29 de janeiro de 2018

Capítulo 23

Os olhos de Chaol ficaram vagos quando a pergunta de Yrene perdurou entre eles, a cor novamente fugindo de seu rosto.
— Merda — ele murmurou. — Merda.
— Você não pode lembrar o que aconteceu com os outros dois reis?
— Não, não, eu assumi que eles foram destruídos, mas... por que há menção deles aqui, de todos os lugares?
Ela balançou a cabeça.
— Podemos procurar, pesquisar mais sobre isso.
Um músculo endureceu em sua mandíbula, e ele soltou um longo suspiro.
— Pesquisaremos.
Ele esticou uma mão em direção a ela em demanda silenciosa. Para o mordedor de couro, ela percebeu.
Yrene estudou o queixo e a bochecha de novo, a raiva e o medo. Não era um bom estado para começar uma sessão de cura. Então, ela tentou:
— Quem te deu essa cicatriz?
Pergunta errada.
Suas costas se endureceram, seus dedos cravaram no travesseiro sob o queixo:
— Alguém que merecia me dar.
Não uma resposta.
— O que aconteceu?
Ele apenas estendeu a mão novamente esperando pelo couro.
— Eu não vou dar a você — ela disse, seu rosto uma máscara imobilizante enquanto ele olhava com fúria. — E não começarei esta sessão com raiva.
— Quando eu estiver com raiva, Yrene, você saberá.
Ela revirou os olhos.
— Me diga o que está errado.
— O que há de errado é que eu mal posso mover meus dedos dos pés e talvez eu não tenha um rei valg para enfrentar, mas três. Se falharmos, se não conseguirmos... — Ele se parou antes que ele pudesse expressar o resto. O plano que Yrene sem dúvida sabia ser tão secreto que ele praticamente não ousava pensar sobre isso. — Eles destroem tudo – e todos – que encontram — terminou Chaol, olhando o braço do sofá.
— Eles lhe deram essa cicatriz? — Ela apertou os dedos em um punho para não tocá-la.
— Não.
Mas ela se inclinou para frente, em vez disso passando um dedo por uma pequena cicatriz mal escondida por seus cabelos.
— E isto? Quem te deu isso?
Seu rosto ficou duro e distante. Mas a raiva, a energia impaciente e frenética... acalmou-se. Era frio e distante, mas centrou-o. Seja qual fosse a velha raiva, isso o estabilizou novamente.
— Meu pai me deu essa cicatriz — disse Chaol calmamente. — Quando eu era um menino.
O horror a atravessou, mas era uma resposta. Uma admissão.
Ela não pressionou mais. Não exigiu mais. Não, Yrene disse:
— Quando eu entrar na ferida... — A garganta tremeu enquanto estudava as costas. — Vou tentar encontrá-lo novamente. Se aquilo estiver esperando por mim, talvez eu encontre outra maneira de chegar até você. — Ela considerou. — E talvez tenhamos que encontrar algum outro plano de ataque do que uma emboscada. Mas veremos, suponho.
E mesmo que o canto de sua boca repuxasse no que ele sabia que era um sorriso reconfortante de curandeira, ela sabia que ele notou a aceleração de sua respiração.
— Tenha cuidado — foi tudo o que ele falou.
Yrene apenas ofereceu-lhe o mordedor afinal, levando-lhe aos lábios.
Sua boca roçou os dedos quando ela deslizou entre os dentes.
Por alguns batimentos cardíacos, ele examinou o rosto dela.
— Você está pronto? — ela murmurou à perspectiva de enfrentar aquela escuridão insidiosa novamente.
Ele ergueu a mão para apertar-lhe os dedos em resposta silenciosa. Mas Yrene tirou os dedos dele, deixando o seu próprio para cair de volta às almofadas.
Ele ainda a estudava, vendo a maneira como ela respirou fundo, enquanto colocava a mão sobre a marca nas suas costas.



