29 de janeiro de 2018

Capítulo 26

Chaol jantou nas cozinhas da Torre, onde uma mulher magra chamada apenas de Cook o encheu com peixe frito, pão crocante, tomates assados com queijo suave, e depois conseguiu convencê-lo a comer uma massa leve e escamosa pingando com mel e encrustada de pistaches.
Yrene se sentou ao lado dele, escondendo seus sorrisos enquanto Cook continuava empilhando mais e mais comida no prato até que ele literalmente implorou que ela parasse.
Ele estava cheio o suficiente para que a ideia de mover-se parecesse uma tarefa monumental, e mesmo Yrene tinha implorado para Cook ter piedade deles.
A mulher cedeu, embora tivesse se focado nos ajudantes de sua cozinha, presidindo sobre o serviço da refeição da noite no salão um andar acima com o comando de um general que Chaol encontrou-se estudando.
Ele e Yrene sentaram-se em um silêncio companheiro, observando o caos se desdobrar ao redor deles até o sol ter se posto desde há muito através das amplas janelas além da cozinha.
Ele havia proferido meia menção de ter seu cavalo selado quando Yrene e Cook disseram que ele devia passar a noite e não se preocupar em discutir.
Então ele ficou. Enviou um bilhete ao palácio através de uma curandeira que ia supervisionar um paciente nos aposentos dos criados, dizendo a Nesryn onde estava e para não esperá-lo.
E quando ele e Yrene finalmente conseguiram que seus estômagos sobrecarregados se instalassem, ele a seguiu para um quarto no complexo. A Torre era principalmente composta de escadas, ela disse sem piedade, e lá não havia quartos de qualquer maneira. Mas o complexo adjacente dos médicos – ela gesticulou para o edifício que eles tinham passado, cheio de ângulos e pontas onde a Torre estava redonda – sempre tinha alguns quartos no nível do solo disponíveis para a noite, principalmente para os entes queridos de pacientes doentes.
Ela abriu a porta de um quarto com vista para um pátio do jardim, o espaço pequeno, mas limpo, e claro. Paredes convidativas e quentes do dia. Uma cama estreita contra uma parede, uma cadeira e uma mesa pequena diante da janela. Apenas espaço suficiente para ele manobrar.
— Deixe-me ver novamente — pediu Yrene, apontando para os pés dele.
Chaol levantou a perna com as mãos, esticando-a. Então girou os tornozelos, grunhindo contra o peso considerável de suas pernas.
Ela tirou as botas e as meias quando se ajoelhou diante dele.
— Bom. Precisamos manter assim.
Ele olhou para a sacola cheia de livros e pergaminhos que ela tinha saqueado da biblioteca descartada na porta de entrada. Ele não sabia o que diabos qualquer um deles dizia, mas eles levaram o máximo possível. Se quem ou o que estivera naquela biblioteca tivesse roubado alguns, e se talvez ele não tivesse a chance de voltar por mais... Ele não arriscaria que eles eventualmente retornassem para reivindicar o resto.
Yrene imaginava que o pergaminho que havia escondido em seus aposentos tivesse oitocentos anos. Mas aquela profundidade da biblioteca, considerando-se a idade da Torre...
Ele não disse a ela que achava que poderia ser muito, muito mais antigo. Cheio de informações que talvez não tivessem sobrevivido em suas próprias terras.
— Eu posso encontrar roupas para você — disse Yrene, examinando o pequeno quarto.
— Eu ficarei bem com o que tenho — Chaol respondeu sem olhar para ela. — Eu durmo sem elas.
— Ah.
O silêncio caiu, enquanto ela sem dúvida se lembrava de como o havia encontrado naquela manhã.
Aquela manhã. Foi realmente há apenas algumas horas? Ela tinha que estar exausta.
Yrene gesticulou para a vela queimando na mesa.
— Você precisa de mais luz?
— Estou bem.
— Eu posso trazer um pouco de água.
— Estou bem — ele disse, os cantos de sua boca se torcendo para cima.
Ela apontou para o pote de porcelana no canto.
— Então, pelo menos, deixe-me trazê-lo para o...
— Eu também posso lidar com isso. É tudo sobre mira.
Cor manchava suas bochechas.
— Certo. — Ela mordeu o lábio inferior. — Bem... boa noite, então.
Ele poderia ter jurado que ela estava enrolando. E ele a teria deixado, exceto...
— É tarde — disse ele. — Você deve ir ao seu quarto enquanto as pessoas ainda estão acordadas.
Porque, enquanto Nesryn não havia encontrado nenhum vestígio de valg em Antica, enquanto fazia dias desde aquele ataque na biblioteca da Torre, ele não correria riscos.
— Sim — concordou Yrene, apoiando uma mão no limiar. Ela pegou a maçaneta para fechar a porta atrás dela.
— Yrene.
Ela fez uma pausa, inclinando a cabeça.
Chaol manteve seu olhar fixo, um pequeno sorriso curvando sua boca.
— Obrigado — Ele engoliu em seco. — Por tudo isso.
Ela apenas assentiu e recuou, fechando a porta atrás dela. Mas, ao fazê-lo, pegou um vislumbre da luz que dançava em seus olhos.



