29 de janeiro de 2018

Capítulo 21

Nesryn piscou para Hasar.
A princesa sorriu, fria como uma cobra e esclareceu:
— Não é educado sentar-se com seu companheiro. Deveríamos separar os dois desde agora.
Nesryn olhou para ele. Todos observavam. Chaol não fazia ideia – absolutamente nenhuma – do que dizer. Yrene parecia inclinada a derreter no chão de mármore verde.
Sartaq limpou a garganta:
— Junte-se a mim aqui, capitã Faliq.
Nesryn ficou de pé rapidamente, e Hasar passou por ela. A princesa bateu na parte de trás do assento que Nesryn desocupou e cantarolou para Yrene, a poucos metros de distância:
— Você se senta aqui. Caso seja necessária.
Yrene disparou para Chaol um olhar que poderia ter sido considerado suplicante, mas ele manteve o rosto neutro e ofereceu um sorriso de lábios fechados.
Nesryn encontrou seu lugar ao lado de Sartaq, que pediu a um vizir que se movesse pela mesa, e Hasar, convencida de que os ajustes estavam a seu gosto, considerou que seus próprios assentos habituais não eram para ela, e expulsou dois vizires próximos de Arghun. O segundo lugar era para Renia, a amante, que deu a ela a um olhar levemente desaprovador, mas sorriu para si mesma – como se fosse típico.
A refeição foi retomada, e Chaol deslocou sua atenção para Yrene. O vizir do outro lado não lhe deu atenção. Os pratos foram trazidos por criados, comida e bebida servidos. Chaol murmurou sob a respiração:
— Devo querer saber?
Yrene cortou o cordeiro assado com açafrão em seu prato dourado.
— Não.
Ele estava disposto a apostar que o significado das sombras em seus olhos no início do dia, a coisa que ela se impediu de dizer a ele... tinha a ver com o que estava acontecendo aqui.
Ele olhou para a mesa, onde Nesryn os assistia, meio ouvindo Sartaq enquanto o príncipe falava sobre algo que Chaol não podia ouvir por sobre o barulho de prata e as vozes.
Ele lançou-lhe um olhar de desculpas. Nesryn lançou-lhe um aviso em resposta – apontando para Hasar. Seja cuidadoso.
— Como estão os dedos dos pés? — perguntou Yrene, pegando pequenas porções de comida. Ele a vira devorar a caixa de doces que comprara para eles em cima de seus cavalos. O delicadeza aqui para comer era parte do show.
— Funcionando — ele disse com um meio sorriso. Não importava que tivessem passado apenas duas horas desde que tinham se visto pela última vez.
— Sensação?
— Um formigamento.
— Bom. — Sua garganta balançou, aquela cicatriz se ondulando.
Ele sabia que eles estavam sendo observados. Ouvidos. Ela também.
Os nós dos dedos de Yrene estavam brancos enquanto ela apertava seus talheres, as costas em uma linha reta e rígida. Sem sorriso. Pequena luz em seus olhos revestidos de kohl.
A princesa os manobrara para se sentarem juntos e conversarem, ou para manipular Kashin em algum tipo de ação? O príncipe estava de fato observando, mesmo enquanto envolvia dois vizires vestidos de dourado em uma conversa.
— O papel de peão não lhe convém — Chaol murmurou para Yrene.
Aqueles olhos castanho-dourados tremeluziram.
— Eu não sei do que você está falando.
Mas ela sabia. As palavras não eram para ele.
Ele lutou por tópicos para levá-los através da refeição.
— Quando se encontrará com as mulheres para a próximo lição?
Uma parte da tensão foi drenada dos ombros de Yrene quando ela respondeu:
— Duas semanas. Normalmente seria na próxima semana, mas muitas delas têm seus exames, então estarão focadas em estudar.
— Alguns exercícios e ar fresco podem ser úteis.
— Eu diria isso, mas para elas, esses testes são vida e morte. Certamente foram para mim.
— Você já os fez?
Ela balançou a cabeça, seus brincos de joias refletindo a luz.
— Eu completei o meu último duas semanas atrás. Sou uma curandeira oficial da Torre. — Um pouco de um humor apagado dançou em seus olhos.
Ele levantou sua taça para ela.
— Parabéns.
Um dar de ombros, mas ela concordou com a cabeça:
— Embora Hafiza pense em me testar uma última vez.
Ah.
— Então eu sou realmente uma experiência.
Uma tentativa pobre de fazer luz à sua discussão de dias atrás, da crueza que havia rasgado um buraco através dele.
— Não — disse Yrene calmamente, rapidamente. — Você tem muito pouco a ver com isso. Este último teste não oficial... é sobre mim.
