29 de janeiro de 2018

Capítulo 25

Yrene e Chaol apressaram-se para a biblioteca da Torre imediatamente após o almoço. Chaol montou seu cavalo com facilidade relativa, Shen dando-lhe um toque entusiasmado nas costas em aprovação. Alguma pequena parte de Yrene quis comemorar quando percebeu que Chaol encontrou os olhos do homem para oferecer um sorriso firme de agradecimento.
E quando passaram por aquelas paredes brancas, à medida que a massiva Torre se elevava acima deles e o cheiro de limão e lavanda enchiam o nariz de Yrene... alguma parte dela se aliviou em sua presença. Da mesma maneira como tinha feito desde o primeiro momento em que ela viu a torre elevando-se acima da cidade enquanto seu navio finalmente se aproximava da costa, como se fosse um braço pálido erguido para o céu em saudação.
Como se estivesse proclamando-lhe Bem vinda, filha. Nós estamos esperando por você.
A biblioteca da Torre ficava localizada nos níveis mais baixos, a maioria dos seus salões com rampas graças aos carrinhos que os bibliotecários costumavam usar para transportar livros e coletar quaisquer tomos que acólitos descuidados houvessem esquecido de devolver.
Havia algumas escadas onde Yrene tinha sido forçada a apertar os dentes e descê-lo.
Ele a encarou nesses momentos. E quando ela perguntou o porquê, ele respondeu que era a primeira vez que ela tocava sua cadeira. O empurrava.
Ela supôs que fosse verdade. Mas lhe avisara para não se acostumar com isso, e deixou-o impulsionar-se através dos corredores iluminados da Torre.
Algumas das garotas da sua aula de defesa os encontraram e pararam para cumprimentar o lorde, que as presenteara com um sorriso torto que as deixava rindo enquanto se afastavam. A própria Yrene sorriu para elas quando pararam, balançando a cabeça.
Ou talvez o bom humor fosse do fato de que todo o pé, abaixo do tornozelo, estava recobrando sentido e movimento. Ela o forçou a suportar outro conjunto de exercícios antes de irem até ali, deitando-o no tapete enquanto ela o ajudava a mover o pé ao redor, esticando-o, girando-o. Todos projetados para fazer com que o sangue fluísse, para despertar mais suas pernas.
O progresso foi suficiente para manter Yrene sorridente até chegarem à mesa de Nousha, onde a bibliotecária empurrava alguns tomos em sua pesada bolsa de couro. Embalando-os para o dia.
Yrene olhou para a campainha que havia tocado apenas algumas noites atrás, mas recusou-se a empalidecer. Chaol trouxera uma espada e uma adaga, e ela ficara hipnotizada enquanto o assistia usá-las com tanta eficiência.
Ele dificilmente precisava olhar, seus dedos guiados por pura memória muscular. Ela podia imaginar tudo. De manhã e de noite, ele afivelava e desafivelava o cinto da espada.
Yrene inclinou-se sobre a mesa e falou com Nousha, que avaliava Chaol ao mesmo tempo em que a atendia.
— Eu gostaria de ver onde você encontrou aqueles textos de Eyllwe. E os pergaminhos.
As sobrancelhas brancas de Nousha franziram.
— Isso trará problemas? — Seu olhar deslizou para a espada que Chaol tinha posicionado em seu colo para evitar que se chocasse contra as rodas da cadeira.
— Não se eu puder impedir — disse Yrene calmamente.
Atrás deles, deitado em uma poltrona na grande área de estar diante da lareira, um gato de Bastet branco como neve estava meio adormecido, sua longa cauda se movendo como um pêndulo enquanto cobria a borda da almofada.
Sem dúvida, ouvindo todas as palavras, pronto para relatar a suas irmãs.
Nousha suspirou com força da forma que Yrene testemunhara centena de vezes, mas fez um gesto para o corredor principal. Ele rosnou um chamado em halha para um bibliotecário próximo para cuidar da mesa e liderou o caminho.
