29 de janeiro de 2018

Capítulo 32

— Bom — disse Yrene, o peso sólido da perna de Chaol apoiado contra o seu ombro enquanto ela lentamente o girava.
Esticado abaixo dela no chão da sala de trabalho no complexo dos médicos da Torre vários dias mais tarde, Chaol a observava em silêncio. O dia já queimava bastante e Yrene estava encharcada de suor; ou estaria, se o clima seco não secasse o suor antes que ele pudesse realmente molhar as roupas. Ela podia senti-lo, porém, em seu rosto – vê-lo reluzir no próprio Chaol, suas feições apertadas com concentração enquanto ela se ajoelhava sobre ele.
— Suas pernas estão respondendo bem aos exercícios — ela observou, os dedos apertando o poderoso músculo de suas coxas.
Yrene não perguntou o que mudou. Por que ele começou a ir ao pátio dos guardas no palácio.
Ele também não explicou.
— Estão... — respondeu Chaol, esfregando o queixo.
Ele não se afastara naquela manhã. Quando ela entrou em sua suíte depois que ele voltou da prática desta manhã com os guardas, ele disse que queria dar uma volta e conseguir uma mudança de cenário para o dia.
Que ele estivesse tão ansioso, tão disposto a ver a cidade, se adaptar ao seu entorno... Yrene não fora capaz de dizer não. Então, eles vieram para cá depois de um passeio sinuoso por Antica, para trabalhar em um dos quartos tranquilos neste corredor. Os quartos eram todos iguais, cada um ocupado por uma mesa, uma cama estreita e um armário de parede, além de adornados com uma janela solitária que deixava as lindas filas do extenso jardim de ervas à vista. De fato, apesar do calor, os aromas de alecrim, hortelã e sálvia enchiam a câmara.
Chaol grunhiu quando Yrene baixou a perna esquerda para o chão de pedra e começou a trabalhar na direita. Sua magia era um ruído baixo fluindo através dela e para dentro dele, com cuidado para evitar a mancha preta que descia lentamente pela espinha dorsal.
Eles lutaram contra aquilo todos os dias. As memórias o devoravam, se alimentavam dele e Yrene fazia força contra elas, afastando a escuridão que o empurrava para atormentá-lo.
Às vezes, ela vislumbrava o que ele suportava naquele poço negro girando. A dor, a raiva, a culpa e a tristeza. Mas apenas vislumbres, como se fossem restos de fumaça passando por ela. E embora ele não discutisse o que via, Yrene conseguia fazer recuar aquela onda escura. Tão pouco de cada vez, meros pedaços de pedra de uma rocha, mas... melhor do que nada.
Ao fechar os olhos, Yrene deixou seu poder se infiltrar nas pernas dele como um enxame de vaga-lumes brancos, encontrando aqueles caminhos danificados e remendando-os, cercando os pedaços desgastados que ficaram em silêncio durante esses exercícios, quando eles deveriam ter sido iluminados como o resto dele.
— Eu tenho pesquisado — ela disse, abrindo os olhos enquanto girava a perna na altura do quadril — coisas que antigos curandeiros fizeram com pessoas com lesões na coluna vertebral. Havia uma mulher, Linqin, que conseguiu fazer um suporte mágico para todo o corpo. Um tipo invisível de exoesqueleto que permitia a pessoa andar até que eles pudessem chegar a um curandeiro, ou caso a cura não fosse bem-sucedida.
— Assumo que você não tenha um? — Chaol enrugou a testa.
Yrene balançou a cabeça, abaixando a perna e novamente pegando a outra para começar a próxima série.
— Linqin fez apenas dez, todos conectados a talismãs que o usuário poderia usar. Eles se perderam algo longo do tempo, junto com seu método de criá-los. E havia outra curandeira, Saanvi, que a lenda diz que era capaz de fazer a cura inteiramente plantando uma espécie de fragmento de pedra minúsculo e mágico no cérebro.
Ele se encolheu.
— Eu não estava sugerindo experimentar em você — disse ela, dando um tapinha na coxa dele. — Ou precisar.
Um meio sorriso repuxou sua boca.
— Então, como esse conhecimento se perdeu? Pensei que a biblioteca aqui contivesse todos os seus registros.
Yrene franziu a testa.
— Ambas eram curandeiras trabalhando em postos avançados longe da Torre. Há quatro ao longo continente – pequenos centros onde curandeiros da Torre vivem e trabalham. Para ajudar as pessoas que não podem fazer a viagem até aqui. Linqin e Saanvi estavam tão isolados que, quando alguém se lembrou de buscar seus registros, eles estavam perdidos. Tudo o que temos agora são rumores e mitos.
— Você mantém registros? De tudo isso? — Ele gesticulou entre eles.
O rosto de Yrene aqueceu.
— Partes disso. Não quando você está agindo como um burro teimoso.
Mais uma vez, aquele sorriso repuxou o rosto, mas Yrene baixou a perna e recuou, embora permanecesse ajoelhada nos azulejos.
— O ponto é — disse ela, desviando a conversa dos seus diários andares e andares mais acima — que foi feito. Eu sei que está demorando um longo tempo, e sei que você está ansioso para voltar...
— Eu estou. Mas não estou apressando você, Yrene. — Ele se sentou em um movimento suave. No chão daquele jeito, ele se elevava sobre ela, seu tamanho quase esmagador. Ele girou o pé lentamente, lutando por cada movimento enquanto os músculos do resto de suas pernas se opunham.
Chaol levantou a cabeça, encontrando seu olhar. Lendo-o facilmente.
— Quem quer que a esteja caçando você não vai perder a chance de te machucar, mesmo que você e eu terminemos amanhã, ou em seis meses.
— Eu sei. — Ela respirou. Kashin e seus guardas não haviam capturado nem encontrado vestígios de quem tentou atacá-la. E embora tivesse ficado quieta nestas últimas noites, ela mal dormia, mesmo na segurança da Torre. Somente o cansaço da cura de Chaol concedia-lhe qualquer medida de descanso. Ela suspirou. — Acho que devemos ver Nousha novamente. Fazer outra visita à biblioteca.
Seu olhar ficou cauteloso.
— Por quê?
Yrene franziu a testa para a janela aberta atrás deles, os jardins brilhantes e arbustos de lavanda balançando. A brisa do mar, as abelhas voando entre as plantas. Nenhum sinal de alguém ouvindo nas proximidades.
— Porque ainda não perguntei como esses livros e pergaminhos chegaram aqui.