Ele queria perguntar, mas havia muitos olhos sobre eles.
— Então eu lhe desejo sorte — ele disse formalmente. Tão diferente da forma como eles conversaram enquanto viajavam pela cidade.
A refeição passou devagar e, no entanto, rapidamente, sua conversa aos trancos e infrequentes.
Foi só quando as sobremesas e os kahve foram servidos que Arghun bateu as mãos e pediu entretenimento.
— Com nosso pai em seus aposentos — Chaol ouviu Sartaq confiar a Nesryn — nós tendemos a ter mais... celebrações informais.
De fato, uma trupe de músicos elegantes, com instrumentos tanto familiares quanto estrangeiros, surgiu no espaço entre os pilares além da mesa. Batidas de tambores, flautas e chifres anunciaram chegada do evento principal: dançarinos.
Um círculo de oito dançarinos, masculinos e femininos – um número sagrado, Sartaq explicou, sorrindo para Nesryn – surgiu das cortinas ao lado dos pilares.
Chaol tentou não engasgar.
Eles estavam pintados de dourado, adornados com joias e gaze, túnicas finas de seda, mas por baixo disso... nada. Seus corpos eram magros e jovens, no pico da juventude e da virilidade. Os quadris rebolavam, costas arqueavam-se, as mãos eram torcidas no ar acima deles quando começaram a se entrelaçar em círculos e fileiras.
— Eu lhe disse — foi tudo o que Yrene murmurou para ele.
— Eu acho que Dorian gostaria disso — ele murmurou de volta, e ficou surpreso ao encontrar os cantos de sua própria boca erguendo-se ao pensamento.
Yrene lançou-lhe um olhar perplexo, alguma luz nos olhos. As pessoas haviam se movido em seus assentos para assistir melhor os dançarinos, seus corpos esculpidos e ágeis, os pés descalços.
Movimentos perfeitos e precisos, seus corpos apenas instrumentos da música. Beleza etérea e ainda... tangível. Aelin, ele percebeu, também teria gostado disso. Bastante.
Enquanto os dançarinos se apresentavam, os criados levavam poltronas e sofás, organizando almofadas e mesinhas.
Tigelas esfumaçantes de ervas foram colocados sobre elas, o cheiro doce e enjoativo.
— Não fique próximo dela se quiser seus sentidos intactos — advertiu Yrene, enquanto um criado carregava uma das tigelas de metal em direção a uma mesa de madeira esculpida. — É um opiáceo suave.
— Eles realmente deixam a máscara cair quando os pais estão ausentes.
Alguns dos vizires estavam saindo, mas muitos deixaram a mesa para acomodar-se em assentos almofadados, a totalidade do salão refeita em questão de momentos para acomodar e relaxar, com criados emergindo das cortinas, bem-cuidados e também vestidos de seda pesada e rica. Homens e mulheres, todos lindos, encontraram caminho para colos e braços, alguns curvando-se aos pés dos vizires ou da nobreza. Ele tinha visto festas bastante liberais no castelo de vidro, mas ainda havia certa rigidez. Uma formalidade e a noção de que tais coisas estavam escondidas atrás de portas fechadas. Dorian certamente salvava isso para o seu próprio quarto. Ou o de outra pessoa. Ou ele simplesmente arrastava Chaol para Forte da Fenda, ou para baixo para Bellhaven, onde a nobreza mantinha festas muito mais desinibidas do que as da rainha Georgina.
Sartaq permaneceu na mesa ao lado de Nesryn, que assistia os habilidosos dançarinos de olhos arregalados, admirada, mas os outros filhos reais... Duva, uma mão sobre a barriga, despediu-se dela, o marido ao seu lado, silencioso como sempre. A fumaça não era boa para o bebê no ventre, afirmou Duva, e Yrene assentiu com a cabeça, embora ninguém tenha olhado para ela.
Arghun reivindicou um sofá para si em torno da dança, reclinando e respirando a ondulação de fumaça das brasas nas pequenas tigelas de metal ao lado. Cortesões e vizires lutaram pelos assentos mais próximos do príncipe mais velho.
Hasar e sua amante tomaram um pequeno sofá para si, as mãos da princesa logo se enroscando nela, no cabelo preto e grosso da amante. Sua boca encontrou um ponto no pescoço da mulher um momento depois. Resposta de Renia foi o sorriso lento e largo – seus olhos se fecharam quando Hasar sussurrou algo contra sua pele.
