29 de janeiro de 2018

Capítulo 28

O príncipe Kashin chegou rapidamente, convocado pelos guardas a pedido de Yrene – antes que ela ou Chaol ousassem remover os móveis que impediam a porta. Qualquer outra pessoa da realeza exigiria muitas explicações, mas Kashin... Ele entendia a ameaça.
Chaol conhecia bem a voz do príncipe a esse ponto – Yrene conhecia bem – e, enquanto ela preenchia a sala da suíte, ele lhe deu um aceno para arrancar os móveis que bloqueavam a porta.
Chaol ficou agradecido, apenas por um batimento cardíaco, de que permanecia nesta cadeira. Alívio teria feito suas pernas pararem de funcionar.
Ele não conseguira discernir um caminho viável. Não para ela. Na cadeira, contra um escravo valg, ele seria tão bom quanto carniça, embora tivesse calculado que um lance bem empunhado de sua adaga e espada poderia salvá-los. Essa foi a sua melhor opção: lutar.
Ele não se importava – de verdade. Não sobre o que significava para ele. Mas sobre quanto tempo esse lance poderia comprar a ela.
Alguém a perseguiu. Querendo matá-la. Aterrorizá-la e atormentá-la. Talvez pior, se fosse de fato um agente infestado por valg de Morath. O que era exatamente como o som pareceu.
Ele não conseguiu distinguir a voz. Masculina ou feminina. Apenas um deles, no entanto.
Yrene permaneceu calma enquanto abria a porta para finalmente revelar um Kashin de olhos selvagens, ofegante. O príncipe a examinou da cabeça aos pés, deu uma olhada breve a Chaol e voltou seu foco para a curandeira.
— O que aconteceu?
Yrene permaneceu atrás da cadeira de Chaol enquanto dizia com uma calma surpreendente:
— Eu estava caminhando de volta para cá para certificar-me de que Lorde Westfall tomou um tônico.
Mentirosa. Muito mentirosa. Ela provavelmente estava voltando para dar-lhe o segundo round que Chaol esperara por toda a noite.
Yrene aproximou-se da cadeira para ficar ao lado dele, perto o suficiente para que o calor dela aquecesse seu ombro.
— E eu estava quase aqui quando senti alguém atrás de mim. — Yrene então explicou o resto, olhando para a sala de vez em quando, como se o que a perseguira fosse sair das sombras. E quando Kashin perguntou se ela suspeitava por que alguém gostaria de feri-la, Yrene olhou para Chaol, uma silenciosa conversa passando entre eles: provavelmente teria sido para assustá-la por ajudá-lo, por qualquer propósito perverso de Morath. Mas ela só respondeu ao príncipe que não sabia.
O rosto de Kashin apertou-se com fúria enquanto estudava a porta rachada para o quarto de Chaol. Ele disse por sobre o ombro para os guardas que circulavam pela suíte:
— Quero quatro de vocês nas portas desta suíte. Outros quatro no fim do corredor. Uma dúzia de vocês no jardim. Mais seis nas várias encruzilhadas do salão que trazem até aqui.
Yrene soltou um sopro do que poderia muito bem ser alívio.
Kashin ouviu, colocando uma mão no punho de sua espada enquanto dizia:
— O castelo está sendo vasculhado. Eu pretendo me juntar a eles.
Chaol sabia que não era apenas por Yrene. Sabia que o príncipe tinha boas razões para se juntar à caçada, que provavelmente ainda havia uma bandeira branca pendurada em suas janelas.
Cortês e dedicado. Talvez como todos os príncipes devessem ser. E talvez fosse um bom amigo de Dorian. Se tudo fosse a seu favor.
Kashin pareceu respirar fundo. Então perguntou em voz baixa a Yrene:
— Antes de eu ir... por que eu não... Acompanho você de volta à Torre? Com uma guarda armada, é claro.
Havia preocupação suficiente nos olhos do príncipe para que Chaol fizesse questão de ocupar-se em monitorar os guardas ainda examinando cada centímetro dos quartos.
No entanto, Yrene envolveu seus braços em torno de si mesma e disse:
— Eu me sinto mais segura aqui.
Chaol tentou não piscar para ela. Para as palavras. Com ele. Ela se sentia mais segura aqui com ele.
Ele evitou o desejo de lembrá-la de que ele estava nesta cadeira.
O olhar de Kashin agora se moveu para ele, como se se lembrasse que ele estava ali. E era decepção que agora endurecia seu olhar, desapontamento e advertência quando encontrou o olhar de Chaol.
Chaol segurou a advertência dele para que Kashin parasse com aquele olhar e fosse procurar o perseguidor no palácio.
Ele manteria as mãos para si mesmo. Não conseguia parar de pensar na carta de Nesryn. Quando não estava pensando em tudo o que Shen havia lhe mostrado – o que fez com ele ver o que estava por baixo daquela manga orgulhosa de guarda.
Mas o príncipe apenas inclinou a cabeça, com uma mão no peito:
— Avise-me se precisar de alguma coisa.
Yrene mal deu um aceno de cabeça na direção de Kashin. Foi desdenhoso o suficiente para que Chaol quase se sentisse mal pelo homem.
O príncipe saiu com um olhar prolongado para Yrene, alguns guardas seguindo-o, os outros restantes atrás. Chaol observou as portas do jardim quando se instalaram no lugar lá fora.
