15 de janeiro de 2018

Capítulo 28. A capacidade de desobedecer

No ginásio de testes, imobilizado pela ameaça de dois revólveres, Miguel viu que alguma coisa diferente estava acontecendo com a menina que corria sobre a esteira rolante. Um brilho de consciência passou pelos olhos dela, e a menina diminuiu o ritmo da corrida. Mas, como a esteira continuou rolando, ela foi arrastada para trás e atirada ao chão.
— Que foi isso? — espantou-se um dos empregados.
Aos poucos, um a um, os meninos-cobaias começaram a sacudir a cabeça, a esfregar os olhos, a olhar espantados em volta.
— Onde estou?
— Que tontura!
— O que está acontecendo?
O empregado bateu a mão na testa:
— Inferno! Com a confusão, esquecemos de dar o reforço da droga para as cobaias!
— É mesmo! — concordou o outro. — Elas estão despertando!
Miguel levantou-se corajosamente:
— Quietinho aí, rapaz! Não se mexa! — gritou o primeiro, com a arma apontada.
Sem temer um tiro pelas costas, Miguel voltou-se para os rapazes e moças que estavam despertando do efeito da Droga da Obediência:
— Pessoal! Vocês foram sequestrados. Foram enganados e foram usados pela mais sinistra das quadrilhas!
Os bandidos estavam nervosos:
— Cala a boca, rapaz! Olha que eu atiro!
Miguel sentiu o cano frio da arma encostar-se em sua nuca. Mas continuou falando, com calma, escolhendo as palavras:
— Todos vocês ficaram várias semanas sob o efeito da Droga da Obediência, que anulou a inteligência de vocês e transformou todos em robôs imbecilizados!
Os meninos e meninas olhavam-se uns aos outros, como se fosse difícil acreditar no que estavam ouvindo. Naquele instante, o Doutor Q.I. desviou a atenção do corredor em frente ao laboratório onde estavam os fugitivos e ligou seu intercomunicador com o ginásio de testes.
— O que está havendo aí? Diabo! Seus incompetentes! Façam esse garoto calar a boca!
Mas, dessa vez, os dois bandidos eram muito pouco frente à fúria de dezessete garotos, que já tinham tomado consciência das palavras de Miguel. Saltaram decididamente contra os dois, aos trancos e cabeçadas, arrancaram seus revólveres e os imobilizaram, praticamente sentando em cima deles!
A voz do Doutor Q.I. vinha alta e furiosa:
— Miguel! Você não entende o que está fazendo? Você está destruindo a realização do maior sonho da humanidade! A obediência absoluta! Pare! Pense um pouco! Você não pode fazer isso! Você está destruindo séculos de sonhos! Você está destruindo o futuro!
Miguel parou em frente ao intercomunicador:
— Não! Eu estou salvando o futuro! O que eu estou destruindo é um sonho louco de dominação da humanidade, de controle da mente humana!
— Eu só entendo que a minha capacidade de criticar tudo o que ouço e vejo e a minha capacidade de contestar tudo o que descubro de errado é que fazem de mim um ser humano! E a minha capacidade de desobedecer que faz de mim um homem!
— Você poderia ter se juntado a mim! Poderia construir um mundo novo!
— Eu vou construir um mundo novo! Esteja certo disso. Mas nesse mundo não haverá lugar para pessoas como você!
O vídeo do intercomunicador apagou-se.

* * *

Várias sirenes foram ouvidas do lado de fora e, em poucos minutos, um grupo de bombeiros apareceu por trás dos bandidos, justamente no momento em que a porta do laboratório vinha abaixo.
— O que está se passando por aqui? — perguntou o bombeiro que vinha à frente, de olhos arregalados.
Os bandidos voltaram-se e apontaram as armas na direção dos bombeiros. Naquele instante, todas as luzes se apagaram.