Nevava no dia em que ele disse ao pai que deveria deixar Anielle. Que abdicaria de seu título como herdeiro e se juntaria à guarda do castelo em Forte da Fenda.
Seu pai o atirou para fora.
Atirou-o pela escada da frente da fortaleza.
Ele abriu a têmpora na pedra cinzenta, os dentes rasgando o lábio. Sua mãe suplicando, gritos que surgiam da rocha enquanto ele deslizava ao longo do gelo ao atingir o chão. Ele não sentiu a dor na cabeça. Apenas a dureza afiada do gelo contra suas palmas nuas, cortando suas calças e rasgando os joelhos.
Havia apenas a súplica de sua mão, e o grito do vento que nunca parava, mesmo no verão, ao redor do topo da montanha que guardava o Lago Prata.
Esse vento agora o rasgava, puxando seus cabelos – mais longo do que ele mantinha desde então. Atirava flocos de neve em seu rosto do céu cinza acima. Os lançava para a sombria cidade abaixo que fluíu para os bancos do lago, alastrando-se e curvando-se em torno de suas margens. Para o oeste, para as grandes quedas. Ou o fantasma delas. A barragem há muito tempo as silenciara, juntamente com o rio que fluía diretamente das montanhas Caninos Brancos, que terminava em sua porta.
Estava sempre frio em Anielle. Mesmo no verão. Sempre frio nesta montanha construída na encosta curva.
— Patético — seu pai cuspiu, e nenhum dos guardas de pedra ousava ajudá-lo a se levantar.
Sua cabeça girava e girava, latejando. O sangue quente escorreu e congelou pelo rosto.
— Encontre seu próprio caminho para Forte da Fenda, então.
— Por favor — sua mãe sussurrou. — Por favor.
A última coisa que Chaol viu dela foi o braço de seu pai segurando-a acima do cotovelo e arrastando-a para dentro. A madeira e pedra pintadas. Seu rosto pálido e angustiado, seus olhos – os olhos dele – revestidos de prata como o lago brilhante muito abaixo. Seus pais passaram por uma pequena sombra à espreita na porta aberta em sua própria vigília.
Terrin.
Seu irmão mais novo deu um passo em direção a ele. Arriscar naqueles degraus perigosamente congelados e ajudá-lo.
Uma palavra afiada e barrada de seu pai dentro da escuridão do corredor interrompeu Terrin.
Chaol limpou o sangue da boca e silenciosamente balançou a cabeça para o irmão. E era terror – terror não diluído – no rosto de Terrin quando Chaol se levantou. Se ele sabia que o título acabava de passar para ele...
Ele não podia suportar. Aquele medo no rosto redondo e jovem de Terrin.
Então, Chaol virou-se, apertando o queixo contra a dor no joelho, já inchado e rígido. Sangue e o gelo se fundiram, escorrendo de suas palmas. Ele conseguiu se mexer. Descer as escadas.
Um dos guardas lá embaixo entregou-lhe o manto de lã cinza. Uma espada e uma faca. Outro deu-lhe um cavalo selado. Um terceiro deu-lhe um pacote de suprimentos que incluía comida e uma tenda, bandagens e uma pomada.
Eles não disseram uma palavra. Não o pararam mais do que o necessário. Ele não conhecia seus nomes. E soube, anos e anos depois, que seu pai assistia de uma das três torres de guarda. Tinha visto. Seu próprio pai contou a Chaol anos depois o que aconteceu com aqueles três homens que o ajudaram.
Eles foram mandados embora. No meio do inverno. Banidos para as Caninos Brancos com suas famílias. Três famílias enviadas para a selva. Apenas dois ainda foram vistos no verão.
Prova. Tinha sido uma prova, ele percebeu depois de se convencer a não matar seu pai. Prova que o reino dele estava cheio de corrupção, com homens maus punindo pessoas boas por uma decência comum. Prova que ele tinha razão para deixar Anielle.
Para ficar com Dorian – para manter Dorian seguro. Para proteger, proteger a promessa de um futuro melhor.
Ele ainda enviou um mensageiro, o mais discreto, para encontrar as famílias que foram deixadas. Ele não se importava por quanto anos tivessem passado. Enviou o homem com ouro. O mensageiro nunca os encontrou, e voltou para Forte da Fenda, com o ouro intacto, meses depois.
Ele havia escolhido, e isso custou a eles. Ele escolheu e enfrentaria as consequências.
Um corpo em uma cama. Uma adaga colocada acima de seu coração. Uma cabeça rolando sobre a pedra. Um colar em volta de um pescoço. Uma espada afundando no Avery. A dor em seu corpo era secundária.
Inútil. Sem utilidade. Qualquer um que ele tentou ajudar... ficou pior.
O corpo na cama... Nehemia.
