25 de janeiro de 2018

Capítulo 22. O fantasma da torre

Os carros da Polícia Federal aproximaram-se de faróis apagados e foram estacionados a uma boa distância. Os agentes haviam sido avisados por Andrade, que lhes passara as informações que Magrí tinha ouvido. Era preciso cuidado.
Aquele castelo estava protegido como uma praça de guerra!
A pé, cercaram todas as saídas do castelo. Estavam fortemente armados e eram muitos. Nem se podia contá-los, na escuridão que já tomara conta de tudo.
O detetive Andrade estava aflito:
— Cuidado, Doutor Pacheco! Calú e Chumbinho estão lá. O castelo está ocupado por homens armados. São fanáticos! Se o senhor invadir à força, vai correr sangue! Se alguma coisa acontecer com os meninos eu juro que vou...
O Doutor Pacheco, de óculos escuros apesar da noite fechada, deu as costas para o detetive. Ele havia trazido uma tropa especial. Seus homens agiam como soldados treinados. Instalaram-se silenciosamente em torno do castelo murado e escolheram pontos estratégicos de onde pudessem acompanhar cada movimento dos guardas do castelo.
Depois de certificar-se de que tudo estava preparado, o Doutor Pacheco pegou um megafone e fez um sinal. No mesmo instante, vários refletores instalados nos carros acenderam-se, jogando sua luz na direção do castelo. Um agente, com uma bazuca, fez pontaria e atirou no helicóptero estacionado. A granada não atingiu o alvo em cheio, mas uma das hélices voou longe. O helicóptero estava imobilizado.
— Aqui é a Polícia Federal! — gritou o Doutor Pacheco ao megafone. — Vocês aí, no castelo, estão cercados! Não tentem nada. Deponham as armas pacificamente e saiam de mãos para cima!
Dentro do grande salão do Castelo Wachenfeld, o Komandant ouviu a explosão da granada, logo seguida pela voz do Doutor Pacheco, ampliada pelo megafone.
Naquele momento, Kurt Kraut sentiu-se como se estivesse de novo na Segunda Guerra Mundial, no comando de uma operação de batalha. Era novamente o SS Leutnant Kurt Kraut, o Anjo da morte. Somente em circunstâncias como aquela ele tinha se sentido alguém, algum dia. Com poder de vida e de morte sobre pessoas. De um certo modo, o Anjo da morte estava feliz.
— Achtungl Fomos descobertos! — gritou ele. — Franz! Rolf! Ernst! Aqui, imediatamente!
Três homens apresentaram-se na mesma hora.
— O helicóptero está avariado, Komandant! — informou o piloto que havia trazido Calú e Chumbinho. — O Fuhrer não pode fugir pelo...
— Nada de pânico, Ernst! — cortou o Anjo da morte.
— Tudo está sob controle. Vamos pôr em prática o plano R. Resistência total! Cada homem e cada menino sabe o que deve ser feito. Não recuem um passo! Não importa quantos morram! Em ação! Já!
Um dos homens correu para um quadro de chaves.
Acionou uma delas três vezes e depois travou-a na posição “ligado”.
Uma sirene estridente soou três vezes, com toques curtos, e depois disparou, berrando ininterruptamente.
Com grande eficiência, a defesa do Castelo Wachenfeld foi imediatamente preparada. Dezenas de guardas adultos correram para seus postos e apareceram várias metralhadoras, colocadas em pontos estratégicos. Os jovens componentes da Juventude Brasileira alinharam-se ao lado dos adultos, também armados e também treinados para morrer. Suas vidas tinham sido de miséria. Agora, estavam preparados para uma morte miserável.
— Diabo! — praguejou o Doutor Pacheco. — Esses danados não vão se entregar! Vamos ter de invadir à força!
— Não! — gritou Andrade. — Nunca! Você está louco, Pacheco? Chumbinho e Calú estão lá dentro!
Kurt Kraut subiu as escadas que levavam ao Kabinet.
Na excitação, esqueceu-se de que não devia chamar o Esperado de...
