15 de janeiro de 2018

Capítulo 25. Dois Karas é melhor do que um só

Depois que a silhueta do Doutor Q.I. desapareceu, Miguel ficou um longo tempo com os olhos pregados no vídeo apagado do intercomunicador. Ele não sabia se era dia ou noite, pois não tinha ideia de quanto tempo permanecera cloroformizado. Ainda sentia enjoos, mas agora tinha vontade de vomitar pelo que acabara de ouvir.
Uma sociedade de formigas obedientes! Era isso que estava reservado à espécie humana com a Droga da Obediência. E ele, Miguel, talvez fosse o único que podia fazer alguma coisa contra aquela barbaridade. Mas, o que fazer? Estava trancado naquele quarto, como numa prisão!
Tempo! Era só nisso que ele conseguia pensar. Precisava ganhar tempo e tentar uma virada na situação. Mas ele estava sozinho. Se, pelo menos, ele tivesse os Karas consigo... Trouxeram uma bandeja com uma farta refeição. Miguel nem tocou nos alimentos. Recostou-se na cama e pensou. Talvez houvesse uma esperança se ele pudesse fingir que aceitava o jogo do fanático Doutor Q.I. Talvez...
Exausto, o líder dos Karas adormeceu.

* * *

Acordou com a tenebrosa silhueta do Doutor Q.I. dando-lhe um “bom-dia” que prometia ser péssimo.
— Venha, Miguel. Agora você vai conhecer o começo de uma nova era!
Guiado por um dos empregados, Miguel percorreu as dependências da Pain Control. O empregado pouco tinha o que falar, pois em cada dependência havia um intercomunicador cujo vídeo se acendia logo que eles entravam, mostrando a silhueta do Doutor Q.I., que dava as explicações necessárias.
— Esta é a unidade-piloto de produção da Droga da Obediência, Miguel. Estamos produzindo a droga em diferentes apresentações: em comprimidos, em pó e até na forma de cigarros. Dentro de um mês, já estaremos prontos para sair da fase de testes.
— E qual será a próxima fase, Doutor Q.I.?
— Vamos começar pelas escolas. Estamos preparando uma equipe de jovens para oferecer a Droga da Obediência em todas as escolas. Dentro de pouco tempo, teremos controlado toda a juventude do mundo. O resto será fácil. É uma questão de tempo. Logo teremos o controle das mentes, das vontades, das iniciativas. E a Will Control dominará o mundo!

* * *

Miguel acompanhou o empregado, e a figura do Doutor Q.I. continuou a persegui-los, aparecendo aonde quer que eles fossem.
— Este é o ginásio dos testes de resistência física. Veja o que já conseguimos com as cobaias.
O empregado entregou uma tabela ao rapaz.
— Na primeira coluna desta tabela que você tem nas mãos estão os recordes mundiais — explicava a voz metálica do Doutor Q.I. — Na segunda, estão as marcas conseguidas pelas cobaias sob o efeito da Droga da Obediência. Como você pode ver, Miguel, todas as cobaias superaram os recordes, e duas delas conseguiram vinte centímetros a mais no salto em altura!
Correndo sobre uma esteira rolante, uma garotinha, a cobaia número 14, não apresentava qualquer expressão humana. Parecia um boneco de cera que sabia correr.
— Esta cobaia está correndo há vinte horas, Miguel. Sem apresentar sinal de cansaço nem diminuir o ritmo. Ela conseguiu fazer os 42 quilômetros da maratona em apenas uma hora e cinquenta! Quase meia hora abaixo do recorde mundial!
A voz demonstrava um orgulho imenso:
— Sabe o que isso significa, meu caro? Significa que, sob a ação da Droga da Obediência, as pessoas perdem o medo, o sentido de autopreservação que diminui sua capacidade física. Com a Droga da Obediência, nós estamos criando super-homens!
— E a capacidade intelectual, Doutor Q.I.? E a capacidade criativa?
— Isso tudo desaparece, Miguel. Mas para que queremos criatividade? Para que queremos iniciativa? Isso compete a nós, a elite dirigente. Compete a você, que agora faz parte dessa elite!
Miguel sentiu vontade de chorar: sentado no meio das cobaias, com a mesma expressão estática dos outros, estava Chumbinho. Pobre menino! Tudo por causa de Miguel... Mas, o que era aquilo? A mão esquerda do menino abriu-se e fechou-se numa fração de segundo. Ninguém percebeu o movimento, mas Miguel pôde ler um desenhado na palma da mão de Chumbinho! Então Chumbinho não estava sob o efeito da droga! Estava representando!
“Não estou mais sozinho!”, pensou Miguel.
Agora alguma coisa poderia ser feita. E o líder dos Karas não perdeu tempo. A visita àquela unidade da Pain Control tinha terminado e ele acompanhou o empregado até à porta.
— O senhor primeiro — disse Miguel, educadamente.
No momento em que o homem saiu, Miguel rapidamente bateu a porta e fechou-a por dentro. Ei! Que negócio é esse? Abra! Abra essa porta! De fora, vinham batidas furiosas na porta. De dentro, através do intercomunicador, vinha a voz calma do Doutor Q.I.:
— Ora, ora, ora, Miguel! Pelo que vejo, e como eu desconfiava, minha oferta foi recusada, não é? Que pena! Vai ser uma lástima ter de eliminar um rapaz como você!
— Vai ter de me pegar primeiro, Doutor Q.I.!
— E você acha que isso é difícil? Você prendeu a si mesmo dentro dos meus domínios! Que ingenuidade! Eu esperava mais de você. Você acha que essa porta vai resistir muito? Você acha que...
Não deu para ouvir o resto. Num salto, Miguel arrancou o fio que ligava o intercomunicador à tomada. O vídeo apagou-se. Chumbinho parou de representar e correu para o amigo:
— Miguel!
— Chumbinho!
Os dois abraçaram-se, e a força de um aumentou o ânimo do outro.
— Chumbinho, como é que você ficou esse tempo todo aqui, sem tomar a droga?
— Não foi difícil. Eu fiz como sempre faço quando a mamãe vem me dar aquelas pílulas de vitamina. Eu deixo embaixo da língua, finjo que engulo e depois cuspo fora!
Do lado de fora, batidas fortes mostravam que os bandidos estavam tentando arrombar a porta a marretadas.
— Preste atenção, Kara, porque aquela porta não vai resistir por muito tempo. Tudo aqui depende da energia elétrica, até mesmo a fiscalização do Doutor Q.I. Nossa saída é desligar tudo. Vamos fazer o seguinte...
Chumbinho prestou atenção no que dizia o líder dos Karas. O plano já estava pronto quando a porta do ginásio cedeu com um estrondo.

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