Ela havia perdido a vida. E talvez ela própria tivesse orquestrado, mas... Ele não disse a Celaena – Aelin – para ficar alerta. Não havia avisado os guardas de Nehemia sobre a atenção do rei. Ele podia muito bem tê-la matado. Aelin poderia tê-lo perdoado, aceitado que ele não era o culpado, mas ele sabia. Podia ter feito mais. Sido melhor. Visto melhor.
E quando Nehemia morreu, aqueles escravos se levantaram em desafio. Um grito de união quando a Luz de Eyllwe foi extinta. O rei também os extinguiu. Calaculla. Endovier. Mulheres e homens e crianças.
E quando ele agiu, quando ele escolheu o seu lado...
Sangue e pedra negra e magia gritando.
Você sabia, você sabia, você sabia
Você nunca será meu amigo, meu amigo, meu amigo
A escuridão forçou por sua garganta, sufocando-o, estrangulando-o. Ele deixou.
Sentiu-se abrir os maxilares para deixá-la ir mais longe.
Pegue, ele disse a escuridão.
Sim, ronronou para ele. Sim.
Mostrou-lhe Morath em seus horrores incomparáveis; mostrou-lhe aquele calabouço embaixo do castelo de vidro, onde os rostos que ele conhecia pediram misericórdia que nunca viria; mostrou-lhe as jovens mãos douradas que tinham aplicado essas agonias, como se tivessem ficado lado a lado para fazê-lo...
Ele sabia. Adivinhava quem foi forçado a torturar seus homens, a matá-los. Ambos sabiam.
Ele sentiu a escuridão inchar, preparando-se para atacar. Para fazê-lo realmente gritar.
Mas então ela se foi.
Campos dourados esticados sob um céu azul sem nuvens. Pequenos riachos brilhantes através dele, ondulando ao redor do carvalho ocasional. Se afastando do verde emaranhado e iminente de Carvalhal. A floresta à sua direita.
Atrás dele, uma cabana de telhado de palha, suas pedras cinzentas cobertas de líquen verde e laranja. Um poço antigo, assentado a poucos metros de distância, um balde equilibrando-se precariamente na borda de pedra. Além dele, anexado à casa em si, um pequeno cercado com galinhas errantes, gordas e focadas na sujeira diante delas.
E depois delas...
Um jardim.
Não é um arranjo formal, belo. Mas um jardim atrás de uma parede de pedra baixa, seu portão de madeira aberto.
Duas figuras estavam agachadas entre as fileiras cuidadosamente planejadas de verde. Ele se dirigiu para elas.
Ele a conhecia pelo cabelo dourado, muito mais leve no sol de verão. Sua pele escurecera num maravilhoso moreno profundo e seus olhos...
Era um rosto de criança, iluminado de alegria, que olhava para a mulher ajoelhada na sujeira, apontando para uma planta verde pálida com cones finos e roxos de flores balançando na brisa quente. A mulher perguntou:
— E aquela?
— Sálvia — a criança, não mais de nove, respondeu.
— E o que ela faz?
A menina sorriu, o queixo subindo enquanto ela recitava:
— É boa para melhorar a memória, o estado de alerta, o humor. Além disso, auxilia com fertilidade, digestão e, em uma pomada, pode ajudar a deixar a pele dormente.
— Excelente.
O sorriso largo da menina revelou três dentes faltando.
A mulher – sua mãe – pegou o rosto redondo da menina nas mãos. Sua pele era mais escura que a da filha, o cabelo mais grosso, mais flexível. Mas seus traços... eram os traços da mulher que a menina teria um dia. As sardas que ela herdaria. O nariz e a boca.
— Você estudou, minha sábia filha.
A mulher beijou sua filha na testa suada. Ele sentiu o beijo – o amor nele – mesmo como um fantasma no portão. Pois era o amor que cobria a totalidade do mundo aqui, dourado. Amor e alegria. Felicidade.
O tipo que ele não conhecia de sua própria família. Ou de qualquer outra pessoa.
A menina tinha sido amada. Profundamente. Incondicionalmente.
Esta era uma lembrança feliz – uma de poucas.
— E qual é aquele arbusto, lá no muro? — perguntou a mulher à menina.
Sua testa franziu em concentração.
— Groselha?
— Sim. E o que fazemos com groselhas?
A menina apoiou as mãos nos quadris, o vestido simples soprando na brisa seca e quente.
— Nós... — Ela bateu no pé com impaciência, buscando em sua própria mente por não se lembrar. A mesma irritação que ele tinha visto fora da casa da velha em Antica.
Sua mãe se levantou atrás dela, varrendo a menina em seus braços e beijando sua bochecha:
— Fazemos torta de groselha.
O grito de prazer da menina ecoou através do matagal cor de âmbar e córregos claros, até mesmo emaranhados, no antigo coração de Carvalhal. Talvez mesmo até os próprios Caninos Brancos, e a cidade fria aninhada aos seus pés.



