29 de janeiro de 2018

Capítulo 35

Falkan caiu de joelhos, espalhando agulhas de pinheiro, sangue gotejando entre os dedos bronzeados.
Nesryn correu para ele, mas Sartaq a bloqueou com um braço.
— Não — ele advertiu.
Nesryn empurrou o braço para fora do caminho e correu para o homem ferido, ajoelhando-se diante dele.
— Você nos seguiu até aqui.
Falkan ergueu a cabeça, dor enevoando seus olhos.
— Eu os escutei ontem à noite. Na fogueira.
— Sem dúvida, na forma de rato ou de inseto — Sartaq grunhiu.
Algo como vergonha de fato cobriu o rosto de Falkan.
— Eu voei para cá como um falcão, vi vocês entrarem. Então a vi se aproximar da colina atrás de vocês. — Ele estremeceu enquanto olhava para onde Kadara terminara de desmembrar a aranha e agora sentava-se no topo da torre, estudando-o como se fosse sua próxima refeição.
Nesryn acenou para o pássaro para descer com seus alforjes. Kadara a ignorou.
— Ele precisa de ajuda — ela sibilou para Sartaq. — Bandagens.
— Minha ej sabe? — O príncipe exigiu.
Falkan tentou e não conseguiu remover sua mão ensopada de sangue de seu lado, ofegando através dos dentes.
— Sim — ele conseguiu dizer. — Eu contei tudo a ela.
— E que corte o pagou para vir até aqui?
— Sartaq. — Ela nunca o tinha ouvido falar assim, nunca o vira tão furioso. Ela pegou o braço do príncipe. — Ele salvou nossas vidas. Agora devolvemos o favor. — Ela apontou para a ruk. — Bandagens.
Sartaq virou os olhos lívidos sobre ela.
— A raça dele é de assassinos e espiões — ele grunhiu. — É melhor deixá-lo morrer.
— Eu não sou — Falkan ofegou. — Eu sou o que disse: um comerciante. Eu cresci em Adarlan, nem mesmo sabia que eu tinha o dom. Ele... corre na minha família, mas quando a magia desapareceu, assumi que eu não o tivesse. Fiquei feliz por isso. Mas não devo ter amadurecido o suficiente, porque quando pisei nessas terras como homem, como isso... — Um gesto para o corpo dele. Para os vinte anos das quais desistira. Ele estremeceu contra o movimento que fez a ferida doer. — Eu poderia usá-lo. Eu poderia mudar. Mal, e muitas vezes, mas posso mudar, se eu me concentrar. — Ele disse ao príncipe: — Não é nada para mim, essa herança. Era o dom do meu irmão, do meu pai... Eu nunca o quis. Eu ainda não quero.
— No entanto, você pode mudar de pássaro para lobo para homem tão facilmente como se treinasse.
— Confie em mim, é mais do que eu fiz na minha... — Falkan gemeu, balançando.
Nesryn o pegou antes que ele caísse de boca no chão, e criticou Sartaq:
— Se você não pegar aquelas bandagens agora, vou dar uma ferida a você para combinar.
O príncipe piscou para ela, a boca aberta.
Então ele levou o apito à boca, soltando uma nota afiada e rápida, enquanto caminhava para Kadara, seus passos rígidos.
A ruk saltou da torre para pousar sobre uma das estátuas corujas ancoradas nas paredes dos arcos, pedra quebrando abaixo dela.
— Eu não sou um assassino — insistiu Falkan, ainda tremendo. — Eu conheci alguns, mas não sou um.
— Eu acredito em você — disse Nesryn, e realmente achava isso. Sartaq tirou os pacotes de Kadara, procurando pelas bandagens. — A da esquerda — ela rosnou. O príncipe lançou-lhe outro olhar sobre o ombro, mas obedeceu.
— Eu queria matá-la eu mesmo — Falkan ofegou, seus olhos brilhando, sem dúvida pela perda de sangue. — Para ver se... Isso poderia retornar meus anos. Mesmo... mesmo que ela não seja a que levou minha juventude, pensei que talvez houvesse algum... sistema comum entre elas, mesmo através dos oceanos. Uma teia, por assim dizer, de tudo o que sua espécie tem tomado. — Um riso amargo e tenso. — Mas parece que meu golpe mortal também foi dado.
— Acho que todos nós podemos perdoar Kadara por fazê-lo em vez disso — disse Nesryn, observando o sangue preto salpicado sobre o bico e as penas da ruk.
Outra risada dolorida.
— Você não tem medo do que eu sou.
Sartaq avançou com as bandagens e a pomada. E o que parecia ser um frasco de um tipo de substância parecida com mel, provavelmente para selar a ferida até que eles conseguissem chegar a um curandeiro. Bom.
— Uma das minhas amigas é metamorfa — admitiu Nesryn, no mesmo momento em que Falkan desmaiou em seus braços.