Na manhã seguinte, uma mulher de rosto severo chamada Eretia apareceu à sua porta para informá-lo de que Yrene tinha um encontro com Hafiza e o encontraria no palácio no almoço.
Então, Yrene pediu a Eretia que o acompanhasse de volta ao palácio – uma tarefa que Chaol só poderia se perguntar por que ela atribuíra à senhora, que batia o pé enquanto ele pegava suas armas, o saco pesado de livros, e estalava a língua a cada mínimo atraso.
Mas a cavalgada pelas ruas íngremes com Eretia não foi horrível; a mulher era surpreendentemente uma cavaleira experiente que não tolerava nenhuma estripulia de sua montaria. No entanto, não ofereceu pouco mais do que um grunhido de despedida antes de deixá-lo no pátio do palácio.
Os guardas estavam mudando de turno, a troca da manhã atrasada para conversarem entre si.
Ele já reconhecia o suficiente deles para ganhar alguns cumprimentos e conseguir retorná-los enquanto sua cadeira era trazida por uma das mãos estáveis.
Ele não tirou os pés dos estribos e preparou-se para o processo ainda desanimador de desmontar quando passos leves se aproximaram dele. Ele se virou para encontrar Shen se aproximando, uma mão no antebraço...
Chaol piscou. E quando Shen parou diante dele, o guarda tinha puxado a luva sobre a mão.
Ou o que Chaol assumira que fosse sua mão. Porque o que ele vislumbrara debaixo da luva e da manga do uniforme de Shen, indo até o cotovelo... Era uma obra-prima – o antebraço e a mão de metal.
E só agora que ele vira, vira o suficiente para realmente notar qualquer coisa... ele podia ver as linhas seguindo pelo bíceps de Shen onde o braço de metal estava preso a ele.
Shen notou seu olhar. Observou-o bem quando Chaol hesitou ao braço e o ombro que Shen lhe ofereceu para auxiliá-lo a desmontar.
O guarda disse na própria língua de Chaol:
— Eu o ajudei bem antes de você saber, Lorde Westfall.
Algo como vergonha, talvez algo mais profundo, o atravessou.
Chaol apoiou-se no ombro do homem, o mesmo ombro que abrigava o braço de metal. Encontrou a força abaixo inabalável quando Shen o ajudou a descer para a cadeira que o esperava.
E quando Chaol estava sentado nele, encarando o guarda enquanto outras mãos levavam seu cavalo para longe, Shen explicou:
— Perdi há um ano e meio. Houve um ataque contra a vida do Príncipe Arghun quando ele visitava a propriedade de um vizir, de um bando de desgraçados de um reino descontente. Eu o perdi durante a luta. Yrene trabalhou em mim quando voltei, fui uma de suas primeiras curas consideráveis. Ela conseguiu reparar tanto quanto podia daqui para cima. — Ele apontou para o cotovelo direito, depois subindo até o ombro.
Chaol estudou a mão que era tão realista dentro da luva que ele não percebeu a diferença, salvo por o fato de que não se movia.
— Os curandeiros podem fazer muitas maravilhas — disse Shen — mas fazer crescer os membros através do ar... — uma risada suave. — Está além da habilidade deles, mesmo uma como Yrene.
Chaol não sabia o que dizer. Desculpas seria errado, mas...
Shen sorriu para ele, sem rastro de piedade.
— Levou muito tempo para chegar a este lugar — ele disse um pouco baixinho.
Chaol sabia que não queria dizer o uso qualificado de seu braço artificial.
— Mas saiba que não cheguei aqui sozinho — Shen acrescentou.
A oferta não dita brilhava nos olhos castanhos do guarda. Inquebrável, esse homem diante dele. Não menos de um homem por sua lesão, por encontrar uma nova maneira de se deslocar pelo mundo.
E Shen permanecera como guarda. Como um dos guardas do palácio de maior elite do mundo. Não por qualquer pena dos outros, mas por seu próprio mérito e vontade.
Chaol ainda não conseguia encontrar as palavras certas para transmitir o que o percorria. Shen assentiu como se entendesse isso também.
Foi uma longa viagem de volta à sua suíte. Chaol não prestou atenção nos rostos pelos quais passou, os sons, cheiros e correntes de vento através dos corredores.
Ele voltou para seus aposentos para encontrar seu bilhete para Nesryn pousado na mesa do vestíbulo. Não lido.
Foi o suficiente para expulsar qualquer outro pensamento de sua mente.
O coração trovejando, seus dedos tremiam quando ele pegou seu bilhete não lido e não visto.
Mas então ele viu o papel abaixo. O seu nome escrito na caligrafia dela.
Ele abriu, lendo as poucas linhas.
Ele leu duas vezes. Três.
Deixou-o sobre a mesa e olhou para a porta aberta do quarto. Silêncio vinha de lá.
Ele era um bastardo.
Ele a arrastara para cá. Quase a matou em Forte da Fenda tantas vezes, implicou tanto sobre os dois, e ainda...
Ele não se deixou terminar o pensamento. Ele deveria ter sido melhor. Deveria tê-la tratado melhor. Não era de se admirar que ela tivesse viajado para a ninhada de ruks para ajudar Sartaq a encontrar qualquer tipo de informação sobre a história valg nesta terra – por eles mesmos.
Merda. Merda.
Ela poderia não ter aceitado as suas promessas, mas ele... Ele as manteve pelos dois.
E havia deixado que essa coisa entre os dois continuasse, a usara como um tipo de muleta...
Chaol expirou, amassando a carta de Nesryn e a dele em seu punho.