Ele abriu os olhos.
E encontrou o seu pé pressionando as almofadas do sofá. Sentiu a seda e o bordado que faziam cócegas no arco nu do pé. Os dedos dos pés.
Ele sentiu.
Ele se ergueu, sem encontrar Yrene ao seu lado.
Em nenhum lugar por perto.
Ele deu engasgou a seus pés. Abaixo do tornozelo... Ele se moveu e girou o pé. Sentiu os músculos.
Palavras estancaram em sua garganta. Seu coração trovejou.
— Yrene — ele chamou, procurando por ela.
Ela não estava na sala, mas...
A luz do sol em marrom e dourado chamou sua atenção. No jardim.
Ela estava sentada lá fora. Sozinha. Silenciosamente.
Ele não se importava de estar meio vestido. Chaol passou para a cadeira, maravilhando-se com a sensação dos suportes lisos da madeira sob seus pés. Ele poderia jurar que mesmo suas pernas... um formigamento fantasma.
Ele se dirigiu para o jardim pequeno e quadrado, sem fôlego e de olhos arregalados. Ela consertara outra fração, outra...
Ela se instalara em uma pequena cadeira ornamentada diante da piscina circular de meditação, a cabeça apoiada pelo punho.
No começo, ele pensou que ela estivesse dormindo ao sol.
Mas ele se aproximou e percebeu o brilho da luz em seu rosto. Na umidade presente ali. Não sangue, mas lágrimas.
Estremecendo silenciosamente, sem querer, enquanto olhava para aquela piscina de meditação, os lírios cor de rosa e as folhas cor de esmeralda cobrindo a maior parte.
Ela parecia não vê-lo ali. Não o ouvia.
— Yrene.
Outra lágrima rolou pelo rosto dela, pingando no pálido vestido roxo. E mais outra.
— Você está ferida? — disse Chaol com voz rouca, sua cadeira crucificando sobre o cascalho branco pálido do jardim.
— Eu tinha esquecido — ela sussurrou, os lábios tremendo quando ela fitou e fitou a piscina sem desviar o olhar. — Como ela se parecia. O cheiro. Eu tinha esquecido sua voz.
O peito dele apertou quando o rosto dela enrugou. Ele levou sua cadeira ao lado dela, mas não a tocou.
— Fazemos juramentos, para nunca tirar uma vida — Yrene falou calmamente. — Ela quebrou esse juramento no dia em que os soldados vieram. Escondeu uma adaga no vestido. Ela viu o soldado me agarrar, e ela... ela saltou sobre ele.
Ela fechou os olhos.
— Ela o matou. Para me comprar tempo para correr. E eu o fiz. Eu a deixei. Corri, e a deixei, e assisti... eu assisti da floresta enquanto eles começavam aquele fogo. E eu podia ouvi-la gritar e gritar.
Seu corpo tremia.
— Ela era boa — murmurou Yrene. — Ela era boa e gentil e me amava. — Ela ainda não tinha limpado suas lágrimas. — E eles a levaram para longe.
O homem que ele serviu... ele a levara.
— Onde você foi depois disso? — Chaol perguntou suavemente.
Seu tremor diminuiu. Ela enxugou o nariz.
— Minha mãe tinha um primo no norte de Charco Lavrado. Eu corri para lá. Demorou duas semanas, mas consegui.
Com onze anos. Charco Lavrado estava no meio da conquista, e ela tinha conseguido – com onze anos.
— Eles tinham uma fazenda, e eu trabalhei lá por seis anos. Preferi ser normal. Mantive minha cabeça baixa. Curava com ervas quando não provocava suspeitas. Mas não foi o suficiente. Havia... Havia um buraco. Em mim. Eu estava inacabada.
— Então você veio para cá?
— Eu fui embora. Queria vir para cá. Eu atravessei Charco Lavrado. Através de Carvalhal. Então, sobre... sobre montanhas... — Sua voz diminuiu para um sussurro. — Me levou seis meses, mas eu consegui, cheguei no porto de Innish.
Ele nunca tinha ouvido falar de Innish. Provavelmente ficava em Melisande, se ela tivesse atravessado. Ela atravessou montanhas.
Esta delicada mulher ao lado dele... Ela atravessou montanhas para estar aqui. Sozinha.
— Fiquei sem dinheiro para cruzar o mar. Então eu fiquei. Encontrei trabalho.
Ele evitou o desejo de olhar para a cicatriz em sua garganta. Perguntar que tipo de trabalho.
— A maioria das meninas estava nas ruas. Innish era... não era um bom lugar. Mas encontrei uma pousada pelas docas e o proprietário me contratou. Trabalhei como garçonete e criada e... fiquei. Eu queria trabalhar apenas por um mês, mas fiquei por um ano. Deixei que pegasse meu dinheiro, minhas gorjetas. Aumentasse meu aluguel. Colocou-me em um quarto abaixo das escadas. Eu não tinha dinheiro para cruzar, e pensei... pensei que teria que pagar minha educação aqui. Eu não queria vir sem fundos para a taxa de matrícula, então... fiquei.
Ele estudou as mãos, agora apertando-as firmemente no colo. Imaginou-a com um balde e com trapos e pratos sujos. Imaginou-as em feridas e doloridas. Imaginou a pousada imunda e seus habitantes, o que eles devem ter visto e cobiçado quando a viram.
— Como conseguiu chegar aqui?
