15 de janeiro de 2018

Capítulo 30. Temos de continuar!

— Pois é isso, meus amigos. Com a ajuda da Interpol, investigamos direitinho a Pain Control.
Andrade e os cinco Karas tinham marcado encontro num lugar discreto, pois assim havia pedido Miguel. E esse lugar era o zoológico.
De camisa esporte, caminhando pelas alamedas do Zoológico de São Paulo, com um sorvete na mão, o detetive Andrade mais parecia um professor cercado por seus alunos. Naquele dia, Andrade não estava suando.
— O Doutor Q.I. comandava toda a organização em uma salinha secreta que só tinha entrada pela sala da diretoria do Elite. Ali descobrimos o intercomunicador. Mas a minha curiosidade era saber como o Doutor Q.I. poderia ter controlado daquela maneira uma empresa importante como a Pain Control. Com a ajuda da Interpol, porém, recebi a resposta em menos de um dia.
— Eu também tinha pensado nisso, detetive Andrade — disse Crânio. — O que descobriu?
— Os acionistas da Pain Control estão espalhados pelo mundo inteiro. Uma firma de advogados conseguiu uma procuração de todos eles para representá-los na assembleia de acionistas. Acontece que o Doutor Q.I. controlava a tal firma de advogados. Assim, foi fácil eleger testas-de-ferro para dirigir todas as filiais da Pain Control, enquanto o próprio Doutor Q.I. ficava por trás de tudo, comandando a todos.
— Eta sujeito brilhante! — comentou Calú.
— Um dos mais brilhantes criminosos que já conheci — concordou Andrade.
— E o que vai acontecer com os bandidos?
— Todos vão responder processo como co-autores dos sequestros e dos assassinatos. A maioria dos funcionários e operários da Pain Control estava fora da trama. Trabalhavam apenas com os medicamentos normais e nem desconfiavam da existência da Droga da Obediência. Só vinte e poucos deles, incluindo o Doutor Q.I. e o detetive Rubens, sabiam dos meninos sequestrados. A área do prédio onde ficavam os sequestrados era proibida para os outros funcionários.
— E o Bino?
— Já conseguimos pegá-lo. Ele agia sob vários nomes: Bino, Caca, Joca e muitos outros. O plano era simples. Um dos bandidos aparecia em um colégio pedindo que seu “filho” frequentasse as aulas por uma ou duas semanas até que fossem liberados os documentos do colégio anterior. Fornecia um endereço falso e pronto. Em geral, todos os colégios aceitam provisoriamente matrículas desse jeito. Por isso o plano de colocar o Bino em qualquer colégio que quisessem sempre dava certo.
— Bino também está preso?
— Ele é menor de idade. Está à disposição do Juizado. O juiz de menores é que vai decidir a sorte do Bino.
Estavam todos apoiados na mureta que dá para o fosso dos ursos pardos.
Aquelas enormes almofadas marrons pareciam tão quentes e fofinhas que Chumbinho ficou imaginando como seria gostoso descer até lá e abraçar-se com um deles. Crânio quebrou o breve silêncio:
— Qual é o verdadeiro nome do Doutor Q.I.?
Andrade estava acabando de comer a casquinha de biscoito do sorvete:
— Ainda não foi possível descobrir. Ele se recusa a falar e parece que não existe ficha criminal dele em nenhuma parte do mundo. Mas, qualquer que seja o seu nome, a coisa está bem ruim para o lado do Doutor Q.I. ...
— Com essa prisão, as coisas mudaram lá no Elite — informou Chumbinho, esquecendo a vontade de abraçar os ursos.
— Mudou? Como?
— Com a saída do professor Cardoso, quer dizer, com a prisão do Doutor Q.I., a Associação de Pais e Mestres assumiu a direção do colégio.
— E o que muda com isso?
— A direção — respondeu Chumbinho. — As decisões vão continuar sendo tomadas pelo conselho de professores e alunos. Bem do jeitinho que era com o Doutor Q.I. como diretor.
— E isso mesmo — concordou Magrí. — O sistema liberal do Elite é uma criação do Doutor Q.I.!
— Ele foi capaz de criar um sistema democrático absoluto, de um lado — raciocinou Crânio —, enquanto tentava criar a mais absoluta tirania, do outro...
Andrade colocou as mãos nos ombros do líder dos Karas:
— Ele sabia olhar as coisas pelos dois lados, não é, Miguel?
— Era um crânio! — concluiu Magrí.
— Ei, espera aí! — protestou Crânio. — O único Crânio do mundo sou eu!