— Não há registros de aquisições datando daquela época — disse Nousha para Yrene e Chaol. Sua boca era uma linha de desaprovação apertada enquanto os olhava do outro lado da mesa.
Ao redor deles, a biblioteca era uma fraca agitação de atividades, curandeiras e assistentes fluíam para dentro e para fora, alguns sussurrando olás para Yrene e Nousha enquanto passavam. Hoje era um gato de Bastet laranja que descansava em frente à imensa lareira, os olhos de berilo rastreando-os de seu lugar no braço de um sofá.
Yrene ofereceu a Nousha sua melhor tentativa de um sorriso.
— Mas talvez haja algum registro de por que esses livros eram necessários aqui?
Nousha apoiou os antebraços escuros na mesa.
— Algumas pessoas desconfiariam do conhecimento que procuram se estiverem sendo caçadas – coisa que começou perto do momento em que se começou a cutucar o assunto.
Chaol inclinou-se para frente na cadeira, os dentes reluzindo:
— Isso foi uma ameaça?
Yrene o dispensou. Homem superprotetor.
— Eu sei que é perigoso, e provavelmente está ligado a isso. Mas isso, Nousha... qualquer informação adicional sobre o material aqui, de onde veio, quem adquiriu... Poderia ser vital.
— Para fazê-lo andar de novo. — Uma declaração seca e descrente.
Yrene não se atreveu a olhar para Chaol.
— Você pode ver que nosso progresso é lento. — respondeu Chaol com força. —Talvez os antigos tenham algum tipo de conselho sobre como fazer ir mais rápido.
Nousha lançou a ambos um olhar que dizia que não estava acreditando nem por um minuto, mas suspirou para o teto.
— Como eu falei, não há registros aqui que datam de tanto tempo atrás. Mas... — acrescentou quando Chaol abriu a boca — há rumores de que, no deserto, existem cavernas com tais informações – cavernas de onde vieram essas informações. A maioria já foi perdida, mas havia uma no Oasis Aksara... — O olhar de Nousha tornou-se conhecedor quando Yrene estremeceu. — Talvez você devesse começar por lá.



