29 de janeiro de 2018

Capítulo 24

Nesryn sabia.
Ela sabia que não tinha sido um mero interesse que levara Chaol a pedir-lhe que conversasse com ele ontem à noite, mas culpa.
Ela estava bem com isso, disse a si mesma. Não substituiu nem uma, mas duas das mulheres na vida dele. Uma terceira... Ela estava bem com isso, repetiu para si quando voltou para as ruas de Antica – nenhum sussurro de valg para ser encontrado – e entrou no palácio.
Nesryn se preparou enquanto olhava para o palácio, não estava pronta para voltar para a suíte, para aguardar o calor brutal da tarde.
Uma figura maciça em cima de um minarete chamou sua atenção, e ela sorriu severamente.
Ela estava sem fôlego quando alcançou o ninho, mas misericordiosamente, Kadara era a única presente para testemunhar isso.
A ruk clicou seu bico em saudação para Nesryn e voltou a rasgar o que parecia ser uma peça inteira de carne bovina. Com costelas e tudo.
— Ouvi dizer que você estava vindo para cá — Sartaq falou das escadas atrás dela.
Nesryn girou.
— Eu... como?
O príncipe deu a ela um sorriso de quem sabia e entrou. Kadara ergueu suas penas com excitação e voltou a sua refeição, como se estivesse ansiosa para terminar e ir para o céu.
— Este palácio está transbordando de espiões. Alguns deles são meus. Há alguma coisa que deseje?
Ele a examinou – vendo o rosto que os tios se queixaram no dia anterior que parecia cansado. Acabado. Infeliz. Eles a encheram de comida, então insistiram que ela levasse seus quatro filhos de volta as docas para selecionar peixe para a refeição da noite, depois empurraram-lhe mais comida pela garganta antes de retornar para o palácio, para a festa. Ainda magra, Zahida falou. Seus olhos estão pesados.
— Eu... — Nesryn examinou a vista além, a cidade brilhando no calor da tarde. — Eu só queria um pouco de paz.
— Então eu a deixarei em paz — disse Sartaq, e virou-se para o arco aberto na escada.
— Não — ela explodiu, aproximando-se dele. Ela parou a mão dela, deixando-a cair imediatamente assim que estava para tocar sua jaqueta de couro. Ninguém segurava um príncipe. Ninguém. — Eu não quis dizer que você devia sair. Eu... não me importo com a sua presença. — Ela acrescentou rapidamente: — Sua Alteza.
A boca de Sartaq se curvou:
— Está um pouco atrasada para usar meu título extravagante, não é?
Ela lançou-lhe um olhar suplicante. Mas ela quis dizer o que ela disse.
Na noite passada, conversar com ele na festa, mesmo falar com ele no beco perto da Torre algumas noites antes disso... Ela não se sentia calada, desinteressada ou estranha. Não se sentia fria ou distante. Ele fizera uma honra em dar-lhe essa atenção e, ao acompanhar ela e Chaol de volta aos seus quartos. Ela não era uma companhia para conversas inteligentes – silenciosa como podia, gostava de estar em torno dos outros. Mas às vezes...
— Ontem passei a maior parte do dia com minha família. Eles podem ser... cansativos. Exigentes.
— Sei como você se sente — disse o príncipe com cuidado.
Um sorriso repuxou os lábios dela.
— Suponho que saiba.
— Vocês os ama, no entanto.
— E você não? — Uma pergunta ousada e impetuosa.
Sartaq deu de ombros.
— Kadara é minha família. Os rukhin, eles são minha família. Meus irmãos, no entanto... é difícil nos amarmos, quando um dia nos enfrentaremos. O amor não pode existir sem confiança.
Ele sorriu para a ruk.
— Eu confio em Kadara com minha vida. Eu morreria por ela, e ela por mim. Posso dizer o mesmo dos meus irmãos? Meus próprios pais?
— É uma pena — admitiu Nesryn.
— Pelo menos eu a tenho — disse ele sobre a ruk. — E meus cavaleiros. Tenho compaixão de meus irmãos, que não têm nenhuma dessas bênçãos.
Ele era um bom homem. O príncipe... era um bom homem.
Ela caminhou para os arcos abertos com vista para a queda mortal para a cidade, muito abaixo.
— Partirei em breve para as montanhas do rukhin — disse Sartaq suavemente. — Para buscar as respostas que você e eu discutimos a outra noite na cidade.
Nesryn olhou por cima do ombro para ele, tentando reunir as palavras certas.
Seu rosto permaneceu neutro, mesmo quando ele acrescentou:
— Tenho certeza de que sua família quererá minha cabeça para oferecer, mas... gostaria de me acompanhar?
Sim, ela queria responder. Mas se forçou a perguntar:
— Por quanto tempo?
Pois o tempo não estava do seu lado. E buscar respostas enquanto tantas ameaças se juntavam...
— Algumas semanas. Não mais do que três. Eu gosto de manter os cavaleiros na linha, e se eu me ausentar por muito tempo, eles puxam a coleira. Então, a viagem servirá para dois propósitos, suponho.
— Eu... eu precisaria discutir. Com Lorde Westfall. — Ela prometeu-lhe tanto na noite passada. Que eles teriam que considerar esse caminho, pesando armadilhas e benefícios. Eles ainda eram um time nesse sentido, ainda assim servindo sob a mesma bandeira.
