29 de janeiro de 2018

Capítulo 30

Dentro da câmara interior do corredor, Nesryn não tinha como dizer por quanto tempo ela dormiu ou que horas da manhã eram. Ela dormiu intensamente, despertando para investigar os sons além de sua porta, para detectar se alguém estava agitado. Ela duvidava que Sartaq fosse o tipo que a repreenderia por dormir, mas se o rukhin realmente implicava com o príncipe sobre sua vida corte, descansar pela manhã inteira talvez não fosse a melhor forma de conquistá-los.
Então ela se mexeu e se virou na cama, conseguindo alguns minutos de sono aqui e ali, e desistiu inteiramente quando notou sombras barrando a luz abaixo da porta. Alguém, pelo menos, estava acordado no Salão de Altun.
Ela vestiu-se, parando apenas para lavar o rosto. O quarto estava quente o suficiente para que a água no jarro não estivesse fria, embora ela certamente pudesse ter aproveitado um borrifo gelado para tirar a areia dos olhos.
Trinta minutos depois, sentada na sela com Sartaq, ela lamentou esse desejo.
Ele estava de fato acordado e selando Kadara quando ela entrou no imenso salão. O poço da fogueira queimava brilhantemente como se alguém o tivesse atiçado a noite toda, mas além do príncipe e de seu ruk, o salão repleto de pilares estava vazio. Ainda estava vazio quando ele a puxou para a sela e Kadara saltou da boca da caverna.
O ar gelado bateu em seu rosto, chicoteando suas bochechas enquanto mergulhavam.
Alguns outros ruks estavam no alto. Provavelmente em busca do café da manhã, Sartaq disse a ela, sua voz suave no amanhecer emergente. E em busca da refeição da própria Kadara que eles saíam agora, distanciando-se dos três picos de Eridun e entrando profundamente nas montanhas mais além.
Só depois de Kadara ter arrebatado meia dúzia de gordos salmões prateados de um rio turquesa, lançando-os cada um no ar antes de engoli-lo sem uma mordida, que Sartaq os conduziu para um conjunto de picos menores.
— A pista de treinamento — ele disse, apontando. As rochas eram mais lisas, as quedas entre picos menos afiadas, mais como barrancos lisos e arredondados. — Onde os novatos aprendem a montar.
Embora menos brutal do que os três picos-irmãos de Dorgos, não parecia mais seguro.
— Você disse que monta Kadara desde filhote. É assim que é feito para todos os cavaleiros?
— Não quando estamos aprendendo a montar. As crianças pegam os grandes primeiro, mais dóceis, velhos demais para fazer voos longos. Aprendemos sobre eles até os treze, catorze anos, e depois encontremos o nosso próprio para aumentar a velocidade e treinar.
— Treze.
— Nós montamos pela primeira vez aos quatro. Ou os outros nos levam. Eu estava, como você sabe, alguns anos atrasado.
Nesryn apontou para a pista de treinamento.
— Vocês deixam garotos de quatro anos montarem sozinhos ali?
— Membros da família ou parentes postiços costumam ir junto nas primeiras vezes.
Nesryn piscou para a pequena cordilheira, tentando e não conseguindo imaginar seus vários sobrinhos – que ainda eram propensos a correr nus e gritar pela casa ao mero sussurro da palavra “banho” – responsáveis por não só comandar uma das bestas abaixo dela, mas permanecer na sela.
— Os clãs de cavaleiros nas estepes têm o mesmo treinamento — explicou Sartaq — a maioria consegue ficar no alto de um cavalo aos seis, e começa a aprender a manusear arcos e lanças assim que seus pés alcançam os estribos. Além da altura — uma risada no pensamento — nossas crianças têm um processo idêntico. — O sol começou a aparecer, aquecendo a pele que ela deixara exposta ao vento mordaz. — Foi como o primeiro khagan conquistou o continente. Nosso povo já era bem treinado com cavalaria, disciplinado e acostumado a carregar seus próprios suprimentos. Os outros exércitos que enfrentaram... Esses reinos não anteciparam inimigos que sabiam como atravessar o grosso gelo de inverno que acreditavam que guardaria suas cidades durante os meses frios. E eles não previram um exército que viajava leve, com engenheiros entre eles capazes criar armas à partir de quaisquer materiais que encontrassem ao chegar em seus destinos. Até hoje, a Academia de Engenheiros de Balruhn continua a ser a mais prestigiada no khaganato.