— O quarto de Nesryn está vazio — ele falou quando finalmente estavam sozinhos.
Ele esperou a pergunta sobre o porquê – mas percebeu que ela não tinha mencionado Nesryn quando correra para lá. Não tentou despertá-la. Ela tinha ido direto para ele.
Então, não foi surpresa quando Yrene acabou por dizer:
— Eu sei.
Espiões do palácio ou fofocas, ele não se importava. Não quando Yrene disse:
— Eu... posso ficar aqui? Eu durmo no chão.
— Você pode dormir na cama. Duvido que eu descansarei esta noite.
Mesmo com os guardas do lado de fora... Ele viu o que um valg podia fazer contra vários homens. Ele tinha visto Aelin mover-se, uma assassina através de um campo de homens. E reduzi-los em batimentos cardíacos.
Não, ele não dormiria esta noite.
— Você não pode ficar sentado nessa cadeira a noite toda...
Chaol lançou-lhe um olhar que dizia o contrário.
Yrene engoliu em seco e pediu licença para usar o banheiro. Enquanto ela rapidamente se lavava, ele avaliou os guardas ali fora, a integridade da tranca do quarto. Ela emergiu ainda no vestido, o decote molhado, o rosto pálido novamente. Ela hesitou perto da cama.
— Eles mudaram os lençóis — falou Chaol suavemente.
Ela não olhou para ele enquanto subia na cama. Cada movimento era menor do que o habitual – frágil.
Terror ainda a agarrava. Embora ela tenha lidado com ele lindamente. Ele não tinha certeza se ele teria sido capaz de mover aquela cômoda, mas o puro terror deu a ela uma dose de força. Ele tinha ouvido histórias de mães levantando carroções inteiros para retirar seus filhos presos embaixo.
Yrene deslizou sob os cobertores, mas não fez nenhum movimento para aninhar a cabeça no travesseiro.
— Como é... matar alguém?
O rosto de Cain piscou em sua mente.
— Eu... eu sou novo nisso. — admitiu Chaol.
Ela inclinou a cabeça.
— Eu tirei a primeira vida... logo após o Yulemas no ano passado.
Suas sobrancelhas se estreitaram.
— Mas você...
— Eu treinei para isso. Já tinha lutado antes. Mas nunca matado alguém.
— Você era o Capitão da Guarda.
— Eu lhe disse — ele respondeu com um sorriso amargo — era complicado.
Yrene finalmente se deitou.
— Mas você já fez isso desde então.
— Sim. Mas não o suficiente para se acostumar com isso. Contra os valg, sim, mas os humanos infestados... Alguns estão perdidos para sempre. Alguns ainda estão lá, atrás do demônio. Descobrir quem matar, quem pode ser poupado, eu ainda não sei onde estão as escolhas ruins. Os mortos não falam.
Sua cabeça deslizou contra o travesseiro.
— Eu fiz juramento diante de minha mãe. Quando eu tinha sete anos. Nunca matar um ser humano. Algumas curas... ela me disse que oferecer a morte poderia ser uma misericórdia. Mas que era diferente de matança.
— E é.
— Eu acho... talvez eu tivesse tentado matar quem quer que fosse hoje à noite. Eu estava... — Ele esperou que ela dissesse assustada. Amedrontada, com o meu único defensor em uma cadeira de rodas. — Eu estava decidida contra a corrida. Você me disse que me compraria tempo, mas... Eu não posso fazer isso. De novo não.
Seu peito apertou.
— Compreendo.
— Estou feliz por não ter feito isso. Mas, o que quer que fosse, fugiu. Talvez eu não devesse estar tão aliviada.
— Kashin pode ter sorte em sua busca.
— Eu duvido. Aquilo foi embora antes que os guardas chegassem.
Ele ficou quieto. Depois de um momento, disse:
— Espero que você nunca tenha que usar essa adaga ou qualquer outra, Yrene. Mesmo como uma misericórdia.
A tristeza em seus olhos foi suficiente para interromper a respiração dele.
— Obrigada — disse ela suavemente. — Por estar disposto a enfrentar a morte sobre você mesmo.
Ninguém nunca havia dito uma coisa dessas. Nem mesmo Dorian. Mas era esperado. Celaena – Aelin fora grata quando ele matou Cain para salvá-la, mas ela esperava que ele matasse um dia.
Aelin tinha matado mais do que ele poderia contar naquele momento, e sua própria falta disso tinha sido... embaraçoso. Como se tal coisa fosse possível.
Ele havia matado em abundância desde então. Em Forte da Fenda. Com aqueles rebeldes contra os valg. Mas Yrene... ela fez esse número parecer menor. Ela não olhava para ele daquele modo. Com orgulho. Alívio.
— Sinto muito que Nesryn tenha ido embora — murmurou Yrene na luz fraca.
Não aceitei promessas suas. E não aceitarei promessas a não ser as minhas.
— Eu prometi a ela uma aventura — admitiu Chaol. — Ela mereceu embarcar em uma.
Yrene ficou em silêncio por tanto tempo que ele desviou o olhar das portas do jardim. Ela se aconchegara profundamente na cama, a atenção fixa inteiramente sobre ele.
— E você? O que você merece?
— Nada. Não mereço nada.
Yrene o estudou.
— Eu não concordo — ela murmurou, as pálpebras descendo.
Ele monitorou as saídas novamente. Depois de alguns minutos, falou:
— Eu recebi o suficiente, e desperdicei.
Chaol olhou para ela, mas o rosto de Yrene estava suavizado pelo sono, a respiração constante.
Ele a observou por um longo tempo.



