15 de janeiro de 2018

Capítulo 27. De preferência, mortos!

A porta do ginásio de testes de resistência física da Pain Control foi arrombada com estrondo e os empregados do Doutor Q.I. entraram, empurrando-se uns aos outros. Vinda do intercomunicador que havia do lado de fora, Miguel ouvia a voz do Doutor Q.I.:
— Peguem esse Miguel! Quero ele vivo!
O líder dos Karas começou a correr pelo ginásio, no meio dos aparelhos de ginástica e dos meninos-cobaias, desviando-se dos perseguidores com uma agilidade que eles nunca tinham visto!
— Pega!
— Não deixa escapar!
No meio daquela algazarra, os empregados não prestaram a menor atenção às cobaias, que estavam imóveis, aguardando ordens. Só a pobre menina que havia batido o recorde da maratona continuava correndo sobre a esteira rolante.
Havia, porém, mais um que não estava imóvel. Era Chumbinho, que, de acordo com o plano que combinara com Miguel, aproveitou a confusão e esgueirou-se silenciosamente para fora.
Arrastou-se colado à parede, por baixo do intercomunicador, de modo que a objetiva do aparelho não pudesse focalizá-lo. Desapareceu por uma porta lateral. O intercomunicador, lá na sala do Doutor Q.I., estava sintonizado somente no corredor que dava para o ginásio de testes, por causa da confusão propositalmente armada por Miguel. Assim, Chumbinho pôde correr com tranquilidade pelo resto da Pain Control, pois todos os outros intercomunicadores estavam apagados e todos os empregados tinham corrido para o ginásio de testes.
As dependências onde estava sendo testada a Droga da Obediência só tinham janelas lacradas e opacas, para que ninguém pudesse ver o que se passava lá dentro. Assim, a iluminação era toda artificial. Por isso Chumbinho tinha de encontrar e desligar a chave central de energia elétrica.
Nesse momento, uma porta à sua frente foi aberta, e o menino tomou um susto:
— Calú! E o senhor é o bioquímico que eu vi falando com... Ei! Por que vocês estão algemados?
— Fuja, Chumbinho! — ordenou Calú.
Mas era muito tarde. Por trás dos dois surgiu o detetive Rubens, apontando um revólver para o garoto.
— Quietinho aí, menino! Senão leva chumbo!
Mas Rubens não conhecia os Karas. Se conhecesse, jamais iria distrair-se da guarda de um deles para apontar uma arma para o outro: com as mãos algemadas, Calú aproveitou-se e golpeou, de baixo para cima, o braço estendido de Rubens! A bala foi cravar-se no teto e, ato contínuo, Calú meteu uma cotovelada no estômago do detetive.
A arma voou longe e, quando Rubens recuperou o fôlego, viu um cano apontado para sua testa. Era Chumbinho, que, rápido como um gato, havia se apoderado do revólver:
— Quietinho, você, seu bandido! — vingou-se Chumbinho, com muita raiva na voz. Ele se lembrava daquela cara na sala do diretor do Colégio Elite e, ao contrário de Miguel, não tinha simpatizado com ela desde o início.
— Grande, Chumbinho! —aplaudiu Calú, revistando os bolsos de Rubens, em busca da chave das algemas.
— Sim, sim, sim! —sorriu Caspérides. — Que meninos valentes!
— Vocês não vão escapar... —começou a ameaçar Rubens.
—Cala a boca, traidor! — Calú tirou as algemas de seus pulsos, libertou também o bioquímico, mas, no momento em que se preparava para algemar o detetive traidor...
— O que está acontecendo aqui?
Na moldura da porta, apareceram três figuras enormes, ameaçadoras:
—Detetive Rubens! — estranhou o Animal. — O que é que o senhor está fazendo aí no chão?
— Rápido, idiota! Me ajude! Esses moleques...
— Não podemos fazer nada, seu Rubens... — lamentou-se o Coisa.
— Estamos sem as nossas armas — informou o Fera.
Os três foram empurrados para dentro, e o detetive Andrade entrou de arma na mão, logo seguido por um jovem casal de mendigos.
— Crânio! Magrí!
— Calú! Chumbinho!
— Cadê Miguel?
— Está na boca do lobo! — respondeu Chumbinho. — A essa hora já deve ter sido preso. Está no ginásio de testes, às voltas com mais de vinte empregados do Doutor Q.I.!
— Onde fica isso? — perguntou Andrade. — Vamos lá!
— Não adianta! Eles estão armados e podem pegar os meninos cobaias e Miguel como reféns. Mas Miguel teve uma ideia. Eu estava tentando fazer o que ele mandou quando apareceram Calú, Caspérides e esse maldito traidor!
Algemaram Rubens ao Fera, o Fera ao Coisa, o Coisa ao Animal e o Animal à maçaneta da porta, usando as algemas que tinham estado em Calú e Caspérides e mais duas que Andrade trazia consigo.
— Vamos! Temos de encontrar a chave da energia elétrica!