Sartaq assentiu solenemente, como se pudesse ler tudo em seu rosto.
— É claro. Embora eu vá embora em breve.
Ela então ouviu – o grunhido dos criados subindo as escadas da escada. Trazendo suprimentos.
— Você vai agora — esclareceu Nesryn ao notar a lança inclinada contra a parede mais próxima das prateleiras. Seu sulde. A crina de cabelos castanhos amarrada sob a lâmina flutuava no vento soprando através do minarete, o muro da madeira escura polido e suave.
Os olhos de ônix de Sartaq pareciam escurecer-se ainda mais enquanto caminhava para o sulde, pesando a bandeira espiritual em suas mãos antes de segurá-lo ao seu lado o cabo de madeira no chão de pedra.
— Eu... — era a primeira que ela o viu tropeçar nas palavras.
— Você não ia se despedir?
Ela não tinha o direito de fazer tais demandas, esperar tais coisas, aliados hesitantes ou não.
Mas Sartaq inclinou o sulde contra a parede novamente e começou a prender seus cabelos pretos.
— Após a festa da última noite, pensei que você estaria... ocupada.
Com Chaol. Suas sobrancelhas se ergueram.
— O dia todo?
O príncipe deu-lhe um sorriso maroto, terminando sua longa trança e pegando sua lança mais uma vez.
— Eu certamente levaria o dia todo.
Com a misericórdia de algum deus, Nesryn foi salva de responder pelos criados que apareceram, ofegantes e vermelhos pelo pacotes que carregavam entre eles. Armas brilharam de alguns deles, juntamente com alimentos e cobertores.
— Quão longe fica?
— Algumas horas antes do anoitecer, o dia todo amanhã, depois outro meio dia de viagem para chegar ao primeiro dos ninhos nas Montanhas Tavan — disse Sartaq enquanto entregava seu sulde a um criado que passava, e Kadara pacientemente permitiu que a carregassem com vários pacotes.
— Você não voa à noite?
— Eu me canso. Kadara não. Cavaleiros tolos fizeram esse erro – e caíram nas nuvens de seus sonhos.
Ela mordeu o lábio.
— Quando você parte?
— Em uma hora.
Uma hora para pensar...
Ela não contou a Chaol. Que viu seus dedos dos pés se moverem na noite anterior. Ela os viu enrolar e flexionar no seu sono.
Ela chorou, lágrimas silenciosas de alegria deslizando no travesseiro. Ela não tinha dito a ele. E quando ele acordou...
Vamos ter uma aventura, Nesryn Faliq, ele prometeu-lhe em Forte da Fenda. Ela também chorara.
Mas talvez... talvez nenhum deles tivesse visto. O caminho à frente. As suas ramificações. Ela podia ver claramente um caminho.
Honra e lealdade, ainda intactos. Mesmo que isso o abalasse. A sufocasse. E ela... ela não queria ser um prêmio de consolação. Por piedade ou ser uma distração.
Mas esse outro caminho, o caminho que havia aparecido, se ramificando pelas pastagens, selvas, rios e montanhas... Esse caminho para respostas que poderiam ajudá-los, pode significar nada, poderia mudar o curso desta guerra, sendo carregados nas asas douradas de um ruk...
Ela teria uma aventura. Por si mesma. Esta única vez. Ela veria sua terra natal, sentiria o cheiro dela e respiraria. Veria de cima, correria tão rápido quanto o vento.
Ela se devia tanto. E também devia a Chaol.
Talvez ela e este príncipe de olhos escuros pudessem encontrar algum pedaço de salvação contra Morath. E talvez ela pudesse trazer um exército de volta consigo.
Sartaq ainda olhava, seu rosto cuidadosamente neutro quando o último dos criados fez uma reverência e desapareceu.
Seu sulde fora preso logo abaixo da sela, um lugar de fácil acesso caso se o príncipe precisasse, seus fios avermelhados balançando ao vento. Sendo puxado para o sul. Para aquela terra distante e selvagem das Montanhas Tavan. Acenando, como fizeram todas as bandeiras espirituais, em direção a um horizonte desconhecido. Acenando para reivindicar o que esperava lá.
— Sim. — Nesryn disse calmamente.
O príncipe pestanejou.
— Eu irei com você — ela esclareceu.
Um pequeno sorriso re puxou sua boca.
— Bom. — Sartaq empurrou o queixo para o arco através do qual os criados desapareceram no minarete. — Leve uma bolsa pequena, porém, Kadara já está perto de seu limite.
Nesryn balançou a cabeça, observando o arco e a aljava com as setas já em cima de Kadara.
— Eu não tenho nada para levar comigo.
Sartaq a observou por um longo momento.
— Certamente você gostaria de dizer adeus...
— Não tenho nada — ela repetiu. Os olhos dele cintilaram nisso, mas ela acrescentou: — Eu... deixarei um recado.
O príncipe assentiu solenemente.
— Eu posso vesti-la com roupas quando chegamos. Há papel e tinta no armário da parede mais distante. Deixe a carta na caixa próxima à escada, e um dos mensageiros virá para verificar ao anoitecer.
Suas mãos tremiam levemente enquanto ela obedecia. Não por medo, mas... liberdade.
Ela escreveu dois bilhetes. O primeiro, para seus tios, estava cheio de amor e advertência e bons desejos. O segundo... foi rápido e direto ao ponto:

Eu fui com Sartaq para ver o rukhin. Estarei longe por três semanas. Não aceitei promessas suas. E não aceitarei promessas a não ser as minhas.

Nesryn guardou os dois bilhetes na caixa, sem dúvida verificada muitas vezes por mensagens vinda dos céus, e vestiu os couros que havia usado na última vez que voou.
Ela encontrou Sartaq em cima de Kadara, esperando por ela.
O príncipe estendeu uma mão em silêncio para ajudá-la a subir na sela.
Ela não hesitou quando pegou sua mão, seus dedos fortes envolvendo os dela e permitindo que ele a puxasse para a sela diante dele.
Ele passou as correias em volta deles e verificou-as três vezes. Mas segurou Kadara quando fez o movimento de saltar do minarete.
— Eu estava rezando para o Céu Eterno e todos os trinta e seis deuses que você dissesse sim — Sartaq sussurrou na orelha de Nesryn.
Ela sorriu, mesmo que ele não conseguisse ver.
— Eu também — Nesryn murmurou, e eles pularam nos céus.

10 comentários:

  1. " Eu certamente poderia levar o dia todo"
    Caraca tio... kjkjjk

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    1. Quedia um desse na minha cola

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  2. "— Eu certamente levaria o dia todo."

    OH MEU DEUS, eu gostaria de fazer um teste drive e.e
    AAAAAAAAAAAAAAAA MEU SHIPP VAI DÁ CERTO, AMÉM *-* aproveita pra agarrar o boy Nesryn, mesmo que eu esteja empolgada ainda estou com um pé atrás com relação aos príncipes (A Rainha Vermelha me deixou traumatizada), então acho bom ela ter cuidado

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    1. Aaaa A Rainha Vermelha me traumatizo tb

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  3. "— O dia todo?
    O príncipe deu-lhe um sorriso maroto, terminando sua longa trança e pegando sua lança mais uma vez.
    — Eu certamente levaria o dia todo."
    Aim meu coração... esse Sartak é un fofo!!

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  4. Meu shipp ,fazem esse livro valaer a pena.

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  5. — Após a festa da última noite, pensei que você estaria... ocupada.
    Com Chaol. Suas sobrancelhas se ergueram.
    — O dia todo?
    O príncipe deu-lhe um sorriso maroto, terminando sua longa trança e pegando sua lança mais uma vez.
    — Eu certamente levaria o dia todo.


    Eitaaa aproveita o boy Nesryn eu se Fosse tu iria aproveitar

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!