Kashin pareceu aguardar minutos enquanto Yrene e Chaol observavam a decadência se desdobrando da mesa do banquete que se esvaziava. Esperando que Yrene, sem dúvida, levantasse.
Cor manchou suas bochechas enquanto ela mantinha seus olhos firmemente no seu kahve, vapor saindo de seu copo.
— Você viu isso antes? — perguntou Chaol.
— Dê uma hora ou duas, e todos escaparão para seus quartos – não sós, é claro.
O príncipe Kashin parecia ter arrastado a conversa com o vizir ao seu lado durante o tempo que pôde aguentar. Ele abriu a boca, olhando diretamente para Yrene, e Chaol leu o convite em seus olhos antes que o homem pudesse falar.
Chaol teve talvez um batimento cardíaco para decidir. Para ver que Sartaq convidou Nesryn para se sentar com ele – não em uma das mesinhas, nem em um dos sofás, mas em um par de cadeiras num dos extremos da sala, onde não havia fumaça e as janelas estavam abertas, e ainda assim eles podiam assistir. Ela deu a Chaol um aceno reconfortante, mantendo um ritmo sem pressa enquanto caminhava com o príncipe.
Então, quando Kashin se inclinou para convidar Yrene para se juntar a ele em um sofá, Chaol voltou-se para a curandeira e disse:
— Eu gostaria de me sentar com você.
Seus olhos estavam um pouco arregalados:
— Onde?
Kashin fechou a boca e Chaol teve a sensação de que havia um alvo em seu peito.
Mas ele manteve o olhar de Yrene e disse:
— Onde for mais silencioso.
Havia apenas alguns sofás deixados livres – todos perto da fumaça e da dança. Mas havia um meio escondido na sombra de uma alcova do outro lado da sala, um pequeno braseiro daquelas ervas ardendo sob a mesa baixa.
— Se quisermos ser vistos juntos esta noite — ele disse tão baixo que apenas Yrene poderia ouvir — então, permanecer aqui por um tempo seria melhor do que sairmos juntos. — Que mensagem enviariam, dada a mudança na atmosfera, se eles partissem. — E eu não gostaria que você caminhasse sozinha.
Yrene se levantou silenciosamente, sorrindo sombriamente.
— Então vamos relaxar, Lorde Westfall. — Ela gesticulou em direção ao sofá posicionado além da borda da luz.
Ela deixou que ele levasse sua cadeira até lá. Mantinha o queixo alto, as saias de seu vestido arrastando atrás dela enquanto se dirigia para a alcova. A parte de trás do vestido era principalmente lisa, revelando a pele maculada e o sulco fino da coluna vertebral. Ele mergulhava baixo o suficiente para ele distinguir as depressões gêmeas na parte inferior de suas costas, como se algum deus tivesse pressionado seus polegares ali.
Ele sentiu muitos olhos sobre eles enquanto ela se acomodava no sofá, a barra de seu vestido torcendo-se ao longo do chão, abaixo de seus tornozelos, erguendo um dos braços e o colocando sobre as almofadas de pelúcia.
Chaol continuou com os olhos nos dela quando chegou no sofá, e mais rápido do que os criados puderam se aproximar, passou da cadeira para as almofadas. Em alguns movimentos ele se virou para ela – e acenou com a cabeça em agradecimento ao criado que afastou sua cadeira. Deste ponto, eles tinham uma visão desobstruída dos dançarinos, das áreas de estar, dos criados e da nobreza que agora começava a correr as mãos e as bocas sobre a pele e tecido, mesmo enquanto assistiam ao entretenimento incomparável.
Algo torceu – não desagradavelmente – em seu intestino à visão.
— Eles não forçam criados aqui — disse Yrene calmamente. — Foi a primeira coisa que perguntei em minhas primeiras festas. Os criados estão ansiosos para elevar suas posições, e os que estão aqui sabem que privilégios podem conseguir se saírem com alguém esta noite.
— Mas se eles são pagos — ele respondeu — se eles se preocupam por suas posições caso se recusem, então como pode ser um verdadeiro consentimento?
— Não é. Não quando você coloca assim. Mas o khaganato assegurou-se de que outros limites sejam mantidos. Restrições de idade. Consentimento verbalizado. Castigos para aqueles – até mesmo da realeza – que quebram essas regras. — Assim com ela dissera tantos dias atrás.
Uma moça e um rapaz estavam de cada lado de Arghun, um mordiscando seu pescoço enquanto o outro fazia círculos ao longo das coxas do príncipe. Durante todo o tempo, o príncipe continuava conversando com um vizir sentado numa cadeira à esquerda, imperturbável.