* * *

No quarto de Miguel, o aparelho de televisão ligado jogava uma luz azulada sobre o corpo do rapazinho estirado na cama, com a cabeça apoiada nas mãos cruzadas atrás da nuca.
Miguel olhava com atenção para a querida imagem do detetive Andrade, suando sob o calor das luzes dos refletores, no debate sobre o assunto do momento: a Droga da Obediência.
Educadores, psicólogos, sociólogos e figuras de respeito da sociedade participavam do debate. Andrade, entre elogiado e pressionado, saía-se da melhor forma possível. Enquanto as palavras do debate percorriam os sentidos do garoto, uma sombra passou pelo seu ânimo. Uma ponta de remorso. Aquele policial tão dedicado, que passara noites sem dormir investigando os sequestros. só tinha merecido suspeitas por parte de Miguel. E Rubens, elegante demônio, tinha enganado completamente o líder dos Karas.
— A sociedade inteira tem uma dívida de gratidão para com o senhor, detetive Andrade — dizia um dos debatedores.
Líder dos Karas! Que ironia! O pensamento de Miguel afundava cada vez mais naquela dolorosa autocrítica. Que líder era ele, se tinha considerado Chumbinho um fedelho intrometido, de quem os Karas deveriam livrar-se? Logo Chumbinho, o pequeno herói que tinha enfrentado as piores situações sem fraquejar jamais? Logo Chumbinho, que tinha passado aos Karas as mais importantes informações que haviam possibilitado a solução daquele caso? E logo Chumbinho, que tinha desligado a chave geral de energia da Pain Control, evitando uma batalha sangrenta no final da história? Na televisão, um senhor muito afetado falava com entusiasmo:
— A questão mais importante a discutir neste debate é a própria Droga da Obediência. Quais seriam realmente seus efeitos? Quais os seus danos?
Líder dos Karas! Mas não tinha sido ele, o próprio Miguel, quem havia jogado Chumbinho contra Bino, pensando que Bino era um inocente novato? Grande líder! Nem mesmo a mensagem de Chumbinho ele tinha entendido... Ele imaginara que o da mensagem queria dizer que Bino tinha também sido raptado, quando Chumbinho tentava informar que Bino era o oferecedor... Quanto tempo perdido por causa daquele erro!
— Os efeitos da Droga da Obediência poderiam até ser bem aplicados — dizia outro debatedor. — Ou mal aplicados, como no plano sinistro do Doutor Q.I....
Grande líder! Um líder que havia exposto todos os Karas à quadrilha do Doutor Q.I., com a ideia de fingir que todos também haviam sido sequestrados. Que ideia estúpida!
— Sequestrar e manter em cárcere privado dezenas de meninos e meninas foi realmente um crime hediondo — protestou outro rebatedor. — Mas é claro que não podemos ficar contra a energia nuclear só porque jogaram uma bomba atômica em Hiroxima!
depressão tinha tomado conta de Miguel. À sua memória vinha a imagem do Doutor Q.I., tentando convencê-lo a fazer parte da quadrilha, com um argumento aterrador: não era ele, Miguel, uma espécie de pequeno ditador dos Karas? Não era ele, Miguel, um autoritário? Ele era obrigado a concordar com o Doutor Q.I. Sim, ele era um ditador. Sim, ele era um autoritário. E, mais que tudo, ele era um líder incapaz, que havia errado várias vezes durante aquela batalha...
Uma lágrima percorreu a face do garoto e foi salgar-lhe a boca no momento em que ele decidia que o melhor era dissolver o grupo dos Karas. Ele não poderia expor aqueles quatro maravilhosos amigos à sua incapacidade e ao seu autoritarismo... Na televisão, o clima estava explosivo. Todos queriam falar ao mesmo tempo, e Andrade, suando como nunca, tentava interromper o orador, que berrava entusiasmadamente:
— A Droga da Obediência, como todas as descobertas científicas, é um bem! Devemos pesquisá-la e usá-la com cautela, sob o controle das entidades governamentais. Vivemos atualmente uma crise de autoridade, que pode ser resolvida com a Droga da Obediência! Afinal de contas, um pouco de obediência não há de fazer mal à nossa juventude!
Os olhos de Miguel apertaram-se. Então todo aquele trabalho só tinha servido para aquilo? As pessoas mais importantes da sociedade julgavam que a Droga da Obediência poderia ser um bem? Miguel pressionou o botão do controle remoto e o televisor apagou-se. Deitado no quarto às escuras, o rapazinho decidiu que não importavam os erros. O que importava era a luta, que tinha de continuar. O que importava eram os Karas, que tinham de continuar!
Havia ainda muito a ser feito. Os Karas tinham vencido uma batalha, mas a guerra ainda estava longe, muito longe de terminar!

12 comentários:

  1. O que? Acabou? Nãaaoooo!! Quero maisss :'(

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  2. Adorei o final. ...

    Flavia

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  3. ainda bem que acabou na minha opiniao odiei o livro so li pq era trabalho de escola tenho mais oque fazer ex: assitir pll

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    1. Também só li esse livro Por que era um trabalho de escola mas eu gostei do livro

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    2. Pena que ngm te perguntou né bb

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  4. Amei o livro era só pra ser um trabalho de escola mas acho q vou ler dnv amei mt ❤❤❤

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  5. Amei o livro era só pra ser um trabalho de escola mas acho q vou ler dnv amei mt ❤❤❤

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  6. Aaahhh que orgulho dos babys!! ❤

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  7. Amei o livro (só li ele pq era trabalho de escola) mas achei muito legal e empolgante!


    Ana Júlia

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Boa leitura, E SEM SPOILER!