Yrene mordeu o lábio enquanto eles saíam da biblioteca, Chaol seguia o ritmo ao lado dela. Quando estavam perto do corredor principal da Torre, ele perguntou:
— Por que você está se encolhendo?
Yrene cruzou os braços, examinando os corredores ao redor. Tranquilo neste momento do dia, logo antes da agitação do jantar.
— Esse oásis, Aksara. Não é exatamente... fácil chegar.
— É longe?
— Não, não. É propriedade da realeza. Ninguém é permitido lá. É o refúgio deles.
— Ah. — Ele passou mão pela sombra da barba por fazer em sua mandíbula. — E pedir para acessá-lo diretamente levará a muitas perguntas.
— Exatamente.
Ele a estudou, os olhos se estreitando.
— Não se atreva a sugerir que eu use Kashin — ela sibilou.
Chaol levantou as mãos, os olhos dançando.
— Eu não me atreveria. Embora ele tenha corrido no momento em que você estalou os dedos na outra noite. Ele é um bom homem.
Yrene colocou as mãos nos quadris.
— Por que você não o convida para um interlúdio romântico no deserto, então?
Chaol riu, seguindo-a enquanto ela voltava para o pátio.
— Não sou versado em intrigas da corte, mas você tem outra conexão no palácio.
Yrene fez uma careta.
— Hasar. — Ela brincou com uma onda no final do cabelo. — Ela não me pediu para jogar de espiã recentemente. Não tenho certeza se quero... abrir essa porta de novo.
— Talvez você pudesse convencê-la de que uma viagem ao deserto, uma saída, seria... diversão?
— Você quer que eu a manipule assim?
Seu olhar estava firme.
— Nós podemos encontrar outra maneira, se você estiver desconfortável.
— Não, não, pode funcionar. É só que Hasar nasceu nesse tipo de coisa. Ela pode ver através de mim. E ela é poderosa o suficiente para que... Vale a pena arriscar emaranhar-me nesse relacionamento com ela, sua raiva, para seguir apenas uma sugestão da Nousha?
Ele considerou suas palavras. De uma maneira que apenas Hafiza realmente considerava.
— Vamos pensar nisso. Com Hasar, precisamos prosseguir com cuidado.
Yrene entrou no pátio, fazendo um gesto para um dos guardas da Torre trazer o cavalo do lorde dos estábulos.
— Não sou uma cúmplice muito boa em intriga — ela admitiu.
Chaol com um sorriso arrependido. Ele apenas roçou a mão contra a dela.
— Eu acho refrescante.
E pela expressão em seus olhos... ela acreditava nele. O suficiente para que suas bochechas aquecessem um pouco.
Yrene virou-se para a torre se elevando-se sobre eles, apenas para comprar-se um pouco de espaço para respirar. Olhou para cima, até onde sua própria pequena janela estava voltada para o mar. Para casa.
Ela baixou o olhar da Torre para encontrar seu rosto sombrio.
— Lamento ter trazido tudo isso sobre você — Chaol falou calmamente.
— Não lamente. Talvez seja o que isso quer. Usar o medo e a culpa para acabar com isso, nos parar. — Ela o estudou, o orgulhoso queixo erguido, a força que irradiava em cada respiração. — Embora... eu me preocupe que o tempo não esteja do nosso lado. Tome todo o tempo que precisar para se curar. E ainda... — ela esfregou o peito. — Eu tenho a sensação de que não vimos o último caçador.
Chaol assentiu, a mandíbula apertada.
— Lidaremos com isso.
E foi isso. Juntos – eles lidariam juntos.
Yrene sorriu ligeiramente para ele enquanto os cascos leves de seu cavalo se aproximavam no cascalho pálido.
E pensou em voltar para seu quarto, pensando nas horas que passaria preocupada...
Talvez fosse patético, mas Yrene disse:
— Você gostaria de jantar? Cook vai lastimar se você não aparecer por lá.
Ela sabia que não era um mero medo que a estimulava. Sabia que só queria gastar mais alguns minutos com ele. Falar com ele de uma maneira que ela raramente fazia com outras pessoas.
Por um longo momento, Chaol apenas a observou. Como se ela fosse a única pessoa no mundo. Ela se preparou para a recusa, para o distanciamento. Sabia que deveria tê-lo deixado ir embora.
— E se sairmos para jantar em vez disso?
— Você quer dizer... na cidade? — ela apontou para os portões abertos.
— A menos que você pense que a cadeira nas ruas...
— As calçadas são boas. — Seu coração bateu. — Você tem alguma preferência pelo que comer?
Uma fronteira – essa era uma fronteira estranha que eles estavam atravessando. Deixar seus territórios neutros e surgir no mundo além, não como curandeira e paciente, mas como mulher e homem.
— Vou tentar qualquer coisa — disse Chaol, e ela sabia que ele queria dizer isso. E, por sua vez, olhou para os portões abertos da Torre, até a cidade apenas começava a brilhar além... Ela sabia que ele queria tentar qualquer coisa; estava tão ansioso por uma distração daquela sombra que apareceu sobre eles como ela própria.
Então, Yrene sinalizou aos guardas que não precisavam do cavalo. Ainda não, pelo menos.
— Eu conheço um lugar.



