15 de janeiro de 2018

Capítulo 29. E o Doutor Q.I.?

O detetive Andrade tinha ficado de boca aberta:
— Mas como, Miguel? Como eu posso deixar vocês fora disso? Você, Chumbinho, Magrí, Calú e Crânio foram os verdadeiros detetives que desmascararam a quadrilha da Droga da Obediência. Vocês são heróis de verdade! A imprensa precisa saber disso. Todo mundo precisa saber disso!
Enquanto esperavam a chegada dos carros da polícia para levar os bandidos da Pain Control, Miguel negava com firmeza:
— Por favor, detetive Andrade. Nós não queremos que ninguém fique sabendo da nossa participação nesse caso. Queremos ficar na sombra. A glória deve ser toda sua. Diga que nós fomos sequestrados como os outros garotos e que o senhor nos salvou a todos. Não queremos aparecer.
— Mas por quê?
— Temos nossas razões. Por favor, não pergunte quais são.

* * *

Andrade tinha sido obrigado a concordar. Por isso, desde o dia anterior até à manhã daquela sexta-feira, cinco dias depois que Miguel tinha convocado os Karas para a emergência máxima, a imprensa de todo o país estava fazendo um estardalhaço nunca visto em torno de Andrade.
Era o herói que todos aplaudiam. O cérebro dedutivo que, “sozinho”, havia descoberto a pista daqueles sequestros tão misteriosos. O policial destemido que, sem a ajuda de ninguém, havia penetrado no covil dos raptores e prendido a quadrilha toda. Mais de vinte bandidos!
Era a glória da polícia de São Paulo. O servidor dedicado, cujo heroísmo apagava a vergonha que o corrupto detetive Rubens causara a todos os policiais.
Andrade recusou todas as homenagens. Tinha cumprido com o seu dever e não queria bajulações. Já estava envolvido com outro caso e não tinha tempo para nada. A única entrevista não-oficial que aceitou conceder foi quando o professor Cardoso, o diretor do Colégio Elite, convocou-o para uma reunião na sala da diretoria.
Enquanto atravessava o pátio do Elite, Andrade viu-se cercado pela garotada e teve de conceder autógrafos como se fosse um artista de cinema. Assim, quando entrou na sala do professor Cardoso, o gordo detetive estava suado, enxugando a careca com seu lenço amarrotado.
— Bem-vindo ao Elite, detetive Andrade! —cumprimentou o diretor, caminhando até o policial e abraçando-o calorosamente.
Na sala já se encontravam os heroizinhos anônimos Miguel, Crânio, Chumbinho, Calú e Magrí, todos com carinhas de inocentes colegiais indefesos. Andrade olhava para eles e sentia um nó na garganta: queria que eles fossem seus filhos, gostaria de poder colocar no colo cada um deles. Na verdade, Andrade sentia como se eles já fossem seus filhos.
— Sente-se, meu caro Andrade — convidou o professor Cardoso.
— Nosso colégio será eternamente agradecido ao senhor. Afinal de contas, o Elite foi o mais atingido de todos os colégios. Seis alunos daqui foram sequestrados, enquanto somente dois garotos desapareceram de cada um dos outros colégios. O terceiro de cada um dos colégios era sempre o mesmo Bino, não é? Infelizmente um dos nossos alunos foi assassinado. Mas os outros cinco estão aqui.
O professor Cardoso fez uma pausa. Caminhou até os cinco Karas e pôs a mão no ombro de Miguel.
— Temos muito a agradecer ao senhor, detetive Andrade. Por isso Miguel, como presidente do Grêmio do Colégio Elite, pediu-me que convocasse esta reunião. Ele tem um pequeno discurso de agradecimento para o senhor, que expressa o que todos nós sentimos.
Miguel levantou-se sorrindo jovialmente, como se fosse o orador da turma em festa de formatura.
— Obrigado, professor Cardoso. Sinto-me honrado e extremamente aliviado por estar, neste momento, encarregado de dirigir estas breves palavras ao nosso querido herói, o detetive Andrade.
Logo Miguel? Fazendo um discurso careta como aquele? Andrade não conhecia o rapaz profundamente, mas o tinha visto em combate: tratava-se de um líder de poucas palavras e muita ação. Andrade sentiu-se pouco à vontade. Que história era aquela?
— ... honrado por ser o porta-voz da gratidão de todos nós — continuou Miguel. — E aliviado por poder estar aqui, inteiro e vivo, graças ao heroísmo do senhor, detetive Andrade. Há mais pessoas que deveriam estar aqui, agradecendo ao senhor. Mas não caberiam todos nesta sala, porque o senhor salvou a humanidade inteira. A vida inteligente deste planeta esteve ameaçada pela Droga da Obediência e pelo sinistro Doutor Q.I., o cérebro criminoso que organizou essa terrível ameaça!
Andrade teve vontade de interromper o rapazinho, de dizer que continuava investigando, que a captura do Doutor Q.I. era uma questão de horas, mas sabia que aquilo não era verdade. O comandante da Pain Control havia se vaporizado como uma gota de água no ferro quente.