Talvez ele não tivesse dormido bem naquele pequeno quarto no complexo dos médicos, acostumado a acomodações muito maiores e mais finas, Yrene disse a si mesma naquela tarde. Isso explicaria suas poucas palavras. A falta do sorriso. Ela tinha um em seu rosto quando entrou na suíte de Chaol depois do almoço. Explicara o progresso dele para Hafiza, que ficou muito satisfeita. Até deu em Yrene um beijo na testa antes de partir.
Praticamente salteando até aqui.
Até que entrou e encontrou o silêncio.
Encontrou-o quieto.
— Você está se sentindo bem? — perguntou Yrene enquanto escondia os livros que ele trouxera consigo esta manhã.
— Sim.
Ela se inclinou contra a mesa para estudar Chaol, sentado no sofá dourado.
— Você não se exercita faz alguns dias. — Ela inclinou a cabeça. — O resto do seu corpo, quero dizer. Nós deveríamos fazê-lo agora.
Para pessoas acostumadas a atividades físicas todos os dias, ficar sem elas podia ser como deixar um viciado sem a droga. Desorientado, inquieto. Ele manteve os exercícios para as pernas, mas o resto... talvez fosse o que o deixara com esse humor.
— Tudo bem. — Seus olhos estavam vidrados, distantes.
— Aqui, ou em uma das instalações de treinamento dos guardas? — Ela se preparou para a resposta cortante.
— Aqui está bom — Chaol apenas disse.
Ela tentou novamente:
— Talvez estar ao redor dos outros guardas seja benéfico para...
— Aqui está bom. — Então ele passou para o chão, deslizando seu corpo para longe do sofá e para baixo, ficando deitado no tapete. — Preciso que você segure meus pés.
Yrene verificou sua irritação com o tom, a recusa absoluta. Mas ela ainda disse enquanto se ajoelhava diante dele:
— Nós realmente voltamos para esse ponto?
Ele ignorou a pergunta e se lançou em uma série de abdominais, seu corpo poderoso se erguendo, então descendo. Um, dois, três... Ela perdeu a conta em cerca de sessenta.
Ele não encontrou seu olhar cada vez que se levantava sobre os joelhos dobrados.
Era natural que a cura emocional fosse tão difícil quanto a física. Que houvesse dias difíceis – semanas difíceis, até. Mas ele estava sorrindo quando ela o deixara na noite anterior, e...
— Diga-me o que aconteceu. Algo aconteceu hoje. — Seu tom talvez não fosse tão gentil quanto o de uma curandeira deveria ser.
— Nada aconteceu. — As palavras eram um impulso de ar enquanto ele se movia, suor deslizando pela coluna, no pescoço e na camisa branca abaixo.
Yrene apertou a mandíbula, contando calmamente em sua cabeça.
Chaol acabou por se virar de barriga para baixo e começou outra série que exigia que ela segurasse seus pés em uma posição que o mantinha levemente para cima.
Para cima e para baixo, para cima e para baixo. Os músculos lustrosos de suas costas e os braços forçaram e ondularam.
Ele passou por outros seis exercícios, e começou a série inteira novamente.
Yrene apoiou e segurou e observou em silêncio.
Deixe-o ter seu espaço. Deixe-o pensar, se é o que ele quer.
O inferno para o que ele quer.
Chaol terminou outra série, sua respiração pesada, o tórax subindo e descendo enquanto olhava para o teto. Algo afiado cintilava em seu rosto, como se em resposta silenciosa a alguma coisa. Ele se ergueu para começar a próxima série.
— É o bastante.
Seus olhos flamejaram, encontrando os dela por fim.
Yrene não se incomodou em parecer agradável ou compreensiva:
— Você causará uma lesão.