Yrene ainda dormia quando o amanhecer chegou.
Chaol dormiu por alguns minutos de cada vez, tanto quanto se permitia.
Mas enquanto o sol atravessava o chão do quarto, ele se viu lavando o rosto. Esfregando o sono de seus olhos.
Yrene não se agitou quando ele saiu da suíte e entrou no corredor. Os guardas estavam exatamente onde Kashin havia ordenado que permanecessem. E eles lhe disseram exatamente aonde precisava ir quando encontrou os olhos deles e pediu instruções.
E então informou-lhes que se Yrene fosse ferida enquanto ele estivesse fora, ele quebraria cada osso em seus corpos.
Minutos depois, ele encontrou o pátio de treinamento que Yrene mencionara no dia anterior.
Já estava cheio de guardas, alguns dos quais o observavam e outros que o ignoravam completamente. Alguns ele reconheceu do turno de Shen, e cumprimentou-os com um aceno de cabeça.
Um dos guardas que ele não conhecia se aproximou dele, mais velho e mais duro que o restante.
Como Brullo, seu ex-instrutor e Mestre de Armas.
Morto. Pendurado por meses naqueles portões.
Chaol afastou a imagem. Substituiu-a pela da curandeira ainda adormecida em sua cama. Como ela parecia quando declarou ao príncipe, ao mundo, que se sentia mais segura lá. Com ele.
Ele substituiu a dor que ondulava por ele à visão dos guardas se exercitando, do espaço de treinamento privado tão parecido com aquele em que ele passara tantas horas de sua vida, pela imagem do braço artificial de Shen, a força inquebrável e silenciosa que sentiu ao apoiar-se nele enquanto montava seu cavalo. Não menos homem por não ter o braço – nem menos um guarda.
— Lorde Westfall — disse o guarda de cabelos grisalhos, usando o idioma de Chaol. — O que posso fazer pelo senhor a esta hora?
O homem parecia suficientemente astuto para saber que se havia algo relacionado ao ataque, este não era o lugar para discuti-lo. Não, o homem sabia que Chaol viera por uma razão diferente e lera a tensão em seu corpo não como fonte de alarme, mas de intriga.
— Treinei por anos com homens do meu continente — Chaol falou, levantando a espada e a adaga que tinha trazido consigo. — Aprendi o que eles sabiam.
As sobrancelhas do guarda mais velho se elevaram.
Chaol manteve o olhar do homem:
— Eu gostaria de aprender o que você sabe.