Eles estavam no ar poucos minutos depois de Nesryn ter limpado o corte das costelas de Falkan e Sartaq ter coberto a ferida com o que parecia ser algum tipo de folha e um revestimento de mel. Para prevenir a infecção, e impedir a perda de sangue enquanto eles se elevavam rapidamente para o abrigo.
Ela e o príncipe mal falaram, embora com Falkan posto entre eles, não houvesse muita oportunidade. Foi um voo apertado e perigoso, o peso morto de Falkan ocasionalmente oscilando o suficiente para o lado que Sartaq tinha que segurá-lo na sela. Havia apenas dois conjuntos de fivelas, ele havia dito à Nesryn quando subiram na sela. Ele não desperdiçaria nenhuma das suas vidas em um metamorfo, dívida de vida ou não.
Mas eles fizeram funcionar, e enquanto o sol se punha, os três picos dos Dorgos lentamente se acendiam com incontáveis fogueiras, como montanhas preenchidas por vaga-lumes.
Kadara soltou um grito estridente quando se aproximaram do Salão-Montanha de Altun. Algum tipo de sinal, aparentemente, porque no momento em que aterrissaram, Borte, Houlun e inúmeros outros estavam reunidos, armados com suprimentos.
Ninguém perguntou o que aconteceu com Falkan. Ninguém perguntou como ele havia chegado lá. Ou pela ordem de Houlun para não incomodá-los ou simplesmente pelo caos de tirá-lo da ruk e levá-lo para os cuidados do curandeiro. Ninguém, exceto Borte.
Sartaq ainda fumegava o suficiente para conduzir sua ej para um canto e começar a exigir respostas sobre o metamorfo. Ou era o que parecia, com o maxilar e os braços cruzados.
Houlun apenas o ouvia, os pés apoiados no chão, o maxilar tão apertado quanto o dele.
Sozinha com Kadara, Nesryn decidiu soltar os pacotes enquanto Borte observava a alguns metros de distância.
— Que ele tenha a coragem de dar um sermão nela diz que algo deu muito errado. E que ela lhe permita me diz que ela se sente um pouquinho culpada.
Nesryn não respondeu, grunhindo enquanto tirava um pacote particularmente pesado.
Borte caminhou em torno de Kadara, examinando o pássaro. Cuidadosamente.
— Sangue preto nas garras, o bico e o peito. Muito sangue preto.
Nesryn soltou um pacote contra a parede.
— E suas costas estão cobertas de sangue vermelho.
De onde Falkan se inclinara contra ela durante o voo.
— E essa é uma lâmina nova. Uma lâmina feérica — observou Borte, se aproximando para examinar a lâmina nua pendurada em seu cinto da espada. Nesryn recuou um passo.
A boca de Borte apertou.
— O que quer que você saiba, também quero saber.
— Não é problema meu.
Eles olharam para Sartaq, que ainda estava a ferver, Houlun simplesmente deixando-o respirar.
Borte começou a contar os itens em seus dedos.
— Ej sai sozinha por dias. Então vocês vão, retornando com um homem que não partiu com vocês e que não levou nenhum ruk. E a pobre Kadara retorna coberta dessa... sujeira. — Uma fungada em direção ao sangue preto.
A ruk clicou em seu bico em resposta.
— É lama — mentiu Nesryn.
Borte riu.
— E eu sou uma princesa feérica. Ou eu posso começar a perguntar ao redor, ou...
Nesryn a arrastou para a parede com os pacotes.
— Mesmo que eu lhe conte, você não deve murmurar uma palavra disso para ninguém. Ou dificultar as coisas de qualquer maneira.
Borte colocou uma mão em seu coração.
— Eu juro.
Nesryn suspirou em direção ao teto distante e rochoso, Kadara dando-lhe um olhar de advertência como para pedir a ela para reconsiderar seu julgamento. Mas Nesryn contou tudo a Borte.