Algumas pessoas olharam; outras estavam ocupadas demais em seus negócios ou volta para casa para comentar sobre Chaol enquanto ele conduzia a cadeira ao lado de Yrene.
Ela teve que se envolver apenas algumas vezes, para ajudá-lo a fazer alguma curva, ou descer por uma das ruas íngremes. Ela o levou para um lugar a cinco quarteirões de distância, o estabelecimento diferente de tudo o que tinha visto em Forte da Fenda.
Ele visitara algumas salas de jantar privadas com Dorian, sim, mas essas tinham sido para a elite, para os membros e seus convidados.
Este lugar... era semelhante a esses clubes privados, na medida em que eram lugares apenas para comer, cheio de mesas esculpidas e cadeiras de madeira, mas era aberto para qualquer um, como as salas públicas em uma pousada ou taberna. A frente do prédio de pedra pálida tinha vários conjuntos de portas que estavam abertas para a noite, levando para um pátio cheio de mais mesas e cadeiras sob as estrelas, o espaço subindo para a rua em si para que os clientes pudessem assistir a agitação da cidade e até vislumbrar a rua inclinada até o mar escuro brilhando sob a luz da lua.
E os cheiros atraentes que vinham de dentro: alho, algo picante, esfumaçado...
Yrene murmurou para a mulher que veio cumprimentá-los o que deve ter sido o pedido de uma mesa para dois e sem uma cadeira, porque dentro de um momento eles foram levados para o pátio que dava para a rua, onde um garçom tirou discretamente uma das cadeiras em uma pequena mesa para ele se encaixar.
Yrene reivindicou o assento oposto a ele, mais do que algumas cabeças se virando pelo caminho. Não para ver a ele, mas a ela.
A curandeira da Torre.
Ela não pareceu notar. O garçom voltou para mostrar o que deveria ser o menu, e Yrene fez o pedido em um halha hesitante.
Ela mordeu o lábio inferior, olhando para a mesa, a sala de jantar pública.
— Está tudo bem?
Chaol olhou o céu aberto acima deles, a cor mudando para um azul safira, as estrelas começando a piscar acordadas. Quando ele relaxara pela última vez? Comeu uma refeição não para manter seu corpo saudável e vivo, mas para desfrutar dela?
Ele lutou pelas palavras. Se conduziu para se adequar a esta leveza.
— Eu nunca fiz nada assim — ele admitiu.
Seu aniversário, no inverno passado, na estufa... mesmo então, com Aelin, ele estava metade lá, metade focado no palácio que deixou para trás, lembrando quem estava no comando e onde Dorian estava. Mas agora...
— O quê? Teve uma refeição?
— Tive uma refeição quando não estava... Tive uma refeição quando eu era apenas... Chaol.
Ele não tinha certeza se havia explicado direito, se podia explicar melhor.
Yrene inclinou a cabeça, sua massa de cabelo deslizando sobre um ombro.
— Por quê?
— Porque eu era filho de um lorde e seu herdeiro, ou capitão da Guarda, ou agora a Mão ao Rei. — Ela o olhou inabalável enquanto ele tentava explicar. — Ninguém me reconhece aqui. Ninguém nunca ouviu falar de Anielle. E isso é...
— Libertador?
— Refrescante — ele respondeu, dando a Yrene um pequeno sorriso ao eco de suas palavras anteriores.
Ela corou lindamente com a luz dourada das lanternas dentro da sala de jantar atrás delas.
— Bem... que bom.
— E você? Você sai com os amigos muitas vezes, deixa a curandeira para trás?
Yrene viu as pessoas passarem.
— Eu não tenho muitos amigos — admitiu. — Não porque eu não os queira — acrescentou, e ele sorriu. — É que apenas, na Torre, estamos todos ocupados. Às vezes, alguns de nós nos juntamos para comer ou beber alguma coisa, mas nossos horários raramente se alinham, e é mais fácil comer no salão, então... não somos realmente um grupo animado. Foi por isso que Kashin e Hasar se tornaram amigos, quando estão em Antica. Mas nunca tive a chance de fazer muito disso.
Ele quase perguntou: E jantar com homens? Mas disse em vez disso:
— Você tinha seu foco em outro lugar.
Ela assentiu.
— E talvez, um dia, talvez eu tenha tempo para sair e me divertir, mas... há pessoas que precisam da minha ajuda. Parece egoísta tomar tempo para mim, mesmo agora.
— Você não deveria se sentir desse jeito.
— E como você se sente?
Chaol riu, recostando-se quando o garçom chegou, trazendo um cântaro de chá de menta gelado. Ele esperou até que o homem se afastasse antes de dizer:
— Talvez você e eu devêssemos aprender a viver, se sobrevivermos a esta guerra.
Foi uma faca afiada e fria entre eles. Mas Yrene endireitou os ombros, o sorriso pequeno ainda desafiante, e levantou seu copo de peltre de chá.
— A viver, lorde Chaol.
Ele bateu o copo contra o dela.
— A ser Chaol e Yrene, mesmo que apenas por uma noite.



