29 de janeiro de 2018

Capítulo 27

Yrene curara seis pessoas até o sol se por, e só então deixou as favelas.
Uma mulher tinha um tumor perigoso nos pulmões que a teria matado. Ela estava ocupada demais com o trabalho para ver um curandeiro ou médico. Três crianças queimavam com febre em uma casa muito apertada, sua mãe chorando de pânico. E então com gratidão enquanto a magia de Yrene os acalmava e purificava. Um homem quebrara a perna na semana anterior e visitara um médico nas favelas porque não podia pagar uma carruagem para levá-lo até a Torre. E o sexto paciente... A menina não tinha mais do que dezesseis anos. A primeira coisa que Yrene notou foi seu olho roxo. Então o corte no lábio.
Sua magia tinha cambaleado, seus joelhos juntamente, mas Yrene levou a menina por uma porta e a curou. O olho dela. O lábio. As costelas trincadas. Curou as enormes contusões em forma de mão em seu antebraço.
Yrene não fez perguntas. Ela leu todas as respostas nos olhos assustados da garota. Viu a menina considerar se voltar casa curada não resultaria em ferimentos piores.
Então, Yrene deixou os pontos roxos. Deixou a aparência de contusões, mas curou tudo abaixo. Deixando apenas a camada superior da pele, talvez um pouco dolorida, para ocultar o dano reparado.
Yrene não tentou dizer-lhe para ir embora. Se era a família dela, um amante ou outra coisa, Yrene sabia que ninguém, exceto a garota, decidiria se ela deveria sair daquele lugar. Tudo o que ela fez foi informar que, se alguma vez precisasse, ela deveria ir para a porta da Torre, pois esta sempre ficaria aberta. Não seriam feitas perguntas. Sem taxa exigida. E eles se certificariam de que ninguém teria permissão para lavá-la novamente se ela não desejasse.
A menina beijara os nós dos dedos de Yrene em agradecimento e correu para casa no escuro.
A própria Yrene se apressou, seguindo para o pilar brilhante da Torre, o farol de sua casa. Seu estômago reclamava, sua cabeça latejava com fadiga e fome. Parecia bom estar drenada. Por ajudar. E ainda assim... Aquela energia agitada e inquieta ainda vibrava. Ainda empurrava. Mais, mais, mais.
Ela sabia o porquê. O que não foi resolvido. Ainda furioso.
Então ela mudou de direção, lançando-se para a massa brilhante do palácio.
Ela parou em uma barraca favorita de comida, entregando-se a uma refeição de cordeiro assado que ela devorou em poucos minutos. Era raro que ela comesse além dos limites do palácio ou da Torre, graças a seu horário ocupado, mas quando o fazia... Yrene esfregava sua barriga satisfeita enquanto se dirigia para o palácio. Mas, em seguida, viu uma loja de kahve aberta e conseguiu encontrar espaço no estômago para um copo. E uma sobremesa recheada de mel.
Perdendo tempo. Inquieta e zangada e estúpida.
Irritada consigo mesma, Yrene pisou no palácio finalmente. Com o sol de verão se pondo tão tarde, era bem onze horas quando atravessava os salões escuros.
Talvez ele estivesse dormindo. Talvez fosse uma benção. Ela não sabia por que tinha se incomodado em vir.
Poderia ter esperado até amanhã.
Ele provavelmente estava dormindo.
Felizmente, dormindo. Provavelmente seria melhor se sua curandeira não entrasse no quarto dele e o agitasse, este definitivamente não era o comportamento aprovado pela Torre. Por Hafiza.
E, no entanto, ela continuou caminhando, aumentando o ritmo, seus passos quase uma corrida ecoando no chão de mármore. Se ele quisesse parar, dar um passo atrás no progresso deles, estava tudo bem. Mas ela certamente não tinha que deixá-lo fazer isso, não sem tentar.
Yrene chegou num longo corredor escuro. Ela não era uma covarde; ela não recuaria sem lutar. Ela deixou aquela garota naquele beco em Innish. E se ele não estava inclinado a falar sobre Nesryn, então estava no direito de fazê-lo. Mas para cancelar a sessão por causa disso... Inaceitável.