Nesryn sabia disso – o pai ainda mencionava a Academia de vez em quando. Um primo distante estudou nela e passou a ganhar um pequeno grau de fama por inventar alguma máquina de colheita.
Sartaq dirigiu Kadara para o sul, subindo acima dos picos nevados.
— Esses reinos também não anteciparam um exército que conquistava por trás, tomando rotas que poucos arriscariam. — Ele apontou para o oeste, em direção a uma faixa pálida ao longo do horizonte. — O Deserto Kyzultum é assim. Durante séculos, foi uma barreira entre as estepes e as terras mais verdes. Para tentar conquistar os territórios do sul, todos sempre fizeram o grande percurso, dando muito tempo para que os defensores reunissem uma defesa. Então, quando esses reinos ouviram o khagan e seus cem mil guerreiros estavam em movimento, eles posicionaram seus exércitos para interceptá-los. — Orgulho coloria cada uma de suas palavras. — Apenas para descobrir que o khagan e seus exércitos haviam atravessado diretamente o Kyzultum, fazendo amizade com os nômades locais que escarneciam dos reinos do sul e sendo orientado por eles. Isso permitiu que o khagan se arrastasse logo atrás deles e saqueasse suas cidades não protegidas.
Ela sentiu o sorriso dele ao seu ouvido e encontrou-se acomodando-se um pouco mais próxima dele.
— O que aconteceu então? — Ela só ouvira fragmentos das histórias, nunca um relato tão envolvente, e certamente não dos lábios de alguém nascido dessa gloriosa linhagem. — Foi guerra aberta?
— Não. Ele evitou todo combate que pudesse, na verdade. Fez de alguns líderes-chave um exemplo brutal, para que o terror se espalhasse, e quando chegou a muitas dessas cidades ou exércitos, eles baixaram os braços e aceitaram seus termos de rendição em troca de proteção. Ele usou o medo como arma, tanto quanto exerceu seu sulde.
— Ouvi dizer que ele tinha dois – suldes, quero dizer.
— Ele tinha. E meu pai ainda tem. O Ébano e o Marfim, nós os chamamos. Um sulde com crina de cavalo branca para levar em tempos de paz e um com crina de cavalo preta para portar na guerra.
— Suponho que ele tenha levado Ébano com ele nessas campanhas.
— Oh, certamente. E quando ele cruzou o Kyzultum e derrotou a primeira cidade, a notícia de que esperava resistência, a notícia de que ele realmente carregava o sulde de Ébano, se espalhou tão rápido e tão longe que quando chegou ao reino seguinte, eles nem sequer se preocuparam em reunir um exército. Apenas se renderam. O khagan recompensou-os generosamente por isso, e garantiu que outros territórios também ouvissem sobre isso. — Ele ficou em silêncio por um momento. — O rei de Adarlan não era tão inteligente ou misericordioso, não é?
— Não. — disse Nesryn, engolindo. — Ele não era. — O homem havia destruído, saqueado e escravizado. Não o homem, o demônio dentro dele. Ela acrescentou: — O exército que Erawan reuniu... Ele começou a juntá-lo muito antes de Dorian e Aelin crescerem e reivindicarem seus direitos de nascimento. Chaol, Lorde Westfall, falou-me de túneis e câmaras abaixo do palácio em Forte da Fenda que existem há anos. Lugares onde foram feitos experimentos com humanos e valg. Logo sob os pés de cortesãos cabeças de vento.
— O que levanta a questão do porquê — refletiu Sartaq. — Se ele tinha conquistado a maior parte do continente do norte, por que reunir essa força? Ele pensava que Aelin Galathynius estava morta, suponho que não antecipado seu retorno, nem Dorian Havilliard se tornando rebelde.