O velho guarda – Hashim – trabalhou com ele até que Chaol mal pudesse respirar. Mesmo na cadeira. E fora dela.
Hashim, que tinha o posto abaixo do capitão e supervisionava o treinamento dos guardas, encontrou maneiras de Chaol fazer seus exercícios, fosse com alguém apoiando seus pés ou com versões modificadas da cadeira.
Ele treinara com Shen um ano atrás – muitos dos guardas treinaram. Eles se uniram, ajudando Shen da maneira que podiam com a reorientação de seu corpo, sua maneira de lutar, durante aqueles longos meses de recuperação.
Então nenhum deles ficou olhando ou rindo. Ninguém trocava murmúrios.
Estavam todos ocupados demais, cansados demais, para incomodar-se de qualquer forma.
O sol se levantou sobre o pátio, e ainda assim eles continuaram. E Hashim mostrou-lhe novas maneiras de atacar com uma lâmina. Como desarmar um oponente.
Uma maneira diferente de pensar, de matar. De defender. Uma linguagem diferente da morte.
Eles pararam no café da manhã, todos quase tremulando de cansaço.
Mesmo sem ar, Chaol poderia ter continuado. Não por qualquer reserva de força, mas porque ele queria.
Yrene o esperava quando ele voltou para a suíte e se banhou.
As seis horas seguintes eles passaram perdidos naquela escuridão. No final disso, a dor o havia destruído, Yrene tremia de cansaço, mas uma consciência precisa despertara em seus pés. Aproximando-se de seus tornozelos. Como se o entorpecimento fosse uma maré retraída.
Yrene retornou à Torre naquela noite sob uma pesada guarda, e ele caiu no sono mais profundo de sua vida.
Chaol esperava por Hashim no local de treinamento antes do amanhecer.
E no amanhecer seguinte.
E no seguinte.

6 comentários:

  1. Isso aí, Chaol! Bora deixar de ser um bebê chorão e partir p luta!!!

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  2. Eu tirei a primeira vida... logo após o Yulemas no ano passado.
    meu deus
    aí vc para para pensar: só se passou um ano desde o 1o livro

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  3. O braço do Shen me lembrou de Fullmetal Alchemist *-*
    É tão bom ver o Chaol se reerguendo, sempre deixei claro que odiava ele, mas estou me apaixonando a cada novo capítulo *-*

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  4. a sarah ta com uma mania agora de sempre botar "batimento cardíaco" kkkk

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    1. É isso, a mania de ter quinhentos casais, dois revoltados briguentos como casal (que a gente ama), e olhos que dizem coisas impossíveis... fazer o que..

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  5. Já estava na hora de Chaol de reagir.

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!