15 de janeiro de 2018

Capítulo 24. Zé da Silva, perigoso meliante

Naquela quinta-feira a delegacia amanheceu com a costumeira confusão de advogados tentando libertar seus clientes, viaturas manobrando e policiais envolvidos com seus afazeres. Por isso ninguém prestou muita atenção naquele rapazinho de óculos que entrava carregando uma pilha de livros.
— Ei, rapaz! Aonde vai com isso?
— Mandaram entregar para o delegado.
— Segundo andar, à direita.
O plano tinha dado certo. Calú estava dentro da delegacia. Agora era procurar Márius Caspérides, ou melhor, Zé da Silva. Aquela pilha de livros era um passaporte perfeito. Calú percorreu todas as dependências da delegacia e, cada vez que percebia alguém curioso com a sua presença ali, perguntava logo pelo delegado.
O carcereiro estava morrendo de sono. Seu turno já tinha acabado há duas horas, mas o companheiro que deveria substituí-lo ainda não havia chegado.
Quando o telefone da carceragem tocou, o carcereiro atendeu de mau humor:
— Alô.
— É da carceragem?
— Não. É da casa da sua mãe!
A voz, do outro lado do fio, ficou furiosa:
— Veja como fala, seu cretino! Aqui é o doutor Boanerges!
— Oh! Desculpe, doutor!
— Mande subir o prisioneiro Zé da Silva. Quero interrogá-lo na minha sala.
— Qual Zé da Silva, doutor Boanerges? Aqui tem dois.
— O do assalto ao banco, sua besta!
— De... Desculpe, doutor. É que eu preciso saber...
— Você já está me enchendo. Ou você faz esse prisioneiro subir em cinco minutos ou eu vou arranjar pra você dirigir o trânsito em Itaquera!
— Desculpe, doutor. É pra já, doutor!

* * *

O guarda chegou com o prisioneiro Zé da Silva algemado e bateu na porta do doutor Boanerges.
— Entre — ordenou uma voz lá de dentro.
Os dois entraram em uma sala vazia. De uma porta trancada, a voz comandou:
— Deixe o prisioneiro aí. Saia, feche a porta e fique montando guarda.
— Onde o senhor está, doutor? — perguntou o guarda.
— Estou no banheiro, seu idiota!
— É que eu não posso...
— Você só pode fazer o que eu mandar! Cumpra a ordem, já!
— S... s... sim, doutor!
No momento em que a porta da sala foi fechada, o prisioneiro viu, surpreso, um rapazinho sair do banheiro.
— Caspérides? O senhor é o bioquímico Márius Caspérides, eu suponho...
— Sim, sim, sim, não, não, não! Sou Zé da Silva, o perigoso assaltante!
— Sou amigo, seu Caspérides. Tenho uma foto sua. Pode esquecer o seu disfarce. Meu nome é Calú. Precisamos libertá-lo!
O prisioneiro estava apavorado:
— Não, não, não! Eu não quero ser libertado. Sou um perigoso meliante!
— Há muito tempo não se fala mais meliante, seu Caspérides. Pode confiar era mim. Nós já sabemos da Droga da Obediência. Precisamos do senhor para libertar nossos amigos, para libertar mais de vinte garotos que estão sendo usados como cobaias para testar a Droga da Obediência!
O prisioneiro titubeou:
— Mais de vinte? Meu Deus!
— E isso mesmo. Só que não temos nenhuma pista de onde estejam os garotos. E não podemos confiar na polícia. Os sequestradores têm policiais fazendo o jogo deles.
— E onde está o delegado que estava falando lá do banheiro?
— Não tem delegado nenhum, seu Caspérides. Era eu. Uma das minhas especialidades é imitar vozes. O delegado que ocupa esta sala telefonou para cá dizendo que vai se atrasar. Sorte que quem atendeu fui eu. Assim, foi fácil imitar a voz dele para trazer o senhor até esta sala. Vamos, seu Caspérides! Confie em mim! Não temos muito tempo. Dois dos rapazes já foram assassinados!
— Assassinados?! Não é possível! Tudo culpa minha!
— Culpa sua? Por quê?
— Fui eu que criei a Droga da Obediência. Mas eu não pretendia... eu não queria...
— Sabemos disso. Sabemos que o senhor fugiu porque estava contra o uso da droga, certamente. Mas precisamos do senhor para saber onde estão os estudantes desaparecidos.
— Devem estar lá na Pain Control...
Nesse momento, a porta da sala se abriu e o detetive Rubens entrou:
— Pain Control? O que é isso?

* * *

— Não se assustem — acalmou o detetive Rubens, fechando a porta. — Ouvi tudo lá de fora. Ouvi também quando você disse que há policiais envolvidos com os sequestras, garoto. Mas eu não sou um deles. Também estou desconfiado de que há cúmplices dos bandidos dentro da própria polícia. Mas ainda há policiais honestos, meus amigos. Fiquem tranquilos. Vamos pegar a quadrilha inteira!
— Há um policial gordo, careca... — começou Calú a informar.
— O Andrade?
— Esse. Disseram para não confiar nele.
O detetive coçou o queixo:
— Andrade, hein? Eu bem que estava desconfiado! Bom, se Andrade é um dos bandidos, toda a cautela é pouco. Preciso tirar vocês dois daqui. Vamos sair num camburão. Tenho amigos em outra delegacia. Vou usar os policiais de lá para estourar a tal Pain Control e libertar os garotos. Venham comigo!
Rubens tirou um par de algemas da cintura:
— Desculpe, garoto. Seu nome é Calú, não é? Desculpe, mas é melhor eu levar você algemado também. Assim ninguém vai desconfiar quando eu colocar os dois dentro do camburão.
— Está bem — concordou Calú. Delicadamente, o detetive
Rubens algemou o rapaz. Os três saíram pelo corredor. O detetive Rubens foi empurrando os dois “prisioneiros”, exatamente como costumam fazer os policiais.
Enquanto o velho elevador descia para a garagem, o detetive Rubens tirou um chaveiro do bolso e ficou brincando com ele. O chaveiro fazia um barulhinho ritmado, irritante...

* * *

Na garagem da delegacia, o detetive Rubens fez Calú e o bioquímico Caspérides entrarem num camburão, e fechou a porta, trancando-os no lugar destinado aos prisioneiros. Calú ouviu o detetive dar a partida no carro e, de repente, descobriu que tinha caído numa armadilha:
— Ei! Ele nem perguntou o endereço da Pain Control! Que estúpido que eu fui! O maldito detetive é um dos bandidos!
Mas era tarde demais. Estavam presos no interior do camburão como um par de criminosos.

* * *

O camburão saiu sacolejando e teve de dar uma brecadinha não atropelar um casal de mendigos esfarrapados.

* * *

O detetive Andrade estava furioso. Suado, já àquela hora da manhã, há três noites sem dormir, agarrou um guarda pela gola:
— Como? O Rubens saiu dirigindo um camburão? E levou o prisioneiro Zé da Silva com ele?
— Foi — explicou o guarda. — E levou também um prisioneiro jovem, algemado...
— Inferno! —berrou Andrade, correndo para a rua e trombando espetacularmente com o casal de mendigos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!