Enquanto seguiam, o gato de Bastet branco abriu um olho verde. Yrene se certificou de dar-lhe um aceno respeitador de cabeça. O gato simplesmente voltou a dormir, satisfeito.
Por longos minutos, Yrene viu Chaol observar as lanternas coloridas, as paredes de pedra quente e prateleiras infinitas.
— Isto aqui deixaria a biblioteca real de Forte da Fenda no chinelo — ele observou.
— Ela é grande assim?
— Sim, mas esta deve ser maior. Mais antiga, definitivamente. — Seus olhos dançavam com sombras, partes de memória que ela se perguntou se vislumbraria na próxima vez que trabalhasse nele.
A sessão de hoje... A deixara no chão.
Mas o sal de suas lágrimas servira para limpar. De certa forma, ela não sabia que precisava disso.
Para baixo e para baixo eles foram, seguindo a rampa principal que percorria os andares. Eles passaram por bibliotecários colocando livros em prateleiras, acólitos em estudo solitário ou em grupo ao redor das mesas, curandeiros que examinavam tomos mofados em salas sem portas, um ocasional gato de Bastet esparramado sobre o topo das prateleiras, ou nas sombras, ou simplesmente sentado em uma encruzilhada – como se estivesse esperando.
Ainda assim, eles foram mais fundo.
— Como você sabia que ficam aqui? — perguntou Yrene às costas de Nousha.
— Nós mantemos bons registros — disse a bibliotecária-chefe.
Chaol lançou a Yrene um olhar que dizia, Também temos bibliotecários irritáveis em Forte da Fenda.
Yrene mordeu o lábio para não sorrir. Nousha poderia cheirar a risada e divertir-se como um cão de caça farejando a presa. E cortá-la tão maleficamente quanto.
Finalmente, chegaram a um corredor escuro que cheirava a pedra e pó.
— Segunda prateleira a partir de baixo. Não arruínem nada — disse Nousha, como explicação e adeus, e deixou-os sem olhar para trás.
As sobrancelhas de Chaol se elevaram, e Yrene tentou segurar sua risada.
Parou de ser um esforço quando se aproximaram da prateleira que a bibliotecária havia indicado. Pilhas de pergaminhos escondidos sob os livros cujas lombadas brilhavam com a língua de Eyllwe.
Chaol soltou um assobio baixo através dos dentes:
— Quantos anos tem a Torre, exatamente?
— Mil e quinhentos anos.
Ele ficou quieto.
— Esta biblioteca está aqui há muito tempo?
Ela assentiu.
— Foi toda construída de uma só vez. Um presente de uma antiga rainha para a curandeira que salvou a vida de seu filho. Um lugar para o curandeira estudar e viver, perto do palácio, e convidar outros para estudar também.
— Então é anterior ao khaganato por um bom tempo.
— Os khagans são os últimos em uma longa linha de conquistadores desde então. Os mais benevolentes desde aquela primeira rainha, com certeza. Mesmo o próprio palácio não sobreviveu tão bem quanto a Torre. O que você vê agora... Eles o construíram sobre os escombros do castelo da rainha. Depois de os conquistadores que vieram uma geração antes do khaganato o destruírem até as bases.
Ele praguejou, baixa e criativamente.
— Curandeiros — disse Yrene, examinando as prateleiras — estão em alta demanda, seja você o governante atual ou o invasor. Todos os outros postos... talvez sejam desnecessárias. Mas uma torre cheia de mulheres que podem mantê-lo vivo, mesmo se você estiver pendurado por um fio...
— Mais valiosa que o ouro.
— O que deixa a questão de por que o último rei de Adarlan... — Ela quase disse seu rei, mas a palavra soava estranhamente em sua cabeça agora. — Por que ele sentiu a necessidade de destruir aqueles de nós com o dom em seu próprio continente.
Por que a coisa dentro dele sentiu a necessidade, foi o que ela não disse.