Ele olhou para onde ela segurava seus joelhos dobrados e se curvou novamente:
— Eu conheço os meus limites.
— E eu também — ela respondeu, fazendo um movimento com o queixo para as pernas dele. — Você pode machucar suas costas se continuar com isso.
Ele mostrou os dentes – o temperamento ruim o suficiente para ela soltar os pés dele. Seus braços se esticaram enquanto ele deslizava para trás, mas ela se lançou para frente, segurando seus ombros para evitar que ele batesse no chão.
Sua camisa encharcada de suor umedeceu seus dedos, sua respiração em sua orelha enquanto ela confirmava que ele não estava prestes a tombar.
— Eu entendi — ele rosnou em seu ouvido.
— Perdoe-me se não tomar sua palavra para isso — ela cortou, avaliando por si mesma se ele realmente conseguia se apoiar antes de ela se retirar e se acomodar a algumas dezenas de centímetros no tapete.
Em silêncio, eles olharam um para o outro.
— Exercitar seu corpo é vital — Yrene falou, suas palavras cortadas. — Mas você fará mais mal do que bem se se forçar demais.
— Estou bem.
— Acha que eu não sei o que fazendo?
O rosto de Chaol era uma máscara dura, suor escorria por suas têmporas.
— Este foi o seu santuário — disse ela, gesticulando para o corpo afiado, o suor sobre ele. — Quando as coisas ficavam difíceis, quando davam errado, quando você estava chateado ou irritado ou triste, você se perdia no treinamento. Ao suar até queimar os olhos, praticando até seus músculos tremerem e implorarem para você parar. E agora você não pode, como fez uma vez. — Ela manteve seu rosto frio e duro enquanto perguntava: — Como isso faz você se sentir?
Suas narinas dilataram:
— Não pense que você pode me fazer conversar.
— Como se sente, Lorde Westfall?
— Você sabe como me sinto, Yrene.
— Conte-me.
Quando ele se recusou a responder, ela observou para si mesma:
— Bem, já que você parece determinado a obter uma rotina completa de exercícios, eu também poderia trabalhar um pouco suas pernas.
Seu olhar duro era sua antiga marca. Ela se perguntou se ele podia sentir o aperto que agora tomava seu peito, o poço que se abriu em seu estômago enquanto ele permanecia quieto.
Mas Yrene apoiou-se nos joelhos e abaixou o corpo, começando a série de exercícios projetados para treinar ligações entre sua mente e a coluna vertebral. As rotações de tornozelo e dos pés ele poderia fazer sozinho, embora certamente apertasse os dentes após dez repetições.
Yrene continuou apesar de tudo. Ignorou sua raiva borbulhante, mantendo um sorriso melado no rosto enquanto persuadia as pernas pelos movimentos.
Foi só quando ela alcançou a parte alta das coxas que Chaol a interrompeu com uma mão em seu braço.
Ele encontrou seu olhar, então o desviou e apertou a boca, depois disse:
— Estou cansado. Está tarde. Vamos nos encontrar amanhã de manhã.
— Não me importo em começar agora com a cura. — Talvez com o exercício, aqueles ramos destruídos pudessem ser ligados mais do que o habitual.
— Eu quero descansar.
Era uma mentira. Apesar dos exercícios, ele tinha uma boa cor no rosto, seus olhos ainda estavam brilhantes de raiva.
Ela pesou sua expressão, o pedido.
— Descanso não parece o seu estilo.
Seus lábios se apertaram.
— Saia.
Yrene bufou à ordem.
— Você pode comandar homens e criados, Lorde Westfall, mas eu não respondo a você. — Ainda assim, ela recusou, tendo aguentado o bastante da atitude dele. Colocando as mãos nos quadris, ela olhou para onde ele permanecia estirado no tapete. — Vou mandar comida. Coisas para ajudar a fortalecer os músculos.