Ela não falara sobre as chaves de Wyrd – e ainda não conseguia se obrigar a falar sobre elas.
— Nós sempre acreditamos que Erawan estava inclinado a conquistar esse mundo. Parecia motivo suficiente.
— Mas você parece duvidosa agora.
Nesryn considerou.
— Eu simplesmente não entendo porquê. Por que todo esse esforço, por que ele quer conquistar mais quando sempre controlou secretamente o continente do norte. Erawan escapou apesar de muitos horrores. Seria porque ele deseja mergulhar nosso mundo em mais trevas? Ele deseja ser o mestre da terra?
— Talvez coisas como motivos e razões sejam estranhas aos demônios. Talvez ele apenas tenha a tendência para destruir.
Nesryn balançou a cabeça, apertando os olhos contra o sol enquanto ele subia mais alto, a luz tornando-se cegante.



Sartaq voltou para o abrigo de Eridun, deixou Kadara no grande salão e continuou o tour de Nesryn. Ele poupou-lhe o constrangimento de implorar para não usar as escadas de cordas ao longo do penhasco e levou-a através das escadas internas e corredores da montanha. Para chegar aos outros dois picos, afirmou, eles teriam que voar ou tomar uma das duas pontes entre elas. Um olhar para a ponte de madeira e Nesryn anunciou que poderia aguardar outro dia para tentar.
Voar em Kadara era uma coisa. Nesryn confiava no pássaro e confiava em seu piloto. Mas a ponte balançando, mesmo bem construída... Ela poderia precisar de uma bebida ou duas antes de tentar atravessar.
Mas havia muito o que ver na própria montanha – Rokhal, o Sussurrante, como era chamada. Os outros dois picos-irmãos que compunham os Dorgos eram Arik, o Melodioso; e Torke, o Rugidor – todos os três nomeados pela forma como o próprio vento cantava enquanto passava em volta deles.
Rokhal era o maior, que possuía mais cavernas e sua joia da coroa era o Salão de Altun perto do topo.
Mas mesmo nas câmaras abaixo de Altun, Nesryn dificilmente sabia para onde olhar enquanto o príncipe a levava através dos corredores e espaços sinuosos.
As várias cozinhas e pequenas salas de reuniões; casas e oficinas de cavaleiros de ruk; os ninhos de vários ruks, que variaram em cores do ouro de Kadara ao marrom escuro; as ferrarias onde armaduras eram forjadas de minério extraído de dentro da montanha; os curtumes onde as selas eram meticulosamente trabalhadas; os postos comerciais onde se podia trocar bens domésticos e pequenas bugigangas. E, finalmente, no topo de Rokhal, o ringue de treinamento.
Não havia nenhum muro ou vedação ao longo da cúpula ampla e plana. Somente o pequeno e redondo edifício que proporcionava um indulto do vento e frio, bem como o acesso à escada abaixo.
Nesryn estava sem fôlego quando abriram a porta de madeira ao vento cortante – e a visão que se abriu diante dela certamente levou qualquer ar restante em seus pulmões.
Mesmo voar acima e entre as montanhas parecia de alguma forma diferente disso.
Picos dominantes com os topos tomados pela neve, antigos como a terra, intocados e adormecidos. Perto, um lago comprido brilhava entre dois montes gêmeos, ruks meras sombras sobre a superfície verde petróleo.
Ela nunca tinha visto nada tão vasto e implacável, tão grande e belo. E mesmo que ela fosse tão insignificante quanto uma mosca em comparação com o tamanho das montanhas em torno deles, alguma parte de seu sangue, uma parte dela, era nascida daqui.
Sartaq ficou ao seu lado, movendo os olhos para onde a atenção dela se deslocava, como se seus olhares estivessem atados.
E quando o olhar de Nesryn pousou em uma montanha solitária e larga na outra extremidade do lago, ele respirou rapidamente. Nenhuma árvore crescia em seus lados escuros; apenas a neve proporcionava uma capa sobre os seus penhascos superiores e cume.