Chaol não encontrou seus olhos. E não por vergonha. Ele sabia de alguma coisa. Algo mais.
— O quê? — ela perguntou.
Ele examinou as pilhas escuras e depois prestou atenção para ouvir se havia alguém por perto.
— Ele foi de fato... tomado. Invadido.
Tinha sido um choque perceber qual o poder das trevas contra o que ela lutava em sua lesão. Um choque, e ainda um grito de renovação para sua magia. Como se alguma névoa tivesse sido limpa, algum véu de medo e tudo o que fora deixado embaixo fosse sua raiva e tristeza cega, inalterável, quando ela pulou sobre as trevas. Mas... o rei na verdade estivera possuído, então. Todo esse tempo.
Chaol tirou um livro da prateleira e o abriu, sem ler as páginas. Ela tinha certeza, ele não sabia como ler Eyllwe.
— Ele sabia o que estava acontecendo. O homem dentro dele lutou o melhor que pôde. Ele sabia que aquela raça... — os valg — achavam pessoas com dons... atraentes. — Possuidores de magia. — Sabia que eles queriam conquistar os talentosos. Pelo seu poder.
Infestá-los, como o rei fora. Como a ilustração que A Canção do Princípio retratava. O intestino de Yrene revirou.
— Então, o homem manteve controle suficiente para dar a ordem de que os mágicos deveriam ser executados, em vez de usados contra ele. Contra nós.
Transformados em hospedeiros para aqueles demônios e tornados armas.
Yrene se inclinou contra a prateleira atrás deles, uma mão indo para a garganta. Seu pulso batia sob seus dedos.
— Era uma escolha pela qual ele se odiava. Mas viu como uma decisão necessária a se tomar. Juntamente com uma maneira de certificar-se de que os que estavam no controle não pudessem usar magia. Ou encontrar aqueles que a podiam usar. Não sem conhecê-los anteriormente. Ou através daqueles dispostos a vendê-los por dinheiro, aos homens que ele ordenou para caçá-los.
O desaparecimento da magia não tinha sido natural.
— Ele... ele encontrou uma maneira de banir...?
Um aceno nítido.
— É uma longa história, mas ele a interrompeu. Obstruiu. Para evitar que esses conquistadores tivessem os hospedeiros que queriam. E depois caçaram o resto deles para garantir que seus números fossem menores ainda.
O rei de Adarlan suspendera a magia, matara seus portadores, enviara suas forças para executar sua mãe e inúmeros outros... não apenas por ódio e ignorância cega, mas como uma maneira distorcida de tentar salvar sua raça?
Seu coração trovejou dentro de seu corpo.
— Mas curandeiros, nós não temos poder para usar em batalha. Nada além do que você vê de mim.
Chaol estava completamente imóvel enquanto a encarava.
— Eu acho que vocês podem ter algo que eles querem muito.
O pelo ao longo dos braços arrepiou-se.
— Ou querem evitar que vocês saibam demais sobre algo.
Ela engoliu em seco, sentindo o sangue fugir de seu rosto.
— Como sua lesão.
Um aceno de cabeça.
Ela respirou instavelmente, indo para a pilha diante dela. Os pergaminhos.
Os dedos dele roçaram os dela.
— Eu não deixarei que nenhum mal aconteça a você.
Yrene sentiu-o esperando que ela lhe dissesse o contrário. Mas ela acreditava nele.
— E o que eu mostrei antes? — Ela perguntou, inclinando a cabeça para os pergaminhos. As marcas de Wyrd, ele as chamara.
— Parte do mesmo. Um tipo de poder anterior e diferente. Fora da magia.
E ele tinha um amigo que podia lê-las. Usá-las.
— É melhor que sejamos rápidos — disse ela, ainda tomando cuidado com potenciais ouvintes. — Tenho certeza de que o livro que preciso para o fungo em seus dedos dos pés está aqui em algum lugar, e estou ficando com fome.
Chaol lançou-lhe um olhar incrédulo. Ela ofereceu-lhe um estremecimento de desculpas em troca.
Mas risada dançou em seus olhos quando começou a puxar livros para o colo.