— Pensei que ele tivesse uma esposa — observou Chaol.
Yrene seguiu seu olhar.
— Ele tem. Ela está na propriedade dele. E os criados não são considerados romances. As necessidades que eles esperam suprir... Poderia muito bem ser como dar um banho. — Seus olhos dançaram enquanto acrescentava: — Tenho certeza que você descobriu no seu primeiro dia.
Seu rosto aqueceu.
— Fiquei... surpreso com a atenção aos detalhes. E envolvimento.
— Kadja provavelmente foi selecionada para agradá-lo.
— Não estou inclinado a me perder. Mesmo com uma criada disposta.
Yrene olhou para Nesryn, que conversava profundamente com Sartaq.
— Ela tem sorte por ter um companheiro tão leal, então.
Ele esperou um repuxar de ciúmes ao ver o sorriso de Nesryn para o príncipe, cujo corpo era a representação do relaxamento, o braço esticado no encosto atrás dela, um tornozelo sobre o joelho.
Talvez ele simplesmente confiasse em Nesryn, mas nada se moveu dentro dele à visão.
Chaol encontrou Yrene observando-o, seus olhos como topázio nas sombras e fumaça.
— Eu me encontrei com minha amiga outra noite — ela falou, suas pestanas vibrando. Não mais do que uma mulher bajuladora pelos opiáceos ardentes. Até sua própria cabeça estava começando a ficar confusa. Seu corpo estava quente. Cozinhando. — E novamente esta noite antes do jantar.
Hasar.
— E? — Ele encontrou-se estudando a leve ondulação dos longos cabelos de Yrene. Encontrou os dedos se movendo, como se imaginando a sensação entre eles.
Yrene esperou até que um criado com uma bandeja de frutas confeitadas passasse.
— Ela me disse que o seu amigo ainda continua desaparecido. E uma rede foi esticada no centro do tabuleiro.
Ele piscou, vendo através da fumaça e das palavras.
Exércitos. Os exércitos de Perrington estavam esticados pelo continente. Não era de se admirar que ela não tivesse discutido mais cedo nas ruas; não era de admirar que isso trouxesse tais sombras aos olhos dela.
— Onde?
— Das montanhas até... seu lugar habitual.
Ele imaginou um mapa mental do continente. Do Desfiladeiro de Ferian até Forte da Fenda. Santos deuses.
— Você tem certeza disso?
Um aceno de cabeça.
Ele sentiu os olhos escorregando para eles de vez em quando.
Yrene também. Ele tentou não parar a mão que ela apoiou em seu braço. Enquanto olhava para ele sob cílios rebaixados, olhos semicerrados – convidativos.
— Eu fui perguntada no outro dia, e novamente hoje, de uma maneira que não posso recusar.
Ela estava sendo ameaçada. Ele trincou o queixo.
— Eu preciso de um lugar. Uma direção — murmurou ela. — Para onde sua outra amiga poderia ir.
Aelin.
— Ela está... onde ela está?
— Eles não sabem.
Aelin estava desaparecida. Desaparecida até mesmo para os espiões do khaganato.
— Não está em sua casa?
O balançar de cabeça dela fez o coração de Chaol começar a bater de forma selvagem. Aelin e Dorian – ambos desaparecidos. Ausentes. Se Perrington atacasse...
— Eu não sei para onde ela iria. O que ela planejava fazer. — Ele colocou a mão sobre a dela. Bloqueou a suavidade de sua pele. — Seu plano era retornar para casa. Reunir pessoas.
— Ela não está lá. E não duvido da clareza dos olhos daqui. E de lá.
Espiões de Hasar. E dos outros.
Aelin não estava em Terrasen. Nunca chegara a Orynth.
— Limpe esse olhar do rosto. — Yrene ronronou, e embora sua mão acariciasse seu braço, seus olhos estavam duros.
Ele lutou para fazê-lo, mas conseguiu dar-lhe um sorriso sonolento:
— A sua amigo pensa que eles caíram nas mãos de outra pessoa?
— Ela não sabe. — Yrene arrastou os dedos para cima, leve e sem pressa. Aquele anel simples ainda estava em sua mão. — Ela quer que eu lhe pergunte. Bisbilhote com você.
— Ah. — Sua mão esbelta e linda deslizou ao longo do braço dele. — Daí o novo arranjo de assentos. — E por que Yrene tantas vezes parecia estar à beira de falar naquela manhã e depois optava pelo silêncio.
— Ela tornará a vida muito difícil se eu não aparentar uma tentativa de torná-lo caloroso comigo.
Ele interrompeu a mão dela em seu bíceps, encontrando seus dedos tremendo ligeiramente. Talvez fosse o cheiro doce e enjoativo da fumaça curvando-se ao redor deles, talvez fosse a música e os dançarinos de pele nua e as joias, mas Chaol comentou:
— Eu pensaria que você já fez isso, Yrene Towers.
Ele observou a cor florescer em seu rosto. Observou como fez o ouro em seus olhos iluminar.
Com perigo. Perigo e estupidez e...
Ele sabia que outros estavam assistindo. Sabia que Nesryn estava sentada com o príncipe. Ela entenderia que era para o show. A presença de Nesryn com Sartaq era apenas mais uma parte disso. Outra exibição.
Ele disse isso a si mesmo, enquanto continuava a segurar o olhar de Yrene, continuava segurando a mão dela contra seu bíceps. Continuava a assistir a cor manchar suas bochechas. A ponta de sua língua pulou para umedecer os lábios. Ele também observou isso.
Um calor pesado e calmante se instalou profundamente nele.
— Eu preciso de um lugar. Qualquer lugar.
Levou alguns batimentos cardíacos para descobrir o que ela estava perguntando. A ameaça que a princesa implicava em não obter informações dele.
— Por que mentir? Eu teria lhe dito a verdade. — Sua própria boca parecia distante.
— Depois da lição com as meninas — ela murmurou — eu lhe devia algo.
E quanto ao que revelava sobre os interesses de Hasar...
— Seria ela influenciada por nossa causa?
Yrene estudou a sala, e Chaol encontrou sua mão se afastando da dela. Deslizando por seu ombro nu, para descansar em seu pescoço. Sua pele era macia como o veludo aquecido pelo sol. Seu polegar acariciou o lado de sua garganta, tão perto daquela cicatriz fina, e ela cortou os olhos para ele.
Havia aviso ali – advertência e ainda... Ele sabia que o aviso não era dirigido a ele. Mas a si mesma.
— Ela... — Yrene respirou. Ele não conseguiu resistir um segundo movimento de seu polegar na lateral do pescoço dela. Sua garganta roçou sua mão quando ela engoliu novamente. — Ela está preocupada com a ameaça de fogo.
E o medo poderia ser uma motivação que ajudaria ou destruiria qualquer chance de aliança.
— Ela pensa... pensa que você está potencialmente por trás do ataque na biblioteca. Como uma manipulação.
Ele resmungou, mas seu polegar acalmou-se, ao longo de sua pulsação vibrante.
— Ela nos dá mais crédito do que nos é devido. — Mas era alarme agora queimando a vida nos olhos de Yrene. — Em que você acredita, Yrene Towers?
Ela colocou a mão sobre a dele, mas não fez nenhum movimento para afastá-lo de seu pescoço.
— Eu acho que sua presença pode ter desencadeado outras forças a agir, mas não acredito que você seja o tipo de homem que joga esse tipo de jogo.
Mesmo que sua posição atual dissesse o contrário.
— Você vai atrás do que quer — prosseguiu Yrene — e persegue diretamente. Honestamente.
— Eu costumava ser esse tipo de homem. — respondeu Chaol. Ele não podia desviar a atenção dela.
— E agora? — Suas palavras estavam sem fôlego, sua pulsação martelando sob sua palma.
— E agora — disse Chaol, aproximando a cabeça dela, perto o suficiente para que a respiração dela roçasse sua boca — eu me pergunto se eu deveria ter ouvido meu pai quando ele tentou me ensinar.
Os olhos de Yrene desceram para sua boca, e cada instinto, cada tipo de foco, estreitou-se nesse movimento. Cada parte dele cobiçando atenção.
E a sensação disso, enquanto ele ajustava casualmente sua casaca sobre o colo, era melhor do que um banho de gelo.
A fumaça – os opiáceos. Era algum tipo de afrodisíaco, um abafador de senso comum.
Yrene ainda observava sua boca como se fosse um pedaço de fruta, sua respiração desigual elevando aqueles exuberantes seios altos dentro dos limites de seu vestido.
Ele se forçou a tirar a mão do pescoço dela. Forçou-se a recostar-se.
Nesryn tinha que estar assistindo. Tinha que se perguntar o que diabos ele estava fazendo.
Ele devia ser melhor do que isso. Devia a Yrene coisa melhor do que acabara de fazer, qualquer loucura...
— Baía da Caveira — ele atirou. — Diga-lhe que o fogo pode ser encontrado em Baía da Caveira.
Era talvez o único lugar em que Aelin nunca iria – até o domínio do Lorde Pirata. Ele ouvirra a história dela, uma vez, de sua “desavença” com Rolfe. Como se destruir sua cidade e seus valiosos navios fosse apenas um pouco de diversão. Ir para lá seria a última coisa que Aelin faria, com a promessa do Lorde Pirata de matá-la à primeira vista.
