.
— Eu não posso falar sobre isso. Talvez seja bem fundamentado. Talvez não.
— Então você se esgueirou para o meu quarto para me dizer isso? — ele deveria falar com mais respeito, mas...
— Eu vim para lhe contar mais uma informação, que Arghun escolheu não mencionar.
Chaol esperou, desejando que ele não estivesse sentado na cama, nu da cintura pra cima.
— Recebemos um relatório do nosso vizir do comércio exterior de que um grande e lucrativo pedido foi feito por uma arma relativamente nova — Kashin falou.
A respiração de Chaol parou. Se Morath tivesse encontrado alguma maneira...
— É chamada de lança fogo — disse Kashin. — Nossos melhores engenheiros conseguiram combinar várias armas de todo o nosso continente.
Oh, deuses. Se Morath a tivesse em seu arsenal...
— O capitão Rolfe fez o pedido para a sua frota. Meses atrás.
Rolfe...
— E quando chegou a notícia de que Baía da Caveira caiu sob Aelin Galathynius, também veio com um pedido para que mais fossem enviadas para o norte.
Chaol ordenou as informações.
— Por que Arghun não diria isso no jantar?
— Porque são muito, muito caras.
— Certamente isso é bom para sua economia.
— É.
E não era bom para a tentativa de Arghun de evitar essa guerra.
Chaol ficou em silêncio por um batimento cardíaco.
— E você, príncipe? Você deseja se juntar a essa guerra?
Kashin não respondeu imediatamente. Ele correu os olhos pelo quarto, pelo teto, pela cama e, finalmente, olhou para Chaol.
— Esta será a grande guerra do nosso tempo — disse Kashin calmamente. — Quando estivermos mortos, quando mesmo os netos de nossos netos estiverem mortos, eles ainda falarão sobre esta guerra. Vão sussurrar sobre ela ao redor das fogueiras, cantar nos grandes salões. Quem viveu e morreu, que lutou e quem se encolheu. — Sua garganta balançou. — Meu sulde sopra para o norte, dia e noite, os cabelos sopram para o norte. Então, talvez eu encontre meu destino nas planícies de Charco Lavrado. Ou diante das paredes brancas de Orynth. Mas é para o norte que eu devo ir – se meu pai me ordenar.
Chaol refletiu. Olhou para a tela trançada perto da câmara de banho.
Kashin tinha se virado quando Chaol perguntou:
— Quando seu pai se encontrará com seu vizir de comércio exterior?

10 comentários:

  1. Que ódio desse Arghun e da vadia da H asar, ódiiiiiiiooooo

    "Chaol não olhou lançou um olhar para Yrene enquanto fitava Hasar, depois Arghun. O khagan e o seus vizires separados.
    Chaol não disse nada. Não jurou nada."

    É nesses momentos que meu ódio pelo Chaol volta, pqp mano, Aelin pode ser implacável, mas ela jamais faria tais coisas, como queimar vilas, krl Chaol, tu só pode ter demência -_-'
    E o Kashin precisa se juntar a Aelin *-*

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    1. Bateu um ódio do Chao aqui

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    2. Tbm n suporto essa desconfiança do Chaol com a Aelin! Ela salvou ele e o Dorian qndo libertou a magia. Ele até tinha pedido desculpas a ela, mas continua com essa história...
      Sei não viu... só a Yrene pra me fazer gostar desse cara

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    3. Mas a Aelin e o Rowam falaram sobre isso, sobre ela ser uma imperadora e ter o mundo aos pés se quisesse. Ele não estava errado nao. Amo Aelin, mas ela é meio louca... Mas ia amar ela colocandl essa pricesa cadela no chinelo kkkkk

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  2. Sinto muito mas ainda não gosto de Chaol. Entendo os princípios dele. No entanto, é difícil gostar de um cara q julga através do "8 ou 80", jogando na lata do lixo coisas como o momentos em q aconteceu o fato, o motivo e a essência da pessoa.
    Alem disso, é um idiota q ainda não despertou para o significado de guerra. Guerra não é algo Bonito nem poético. Ele é um idiota e seu crescimento como personagem é tão lento q fico abismada. Caramba, esse e o penúltimo livro e ainda leio um capítulo desses!
    Desculpe o desabafo

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  3. "Esta será a grande guerra do nosso tempo — disse Kashin calmamente. — Quando estivermos mortos, quando mesmo os netos de nossos netos estiverem mortos, eles ainda falarão sobre esta guerra. Vão sussurrar sobre ela ao redor das fogueiras, cantar nos grandes salões. Quem viveu e morreu, que lutou e quem se encolheu." E sobre a cadela cuspidora de fogo Aelin fucking galanthynius e sua corte

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  4. Eu juraria por minha vida e pela a de todos do universo kkkk para pow! É Aelin. Ela matou Archer, mas esse idiota não olha o que a levou a tal coisa .Gosto de Chaol, mas muitas vezes ele faz cada merda.

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  5. Rowan era um bom homem. Totalmente sem medo de Aelin, de sua magia. Mas ela escutaria o seu conselho? Aedion e Aelin eram tão propensos a começar uma briga quando de chegar num acordo, e Lysandra... Chaol não conhecia a metamorfa o suficiente para julgar se ela manteria Aelin na linha.
    Não fala mal dos meus bebes!!!

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  6. Aelin do fogo selvagem. ... ah que saudade dessa corte maravilhosa!

    Flavia

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Boa leitura, E SEM SPOILER!