O rosto e as orelhas de Nesryn estavam entorpecidos com o frio quando Kadara pousou em um afloramento rochoso no topo de uma pequena serra de pedra cinzenta. Seus membros não estavam melhores, apesar dos couros, e estavam doloridos o suficiente para que ela estremecesse enquanto Sartaq a ajudava a descer.
O príncipe fez uma careta.
— Esqueci que você não está acostumada a viar por tanto tempo.
Não era a rigidez que realmente a incomodava, mas a bexiga – apertando as pernas, Nesryn examinou o acampamento que a ruk considerava adequado para o seu mestre.
Era protegido em três lados por pedregulhos e pilares de rocha cinzenta, com uma ampla construção contra os elementos, mas não havia possibilidade de se ocultar. E perguntar a um príncipe como cuidar de suas necessidades...
Sartaq simplesmente apontou para um conjunto de pedras:
— Há privacidade por ali, se você precisar.
Com o rosto aquecendo, Nesryn assentiu, não conseguiu olhá-lo nos olhos quando foi apressadamente para onde ele tinha indicado, deslizando entre dois pedregulhos para encontrar outro pequeno afloramento que abria para uma inesperada queda, para as pedras implacáveis e um córrego muito, muito abaixo. Ela escolheu uma pequena rocha afastada do vento e não perdeu tempo ao desabotoar suas calças.
Quando emergiu novamente, ainda dolorida, Sartaq havia removido a maioria dos pacotes de Kadara, mas deixara sua sela. Nesryn aproximou-se do poderoso pássaro, que a observava atentamente, levantando a mão em direção à primeira fivela.
— Não — disse Sartaq calmamente de onde colocava o último dos pacotes debaixo da saliência, seu sulde escondido contra a parede atrás deles. — Nós deixamos as selas enquanto viajamos.
Nesryn baixou a mão, examinando o poderoso pássaro.
— Por quê?
Sartaq tirou dois sacos de dormir e esticou-os contra a parede rochosa, reivindicando um para si mesmo.
— Se formos emboscados, se houver algum perigo, precisamos poder fugir para os céus.
Nesryn examinou a cordilheira circundante, o céu manchado de rosa e laranja do sol se pondo. As Montanhas Asimil – uma pequena e solitária cadeia, se sua lembrança da terra lhe vinha corretamente. Ainda longe, longe ao norte das Montanhas Tavan do rukhin. Eles não passaram por uma aldeia ou algum sinal de civilização em excesso em uma hora entre esses picos desolados: deslizamentos de terra, inundações instantâneas... Ela supôs que havia perigos em grande quantidade.
Supôs que os únicos que poderiam alcançá-los aqui eram outros ruks. Ou serpentes aladas.
Sartaq tirou latas de carnes curadas e frutas, juntamente com dois pequenos pães.
— Você as viu, as montarias de Morath? — Sua pergunta foi quase levada pelo uivo do vento além da parede de rochas. Como ele sabia para onde sua mente havia se desviado, ela não conseguia adivinhar.
Kadara instalara-se perto de uma das três faces, dobrando as asas com firmeza. Eles pararam uma vez mais cedo – para permitir que Kadara se alimentasse e para que eles atendessem suas necessidades – então a ruk não precisaria procurar jantar nessas montanhas estéreis. Ela ainda estava cheia, Kadara agora parecia estar satisfeita em adormecer.
— Sim. — admitiu Nesryn, puxando livre a alça de couro do fim de sua trança curta e penteando os cabelos. Nós prenderam seus dedos ainda frios enquanto os desembaraçava, grata porque a tarefa a impediu de estremecer à memória das bruxas e suas montarias. — Kadara provavelmente tem dois terços, ou metade do tamanho de uma serpente alada. Talvez. Ela é grande ou pequena para uma ruk?
— Pensei que você tivesse ouvido todas as histórias sobre mim.
Nesryn bufou, sacudindo os cabelos uma última vez enquanto se aproximava do saco de dormir e da comida que ele deixara para ela.
— Você sabe que o chamam de príncipe alado?
Um fantasma de sorriso.
— Sim.
— Gosta do título? — Ela se acomodou no saco de dormir, cruzando as pernas por baixo dela.
Sartaq passou para ela a lata de frutas, acenando para que ela comesse. Ela não se incomodou em esperá-lo, as uvas estavam frias graças às horas no vendo forte.
— Se eu gosto do título? — Ele meditou, pegando um pão e passando para ela. Ela aceitou com um aceno de cabeça de agradecimento. — É estranho, suponho. Se tornar uma história enquanto ainda está vivo. — Um olhar de soslaio para ela enquanto ele puxava um pedaço de seu pão. — Você mesma está cercada por algumas lendas vivas. Como eles se sentem sobre isso?
— Aelin certamente aproveita. — Ela nunca conheceu outra pessoa com tantos nomes e títulos, e que gostava de se exibir tanto. — Os outros... não suponho que eu os conheça bem o suficiente para saber. Embora Aedion Ashryver... ele ganha após Aelin. — Ela colocou outra uva na boca, o cabelo balançando enquanto inclinava para frente para colocar um pouco mais na palma de sua mão. — Eles são primos, mas agem mais como irmãos.
