15 de janeiro de 2018

Capítulo 3. Investigação no Elite

Todas as manhãs, a chegada dos estudantes ao Colégio Elite era uma algazarra total. Naquela terça-feira, a excitação era muito maior, pois o desaparecimento do Bronca não era coisa que se conseguisse manter em segredo, embora o diretor do colégio tivesse tentado abafar o escândalo de todas as maneiras.
Os Karas tinham passado todo o dia anterior investigando secretamente, e a polícia também tinha feito a sua parte. Por todos os lados, policiais fardados e à paisana espalhavam-se como se o Elite estivesse para ser atacado por um exército.
Agora Miguel estava ali, na sala do professor Cardoso, o diretor do Colégio Elite. Um homem importante. Nacionalmente, ou melhor, mundialmente respeitado como o criador de uma experiência educacional avançadíssima, o Colégio Elite.
Naquele colégio, a palavra diálogo traduzia o relacionamento entre alunos e professores, ou entre representantes dos alunos e direção do colégio. E ali estavam Miguel, como presidente do Grêmio, e o professor Cardoso, como diretor.
— Miguel, eu conto com você — começou o diretor. — É preciso manter os estudantes tranquilos e confiantes na atuação da polícia. Tudo está sob controle. Não há nada a temer. A polícia irá tomar as providências.
— Que providências, professor Cardoso? A polícia já encontrou o Bronca? Já sabe o que aconteceu com os outros estudantes desaparecidos?
— Ainda não, Miguel. Mas...
— Então a única forma de acalmar os alunos do Elite é falar a verdade para eles.
O professor Cardoso encarou Miguel, com uma expressão divertida:
— A verdade? Qual verdade?
— Só existe uma verdade, professor Cardoso.
— É mesmo? — sorriu o diretor. — E qual é ela?
— É falar francamente do desaparecimento do Bronca. É contar a eles tudo o que a polícia já descobriu. É alertá-los para que eles possam se proteger e evitar que um deles seja a próxima vítima.
— A próxima vítima? Quem lhe disse que haverá uma próxima vítima?
— E quem garante que não haverá, professor Cardoso?
O diretor recostou-se no espaldar alto de sua cadeira giratória. Percebeu que não seria fácil dobrar a personalidade do rapazinho.
— Eu não posso garantir a você que nenhum outro garoto será sequestrado, Miguel. Mas eu posso assegurar-lhe que qualquer escândalo maior em torno do desaparecimento do nosso aluno só poderá ser prejudicial ao Elite.
— Acho que não se trata de evitar escândalos envolvendo o Elite, professor Cardoso. O Elite já está envolvido.
O diretor suspirou profundamente:
— Há pouco você disse que só existe uma verdade, não foi, Miguel? Você ainda é muito jovem, não faltará ocasião de aprender que as coisas são relativas. A verdade tem várias facetas. Dependendo do lado que se olha, um mesmo fato pode parecer totalmente diferente.
— Eu só vejo um modo de olhar a verdade — interrompeu Miguel.
— O modo certo.
O professor Cardoso ignorou a interrupção:
— Veja o caso do desaparecimento do Bronca, por exemplo. Se alertarmos nossos alunos, talvez estejamos alertando também os sequestradores. Se contarmos a todo mundo o que sabemos, talvez estejamos nos revelando também para os bandidos.
— O senhor quer dizer que já há suspeitos aqui mesmo, no Elite?
— Eu não disse isso. Para não prejudicar as investigações, a
polícia não está confiando nem em mim. E eles estão muito certos. Já conseguimos também a colaboração da imprensa. Nenhuma providência policial será noticiada até que os estudantes sejam encontrados. Só falta agora a sua colaboração, Miguel. Conhecemos a sua liderança e contamos com ela. Temos de impedir o pânico dentro do Elite. É só isso que eu peço: impedir o pânico.
— Verei o que posso fazer, professor Cardoso. Nesse momento, a secretária do diretor abriu a porta:
— Professor Cardoso, os policiais chegaram.
— Eu estava esperando por eles. Peça para entrarem, por favor.
 Eram dois detetives de terno, com expressão sisuda, própria da profissão, e cansada, de quem estava às voltas com vinte e oito desaparecimentos de estudantes. Sentaram-se no amplo sofá da diretoria. Um deles brincava com um molho de chaves, fazendo um barulho ritmado, irritante.
O professor Cardoso apontou para o mais velho dos dois homens, um sujeito meio gordo, suarento, que mal cabia no terno surrado.
— Miguel, este é o detetive Andrade. Ele quer fazer algumas perguntas a você.