— Mein Fuhrerl Estamos novamente em guerra! Nossa revolução começou, mein Fuhrerl Venha comigo!
Praticamente arrastou Chumbinho pelo braço para a passagem secreta na estante de livros. Subiram a escadaria o mais depressa que o velho aguentava.
Como Calú previra, tudo estava preparado para a encenação. O Anjo da morte agarrou o cadáver embalsamado e colocou-o de pé, apoiado em uma armação previamente preparada. Abriu a porta-janela que dava para a pequena sacada da torre e arrastou “aquilo” para fora, com alguma dificuldade.
A excitação de todo aquele dia devia tê-lo deixado exausto. Nunca como naquele momento aquele cadáver lhe parecera tão pesado.
— Venha, mein Fuhrerl — chamou o Anjo da morte.
— Precisamos dar um grande motivo moral para que nossos homens lutem com bravura! Depois, teremos tempo de fugir pelo túnel!
Pelos alto-falantes da sacada, uma música marcial foi ouvida e os refletores acenderam-se, mostrando um homem de pé, fardado e carrancudo. Iluminado de baixo para cima, aquilo era uma aparição fantasmagórica!
O Doutor Pacheco pegou um binóculo poderosíssimo e apontou-o para a sacada iluminada do castelo, de onde vinha aquela voz.
— Não é possível! Estou vendo fantasmas!
Andrade arrancou-lhe o binóculo das mãos e procurou ver o que causara tanta surpresa ao agente federal.
— Ei! Como pode ser?
Um homem que Andrade só vira no cinema estava de pé, iluminado pelos refletores. O bigodinho ridículo, o cabelo penteado, bem liso, para o lado esquerdo, quase caindo na testa.
— Que diabos está acontecendo? Isto é um filme? Aquele lá só pode ser o...
— Quem, detetive Andrade? — perguntou um agente, ao seu lado.
— O desgraçado do Hitler!
Ali estava o terrível ditador. A sombra sinistra de um tremendo fantasma ressurgido das profundezas do inferno.
A música diminuiu. No mesmo instante, a figura alta de um velho avançou para a luz dos refletores, tendo um menino ao lado.
— É Chumbinho! — gritou Andrade.
Do alto da torre, pelos alto-falantes, ouviu-se a voz do Anjo da morte, ecoando pela amplidão dos jardins:
— Kameraden!
Em seus postos de combate, os guardas do Castelo Wachenfeld levantaram os olhos para a sacada, aturdidos.
— Kameraden! Aqui está o motivo que vocês precisam para lutar até a morte! Aqui está a prova de que o nosso sonho de grandeza nunca morrerá! Aqui está o nosso líder! O Fuhrerl Heil Hitler!
Seu braço estendeu-se na saudação nazista.
Embaixo, os guardas e os meninos da Brasilianische Jugend hesitaram por um segundo. Em seguida, todos os braços se levantaram e centenas de vozes encheram a noite com seu brado fanático:
— Heil Hitierl
O Anjo da morte falou de novo:
— Aqui está o motivo para a resistência total, Kameraden! Nós somos invencíveis, nós somos imortais! Ouçam agora a palavra do Esperado, o bisneto do Fuhreú. O menino que traz nas veias o sangue de Adolf Hitler!
Estendeu o microfone para Chumbinho e pediu:
— Fale, mein Fuhrerl Seja breve, mas seja duro! Os homens precisam de uma razão para lutar!
Chumbinho pegou o microfone e subiu num caixotinho.
Um incrível silêncio tinha tomado conta de tudo. Não se ouviam nem os grilos nem os pássaros noturnos que esperam a noite para mostrar que existem. Até o vento tinha parado de murmurar entre as folhas.
Chumbinho não sentia nenhum medo. Era agora!
— Meus amigos! Aqui está a sombra de alguém por quem milhões de homens lutaram, mataram e morreram.
O Komandant acabou de dizer que eu sou bisneto desta sombra. Mas... não é verdade!