— Aquele é Arundin — Sartaq falou baixo, como se temesse que o vento ouvisse. — O quarto cantor em meio esses picos. — O vento realmente parecia fluir da montanha, frio e rápido. — O silencioso, nós o chamamos.
De fato, uma espécie de silêncio parecia ondular em torno daquele pico. Nas águas turquesas do lago a seus pés, havia uma imagem espelhada perfeita, tão límpida que Nesryn se perguntou se alguém poderia mergulhar em tal superfície e encontrar outro mundo, um mundo sombrio, embaixo.
— Por quê?
Sartaq virou-se, como se a visão de Arundin não fosse boa por muito tempo.
— É em suas encostas que o rukhin enterra nossos mortos. Se voarmos para perto, você verá sulde cobrindo suas laterais, os únicos marcadores dos caídos.
Era uma pergunta inteiramente inapropriada e mórbida, mas Nesryn a fez mesmo assim:
— Você será um deles um dia? Lá, ou na terra sagrada das estepes com o resto da sua família?
Sartaq tocou a pedra lisa debaixo deles.
— Essa escolha permanece diante de mim. As duas partes do meu coração provavelmente terão uma longa guerra sobre isso.
Ela certamente entendia: aquele puxão entre dois lugares.
Gritos e metal colidindo chamaram a atenção do silêncio eterno de Arundin para o real propósito do espaço em cima de Rokhal: o ringue de treinamento.
Homens e mulheres vestidos em couro de luta estavam em vários círculos e estações. Algumas flechas eram disparadas em alvos com uma precisão impressionante, lanças eram lançadas, espadas batiam em espadas. Os cavaleiros mais velhos gritavam ordens, corrigindo a postura, seguindo os guerreiros.
Alguns giraram na direção de Sartaq enquanto ele e Nesryn se aproximavam do anel de treino na extremidade mais distante do espaço. O circuito de tiro com arco.
Com o vento, o frio... Nesryn encontrou-se calculando esses fatores. Admirando mais ainda a habilidade dos arqueiros. E, de alguma forma, ela não ficou surpresa ao encontrar Borte entre os três arqueiros mirando nos bonecos estofados, suas tranças longas balançando ao vento.
— Está aqui para eu chutar a sua bunda de novo, irmão? — o sorriso de Borte estava cheio daquele deleite perverso.
Sartaq soltou sua risada rica e agradável novamente, pegando um arco longo e uma aljava. Ele cutucou sua irmã do coração de lado com um movimento do quadril, encaixando uma flecha com facilidade. Ele apontou, disparou, e Nesryn sorriu quando a flecha encontrou seu lugar, bem no pescoço do manequim.
— Impressionante, para um príncipe — Borte falou. Ela se virou para Nesryn, as sobrancelhas escuras se erguendo. — E você?
Certo, então. Escondendo seu sorriso, Nesryn tirou o casaco mais pesado de lã, deu a Borte uma inclinação de cabeça e aproximou-se da prateleira de flechas e arcos. O vento da montanha era estimulante com apenas seus couros para manter o calor, mas ela bloqueou os sussurros de Rokhal enquanto deslizava os dedos para a madeira esculpida. Teixo, madeira cinzenta... Ela pegou um dos arcos de teixo, testando seu peso, sua flexibilidade e resistência. Uma arma sólida e mortal.
Ainda familiar. Tão familiar quanto um velho amigo. Ela não pegou um arco até a morte de sua mãe, e durante os primeiros anos de dor e entorpecimento, o treinamento físico, a concentração e a força exigida tinham sido um santuário, um indulto e uma forja.
Ela se perguntou se algum dos seus antigos tutores sobreviveu ao ataque a Forte da Fenda. Se alguma de suas flechas tinha derrubado alguma serpente alada. Ou desacelerado o suficiente para salvar vidas.