— Infelizmente — continuou Miguel —, o Doutor Q.I. escapou. Na certa vai passar um período na sombra, antes de atacar novamente. E ele vai atacar, estou certo disso. É uma ameaça perigosa. Jamais descansará enquanto não realizar sua ânsia de poder absoluto. É preciso pegá-lo, detetive Andrade. Ninguém poderá dormir sossegado enquanto esse homem estiver à solta.
Miguel aguardou um instante. Seu discurso estava tomando um rumo inesperado, e todos os presentes estavam em suspense.
— Eu falei com o Doutor Q.I. somente através daquelas telas de comunicação que havia na Pain Control, mas falei. Não foi possível ver o seu rosto, porque ele estava sempre na sombra. Nem adiantaria tentar reconhecer a voz dele, porque o Doutor Q.I. usava uma espécie de filtro de som que lhe alterava a voz. Era quase como falar com uma máquina. Existe, porém, uma característica da personalidade de cada um que é impossível esconder com sombras, com filtros de som ou com qualquer outro artifício. Essa característica é o pensamento.
Aos poucos, um leve mal-estar foi tomando corpo e atingindo a todos naquela sala.
— E eu me lembro perfeitamente das palavras e da maneira de pensar do Doutor Q.I. Como se ele estivesse falando agora. E, se ele estivesse falando agora, provavelmente diria que eu estou olhando de um lado só da questão. Diria talvez que as coisas são relativas e que a verdade tem várias facetas.
Miguel voltou-se para o diretor do Elite, que ouvia atentamente.
— Lembra-se, professor Cardoso, quando tudo isto começou, não faz nem uma semana? Lembra-se da nossa conversa, quando o senhor dizia que era melhor manter o desaparecimento do Bronca em segredo para proteger a imagem do Elite? Lembra-se que discordamos a esse respeito?
— Lembro-me vagamente, Miguel.
— Vagamente! Então, na certa, não vai lembrar das palavras que
usou naquele momento, não é?
— Das palavras? — sorriu o diretor. — É lógico que não!
— Pois eu me lembro. É uma questão de entender o raciocínio das pessoas, o modo de pensar das pessoas através do que elas dizem. O senhor me disse que eu era muito jovem, não é?
— Talvez tenha dito isso, sim.
— E que eu olhava as coisas de um lado só, não é? Que eu haveria de aprender que as coisas são relativas, não é? Que a verdade tem várias facetas, não é?
O professor Cardoso recuou, como se fosse empurrado pelas palavras de Miguel.
— O que é isso? Uma brincadeira?
— Não é uma brincadeira, professor Cardoso. Ou devo dizer Doutor Q.I.?
O homem estava branco como papel. Continuou recuando até encontrar a sua grande mesa de diretor e olhou suplicante para Andrade.
— Detetive Andrade! O senhor está fazendo parte deste jogo?
— Eu não estava, professor... Doutor... sei lá! Não estava, mas agora estou. Vou acabar me acostumando a ser envolvido pelas estripulias desses garotos!
— Isso é um abuso! — protestou o acusado. — Sou o diretor deste colégio e não admito ser desrespeitado dessa maneira! Eu dirijo um colégio democrático, um modelo de educação liberal que...
— Excelente disfarce, não é, Doutor Q.I.? — interrompeu Miguel.
— Quem haveria de desconfiar que o respeitabilíssimo e ultraliberal diretor do Colégio Elite pudesse organizar a experiência mais ditatorial e demente que já existiu?
O rosto do homem passou do pálido ao rubro, e sua voz saiu carregada de ódio assassino:
— Maldito! Moleque maldito! Eu devia ter mandado matar você no primeiro minuto! Fui acreditar na sua inteligência e você destruiu tudo! Ignorante! Você destruiu a salvação da humanidade! Estúpido!
Mesmo enquanto Andrade o arrastava para fora, algemado, o  Doutor Q.I. continuou gritando:
— Ignorante! Você destruiu um sonho! O maior sonho do mundo!

7 comentários:

  1. WTF?! Como assim?! ousheee!!

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  2. Já li esse livro muitas vezes porém essa parte NUNCA perde a graça...

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  3. Eu li esse livro há 18 anos, apresentado por uma maravilhosa professora de Português que leu os primeiros capítulos em sala de aula... me apaixonei pelo enredo e li a coleção toda.

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  4. Omg!! Aaah grr! Já suspeitava

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  5. Hahahahah. Eu gostei. Hoje percebo que as coisas acontecem rápido demais des do primeiro capítulo. Mas é um ótimo livro marcou minha infância

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Boa leitura, E SEM SPOILER!