A boca de Yrene se apertou, suas lágrimas desaparecendo. Ela soltou uma respiração.
— É uma longa história.
— Eu tenho tempo para ouvir.
Mas ela balançou a cabeça novamente e, finalmente, olhou para ele. Havia uma... clareza em seu rosto. Naqueles olhos.
E sua voz não falhou enquanto dizia:
— Eu sei quem te deu essa ferida.
Chaol ficou completamente imóvel.
O homem que tirou a mãe que tão profundamente amava; o homem que a enviou fugindo do mundo.
Ele conseguiu assentir.
— O antigo rei — Yrene respirou, estudando a piscina novamente. — Ele estava... ele também estava possuído?
As palavras eram quase um sussurro, mal audíveis até para ele.
— Sim — ele conseguiu dizer. — Por décadas. Eu... desculpe por não ter contado. Nós consideramos a informação... sensível.
— Para o que isso possa significar sobre a adequação do seu novo rei.
— Sim, e abre a porta para perguntas que são melhores se permanecerem esquecidas.
Yrene esfregou o peito, seu rosto assombrado.
— Não é de se admirar que minha magia retroceda assim.
— Me desculpe — ele disse novamente. Era tudo o que ele podia pensar em oferecer.
Aqueles olhos se deslizaram para ele, qualquer névoa que os nublava sumindo.
 — Isso me dá mais motivos para lutar. Para limpar a última mancha dele – disso para sempre. Dessa vez, estava esperando por mim. Rindo de mim novamente. Eu consegui chegar até você, mas a escuridão ao seu redor era muito espessa. Tinha feito um... escudo. Eu podia vê-lo – tudo o que lhe mostrava. Suas memórias e as dele. — Ela esfregou o rosto. — Eu soube então. Quem foi que o feriu. E vi o que estava fazendo com você, e tudo em que pude pensar para parar e dar um basta... — Ela apertou os lábios, como se eles pudessem começar a tremer de novo.
— Um pouco de bondade — ele terminou por ela. — Uma memória de luz e de bondade. — Ele não tinha as palavras para agradecer por isso, pelo que deve ter sido oferecer a memória dessa mãe contra o demônio que a havia destruído.
Yrene pareceu ler seus pensamentos e disse:
— Fico feliz que tenha sido uma lembrança dela que derrotou a escuridão de volta um pouco mais.
Sua garganta apertou, e ele engoliu em seco.
— Eu vi sua memória — disse Yrene calmamente. — O homem. Seu pai.
— Ele é um bastardo do melhor calibre.
— Não foi culpa sua. Nada daquilo.
Ele se absteve de comentar o contrário.
— Você teve sorte de não ter quebrado seu crânio — disse ela, examinando sua testa. A cicatriz apenas mal visível, coberta por seus cabelos.
— Tenho certeza de que meu pai considera isso de outra forma.
A escuridão piscou nos olhos dela.
— Você merece coisa melhor — Yrene disse apenas.
As palavras atingiram algo dolorido – algo que ele havia trancado e não examinava há muito tempo, muito tempo.
— Obrigado — ele conseguiu dizer.
Ficaram em silêncio por longos minutos.
— Que horas são? — Ele perguntou depois de um tempo.
— Três — disse ela.
Chaol parou.
Mas os olhos de Yrene foram direto para as suas pernas. Para os pés dele. Como eles se moveram com ele.
A boca dela se abriu silenciosamente.
— Outro progresso — disse ele.
Ela sorriu, subjugada, mas... verdadeiramente. Não como o que ela colocou no rosto horas e horas atrás. Quando ela entrou em seu quarto e encontrou-o lá com Nesryn, e ele sentiu o mundo deslizando balançando pela expressão no rosto dela. E quando ela se recusou a encontrar seu olhar, quando envolveu seus braços em torno de si mesma...
Ele desejou conseguir andar. Então ela poderia vê-lo rastejar de joelhos na direção dela.
Ele não sabia por quê. Por que se sentia como o mais baixo na escala de baixeza. Por que mal conseguiu olhar para Nesryn. Embora soubesse que Nesryn era observadora demais para não estar ciente. Tinha sido o acordo não dito entre eles na noite anterior – silêncio sobre o assunto. E essa razão por si só...
Yrene tocou em seu pé nu.
— Você sente isso?
Chaol enrolou os dedos dos pés.
— Sim.
Ela franziu a testa.
— Estou empurrando suavemente ou com força?
Ela abaixou o dedo.
— Com força — ele grunhiu.
Seu dedo subiu e desceu novamente.
— E agora?
— Suavemente.
Ela repetiu o teste no outro pé. Tocou cada um dos dedos dos pés.
— Eu acho — ela observou — que empurrei aquilo para baixo em algum lugar no meio de suas costas. A marca ainda é a mesma, mas parece que... — Ela balançou a cabeça. — Não consigo explicar.
— Você não precisa.
Tinha sido a alegria dela – a alegria não diluída daquela lembrança – que o fez ganhar aquele movimento, o que ela compartilhou, deu, para afastar a mancha do ferimento.
— Estou morrendo de fome — disse Chaol, cutucando-a com um cotovelo. —Você vai comer comigo?
E para sua surpresa, ela disse que sim.