Nesryn deixou o pensamento se acomodar enquanto se movia para as aljavas, pegando as flechas. As flechas de metal eram mais pesadas do que aquelas que ela usara em Adarlan, o eixo ligeiramente mais espesso. Projetadas para cortar ventos brutais em alta velocidade. Talvez, se tivessem sorte, para atirar em uma serpente alada ou duas.
Ela escolheu setas de várias aljavas, colocando-as em sua própria antes de prendê-la para trás e se aproximar da linha onde Borte, Sartaq e alguns outros observavam silenciosamente.
— Escolha um alvo — disse Nesryn à Borte.
A mulher sorriu.
— Pescoço, coração, cabeça. — Ela apontou para cada um dos três manequins, um alvo diferente para cada um.
O vento os sacudia, a mira e a força necessária para atingir cada um completamente diferente. Borte sabia disso.
Todos os guerreiros aqui sabiam.
Nesryn ergueu um braço para trás da cabeça, passando os dedos ao longo da flecha, as penas ondulando contra sua pele enquanto examinava os três alvos. Ouviu o murmúrio dos ventos correndo através do Rokhal, aquela invocação selvagem que ela ouviu ecoar em seu próprio coração. Buscadora do Vento, sua mãe a chamava.
Uma após a outra, Nesryn retirou uma flecha e disparou.
De novo e de novo e de novo.
De novo e de novo e de novo.
De novo e de novo e de novo.
E quando terminou, apenas o vento uivante respondeu – o vento de Torke, o Rugidor. O anel de treinamento parou. Olhando o que ela tinha feito.
Em vez de três flechas distribuídas entre os três manequins, ela disparara nove.
Três fileiras de tiros perfeitamente alinhados em cada um: coração, pescoço e cabeça. Nenhum centímetro de diferença. Até com os ventos cantores.
Sartaq sorria quando ela se virou para ele, sua trança longa tremulando atrás dele, como se fosse de um sulde.
Mas Borte passou por ele e disse para Nesryn:
— Mostre-me.



Por horas, Nesryn ficou no topo do anel de treino de Rokhal e explicou como o fez, como calculava o vento, peso e ar. E tanto quanto mostrou às várias pessoas que se aproximaram, elas também demonstraram suas próprias técnicas. A maneira como se viravam sobre suas selas para disparar para trás, que arcos usavam para caçar ou batalhar.
As bochechas de Nesryn estavam insensíveis pelo vento, as mãos entorpecidas, mas ela sorria – largamente e sem parar – quando Sartaq foi abordado por um mensageiro sem fôlego que surgiu de repente do vão da escada.
Sua mãe postiça já havia voltado.
O rosto de Sartaq não revelou nada, embora um aceno dele tivesse feito com que Borte ordenasse a todos os espectadores que voltassem para suas várias estações. Eles fizeram isso com alguns sorrisos de “obrigado” e “de nada” a Nesryn, que respondeu com uma inclinação de cabeça.
Sartaq colocou a aljava e o arco na prateleira de madeira, estendendo a mão para os de Nesryn. Ela passou para ele, flexionando os dedos depois de horas segurando o arco e as flecha.
— Ela estará cansada — apontou Borte, com uma espada curta na mão. Seu treinamento, aparentemente, não terminara pelo dia. — Não a incomodem demais.
Sartaq lançou um olhar incrédulo para Borte.
— Você acha que eu quero ser golpeado com uma colher de novo?
Nesryn sufocou o riso, mas enfiou os ombros no casaco cor de cobalto e ouro forrado de lã, fechando-o firmemente.
Ela seguiu o príncipe enquanto se dirigia para o interior quente, alisando seus cabelos lançados pelo vento enquanto desciam a escadaria escura.
— Embora Borte um dia vá liderar o Eridun, ela treina com os outros?
— Sim — disse Sartaq sem olhar por cima do ombro. — As mães postiças sabem como lutar, como atacar e defender. Mas o treinamento de Borte inclui outras coisas.
— Como aprender as diferentes línguas do mundo. — Seu uso da língua do norte era tão impecável como a de Sartaq.