O detetive enxugou o suor do pescoço e da careca com um lenço amarrotado e falou, sem olhar para o garoto, como se estivesse interrogando as paredes:
— Eu estou no comando das investigações, meu rapaz, embora ache que não há nada para investigar. Essa juventude irresponsável é assim mesmo. Vai ver, o tal garoto... Como é mesmo o apelido dele? Bronca, não é? Vai ver, o tal do Bronca está por aí aprontando alguma confusão, enquanto faz a polícia perder tempo. Na certa, daqui a pouco vai reaparecer com a cara mais sem-vergonha do mundo. Ah, essa juventude!
O outro detetive levantou-se, caminhou até Miguel e colocou a mão amigavelmente no ombro do garoto. Era mais moço que Andrade, e Miguel sentiu uma sensação de conforto, de amizade, no rosto simpático e bem barbeado do detetive.
— Como vai, Miguel? Eu sou o detetive Rubens. Já ouvi dizer que você é um ótimo presidente do Grêmio do colégio. Pode ficar tranquilo. Vamos descobrir o que aconteceu com o Bronca.
A grossa porta da sala do diretor foi aberta naquele momento e por ela entrou Chumbinho, acompanhado por um guarda. Miguel ouviu novamente o barulhinho chato do molho de chaves.
— Com licença, detetive Andrade — pediu o guarda, apontando Chumbinho — mas parece que este menino foi o último a encontrar-se com o desaparecido.
Andrade levantou-se do sofá com dificuldade. A sua expressão era de desinteresse, mas, no seu olhar, Miguel percebeu um brilho que desmentia a expressão.
— Você foi o último a ver o Bronca, não é, garoto?
O coração de Miguel bateu apressadamente. Havia alguma coisa estranha, alguma coisa muito estranha no ar. E ele decidiu que a situação não era para confiar. Mas, e Chumbinho? Será que ele conhecia mesmo todos os sinais e códigos secretos dos Karas?
— Acho que fui eu, sim — ia dizendo o menino no momento em que Miguel cruzou os braços.
Sim. Chumbinho sabia o que significavam os braços cruzados. Era o sinal de silêncio dos Karas. Equivalia a um dedo encostado nos lábios, só que ninguém sequer desconfiava. Era preciso ser um Kara, e Chumbinho, agora, era um deles.
— E então, menino? — perguntou o detetive Andrade, irritado. — O que você viu? O que o tal Bronca disse? Havia algum desconhecido com ele? Havia alguma coisa estranha com ele? Ele disse alguma coisa? Vamos, fale, garoto!
Os olhos do Chumbinho piscaram inocentemente:
— Bem... sabe? Eu tinha dado uma escapadinha até o fliperama, né? É que eu sou muito bom em fliperama, sabe? Pois é, acho que eu sou o melhor do colégio. Junta gente em volta quando eu estou jogando..
— Tá bom, garoto. E o Bronca?
— Ah, o Bronca não é muito bom em flíper, não. Ele é meio esquentado, não tem paciência, sabe?
— E daí?
— E daí que ser bom em fliperama não é pra qualquer um. Eu, por exemplo...
Andrade perdeu a paciência:
— Vamos, garoto. Eu não tenho o dia todo. Vamos direto ao ponto.
— Que ponto?
— O Bronca, menino! Você encontrou ou não encontrou o Bronca?
— O Bronca? Ah, sim, o Bronca. É claro que eu encontrei.
— E o que foi que ele disse?
— Ele disse oi.
— Oi?
— Oi.
— E você?
— Eu o quê?
— O que é que você disse?
— Eu? Eu respondi oi, também.
O rosto de Andrade avermelhou-se. O detetive estava furioso e apertava o lenço com ambas as mãos, enquanto o suor gotejava-lhe pela careca. Sua voz saiu espremida, com raiva:
— Você está me gozando, moleque?
— Eu? Eu não, senhor... Rubens sorriu para Chumbinho:
— Foi só isso? Ele não disse mais nada? Chumbinho continuou com carinha inocente:
— Não. Foi só oi. Ele devia ter dito outra coisa? Foi aí que o detetive Andrade explodiu:
— Ponha-se daqui pra fora, moleque! E você aí, descruze os braços. Isso não é modo de se portar diante de uma autoridade!
Quando a porta da diretoria se fechou atrás dos garotos, Miguel podia ouvir o irritante barulhinho do molho de chaves nas mãos do detetive.

3 comentários:

  1. — E o que foi que ele disse?
    — Ele disse oi.
    — Oi?
    — Oi.
    — E você?
    — Eu o quê?
    — O que é que você disse?
    — Eu? Eu respondi oi, também.
    Morrendo de rir

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  2. — O Bronca, menino! Você encontrou ou não encontrou o Bronca?
    — O Bronca? Ah, sim, o Bronca. É claro que eu encontrei.
    — E o que foi que ele disse?
    — Ele disse oi.
    — Oi?
    — Oi.
    — E você?
    — Eu o quê?
    — O que é que você disse?
    — Eu? Eu respondi oi, também.

    Morri kkkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!