Ele pareceu considerar.
— O Lobo do Norte.
— Você já ouviu falar dele?
Sartaq passou a lata de carnes curadas, deixando-a escolher qual fatia ela queria.
— Eu te disse, capitã Faliq, meus espiões trabalham bem.
Uma linha cuidadosa – trazê-lo para uma aliança em potencial era uma linha cuidadosa para se andar. Pareça muito ansiosa, elogie demais seus companheiros e ela seria transparente, mas não fazer nada... Era contra a sua natureza. Mesmo como uma guarda da cidade, seu dia de folga geralmente começava com ela procurando algo para fazer, seja uma caminhada através de Forte da Fenda ou ajudando seu pai e sua irmã a preparar os produtos do dia seguinte.
Buscadora do Vento, sua mãe uma vez a chamou. Incapaz de ficar parada, sempre vagando onde o vento a chama. Até onde sua jornada a levará, minha rosa?
Até onde o vento agora a chamara.
— Então espero que seus espiões tenham lhe dito que Aedion tem uma legião habilidosa — Nesryn disse.
Um aceno de cabeça vago, e ela sabia que Sartaq via todos os planos dela. Mas ele terminou sua parte do pão e perguntou:
— E quais são as histórias que contam sobre você, Nesryn Faliq?
Ela mastigou a carne de porco salgada.
— Ninguém conta histórias sobre mim.
Isso não a incomodava. Fama, notoriedade... Ela valorizava mais outras coisas, supôs.
— Nem mesmo uma história sobre a flecha que salvou a vida de uma metamorfa? O tiro impossível disparado de um telhado?
Ela girou a cabeça em direção a ele. Sartaq apenas bebeu de sua água com um olhar que dizia, Eu lhe disse, meus espiões trabalham bem.
— Pensei que Arghun fosse aquele que tratava de informações secretas — disse Nesryn cuidadosamente.
Ele passou o cantil de água doce.
— Arghun é aquele que se orgulha quanto isso. E eu dificilmente chamaria isso de secreto.
Nesryn bebeu alguns goles de água e ergueu uma sobrancelha.
— Mas é?
Sartaq riu.
— Suponho que esteja certa.
As sombras aumentavam mais e mais, o vento aumentou. Ela estudou a rocha ao redor deles, os pacotes.
— Você não arrisca uma fogueira.
Um balançar de sua cabeça, a trança escura balançando.
— Seria como um farol. — Ele franziu a testa para seus couros, os pacotes empilhados ao redor deles. — Eu tenho cobertores pesados em algum lugar por ali.
Eles caíram em silêncio, comendo enquanto o sol desaparecia e as estrelas começavam a piscar acordadas por entre as faixas vibrantes de azul. A própria lua apareceu, banhando o acampamento com bastante luz para eles enxergarem, o príncipe selando as latas e colocando-as de volta nos pacotes.
Através do espaço, Kadara começou a roncar, um sibilo profundo que retumbou através da rocha.
Sartaq riu.
— Sinto muito se isso a mantiver acordada.
Nesryn apenas balançou a cabeça. Compartilhar um acampamento com um ruk, nas montanhas acima do gramado planas abaixo, o Príncipe Alado ao seu lado... Não, sua família não acreditaria.
Observaram as estrelas em silêncio, sem se mexerem para dormir. Um a um, o restante das estrelas emergiu, mais brilhantes e mais claras do que ela tinha visto desde aquelas semanas no navio. Estrelas diferentes, ela percebeu com uma sacudida, daquelas no norte.
Diferentes e, no entanto, essas estrelas haviam queimado por incontáveis séculos acima de seus antepassados, acima de seu pai. Teria sido estranho para ele deixá-las para trás? Ele sentiu falta delas? Ele nunca falou sobre isso, como era mudar para uma terra com estrelas estrangeiras – se havia se sentido à deriva à noite.
— Flecha de Neith — disse Sartaq depois de minutos incontáveis, recostando-se contra a rocha.
Nesryn arrastou o olhar das estrelas para encontrar o rosto dele banhado pela luz da lua, a prata dançando ao longo do puro ônix de sua trança.
Ele descansou os antebraços sobre os joelhos.
— Assim era como meus espiões a chamavam, como a chamei até você chegar. Flecha de Neith. — A Deusa da Arquearia – e da Caça, originariamente proveniente de um antigo reino do deserto para o oeste, agora envolvido no vasto panteão do khaganato. Um canto da boca dele se elevou. — Então, não se surpreenda se houver agora uma ou duas histórias sobre você já encontrando seu caminho através do mundo.
Nesryn o observou por um longo momento, o vento da montanha uivando se misturando com o ronco de Kadara.
Ela sempre se destacou no tiro com arco, orgulhosa de sua mira incomparável, mas não porque buscava um cobiçado renome. Ela tinha feito isso porque gostava, porque lhe dava uma direção para apontar aquela inclinação, de buscar vento. E ainda...
Sartaq terminou com o restante da comida e fez uma rápida verificação da segurança do acampamento, indo ele mesmo entre os pedregulhos.
Com apenas as estrelas estrangeiras para testemunhar, Nesryn sorriu.