Ela simplesmente diria isso e partiria. Calmamente. Racionalmente.
Yrene franziu o cenho a cada passo, murmurando a palavra em voz baixa. Inaceitável.
E ela permitira que ele a expulsasse, não importava o que tentasse dizer a si mesma.
Isso foi ainda mais inaceitável.
Tolo estúpido. Ela murmurou isso também.
Alto o bastante para quase perder o som.
O passo – o sussurro de passos contra a pedra – logo atrás dela.
Era tarde, criados provavelmente voltavam para os quartos de seus mestres, mas...
Lá estava. Aquele sentimento, ecoando de novo.
Somente sombras e raios de luar chegavam ao corredor coberto de pilares.
Yrene acelerou o ritmo.
Ela ouviu novamente – os passos atrás dela. Uma marcha casual, e seguindo-a.
Sua boca ficou seca, seu coração trovejava. Ela não tinha bolsa, nem mesmo sua pequena faca. Nada nos bolsos além daquele bilhete.
Depressa, uma voz pequena e gentil murmurou em seu ouvido. Dentro de sua cabeça.
Ela nunca tinha ouvido aquela voz antes, mas às vezes sentia seu calor. Atravessando-a quando a magia era liberada. Era tão familiar para ela quanto sua própria voz, seus próprios batimentos cardíacos.
Depressa, menina.
A urgência atropelava cada palavra.
Yrene aumentou o ritmo, aproximando-se de uma corrida.
Havia uma esquina à frente – ela precisava apenas dobrá-lo, seguir por mais dez metros depois desse salão, e estaria na suíte dele.
Havia uma fechadura na porta? Ela estaria trancada – ou seria capaz de manter quem estava do lado de fora?
Corra, Yrene!
E essa voz...
Era a voz de sua mãe que berrava em sua cabeça, seu coração.
Ela não parou para pensar. Imaginar.
Yrene lançou-se em uma corrida.
Seus sapatos deslizavam ao longo do mármore, e a pessoa, a coisa atrás dela – esses passos iniciaram uma corrida também.
Yrene virou a esquina e escorregou, acertando a parede oposta tão forte que seu ombro latejava com dor.
Cambaleando, ela lutou para recuperar o impulso, não se atrevendo a olhar para trás.
Mais rápido!
Yrene podia ver a porta dele. Podia ver a luz saindo por debaixo dela.
Um soluço saiu de sua garganta. Aqueles passos apressados atrás dela se aproximaram. Ela não ousou arriscar seu equilíbrio espiando.
Sete metros. Cinco. Dois.
Yrene arremessou-se contra a maçaneta, agarrando-a com toda a força para evitar passar pela porta, enquanto a empurrava para dentro.
A porta se abriu e ela girou, as pernas escorregando abaixo dela quando ela bateu todo o seu corpo contra a porta e procurou a fechadura. Havia duas.
Ela travou a primeira quando a pessoa do outro lado atingiu a porta.
A coisa toda estremeceu.
Seus dedos tremiam, sua respiração escapando com soluços afiados enquanto ela lutava pela segunda trava mais pesada.
Ela conseguiu colocá-la no lugar assim que a porta se curvou de novo.
— O que inferno...
— Entre no seu quarto — ela ordenou a Chaol, não se atrevendo a tirar os olhos da porta quando esta estremeceu. À medida que a maçaneta chacoalhava. — Entre agora.
Yrene virou então para encontrá-lo no limiar de seu quarto, espada na mão. Olhos na porta.
— Que diabos é isso?
— Entre — ela disse, sua voz quebrando. — Por favor.
Ele leu o terror em seu rosto. Leu e entendeu.
Ele voltou para o quarto, segurando a porta e depois trancando-a atrás dela.
A porta da frente rachou. Chaol trancou a porta do quarto com um clique. Apenas uma tranca.
— A cômoda — ele disse, sua voz inalterada. — Você pode movê-la?
Yrene virou-se para a cômoda ao lado da porta. Ela não respondeu enquanto se jogava contra ela, os sapatos novamente deslizando no mármore polido. Ela tirou os sapatos, a pele nua encontrando melhor aderência na pedra enquanto ela pulava e grunhia e empurrava. O móvel deslizou na frente da porta do quarto.