* * *

Miguel correu pelo ginásio, driblou os perseguidores o quanto pôde, resistiu o maior tempo possível, mas acabou sendo capturado e subjugado pelos empregados. A uma ordem do Doutor Q.I., um dos bandidos ligou novamente na tomada o intercomunicador do ginásio de testes. A voz do sinistro personagem, novamente dentro do ginásio, estava calma, confiante:
— Que brincadeira mais boba, Miguel! Eu pensava que você fosse capaz de agir com mais inteligência. De que adiantou correr como um ratinho? De que adiantou... Ei! Onde está a cobaia número 20? Diabo, Miguel! Você estava só ganhando tempo enquanto seu amiguinho fugia, não é? O número 20 é aquele que estava sem tomar a droga!
Furioso, investiu contra os empregados:
— Vocês são todos uns incompetentes! Deixaram o garoto enganá-los o tempo todo!
— Mas nós... — tentou desculpar-se um dos empregados.
— Cale a boca! Deixem que eu descubro o moleque pelo intercomunicador.
As telas dos intercomunicadores espalhados por toda a Pain Control acenderam-se uma a uma. O Doutor Q.I. procurava Chumbinho.
— O que é isso?
Na tela do Doutor Q.I. apareceu um longo corredor, no fim do qual, algemados a uma porta, estavam o detetive Rubens e os três ferozes seguranças da Pain Control, presos um ao outro, formando uma estranha fila, como crianças grandes, de mãos dadas.
— Estúpidos! Incompetentes! —berrou o Doutor Q.I. — Os inimigos entraram na Pain Control!. A cobaia 20 não poderia algemar sozinha esses incompetentes. Preciso descobrir onde estão os invasores!
O Doutor Q.I. continuou freneticamente a ligar e desligar os intercomunicadores, à procura dos inimigos.
— Aí estão! O Caspérides está com eles! Maldito! Acho que pretendem chegar à casa de força! — concluiu o Doutor Q.I. ao ver o detetive Andrade, o bioquímico e os quatro Karas correndo por um corredor. — Depressa! Dois de vocês fiquem aí, tomando conta de Miguel. O resto corra atrás deles! Se eles desligarem a força, estaremos perdidos! Eu quero todos eles vivos ou mortos. De preferência, mortos!
Os bandidos conheciam muito bem a planta da Pain Control e seu labirinto de corredores. Logo os fugitivos estavam cercados e com o acesso à casa de força cortado.
—Eles são muitos! Não vamos escapar! — gritou Andrade vendo o grande número de bandidos que se aproximava de armas na mão.
— Sim, sim, sim, não, não, não! —lembrou Márius Caspérides. — Venham comigo!
O bioquímico abriu a porta de um laboratório e todos começaram a entrar. Um dos bandidos, vendo que não os alcançaria a tempo, ergueu a arma, fez pontaria e atirou. O tiro reboou altíssimo dentro do ambiente fechado da Pain Control. Só restava um dos fugitivos fora da porta do laboratório. Era Chumbinho. Seu corpinho deu um tranco e o menino caiu para trás.
— Chumbinho! Não! — gritou Magrí antes que a porta se fechasse.

* * *

Dentro do laboratório, protegido por uma grossa porta corta-fogo, a confusão era geral:
— Chumbinho! Que horror! Ele foi baleado!
Calú tentou acalmar a menina:
— Talvez esteja apenas levemente ferido, Magrí!
— Levemente ou gravemente ferido, não há o que a gente possa fazer pelo Chumbinho agora, a não ser tentar sair desta! Depressa, gente! — convocou Crânio. — Tive uma ideia. Precisamos de fumaça, muita fumaça! Vamos queimar...
— Fumaça? — interrompeu Caspérides. — Não é preciso queimar nada. Posso misturar alguns produtos químicos e...
— Ótimo! Onde está o alarma de incêndio?
Todos entenderam imediatamente o plano de Crânio. Magrí correu e acionou o alarma de incêndio. No mesmo instante, uma sirene altíssima disparou. Eles sabiam que uma indústria moderna como aquela deveria ter o alarma de incêndio ligado diretamente com o corpo de bombeiros. Era a última esperança!
A porta que os protegia era reforçada, como deve ser em um laboratório que trabalha com produtos perigosos e explosivos. Mas aquela não aguentaria por muito tempo: do lado de fora, os bandidos haviam arranjado marretas e machados e golpeavam a porta sem dó nem piedade.
Calú agarrou um pesado banco e atirou-o contra a janela opaca e lacrada do laboratório. O vidro estilhaçou-se com estrondo. Agora havia por onde sair a fumaça que o bioquímico começava a provocar. Com a ajuda de Crânio, Caspérides misturou vários produtos e logo grossos rolos de fumaça negra saíam pela janela quebrada do laboratório.

Um comentário:

  1. "— Fuja, Chumbinho! — ordenou Calú.
    ...
    — Quietinho aí, menino! Senão leva chumbo!"

    Uauuu que trocadilho ha ha ha

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Boa leitura! E SEM SPOILER!