15 de janeiro de 2018

Capítulo 23. O delírio do Doutor Q.I.

— Quem é o senhor? Como sabe meu nome?
A voz metálica que saía do vídeo parecia divertir-se:
— Ora, ora, ora, Miguel. Eu sei muito mais do que o seu nome!
— Quero sair daqui! O senhor não tem o direito de...
— Calma, meu caro. Você não está em situação de dizer quais são os meus direitos. Eu só quero conversar com você. Pode me chamar de Doutor Q.I.
— Eu fui trazido à força para este lugar. Fui narcotizado! Que espécie de lugar é este onde se trazem pessoas à força?
— Você está na Pain Control, Miguel. A mais poderosa indústria farmacêutica do mundo. Você nunca ouviu falar de nós porque atuamos sob os nomes de diferentes empresas. Mas, por trás de todas, comandando todas elas, está a Pain Control.
Miguel percebeu que estava no covil dos lobos e que falava com o próprio líder da alcateia.
— Não pense que pode fazer comigo o que quiser, Doutor Q.I. Eu tenho amigos que...
— Amigos? — cortou a voz metálica. — Quais? Crânio? Magrí? Calú? Ah, ah, ah!
— O senhor é um demônio! Como sabe esses nomes?
— Ora, mas se foi você mesmo que me contou...
— Eu?! Como?
— Você se acha muito esperto, não é, Miguel? Pensou que era uma ideia brilhante desaparecer junto com Crânio, Magrí e Calú, não é? Assim ficaria com maior liberdade de movimentos para atrapalhar os nossos planos, não é? Mas será que não lhe ocorreu que você podia enganar a todos, menos a nós? É claro que todo mundo pensou que vocês quatro tinham sido sequestrados. Menos nós! Somente nós sabíamos quem estava ou não em nosso poder. Quando vocês se esconderam, foi como se tivessem mandado uma cartinha para a Pain Control dizendo quem eram os garotinhos que andavam fazendo perguntas nos últimos dois dias...
Miguel corou. Tinha cometido um erro. Um erro grave, que tinha exposto todos os Karas ao inimigo!
— Quer dizer que são vocês os sequestradores de estudantes? Uma indústria de medicamentos! E estão usando os meninos como cobaias, certo?
— Ora, ora! Que esperteza! Como descobriu isso?
— Não interessa como descobri. Eu quero saber é que remédio monstruoso é esse que precisa de jovens sadios como cobaias. Um remédio deve servir aos doentes, e não aos sadios!
O Doutor Q.I. ficou em silêncio. Parecia pensar. Quando falou novamente, sua voz já não tinha mais o tom de cinismo do início da conversa. Agora ele falava com o entusiasmo de um louco:
— Você é muito inteligente, Miguel. Inteligente o bastante para perceber a grandeza do nosso projeto. Você já pensou no significado do nome da nossa empresa? Já pensou no que significa Pain Control? O nome da nossa corporação quer dizer Controle da Dor! Você imagina o que significa uma organização capaz de controlar a dor da humanidade? Uma organização capaz de determinar quanta dor os habitantes do planeta podem sentir? Nós somos capazes de controlar a duração da vida humana, a qualidade da vida humana. Mexendo com uma simples fórmula química, podemos determinar quantas crianças vão sobreviver em Biafra e quantas devem morrer no Maranhão!
— Não! — protestou Miguel. — A missão de uma indústria farmacêutica não é essa!
— Você tem razão. A nossa missão é maior. Para a sociedade perfeita que planejamos, não é suficiente controlar a quantidade de doença ou de saúde que regula a humanidade. Não! Nós queremos uma sociedade perfeita como a das formigas, onde cada um conheça o seu lugar e nele permaneça, produzindo aquilo que deve produzir, cumprindo as ordens que deve cumprir!
— Isso é uma loucura! Isso...
— Foi aí que nós descobrimos a Droga da Obediência. E essa droga maravilhosa vai abrir caminho para o nosso sonho de perfeição: a Pain Control vai transformar-se na Will Control!
O Doutor Q.I. deixou sua declaração fazer efeito e continuou:
— Ah, ah, ah! É claro que você percebeu logo o que vem a ser Will Control, não é mesmo? Quer dizer Controle da Vontade! É isso. Já imaginou? Já pensou no que será controlar a vontade e a iniciativa da humanidade? Já imaginou o que será uma sociedade em que nenhuma ordem, nenhuma instrução venha a ser contestada? Não haverá mais prisões, porque os criminosos serão readaptados pela Droga da Obediência. Não haverá mais sofrimento, nem ansiedade, nem loucura, nem dor. Não haverá mais greves, nem passeatas de protesto. Nenhum soldado jamais desertará nem se perguntará por que está sendo mandado para a guerra. Obedecerá e pronto! Não será mais necessário suspender uma remessa de vacinas ou de adubos para algum país onde esteja havendo uma revolução. Com a Droga da Obediência, não haverá mais o desejo de fazer revoluções. Porque não haverá mais desejos de espécie alguma. Só o nosso desejo, só a noss vontade comandando a espécie humana!
Miguel estava estarrecido. Tinha imaginado uma série de possibilidades para explicar o desaparecimento dos estudantes. Nunca lhe ocorrera, porém, que os propósitos da quadrilha fossem tão diabólicos!
— O senhor é um louco! Um louco perigoso! Vocês pretendem destruir a vontade, acabar com os desejos, anular a criatividade dos homens. Será que vocês não percebem que, com isso, estarão destruindo os próprios homens?
— Ora, Miguel, lá está você novamente olhando as coisas por um lado só. Não, meu caro, as coisas são relativas. A verdade tem várias facetas. Procure olhar do nosso lado e verá a maravilha de um mundo de paz, sem conflitos, sem turbulências. Eu sei que você dirá que só existe uma verdade. Nesse caso, procure entender que essa verdade está nas minhas mãos!
— Não! A obediência somente leva à repetição de velhos erros. Só o respeito pela liberdade de cada um pode garantir a sobrevivência da humanidade. Só o respeito pelas opiniões divergentes pode garantir o progresso. Só a desobediência modifica o mundo!
— O que é isso, Miguel? Que discurso é esse? Será que você se esquece de quem você é? Como líder lá no seu colégio, você não é também um autoritário? Não é você quem não admite que suas decisões sejam contestadas?
— Eu...
— Não se envergonhe, meu caro. Você está certo quando não permite que opiniões idiotas prejudiquem a vitória das suas ideias superiores. É por isso que eu quero convidá-lo a unir-se a nós.
— Unir-me a vocês?
— Como você já deve ter imaginado, está em nossos planos selecionar uma elite que, é claro, não tomará a Droga da Obediência. Será a elite dos que devem ser obedecidos. A elite dirigente, que dará as ordens, que comandará a humanidade. Você é uma pessoa especial, Miguel. Uma inteligência privilegiada e um líder como poucos. Por isso eu o convido a autocontrolar-se e a assumir o lugar que é seu por direito. Você foi escolhido entre milhões! Venha comigo comandar o mundo!
O coração de Miguel disparou dentro do peito. Sua prudência, porém, o aconselhou a controlar-se. Não eram só algumas dezenas de garotos sequestrados que dependiam dele. Agora era o futuro da espécie humana que estava em suas mãos. Ele tinha de ganhar tempo, tinha de representar.
— Eu... não sei... é tudo tão surpreendente!
— Posso imaginar sua surpresa, meu caro rapaz. Nós precisamos de lideranças jovens como a sua. Venha ajudar-nos a construir um novo mundo!
— Um novo mundo...
— Você precisa, naturalmente, ver a nossa Droga da Obediência em funcionamento, não é? Muito bem. Você vai ver tudo que precisa. Alguém virá buscá-lo e lhe mostrará os testes que estamos realizando. Por agora, eu me despeço. Voltaremos a falar.
A silhueta apagou-se no vídeo. O garoto estava só. Com todo o peso do mundo sobre os ombros.

2 comentários:

  1. Volto a desconfiar do diretor!

    Flavia

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  2. E se o Miguel se unir a ele e mandar os idiotizados nunca mais tomarem os comprimidos? Pelo que vi todas as regras estão gravadas na memória deles, e todo o resto é proibido! :o sei la kk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!