Yrene piscou, como se lembrasse de si mesma, da situação que os trouxera aqui, para este sofá, para ficar joelho-a-joelho e quase nariz-a-nariz.
— Sim — ela disse, afastando-se, piscando furiosamente novamente. Ela franziu a testa para as brasas fumegantes dentro da tigela de metal sobre a mesa. — Direi.
Ela abanou um rolo de fumaça que tentava subir entre eles.
— Eu devo ir.
Um pânico selvagem e afiado brilhava em seus olhos. Como se ela também tivesse percebido, tivesse sentido.
Ela levantou-se, alisando as saias de seu vestido. Foi a mulher sensual e segura que se pavoneava até este sofá. Aqui, aqui estava a menina de vinte e dois, sozinha em uma cidade estrangeira, presa aos caprichos de seus filhos reais.
— Espero... — disse ela, olhando para Nesryn. Vergonha. Era vergonha e culpa agora pesando em seus ombros. — Espero que você nunca aprenda a jogar esse tipo de jogo.
Nesryn permanecia em profunda conversa com Sartaq, não mostrando sinais de angústia, de saber... de saber o que aconteceu aqui.
Ele era um bastardo. Um bastardo amaldiçoado pelos deuses.
— Eu a verei amanhã — foi tudo o que ele poderia pensar em dizer a Yrene. Mas ele deixou escapar quando ela se afastou: — Deixe-me arrumar-lhe uma escolta.
Porque Kashin estava observando-os do outro lado da sala, uma criada no colo correndo a mão através do seu cabelo. E ali estava... ah, havia uma violência fria no rosto de Kashin quando ele notou a atenção de Chaol.
Outros poderiam pensar que o que acabara de acontecer entre ele e Yrene era uma atuação, mas Kashin... O homem não era tão estupidamente fiel quanto os outros pensavam. Não, ele estava bem ciente daqueles ao seu redor. Podia ler os homens. Avaliá-los.
E não foi a excitação que o príncipe percebeu que era genuína. Mas a culpa, Chaol percebeu tarde demais, a culpa que ele e Yrene se permitiram mostrar.
— Eu pedirei a Hasar — disse Yrene, e dirigiu-se para onde a princesa e a amante estavam sentadas em seu sofá, bocas unidas com uma atenção sem complicações aos detalhes.
Ele permaneceu no sofá, monitorando enquanto Yrene se aproximava das mulheres. Hasar piscou com força para ela.
Mas a luxúria tomando o rosto da princesa aclarou-se com o rápido gesto que Yrene deu. Missão cumprida.
Yrene se inclinou e sussurrou na orelha de Hasar enquanto ela beijava suas bochechas em despedida. Chaol leu o movimento de seus lábios mesmo do outro lado da sala. Baía da Caveira.
Hasar sorriu lentamente, depois ergueu os dedos para um guarda à espera. O homem imediatamente caminhou até elas. Ele a observou dar ordens ao homem, observou-a, sem dúvida, ameaçá-lo com a morte e coisa pior se Yrene não voltasse à Torre e segurança.
Yrene apenas deu à princesa um sorriso exasperado antes de despedir-se dela e de Renia e seguir o guarda. Ela olhou para trás quando chegou ao arco.
Mesmo através dos quase trinta metros de mármore polido e pilares altos que os separava, o espaço entre eles ficou tenso.
Como se aquela luz branca que ele tinha visto dentro de si há dois dias fosse uma corda viva. Como se ela tivesse de alguma forma se plantado nele naquela tarde.
Yrene não fez mais do que acenar com a cabeça antes de partir, as saias girando ao redor dela.
Quando Chaol olhou para Nesryn novamente, encontrou sua atenção sobre ele. Encontrou seu rosto em branco – tão cuidadosamente em branco – enquanto ela lhe dava um pequeno aceno com o que ele assumira. Compreensão. A partida terminara por esta noite. Ela estava esperando para ouvir a pontuação final.
A fumaça ainda estava agarrada às narinas de Chaol, ao cabelo, ao casaco quando ele e Nesryn entraram em sua suíte uma hora depois. Ele juntou-se a ela e a Sartaq e observou outros entrarem em suas câmaras próprias ou de outra pessoa. Sim, Dorian certamente teria amado esta corte.
Sartaq escoltou-os para o quarto deles e desejou-lhes um boa-noite um pouco rígido. Mais restrito do que suas palavras e sorrisos anteriores. Chaol não o culpava. Havia provavelmente olhos em todos os lugares.
Mesmo que os do próprio príncipe estivessem presos em Nesryn enquanto se despediam de Sartaq, e ela e Chaol entravam na suíte.