— Como isso. E história e... mais. Coisas que nem Borte nem sua avó me contaram. — As palavras ecoaram as pedras ao redor deles.
— Onde está a mãe de Borte? — Nesryn ousou perguntar.
Os ombros de Sartaq ficaram tensos.
— Seu sulde está nas encostas de Arundin.
O modo como ele falou, o frio de sua voz...
— Eu sinto muito.
— Eu também — disse Sartaq.
— E o pai dela?
— Um homem que a mãe dela encontrou em terras distantes, e em quem não se interessou por mais do que uma noite.
Nesryn considerou a mulher feroz e maliciosa que lutava com habilidade no treinamento.
— Fico feliz que ela tenha você, então. E a avó dela.
Sartaq deu de ombros. Território perigoso e estranho – de alguma forma ela fora para um lugar onde não tinha direito de entrar.
— Você é uma boa professora — Sartaq disse apenas.
— Obrigada.
Era tudo o que ela podia pensar para dizer. Ele se mantivera perto ao lado dela enquanto ela encaminhava os outros através de suas várias posições e técnicas, mas dissera pouco. Um líder que não precisava falar e vangloriar-se constantemente.
Ele soltou uma respiração, afundando os ombros.
— E estou aliviado ao ver que a realidade faz jus à lenda.
Nesryn riu, grata por voltar a um terreno mais seguro.
— Você teve dúvidas?
Chegaram ao patamar que os levaria ao salão. Sartaq deixou-a ajustar o passo ao seu lado.
— Os relatórios deixaram de lado algumas informações importantes. Isso me fez duvidar de sua precisão.
Foi o brilho malicioso em seus olhos que fez com que Nesryn inclinasse sua cabeça.
— O que, exatamente, eles não mencionaram?
Eles alcançaram o grande salão, vazio salvo por uma figura com capuz visível do outro lado da fogueira – e alguém sentado ao lado dela.
Mas Sartaq virou-se para ela, examinando-a da cabeça aos pés e de volta à cabeça.
— Eles não mencionaram que você é linda.
Nesryn abriu e fechou a boca no que ela tinha certeza ser uma paródia incomparável de um peixe em terra seca.
Com uma piscadela, Sartaq avançou, chamando:
— Ej. — O termo da rukhin para mãe, ele havia dito.
Nesryn correu atrás dele. Eles deram a volta na grande fogueira, e a figura sentada na parte superior dos degraus puxou seu capuz para trás.
Ela esperava uma velha mulher, curvada pela idade e desdentada.
Em vez disso, uma mulher de costas retas com cabelo trançado cor de ônix e rajado de prateado sorriu sombriamente para Sartaq. E embora a idade realmente tocasse seus traços... era o rosto de Borte. Ou o rosto de Borte daqui quarenta anos.
A mãe postiça usava os couros de um cavaleiro, embora seu manto azul escuro – na verdade uma jaqueta que ela deixara pendurada sobre os ombros – cobria uma grande parte deles.
Mas ao seu lado... Falkan. Seu rosto era igualmente grave, aqueles olhos escuros de safira examinando-os. Sartaq mudou seu ritmo à visão do comerciante, irritado por não ter sido o primeiro a reivindicar a atenção dela ou simplesmente que o homem estivesse presente nesta reunião.
Boas maneiras ou instintos de autopreservação o levaram em frente, e Sartaq continuou sua abordagem, descendo para o primeiro degrau na beira do poço para avançar o resto do caminho.
Houlun levantou-se quando ele estava perto, envolvendo-o com um abraço rápido e duro. Ela segurou seus ombros quando terminou, a mulher quase tão alta quanto ele, ombros fortes e coxas bem musculosas, e examinou Sartaq com um olhar perspicaz.
— Tristeza ainda pesa sobre você — ela observou, uma mão salpicada de cicatrizes sobre a elevação da bochecha de Sartaq. — E preocupação.
Os olhos de Sartaq se fecharam antes de ele abaixar a cabeça.
— Senti sua falta, Ej.
