15 de janeiro de 2018

Capítulo 22. Na trilha de um desconhecido

— Você sabe que minha memória é como um gravador, Crânio — reforçou Magrí. — Eu ouvi claramente o que eles conversavam. Um dos sujeitos falou em um certo Doutor Q.I., alguém que ameaçava a vida deles se não trouxessem Márius Caspérides morto!
— Doutor Q.I., não é? — sorriu Crânio. — Doutor Quociente de Inteligência!. Vai ver ele é chamado assim por ter um altíssimo quociente de inteligência. É ele\ Só pode ser ele. O cérebro que está por trás desses crimes todos. A inteligência criminosa! O meu inimigo! Mas duvido que o quociente de inteligência dele seja maior do que o meu...
Estavam no forro do vestiário do Colégio Elite. A madrugada ia alta, e Miguel ainda não tinha dado sinal de vida.
— Miguel... Onde estará Miguel? — preocupava-se Magrí.
— Estamos tão longe de Márius Caspérides quanto os bandidos — observou Calú, desanimado.
— Será? — perguntou Crânio, que ainda não havia perdoado o amigo por ter enchido de arames a linda boquinha da Magrí.
— Será mesmo? Vamos ver o que temos: de acordo com os dois grandalhões, Márius Caspérides fugiu das mãos da quadrilha, foi perseguido até o centro da cidade e eles o perderam de vista quando deram com um assalto acontecendo num banco, não é?
— Foi isso que aqueles dois disseram...
Crânio sorriu. Um sorriso de suspense, de triunfo.
— Está rindo de quê, Crânio? Ficou maluco?
— Vocês não estão percebendo? Mas é tão simples!
— O que é tão simples, Crânio?
— Vejam bem: o que vocês fariam se estivessem fugindo desesperadamente de uma poderosa quadrilha? O que vocês fariam se soubessem que a sua vida estava em perigo? Mais: o que vocês fariam se soubessem que nem adiantaria pedir ajuda, já que havia bandidos infiltrados na própria polícia?
Crânio deixou as perguntas no ar por um momento. Calú e Magrí nada disseram. Crânio estava excitadíssimo com a perspectiva de uma disputa intelectual entre ele e um gênio criminoso. Para os outros Karas, essa excitação era sinal de que ele já tinha uma resposta satisfatória na ponta da língua. Só que ele gostava de valorizar a própria inteligência e capacidade de resolver enigmas complicados. Os Karas conheciam a vaidade do amigo e sabiam que era melhor dar corda e deixar que ele explicasse o seu raciocínio do modo que gostava.
— Vou dizer a vocês o que eu faria se fosse Márius Caspérides. Ele é um cientista genial, um privilegiado, e na certa pensou a mesma coisa que eu. Se eu estivesse fugindo de bandidos armados e não tivesse outra saída, eu simplesmente entraria em um banco gritando que aquilo era um assalto e me deixaria prender com a maior facilidade!
— Mas, se houvesse bandidos infiltrados na polícia, você seria desmascarado logo ao chegar na delegacia!
— Talvez não. Se os policiais-bandidos não conhecessem direito a minha cara, bastaria eu dar um nome falso ao ser preso. Um nome como Zé da Silva, por exemplo!
— Quer dizer que...
— Que Zé da Silva e Márius Caspérides são a mesma pessoa!

* * *

A hipótese de Crânio parecia a ideia mais maluca do mundo, mas era genial em sua simplicidade. Se o garoto estivesse certo, o bioquímico Márius Caspérides estaria preso, naquele mesmo instante, na mesma delegacia de onde tinham sido libertados os três brutamontes, na mesma delegacia dos detetives Rubens e Andrade.
— Só tem uma coisa, Karas — lembrou Calú. — Zé da Silva é o nome mais comum deste país. Há centenas de Zés da Silva presos em São Paulo. Na certa, só naquela delegacia deve haver uma meia dúzia. Precisamos de um plano para...
— Karas — interrompeu Magrí. — Vocês estão esquecendo de uma coisa: Miguel ainda não apareceu!
— Bom, Magrí, vai ver ele encontrou o falso Bino e...
— Não adianta discutir isso agora — decidiu Crânio. — O dia ainda não amanheceu, e tudo o que a gente pode fazer tem de ser pela manhã. Estamos exaustos. Vamos aproveitar essas horinhas para dormir um pouco.
Ajeitaram-se como puderam no forro do vestiário. Aqueles três dias tinham sido exaustivos, mesmo para os Karas. E o dia que estava para vir prometia mais ação ainda. Crânio fechou os olhos e sonhou com Magrí em seus braços, sem arames nos dentes.
Magrí custou a pegar no sono. A fraca luz da lua, que se filtrava através das telhas de vidro, fez brilhar a lágrima que corria pelo rosto da menina.
— Miguel... meu querido... onde está você?

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!