A suíte estava principalmente escura, exceto por uma lanterna de vidro colorida que Kadja tinha deixado queimando na mesa do vestíbulo.
As portas do seu quarto surgiam como bocas da caverna.
A pausa na sala escura continuou por um longo tempo.
Nesryn silenciosamente caminhou em direção ao seu quarto.
Chaol agarrou sua mão antes que ela pudesse ir.
Lentamente, ela olhou por cima do ombro, o cabelo escuro balançando como a seda da meia-noite.
Mesmo na penumbra, ele sabia que Nesryn lia o que estava em seus olhos. Sua pele apertou em torno de seus ossos, seu coração uma batida trovejante, mas ele esperou.
Ela disse finalmente:
— Acho que sou necessária em outro lugar que esse palácio no momento.
Ele manteve seu aperto em sua mão:
— Não devemos discutir isso aqui na sala.
A garganta de Nesryn tremeu, mas ela assentiu uma vez. Ela se moveu para empurrar a cadeira, mas ele se moveu antes dela, dirigindo-se para o quarto dele. Deixando-a segui-lo. Deixando-a fechar a porta atrás deles.
O luar entrava pelas janelas do jardim, derramando sobre a cama. Kadja não acendera as velas, antecipando o uso deste cômodo após a festa para outros fins do que dormir, ou que ele poderia não voltar. Mas no escuro, no zumbido das cigarras nas árvores de jardim...
— Eu preciso de você aqui. — disse Chaol.
— Precisa? — Uma pergunta sincera.
Ele deu a Nesryn o respeito de considerar sua pergunta.
— Eu... Nós deveríamos fazer isso juntos. Tudo isso.
Ela balançou a cabeça, passando a mão pelo cabelo curto.
— Caminhos mudam. Você sabe disso tanto quanto qualquer um.
Ele sabia. Ele realmente sabia. Mas ainda assim...
— Para onde você quer ir?
— Sartaq mencionou que deseja procurar respostas entre seu povo, se os valg vieram antes a esse continente. Eu... Estou tentada a ir com ele, se ele me permitir. Para ver se existem de fato respostas a serem encontradas e, se eu puder convencê-lo, talvez ele vá contra as ordens do pai. Ou ao menos fale em nosso nome.
— Ir com ele para onde, no entanto? Para os montadores de ruk no sul?
— Possivelmente. Ele mencionou na festa que ele vai embora em alguns dias. Mas você e eu temos pouco de tempo. Talvez eu possa melhorar nossas chances com o príncipe, encontrar informações de valor entre os rukhin. Se um dos agentes de Erawan estiver em Antica... Confio na guarda do khagan para proteger este palácio e a Torre, mas você e eu devemos reunir as forças que pudermos antes que Erawan possa enviar mais contra nós. — Ela fez uma pausa. — E você... você está fazendo um bom progresso. Eu não interferiria com isso.
As palavras não pronuncias corriam abaixo de sua oferta.
Chaol esfregou o rosto. Para ela sair, simplesmente aceitar esta encruzilhada no caminho diante deles...
Ele respirou fundo.
— Aguarde até a manhã antes de decidir qualquer coisa. Nenhum bem vem de escolhas feitas tarde da noite.
Nesryn ficou em silêncio, e ele passou para o colchão antes de remover o casaco e as botas.
— Você se senta comigo? Conte-me sobre sua família – sobre a celebração de hoje com eles. — Ele tinha apenas recebido o menor dos detalhes, e talvez fosse culpa que agora o alimentava, mas...
Seus olhos se encontraram no escuro, o canto de um rouxinol atravessando as portas fechadas. Ele poderia ter jurado ver um brilho compreensivo em seu rosto, depois concordância, uma pedra caindo em uma piscina.
Nesryn aproximou-se da cama em passos silenciosos, desabotoando a jaqueta e arremessando-a sobre uma cadeira, arrancando as botas. Ela subiu no colchão, um travesseiro suspirando enquanto se inclinava contra ele.
Eu vi, ele poderia jurar ler em seus olhar. Eu sei.
Mas Nesryn falou sobre a cerimônia do cais, como seus quatro primos tinham jogado coroas de flores no mar e depois correram e gritaram para as gaivotas que os rodearam para roubar os bolos de amendoim de suas mãos. Ela contou-lhe sobre seu tio, Brahim, e sua tia, Zahida, e sua bela casa, com seus vários pátios e flores em profusão e divisórias de madeira trançada.
Com cada olhar, aquelas palavras não ditas ainda ecoavam. Eu sei. Eu sei.
Chaol deixou Nesryn falar, ouviu até que sua voz o embalou para o sno, porque ele também sabia.