Ela deveria ter ouvido Kadara. Borte, para seu crédito, não falou a mais ninguém. Além de Sartaq, que finalmente se afastara de Houlun apenas para receber um golpe no ombro por não informar à sua irmã de coração aonde estava indo. E pior, por não levá-la junto.
Sartaq olhou para Nesryn quando percebeu quem havia contado a Borte, mas ela estava cansada demais para se importar. Em vez disso ela apenas caminhou para o seu quarto, passando entre os pilares. Ela sabia que Sartaq estava vindo em seus calcanhares graças a Borte que gritou:
— Você me levará da próxima vez, seu asno teimoso!
E logo antes de Nesryn chegar à porta de seu quarto, ao santuário de uma cama macia, o príncipe agarrou seu cotovelo.
— Quero uma palavrinha com você.
Nesryn apenas abriu a porta, Sartaq entrando atrás dela. Fechando-a e apoiando-se contra ela. Ele cruzou os braços no mesmo momento que ela.
— Borte ameaçou fazer perguntas ao redor da sala se não lhe contasse.
— Eu não me importo.
Nesryn piscou.
— Então o que...
— Quem tem as chaves de Wyrd? — A questão ecoou entre eles.
Nesryn engoliu.
— O que é uma chave de Wyrd?
Sartaq desencostou da porta.
— Mentirosa — ele acusou. — Enquanto estávamos fora, minha ej recordou algumas das outras histórias, pescou-as de qualquer memória coletiva que ela possui como Guardiã de Histórias. Histórias de um portão de Wyrd por onde os valg e seus reis passaram – que poderia ser aberto com três chaves quando empunhadas juntas. Lembrou que essas chaves desapareceram, depois que Maeve as roubou e usou para enviar os valg de volta. Escondidas, ela diz. Pelo mundo.
Nesryn apenas levantou uma sobrancelha.
— E o que isso quer dizer?
Um resmungo frio.
— Foi como Erawan levantou um exército com tanta rapidez, porque até Aelin do Fogo Selvagem não pode derrotá-lo sem assistência. Ele deve ter pelo menos uma. Não todas, ou estaríamos chamando Erawan de nosso mestre. Mas pelo menos uma, talvez duas. Então, onde está a terceira?
Ela honestamente não tinha ideia. Se Aelin e os outros possuíam uma suspeita, nunca lhe haviam dito. Só que o seu último recurso, além da guerra e da morte, era recuperar as que Erawan possuía. Mas mesmo dizer-lhe isso...
— Talvez agora você entenda — Nesryn falou com o mesmo frio — por que estamos tão desesperados pelos exércitos do seu pai.
— Para ser abatido.
— Quando Erawan acabar de nos matar, ele virá à sua porta.
Sartaq praguejou.
— O que eu vi hoje, aquela coisa... — ele esfregou o rosto com as mãos trêmulas. — Os valg uma vez usaram essas aranhas como soldados de infantaria. Legiões delas. — Ele baixou as mãos. — Houlun descobriu três outras torres de vigia em ruínas – ao sul. Nós iremos até a primeira assim que o metamorfo estiver curado.
— Levaremos Falkan?
Sartaq abriu a porta com força o suficiente para que ela estivesse surpresa por não tê-la arrancado de suas dobradiças.
— Apesar de tão péssimo metamorfo como ele afirma ser, um homem que pode se transformar em um lobo tão grande é uma arma boa demais para não ser levada na hora do perigo. — Um olhar afiado. — Ele montará comigo.
— E onde eu estarei?
Sartaq deu-lhe um sorriso sem humor antes de sair para o corredor.
— Você voará com Borte.

7 comentários:

  1. Huuummm... Será que o Falkan pode ter algum parentesco com a Lysandra? E sobre as chaves... Vocês lembram que o Dorian falou com a Manon que não queria as chaves porque se não ele faria um inferno (Não foi exatamente isso, mas foi mais ou menos isso) e bom nós sabemos que justo ele tá com as chaves e... Aí eu não sei gente, mas será que ele pode provocar o caos com essas chaves?

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    1. Bela conclusão... Vamos descobrir

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    2. É claro que pode! Mas acho que Dorian falou isso porque tem medo da escuridao, que teme ainda ter dentro si, por conta da dominação valg! Medo de não ser forte suficiente...

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    3. É claro que pode! Mas acho que Dorian falou isso porque tem medo da escuridao, que teme ainda ter dentro si, por conta da dominação valg! Medo de não ser forte suficiente...

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    4. Sei não. Tipo agora só têm o último livro para lançar e acho que não cabe esses tipos de reviravoltas em um último livro... mas sarah é sarah então quem sabe

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  2. Esse Sartaq será um excelente acréscimo ao bonde da Aelin, alguns capítulos atrás li que provavelmente ele não será escolhido pra ser o próximo Khagan, mas tenho a sensação de que ele será sim o herdeiro escolhido por seu pai

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  3. Será que o metamorfo é parente de Lysandra?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!