— Eu sei o que comer.
Claro que sim. Ele estava aprimorando este corpo magnífico há anos. Mas ela apenas espanou as saias de seu vestido.
— Sim, mas eu realmente estudei o assunto.
Chaol se irritou, mas não disse nada. Voltou a olhar para os redemoinhos e as flores tecidos no tapete.
Yrene deu-lhe outro sorriso meloso.
— Eu o verei amanhã cedo, Lorde...
— Não me chame assim.
Ela deu de ombros.
— Acho que vou chamá-lo como eu quiser.
A cabeça dele virou-se, seu rosto lívido. Ela se preparou para o ataque verbal, mas ele pareceu pensar melhor, os ombros se endurecendo enquanto apenas disse uma vez mais:
— Saia.
Ele apontou para a porta com um braço longo.
— Eu deveria chutar esse dedo maldito que você está apontando — disse Yrene, indo em direção à porta. — Mas uma mão quebrada apenas o manteria aqui mais tempo.
Chaol novamente mostrou os dentes, a ira o atravessando em ondas agora, aquela cicatriz em sua bochecha contra sua pele corada:
— Saia.
Yrene apenas exibiu outro sorriso meloso e falso para ele e fechou a porta atrás dela.
Ela atravessou o palácio com rapidez, os dedos curvando-se em garras ao seu lado, reprimindo um rugido.
Pacientes tinham dias ruins. Eles tinham direito. Era natural, e parte do processo. Mas... eles tinham trabalhado tanto. Ele tinha começado a contar suas experiências, e ela compartilhou coisas com ele também, e se divertira no dia anterior.
Ela examinou todas as palavras trocadas na noite passada. Talvez ele estivesse com raiva de algo que Eretia tivesse dito em sua cavalgada para cá. A mulher não era conhecida por suas maneiras. Yrene honestamente se surpreendia que a mulher tolerasse alguém, e ainda mais que se sentisse inclinada a ajudar os seres humanos. Ela poderia tê-lo chateado. Insultado.
Ou talvez ele dependesse da presença constante de Yrene, e a interrupção dessa rotina foi desorientadora. Ela tinha ouvido falar de pacientes e seus curandeiros em tais situações.
Mas ele não mostrava vestígios de dependência. Não, era o oposto, na verdade, uma junção de independência e o orgulho que prejudicava tanto quanto o ajudava.
Respirando descompassadamente, o comportamento dele arrastando as garras pelo temperamento dela, Yrene procurou Hasar.
A princesa acabava de voltar de seu treino de espadas. Renia estava fazendo compras na cidade, Hasar explicara enquanto enlaçava o braço suado e úmido no de Yrene e a conduzia até suas câmaras.
— Todo mundo está tão, tão, tão ocupado hoje — Hasar exclamou, puxando sua trança suada por sobre um ombro. — Até Kashin está fora com meu pai em alguma reunião sobre suas tropas.
— Há algum motivo para isso? — uma pergunta cuidadosa.
Hasar deu de ombros.
— Ele não me disse. Embora ele provavelmente tenha se sentido inclinado a fazê-lo, já que Sartaq voou para o seu ninho nas montanhas por algumas semanas.
— Ele foi embora?
— E levou a Capitã Faliq com ele. — Um sorriso irônico. — Estou surpresa que você não esteja consolando Lorde Westfall.
Oh. Oh.
— Quando eles saíram?
— Ontem à tarde. Aparentemente, ela não disse nada sobre isso. Não pegou as coisas dela. Apenas deixou um recado e desapareceu ao pôr-do-sol com ele. Eu não pensei que Sartaq fosse tão encantador.