7 comentários:

  1. Olá. A palavra "Apologético" aparece neste capitulo e algum anterior. Acho que é um erro de tradução, pois a palavra significa "defensa da fé através da razão". Não combina no contexto da historia. Talvez a palavra correta seria apoplético, que significa "vermelho de raiva".

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    1. Ai, foi erro de tradução mesmo. Falso cognato... vou corrigir, obrigada!

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  2. Ei Chao tá todo mundo sabendo que vc ta afim da Yrene
    Kkkkkkk

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  3. "— Baía da Caveira — ele atirou. — Diga-lhe que o fogo pode ser encontrado em Baía da Caveira.

    Era talvez o único lugar em que Aelin nunca iria – até o domínio do Lorde Pirata. Ele ouvirra a história dela, uma vez, de sua “desavença” com Rolfe."

    Que merda Chaol, esse é justamente o primeiro lugar que ela foi depois de ter ido a Terrasen ksksksks

    "— E agora — disse Chaol, aproximando a cabeça dela, perto o suficiente para que a respiração dela roçasse sua boca — eu me pergunto se eu deveria ter ouvido meu pai quando ele tentou me ensinar.

    Os olhos de Yrene desceram para sua boca, e cada instinto, cada tipo de foco, estreitou-se nesse movimento. Cada parte dele cobiçando atenção."

    PELO AMOR DE DEUS SE BEIJEM LOGO

    "— Para onde você quer ir?

    — Sartaq mencionou que deseja procurar respostas entre seu povo, se os valg vieram antes a esse continente. Eu... Estou tentada a ir com ele, se ele me permitir. Para ver se existem de fato respostas a serem encontradas e, se eu puder convencê-lo, talvez ele vá contra as ordens do pai. Ou ao menos fale em nosso nome.

    — Ir com ele para onde, no entanto? Para os montadores de ruk no sul?

    — Possivelmente."

    Só consigo pensar em: TCHAU NESRYN, QUE OS DEUSES TE ACOMPANHEM KSKSKSKS aproveita a companhia do príncipe e pelo amor de Deus não deixe meu shipp morrer, você e Sartaq precisam ficar juntos. Perfeito mano, caminho livre pra Yrene *-*

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  4. Quero Nesryn e o príncipe, menos Chaol

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  5. O Chaol mandou eles pra Baía da caveira, exatamente pra onde ela foi! Nãaaooo. .. seu besta. E beija logo a Yrene para de insistir com a Nesryn que tá mais claro que água que o tinha entre os dois já babou a muito tempo!

    Flavia

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!