15 de janeiro de 2018

Capítulo 21. Um casal de namorados curiosos

A pequena casa geminada, na Vila Mariana, estava às escuras. Mas o instinto alerta do casal de Karas indicou que havia alguma coisa errada. Magrí e Crânio passaram em frente à casa, abraçados, fingindo-se de namorados (essa, é claro, foi uma ideia do Crânio).
Não se notava nenhum movimento na casa, mas, lá de dentro, ouviam-se sussurros que poderiam ser percebidos até por quem não estivesse prestando atenção:
— Bzzz... bzzz... bzzz...
— Hein?
— Bzzz..- bzzz... bzzz...
— Hein? Não estou entendendo nada!
— O camarada está demorando!
— Fala baixo, seu cretino!
— Bzzz... bzzz... bzzz...
— Hein?
O casal de namorados continuou andando. Na esquina, um grande carro negro estava estacionado. Dentro, dava para perceber Crânio e Magrí aproximaram-se um pouco mais do carro e Crânio aproveitou para “representar” um namorado mais entusiasmado. (O que estragava eram aqueles arames que Calú tinha botado na boca de Magrí...)
Dentro do carro, a enorme sentinela dormia um sono de roncar. Pronto. Os Karas estavam à vontade para investigar a casa. Com a agilidade de campeã de ginástica olímpica do Colégio Elite e a esperança de medalha de ouro para o Brasil nas próximas Olimpíadas, Magrí escalou a parede da casa e deslizou sobre o telhado. Como se estivesse num exercício de argolas, pendurou-se no beirai do telhado pelas pernas, jogando a cabeça para baixo. Assim, dependurada como um morcego, Magrí viu, através da veneziana, dois vultos imensos. Viu e pôde entender melhor os sussurros.
— Eu acho que o tal Mário não vai aparecer — dizia o Animal.
— Como não vai aparecer?! — argumentava o Coisa. — Ele mora aqui!
— Eu sei que ele mora aqui, mas está fugindo.
— É claro que está fugindo. Mas, para onde?
— Como é que eu vou saber? Se eu soubesse, ia lá e liquidava com ele!
— E bom a gente liquidar com ele logo. Você ouviu o Doutor Q.I. Ele quer a cabeça com caspas do tal Mário. Ou vai querer a cabeça da gente em troca!
— Então, pense! Para onde pode ter fugido o sujeito?
— Eu penso, eu penso o tempo todo — explicou o Coisa. — Mas acontece que eu não sou detetive!
— Veja bem: a gente perseguiu o tal Mário até à praça do Patriarca, lembra?
— Lembro. Daí ele correu pela rua da Quitanda...
— Virou à direita na 15 de Novembro e...
— E aí tinha um tal Zé da Silva assaltando um banco e berrando que era o assaltante mais perigoso do Brasil!
— E aí a gente foi em cana, né?
— É...
— Junto com o tal Zé da Silva. Sorte que tem aquele detetive que está do nosso lado, né?
— É...
— Aí o Zé da Silva ficou em cana e a gente foi solto, né?
— É...
— E agora?
— Agora o quê?
— Como é que a gente vai pegar o tal Mário Caspinha?
— Sei lá. Acho que ele nem vai aparecer por aqui.
— Também acho.
— Então, que é que adianta a gente ficar aqui, no escuro?
— Não sei. Mas, se a gente sair daqui, aonde vamos procurar?
— Pense: pra onde pode ter ido o tal Mário?
— Não sei. A gente estava perseguindo ele lá na praça do Patriarca...
— Isso você já falou. E depois?
— Depois a gente foi em cana.
Magrí achou que aquela conversa não tinha futuro. Ergueu o corpo, segurou no beirai agarrando-se numa calha de cobre e deixou o corpo cair suavemente. Foi aí que a velha calha cedeu: cract!
— O que foi isso? — perguntou o Animal.
— Foi um cract! — explicou o Coisa...
— É claro que foi um cract! Venha!
Estabanadamente, os dois bandidos abriram a porta da casa de Caspérides e precipitaram-se para o pequeno jardim.
— Aqui não há nada — disse o Coisa. — Só aquele casal de namorados.
— Vamos perguntar a eles se viram alguma coisa!
— Ei, psiu! Vocês aí! Viram alguma coisa?
O rapaz desgrudou-se da moça e disse, com a cara mais inocente do mundo:
— Hum... o quê?
— Vocês viram alguma coisa?
— Que coisa?
— Sei lá. Qualquer coisa!
— Não vimos nada diferente...
— Não ouviram um Cract?
— Cract? Acho que não...
O Animal estava desnorteado:
— Acho melhor a gente voltar para o carro.
— É melhor mesmo.
E lá foram os dois grandalhões, discutindo pela rua, enquanto o casal de namorados se esgueirava para o jardim da casa. Com alguma dificuldade, Magrí conseguiu forçar uma janela. Crânio entrou em seguida. Com a ajuda de uma lanterna que encontraram na cozinha, procuraram avidamente por alguma pista do morador ausente. Não foi difícil encontrar uma pasta volumosa, na qual estava escrito: Droga da Obediência.
Debruçados sobre a pasta, leram as anotações do bioquímico. E o que leram os fez tremer. Antes de sair, Crânio retirou uma foto de Caspérides que havia em um porta-retratos. Encostaram a janela pelo lado de fora e sumiram na noite.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!