Yrene não retornou o sorriso. Ela apostaria muito dinheiro que Chaol retornara esta manhã para encontrar tal recado. Para descobrir que Nesryn se fora.
— Como soube que ela deixou um recado?
— Oh, o mensageiro contou a todos. Não sabia o que estava dentro, mas um bilhete endereçado ao Lorde Westfall foi deixado no ninho. Juntamente com outro para sua família na cidade. O único vestígio dela.
Yrene fez uma observação mental para nunca mais enviar correspondência ao palácio. Pelo menos não cartas que importassem.
Não era de se admirar que Chaol estivesse inquieto e zangado, se Nesryn tinha desaparecido assim.
— Você suspeita de jogo duplo?
— De Sartaq? — Hasar riu. A pergunta foi resposta suficiente.
Criados silenciosos chegaram às portas da princesa, abrindo-as e ficando de lado. Pouco mais do que sombras feitas de carne.
Mas Yrene fez uma pausa na entrada, cravando seus calcanhares enquanto Hasar a puxava para frente.
— Eu me esqueci de dar o chá dele — ela mentiu, afastando o braço do Hasar.
A princesa apenas lançou-lhe um sorriso de quem sabia.
— Se ouvir algumas dicas interessantes, você sabe onde me encontro.
Yrene conseguiu acenar com a cabeça e se virou.
Ela não foi até os aposentos dele. Duvidava que o humor de Chaol tivesse melhorado nos dez minutos desde que saíra tempestuosamente pelos corredores do palácio. E se ela o visse, sabia que não seria capaz de abster-se de perguntar sobre Nesryn. De forçar até aquele controle fosse quebrado. E ela não conseguia adivinhar onde isso os deixaria. Talvez num ponto para o qual nenhum dos dois estivesse pronto.
Mas ela tinha um dom. E um tremor implacável e ininterrupto agora rugiu em seu sangue graças a ele.
Ela não podia ficar parada. Não queria voltar para a Torre para ler ou ajudar qualquer um dos outros com seus trabalhos.
Yrene deixou o palácio e dirigiu-se para as ruas empoeiradas de Antica.
Ela conhecia os caminhos. As favelas nunca mudavam. Apenas crescia ou recuava, dependendo da lei.
Sob o sol brilhante, havia pouco a temer. Não eram pessoas ruins. Somente pobres, alguns desesperados. Muitos esquecidos e desanimados.
Então, ela fez o que sempre fez, mesmo em Innish.

Yrene seguiu o som de tosse.

6 comentários:

  1. Ah caramba Chaol é por essas e outras que sentimos vontade de lhe dar umas porradas.

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  2. "— Eu ficarei bem com o que tenho — Chaol respondeu sem olhar para ela. — Eu durmo sem elas."

    Podem me chamar de pervertida, mas minha mente viajou legal heuheu e.e

    Que merda Chaol, mas deu uma vontade enorme de te estrangular, é essas e outras que eu te odiava tanto

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  3. Chaol voltou a ser o chato insuportável de antes, espero que passe logo essa fase.

    E esse desaparecimento do Khagan pra agora estar em reunião com Kashin, que ninguém sabe sobre o que é. Estou bastante desconfiada.

    E assa saída de Yrene pelas favelas, espero estar errada, mas acho que vai dar M.

    Flavia

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  4. Chao,Eu tava gostando de ti.Pfv nao vamos retroceder.

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  5. essa rainha que nao aparece... o rei que nao aparecu no jantar... e agora essa saida com kashin pra inspecionar exercitos... sei não ... acho que tem colares e aneis por ai

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Boa leitura, E SEM SPOILER!