6 comentários:

  1. "Abaixo do tornozelo... Ele se moveu e girou o pé. Sentiu os músculos."

    Aaaaaaaaaaaaa estou começando a me emocionar com os pequenos progressos no tratamento *-*
    Eu nunca gostei do Chaol, nunca mesmo, na verdade eu o odiava. Quando soube que o próximo livro a ser lançado seria o do Chaol fiquei puta de raiva, sem nenhuma empolgação pra ler, quando vi o livro postado, pedi a Deus muuuuuuita paciência pra ler. Mas aqui estou eu me apaixonando pelo Chaol, ele ainda me irrita com alguns pensamentos, mas estou apaixonada por ele e preciso confessar que estpu amando esse livro *-* AAAAAAAAAAAAAAAA OBRIGADA KARINA SUA LINDA 💙

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  2. Cara quando é que ela vai ver a Aelin nas lembranças do Chaol e eles vão contar as coisas e acertarem tudo???

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  3. "— O dia todo?
    O príncipe deu-lhe um sorriso maroto, terminando sua longa trança e pegando sua lança mais uma vez.
    — Eu certamente levaria o dia todo."
    Pelos deuses... tô amando esse Sartak

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  4. Eu sempre amei esse tonso do chaol, agora amo mais ainda ❤❤

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  5. Ele carrega tanta dor tadinho. Nunca imaginei!

    Flavia

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!