Chaol comeu até que quase não conseguia se mexer, as especiarias como pequenas revelações a cada mordida.
Eles conversaram enquanto jantavam, Yrene contando de seus meses iniciais na Torre e das exigências de seu treinamento. Então perguntou sobre o treinamento dele como capitão, e ele não queria falar de Brullo e dos outros, e ainda... Ele não podia recusar sua alegria, sua curiosidade.
E, de alguma forma, falar sobre Brullo, o homem que lhe foi um pai melhor do que o seu próprio... Ele falou e não doeu, não tanto. Uma dor menos e mais tranquila, mas que ele podia suportar. Uma que ele estava feliz em sentir, se significava honrar o legado de um bom homem contando sua história.
Então eles conversaram e comeram, e quando terminaram, ele a acompanhou até as brilhantes paredes brancas da Torre. A própria Yrene parecia brilhar com seu sorriso quando eles pararam dentro dos portões, esperando que seu cavalo fosse preparado.
— Obrigada — ela disse, suas bochechas coradas e reluzentes. — Pela refeição e pela companhia.
— Foi um prazer — disse Chaol, e era verdade.
— Eu o vejo amanhã de manhã, no palácio?
Uma pergunta desnecessária, mas ele assentiu.
Yrene mudou de um pé para outro, ainda sorrindo, ainda brilhando. Como se ela fosse o último e vibrante raio de sol, colorindo o céu muito depois que este desapareceu no horizonte.
— O que foi? — ela perguntou, e ele percebeu que a encarava.
— Obrigado por esta noite — disse Chaol, sufocando o que tentou saltar de sua língua: não consigo tirar os olhos de você.
Ela mordeu o lábio de novo, o som de cascos sobre cascalho se aproximando.
— Boa noite — ela murmurou, e deu um passo para longe.
Chaol estendeu a mão. Apenas para roçar os dedos sobre os dela.
Yrene fez uma pausa, seus dedos se curvando como se fossem as pétalas de uma flor tímida.
— Boa noite. — ele simplesmente disse.
E quando Chaol voltou para o palácio iluminado atravessando cidade, ele poderia jurar que algum peso em seu peito, em seus ombros, desaparecera. Como se ele tivesse vivido com ele toda a sua vida, inconsciente dele, e agora, mesmo com todos os que se reuniram ao seu redor, em torno de Adarlan e aqueles que ele cuidava... Quão estranho era sentir isso.
Essa leveza.

5 comentários:

  1. MDS QUE FOFOS <3 Shippo muito espero q ela n morra

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  2. "— Obrigado por esta noite — disse Chaol, sufocando o que tentou saltar de sua língua: não consigo tirar os olhos de você."

    Aaaaaaaaaaaaaaa meu coração deu cambalhotas de alegria e pelo amor de Deus SE PEGUEM LOGO

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  3. Aleluia!!!!! Eu gosto da Nesryn e do Satarq e tals, mas já tava ansiosa pra capítulos com a Yrene, nova deusa da minha vida <3 <3 <3

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  4. Eles são tão lindos juntos. O Chaol precisava de alguém como ela pra tirar aquela chatice que tinha se impregnado nele.

    Flavia

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!