— As portas do jardim — ordenou Chaol, terminando de travá-las.
Elas eram de vidro sólido.
Perigo e pânico revolveram em seu intestino, tirando a respiração de sua garganta.
— Yrene — Chaol disse de forma uniforme. Calmamente. Ele manteve o olhar fixo. Fortalecendo-a. — Qual a distância da entrada mais próxima para o jardim do corredor externo?
— Uma caminhada de dois minutos — ela respondeu automaticamente. Só era acessível a partir dos quartos interiores e, como a maioria deles estava ocupada... Eles teriam que tomar o corredor até o fim. Ou arriscar correr pelos quartos da próxima porta, que... — Ou um.
— Faça valer a pena.
Ela olhou o quarto para qualquer coisa. Havia um armário ao lado das portas de vidro, elevando-se acima delas. Alto demais, pesado demais.
Mas a tela móvel do banheiro...
Yrene atravessou o quarto, Chaol se lançando para um conjunto de punhais em sua mesa de cabeceira.
Ela pegou a pesada tela de madeira e puxou-a e empurrou-a, amaldiçoando quando prendeu no tapete. Mas ela se moveu – chegou lá. Ela abriu as portas do armário e colocou a tela entre elas e a parede, balançando-a algumas vezes para ver se estava bem preso. Estava.
Ela correu para a mesa, jogando livros e vasos de cima dela. Eles se quebraram pelo chão.
Fique calma; mantenha o foco.
Yrene virou a mesa contra a tela de madeira e tombou-a com um barulho alto. Ela empurrou-a contra a barricada que tinha feito.
Mas a janela... Havia uma na sala. Alta e pequena, mas...
— Deixe-a — ordenou Chaol, deslizando no lugar em frente às portas de vidro. Espada erguida e adaga na outra mão. — Se ele tentar essa rota, o tamanho pequeno o forçará a ser lento.
O suficiente para ele matá-lo – seja lá o que fosse.
— Venha aqui — ele disse calmamente.
Ela fez isso, olhos entre a porta do quarto e as portas do jardim.
— Respire profundamente — ele disse a ela. — Centralize-se. O medo a matará tão facilmente quanto uma arma.
Yrene obedeceu.
— Pegue a adaga na cama.
Yrene hesitou.
— Pegue.
Ela agarrou a adaga, o metal frio e pesado em sua mão. Pesado demais.
A respiração dele estava estável. Seu foco implacável ao monitorar as duas portas. A janela.
— O banheiro — ela sussurrou.
— As janelas são muito altas e estreitas.
— E se não estiver em um corpo humano? — as palavras saíram dela com um sussurro rouco. As ilustrações que ela tinha visto naquele livro.
— Então eu ficarei ocupado enquanto você corre.
Com os móveis tapando as saídas...
O significado das palavras dele a atingiu.
— Você não fará tal...
A porta do quarto estremeceu sob um golpe. Então outro.
A maçaneta foi girada e balançada.
Oh, deuses.
Eles não haviam se incomodado com o jardim. Eles simplesmente chegaram pelas portas da frente.
Outro ataque que a fez estremecer. E outro.
— Calma — murmurou Chaol.
A adaga de Yrene tremeu quando ele se inclinou para a porta do quarto, suas lâminas inabaláveis.
Outra explosão, forte e furiosa.
Então, uma voz.
Suave e sibilante, nem masculina, nem feminina.
— Yrene — sussurrou através da fenda na porta. Ela podia ouvir o sorriso naquela voz. — Yrene.
Seu sangue ficou frio. Não era uma voz humana.
— O que você quer? — perguntou Chaol, sua própria voz como aço.
Yrene.
Seus joelhos se curvaram com tanta força que ela mal pôde suportar. Cada momento de treinamento que ela tinha feito sumiu da sua mente.
Vá embora — Chaol rosnou em direção à porta. — Antes que se arrependa.
— Yrene — sibilou, rindo um pouco. — Yrene.
Valg. De fato, alguém a estava caçando naquela noite, e tinha vindo atrás dela novamente esta noite.