O Komandant empalideceu. O que estava acontecendo?
— Não é verdade! — repetiu Chumbinho, berrando como se não falasse em um microfone. — Para se ter um bisneto é preciso ter um neto. Para se ter um neto é preciso ter um filho. E, para gerar um filho, é preciso ter amor. Este monstro nunca amou ninguém! Monstros como este jamais gerariam um ser humano, pois eles próprios jamais foram humanos. Tudo o que ele fez foi tentar implantar o império do ódio nesta terra!
O Anjo da morte recuou, cambaleando. Todo o seu sonho parecia agora um pesadelo. Não era possível acreditar no que o menino falava.
— É preciso resistir, sim, meus amigos! É preciso resistir, meninos que foram tirados da sarjeta e trazidos para este lugar! É preciso resistir ao egoísmo nojento que os abandonou, que não se importou com vocês. É preciso resistir, homens da Organização. É preciso resistir ao racismo insano que divide os seres humanos. É preciso resistir ao ódio. É preciso lutar juntos por um novo amanhecer, em que não haverá mais diferenças entre as pessoas!
Com o binóculo imóvel no foco daquele rostinho tão querido, o detetive Andrade tremia de emoção.
— O amanhecer de um novo dia — continuava Chumbinho —, em que não haverá mais crianças abandonadas, não haverá mais miséria, não haverá mais exploração, não haverá mais racismo. Um dia em que todos, judeus e palestinos, brancos e negros tiverem os mesmos direitos à própria pátria, à própria terra, ao trabalho, à vida, à paz, à felicidade!
O assombro do Anjo da morte, naquele momento, não foi menor do que o da multidão que assistia àquela cena incrível: como se fosse uma múmia ressuscitando do sarcófago, o cadáver embalsamado de Adolf Hitler arregalou ainda mais os olhos e levantou o braço direito, na saudação nazista! Em seguida, atravessou o esquerdo sobre o direito e deu uma vistosa “banana” enquanto punha a língua para fora, presa aos lábios! Pelos alto-falantes, todos ouviram um ruído sonoríssimo, muito conhecido de todos os brasileiros:
— Brrrrrr!
O Anjo da morte tremia. Com sua Luger em punho, tentou falar alguma coisa. Foi aí que a “perna do Adolf Hitler” girou no ar e deu um valente pontapé na mão do carrasco nazista!
A Luger voou por sobre a sacada. Kurt Kraut girou sobre si mesmo e correu para baixo, pegando as chaves do bolso. Ainda havia tempo de fugir pelo túnel!
“Esses malditos judeus nunca me pegarão!”
Uma a uma, as armas dos defensores do Castelo Wachenfeld foram jogadas no chão. Aos poucos, um murmúrio, surgido dentre os meninos da Juventude Brasileira, foi aumentando, foi crescendo, até terminar em um clima de festa, como se aquele fosse o último dia da Segunda Guerra Mundial!
Quando os primeiros agentes da Polícia Federal invadiram o castelo, encontraram um velho enlouquecido, balbuciando frases sem nexo e tentando abrir um buraco na grossa porta de carvalho com os dedos ensanguentados...
Na sacada da torre, Chumbinho agarrou os ombros de “Adolf Hitler”:
— Evitamos um banho de sangue, Calú! Se esses malucos resistissem, muita gente ia morrer esta noite! Como conseguimos fazer tudo isso, Kara? Será que baixou por aqui o espírito de Solomon Friedman?
A tinta de escrever com que Calú tingira os cabelos começava a escorrer-lhe pela testa. O bigodinho cortado da escova começava a descolar-se.
— Não sei, Chumbinho... Acho que foi mesmo o velho Sol quem nos inspirou. Acho que você falou por mais de seis milhões de vítimas... Nunca mais você representará uma cena como esta. A um só tempo, você representou seis milhões de papéis...
O rapazinho não era mais um ator naquele momento.
Naquele momento, ele chorava de verdade.
Chumbinho abraçou-se a ele, apertado, apertado...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!