— Seu adulador — Houlun repreendeu, acariciando sua bochecha.
Para o prazer de Nesryn, ela poderia jurar que o príncipe corou.
A luz do fogo iluminou os poucos fios de prata nos cabelos de Houlun com vermelho e ouro enquanto olhava para trás dos ombros largos de Sartaq para onde Nesryn estava no topo do poço.
— E a arqueira do norte chega finalmente. — Uma inclinação de cabeça. — Eu sou Houlun, filha de Dochin, mas você pode me chamar Ej, como os outros fazem.
Um olhar para os olhos castanhos da mulher e Nesryn sabia que Houlun não era alguém que deixava algo passar.
Nesryn inclinou a cabeça.
— É uma honra.
A mãe postiça a encarou por um longo momento. Nesryn encontrou seu olhar, permanecendo tão imóvel quanto poderia. Deixando a mulher ver o que queria.
Finalmente, os olhos de Houlun deslizaram em direção a Sartaq.
— Temos questões para discutir.
Não mais sob aquele olhar feroz, Nesryn exalou, mas manteve a espinha ereta.
Sartaq assentiu, com algo de alívio no rosto. Mas ele olhou para Falkan, observando tudo de seu assento.
— São coisas que devem ser ditas em particular, Ej.
Não foi rude, mas certamente não foi calorosa. Nesryn absteve-se de fazer eco do sentimento do príncipe.
Houlun fez uma careta.
— Então isso pode esperar. — Ela apontou para o banco de pedra. — Sente.
— Ej...
Falkan se moveu, como se prestes a fazer um favor a todos eles e ir embora.
Mas Houlun se virou para ele em alerta silencioso para permanecer.
— Eu gostaria que todos vocês ouvissem.
Sartaq sentou no banco, o único sinal de seu descontentamento sendo o pé que ele bateu no chão. Nesryn pegou um lugar ao lado dele, a mulher severa reclamando seu assento entre eles e Falkan.
— Um antigo mal está se agitando nas montanhas — disse Houlun. — Foi por isso que estive fora nos últimos dias, para procurá-lo.
— Ej. — Atenção e medo cobraram a voz do príncipe.
— Eu não sou tão velha que não possa usar meu sulde, garoto. — Ela encarou-o. Na verdade, nada sobre essa mulher parecia velho.
— O que procurava? — Sartaq perguntou, franzindo o cenho.
Houlun procurou ao redor em busca de qualquer ouvido próximo.
— Os ninhos ruk foram saqueados. Ovos roubados durante a noite noite, filhotes que desapareceram.
Sartaq praguejou, sujo e baixo. Nesryn piscou, mesmo quando seu estômago se apertou.
— Criminosos não ousaram andar nessas montanhas por décadas — disse o príncipe. — Mas você não deveria tê-los procurado sozinha, Ej.
— Não foram caçadores furtivos que busquei. Mas algo pior.
Sombras alinhavam o rosto da mulher, e Nesryn engoliu. Se os valg tivessem vindo para cá...
— Minha própria ej as chamava de kharankui.
— Significa sombra e escuridão. — murmurou Sartaq a Nesryn, medo tensionando seu rosto.
O coração dela trovejou. Os valg já deveriam estar aqui.
— Mas em suas terras — Houlun continuou, olhando entre Nesryn e Falkan — eles chamam de algo diferente, não?
Nesryn dimensionou Falkan enquanto ele engolia, imaginando consigo mesma como mentir ou evitar revelar tudo sobre os valg.
Mas Falkan assentiu. E ele respondeu, voz mal audível acima da chama:
— Nós as chamamos de aranhas estígias.

3 comentários:

  1. Quuaaa espera aí essas aranhas são as mesmas que aparecem em Herdeira do Fogo? Eu não lembro com clareza, mas a Manon♥️ é quem se encontra com elas e só pra saber: Já não temos merda o suficiente?

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  2. Eu ouvi um UFAaa em coro?
    Kkk
    Jurei que eram os vlag kk

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!