Colocando a mão livre sobre a boca, Yrene afundou na beira da cama.
— Não desperdice um batimento cardíaco com medo de um covarde que caça mulheres na escuridão — Chaol disse.
A coisa do outro lado da porta resmungou. A maçaneta da porta estremeceu.
— Yrene — repetiu.
Chaol apenas manteve seu olhar fixo:
— Seu medo lhe confere poder sobre você.
Yrene.
Ele se aproximou dela, abaixando a adaga e a espada no colo. Yrene se encolheu, prestes a avisá-lo para não abaixar suas armas. Mas Chaol parou diante dela. Tomou o rosto nas mãos, as costas dele viradas completamente para a porta agora. Embora ela soubesse que ele monitorava cada som e movimento por trás disso.
— Não tenho medo — ele disse suaveme, mas não fracamente. — E você também não deveria ter.
Yrene — um objeto passou do outro lado da porta, acertando-a.
Ela se encolheu, mas Chaol segurou seu rosto com força. Não desviou o olhar.
— Nós enfrentaremos isso — disse ele. — Juntos.
Juntos. Viver ou morrer aqui juntos.
Sua respiração se acalmou, seus rostos tão próximos que a própria respiração dele roçou sua boca. Juntos.
Ela não pensava em usar tal palavra, sentir o que significava... Ela não sentira desde...
Juntos.
Yrene assentiu. Uma vez. Duas vezes.
Chaol procurou seus olhos, a respiração dele soprando sobre sua boca.
Ele ergueu a mão dela, ainda apertou o punhal e ajustou o seu aperto:
— Em ângulo, não direto. Você sabe onde acertar. — Ele colocou uma mão sobre o peito. Sobre o coração dele. — Os outros lugares.
Cérebro. Através do globo ocular. Garganta, cortando para libertar o sangue da vida. Todas as várias artérias que poderiam ser atingidas para garantir um sangramento rápido.
Coisas que ela aprendera para salvar. Não para... acabar.
Mas aquela coisa...
— A decapitação funciona melhor, mas tente derrubá-lo primeiro. Por tempo suficiente para cortar a cabeça.
Ele já havia feito isso antes, ela percebeu. Ele matou essas coisas. Triunfou contra elas. Derrotou-as sem magia, apenas com sua própria vontade e coragem indomáveis.
E ela... ela atravessou montanhas e mares. Ela havia feito isso sozinha.
Sua mão parou de tremer. Sua respiração regulou-se.
Os dedos de Chaol envolveram os dela, o metal fino do punho apertado na palma da mão.
— Juntos. — ele disse uma última vez, e a soltou para pegar suas próprias armas novamente.
Para enfrentar a porta.
Houve apenas um silêncio.
Ele esperou, calculando. Ouvindo. Um predador pronto para atacar. A adaga de Yrene manteve-se firme enquanto ela se levantava atrás dele.
Um estrondo soou através do vestíbulo – seguido de gritos.
Ela parou, mas Chaol soltou um suspiro. Um de alívio tremendo.
Ele reconheceu os sons antes dela.
Os gritos de guardas.
Eles falaram em halha – gritavam pela porta do quarto querendo saber deles. Seguros? Feridos?
Yrene respondeu na mesma língua que eles estavam ilesos. Os guardas disseram que uma criada tinha visto a porta da suíte quebrada e correu para buscá-los.
Não havia mais ninguém ali.

2 comentários:

  1. Meu Deus, isso foi assustador! Segunda vez que essa coisa persegue Yrene, uma salva de palmas para ela! Eu taria sofrendo de ataque cardíaco meu Deus, husahuasuhsa... (rir pra não chorar)

    Melhor horário pra ler isso é à noite, fica dica.

    (Só que não!)

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  2. Quem será que tá possuído? Eu desconfio da Imperatriz porque ela é a única que a gente não vê, mas não descarto que seja um dos principes/princesas e o marido da Duva ele é tão distante, pensei nisso porque Dorian também ficou distante quando foi possuído ah mas e o anel/colar? Pois é isso que não bate e me faz apostar alto na imperatriz

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!