23 comentários:

  1. Ahhhh como não shippar???
    "As estrelas que ouvem e aos sonhos que são atendidos." (Entendedores entenderão)

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  2. Chaol lançou a Yrene um olhar que dizia, Também temos bibliotecários irritáveis em Forte da Fenda.
    Não
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    Sem esses olhos que significam uma frase completa outra vez....!

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    1. eu tb fico me perguntando como é que olhos podem dizer tanta coisa

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    2. Quando é Celaena ainda se entende porque que é ela e o parceiro , mas eles.

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  3. Isso tá virando GOT hein. Todo mundo tem título. A ligeirinha têm um?

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    1. Deve ser algo como a cadela da Cadela Cuspidora de Fogo haushaushaus

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    2. morri com esse comentário! kkkkkkkk

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  4. Eu tô tão traumatizada com a frase "todo mundo pode trair todo mundo" que estou desconfiando até dos gatos dessa torre 😂

    Aaaaaaaaaaaaaaa sobre Nesryn e Sartaq: SE PEGUEM LOGO *-* alguém inventa um shipp aí, sou péssima pra isso heuheu

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    1. Kkkkk eu desconfiaria de todos, menos dos gatos!

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    2. Se a Arya existisse nesse universo, eu também desconfiaria.

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  5. Gente só eu tô com medo que esse Ruk seja um traidor... ele ta mto perfeitinho para ser verdade!

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  6. Gente, para tudo, leiam esse comentário e imaginem junto comigo.

    Imaginem esse povo todo, mais a Aelin e cia., mais a Corte Noturna, todos contra Erawan.
    Caramba, seria uma guerra tão incrível, que chega até arrepia.
    Imaginem se juntar Aedion, Cassian, Rowan, Az e Rhys?! Seria épico.

    Feyre e Aelin lutando lado a lado... Feyre derrubado milhares com sua escuridão, gelo etc, e Aelin derrubando milhares com seu fogo selvagem

    Aedion e Cassian fazendo uma batalha de arrogância dos bastardos. Az e Chaol assistindo e rindo. Rowan e Rhys em guerra de feéricos territoriais.
    Amren, Mor e Lysandra assistindo tudo com humor


    De verdade, se não houver crossover de Court of Dreams e Court of Terrasen, vai ser o maior erro do mundoooo


    Juro, eu ia chorar de emoção do começo ao fim

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Boa leitura, E SEM SPOILER!