* * *

Na escuridão total, os bandidos não atiraram, pois não havia como enxergar qualquer alvo. Não sabiam o que fazer. Atirar a esmo? Nunca tinham agido pelas próprias cabeças e esperavam desesperadamente uma ordem do chefe supremo da Pain Control.
— Doutor Q.I.! Doutor Q.I.! O que faremos? — gritou um deles para a escuridão.
Na escuridão, a voz cavernosa do Doutor Q.I. ressoou acima de todos eles:
— Não adianta começar uma guerra no escuro. Não adianta atirar nos bombeiros. Vocês vão acabar acertando uns aos outros. Nada mais adianta. Fomos derrotados. Entreguem-se!
Os bandidos tentaram entreolhar-se, para decidir o que fazer. Mas, no escuro total, isso era impossível. E, se até a liderança brutal do Doutor Q.I. tinha desistido, não havia mais por que oferecer qualquer resistência. Ouviu-se o ruído das armas caindo no chão, em obediência à ordem da voz cavernosa.
No mesmo instante as luzes acenderam-se e iluminaram as caras assombradas dos bandidos, cercados de um lado do corredor pelos bombeiros, e do outro pelo detetive Andrade, Magrí, Calú, Crânio e Caspérides.
Andrade assume o comando da situação:
— Quietos, todos vocês! Mãos na cabeça!
Os bandidos obedeceram e baixaram as cabeças, derrotados.
— Garotos! —ordenou o detetive. —Peguem as armas desses bandidos!
Crânio, Magrí e Calú executaram a ordem. O chefe dos bombeiros deu um passo à frente:
— Que loucura é essa? Posso saber o que está acontecendo por aqui?
Andrade não deixou a surpresa durar mais:
— Sejam bem-vindos, amigos. Sou o detetive Andrade. Como vocês podem ver, aqui não houve nenhum incêndio. Houve muito mais do que um incêndio... Mas, antes de mais explicações, será que vocês podiam dar uma forcinha aqui na prisão deste bando de criminosos?
Os bombeiros ajudaram a empurrar os bandidos para dentro de uma sala, onde eles ficariam bem trancadinhos até à chegada de reforço policial.
Por entre o grupo de bombeiros que empurrava os bandidos, uma carinha sorridente apareceu:
— Oi, pessoal! Tudo está sob controle agora? Magrí deu um grito:
— Chumbinho! Você não está morto!
— É claro que não estou! — explicou o menino, com a cara mais sapeca do mundo. — Eu só fingi que fui atingido pelo tiro. Assim esses trouxas nem ligaram pra mim e ficaram tentando derrubar a porta. Eu fui saindo de fininho... Era a única maneira de continuar a procurar a casa de força!
O bioquímico Márius Caspérides surpreendia-se cada vez mais:
— Sim, sim, sim! Então foi você que apagou as luzes?
— É claro que fui!
— Sim, sim, sim, mas que valentia!
Magrí, ainda saboreando o alívio de reencontrar Chumbinho são e salvo, lembrou-se que o grupo ainda estava incompleto:
— E Miguel? Vamos libertar Miguel!
Nem bem a menina acabava de falar, o líder dos Karas aparecia abrindo caminho através do grupo de bombeiros, seguido por todos os meninos-cobaias.

* * *

Um grande silêncio. Há três dias os Karas não se reuniam, e a tensão daquela aventura tinha sido de esfrangalhar os nervos de qualquer um. Mesmo que esse alguém fosse um Kara! E todo aquele suspense explodiu num grito de desabafo, de saudade, de carinho:
— Miguel!
Com os trapos de mendiga esvoaçando, Magrí correu para o amigo e abraçou-se a ele, bem apertado, como se fosse uma despedida.
— Miguel, meu querido!
O outro “mendigo” baixou a cabeça e disfarçou o ciúme, mexendo nos farrapos da calça, como se quisesse ajeitar um vinco imaginário. Andrade sorria, participando de toda aquela alegria, de todo aquele alívio:
— Ufa! Terminou! Ainda bem que tudo se resolveu sem derramamento de sangue! Nem sei o que poderia acontecer se o Doutor Q.I. não tivesse desistido e... Ei! Esperem um pouco: como é que o Doutor Q.I. pôde dar a ordem de rendição pelo intercomunicador se a energia elétrica estava desligada?
Calú abriu o mais orgulhoso sorriso:
— E quem disse que o Doutor Q.I. se rendeu? A voz que vocês ouviram era a minha, imitando o safadão!
— Sim, sim, sim! Esses meninos são mesmo demais! Andrade fez uma festinha muda na cabeça de Calú, desmanchando-lhe os cabelos.
— Por falar em Doutor Q.I., cadê ele? — lembrou o Chumbinho.
— Onde fica a sala do Doutor Q.I., seu Caspérides? — perguntou Miguel.
— Não sei. Nós só víamos o Doutor Q.I. pelo intercomunicador...
— Então vamos procurar, pessoal! — comandou Miguel.

* * *

Mas foi inútil. Por mais que vasculhassem a Pain Control de cima a baixo, não foi possível encontrar o Doutor Q.I. O tenebroso personagem que pretendia dominar o mundo com a Droga da Obediência tinha desaparecido sem deixar rastro. Com ele se evaporava também aquele sonho louco, aquele pesadelo ameaçador...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!