25 de janeiro de 2018

Capítulo 21. Na pista de um chapéu

Depois que o velho saiu em busca da cadernetinha com os nomes dos conspiradores, Calú tentou compreender pelo menos parte de todas aquelas surpresas:
— O nome que esse desgraçado usa é Ferenc Gábor e não Davi Segai! Eu me lembro muito bem: o velho Sol tinha uma numeração no antebraço que acabava com o número quatro. “Quá-quá-quá-quá”! O número no braço desse alemão termina com três. O velho Sol me disse que o primeiro a receber a numeração foi Gábor, depois foi ele e, por fim, Davi Segai. Estavam unidos pelos números, como em uma corrente... A ordem deve ter sido esta: 3 para Gábor, 4 para Sol e 5 para Segai.
— Vai ver o Anjo da morte escolheu Ferenc Gábor para substituí-lo, naquela noite, na Rússia, mas confundiu Gábor com Davi Segai na hora de escolher o prisioneiro que deveria vestir a farda...
— É bem possível, Chumbinho... Os três deviam estar irreconhecíveis, imundos, esqueléticos e de barba comprida. Os três, na certa, até já se pareciam. Todos tinham no rosto a mesma marca. A marca da morte. A marca desse maldito Kurt Kraut!
Calú e Chumbinho fingiram dar uma volta pelo interior do castelo para fazer um reconhecimento. Tinham de descobrir alguma forma de escapar dali.
Aquele era um castelo medieval em quase tudo: não foi possível encontrar um telefone em qualquer uma das salas que deu para espiar. Além de tudo, apesar de Chumbinho, no papel do Esperado, ser a figura mais importante e respeitada da Organização, os dois não podiam dar um passo fora do Kabinet sem que pelo menos dois guardas viessem servilmente acompanhá-los por todo lado.
O falso Esperado sentiu-se como um rei, prisioneiro em seu próprio castelo.
Voltaram para o Kabinet e puseram-se a xeretar tudo o que havia lá dentro. Os papéis arquivados não tinham grande interesse. O Komandant se protegia. Ali a polícia só encontraria inocentes documentos do Lar da Juventude Brasileira. Tudo perfeitamente legal.
Calú sorriu ao perceber o sentido do que tinha visto no alto da torre:
— Lembra-se de quando vimos a torre lá de fora, Chumbinho? Lembra-se de que havia um terracinho com dois alto-falantes e refletores instalados? E lembra-se dos discos, da vitrola, do amplificador e do microfone, lá, no quartinho sinistro?
— Lembro, é claro que me lembro!
— Acho que temos uma encenação pronta para a estreia. Na certa Kurt Kraut preparou toda a cena para o seu primeiro discurso...
— Seu dele?
— Não, Chumbinho. Seu de você mesmo. Você não é o Esperado? O chefe desta bagunça toda? 
Chumbinho balançou a cabeça:
— Aqui eu sou tudo e não sou nada, Calú. Precisamos pensar em alguma saída. Não podemos dar um passo fora daqui. Não podemos avisar os Karas. Não podemos falar com Andrade nem com o Doutor Pacheco. Perdemos a sacola com o transmissor. Os Karas nunca vão nos encontrar aqui. O plano dos nazistas e dos líderes do crime organizado vai ser posto em prática com a maior tranquilidade!
Calú tomou uma decisão. A mais desesperada de todas.
— Quando a situação é louca, Chumbinho, precisamos de uma saída também maluca!
Calú abriu a gaveta da mesa de trabalho de Kurt Kraut.
Pegou um tinteiro, um vidro de cola, uma escovinha de pêlos escuros que servia para limpar teclas de uma velha máquina de escrever, uma tesoura e uma pesada espátula de bronze.
— Se não podemos fugir daqui, ninguém mais vai poder!
Giraram a estante e entraram pela passagem secreta.
Com pressa, Calú foi até a porta trancada que dava para o tal túnel e para a saída de emergência. Enfiou a espátula na fechadura, arrancou uma pedra que estava meio solta no revestimento da parede e deu uma forte pancada na espátula, que se partiu dentro da fechadura.
Pronto. Agora ninguém mais escaparia por aquele túnel.
— Chumbinho, agora nós vamos novamente até lá em cima...
— Lá em ei... cima, Calú?
— Isso mesmo. Eu vou desaparecer, Chumbinho. Ajude-me lá na torre e depois volte para o Kabinet. Invente qualquer desculpa para a minha ausência. Diga que eu fiquei indisposto e fui descansar no quarto. Você vai ter de dar um jeito de precipitar a encenação do discurso que o Anjo da morte está preparando. Vamos escrever o seu discurso juntos.
— O meu discurso?!
— Você vai falar, Kara! É preciso. Este é o seu papel. Eu é que tenho de mudar de personagem. Você acha que vai dar para eu passar por adulto?
— Sei não, Kara...
— Como não? Eu já tenho até barba! Você não notou?
— Só se alguém me emprestar uma lente, Kara...
Chumbinho novamente tremia de frio quando os dois começaram a subir a comprida escada que levava ao alto da torre e ao grande segredo de Kurt Kraut.
Com o anoitecer, parece que os ratos estavam mais ousados. Havia agora uma porção deles e, a cada desvão pouco iluminado pelas velas que os dois Karas carregavam, olhinhos vermelhos brilhavam como rubis.
Os dois vestiam terninho e gravata, como se esperaria de dois nazistinhas. Chumbinho sentia-se pouco à vontade, e concluiu que devia ser por causa daquelas roupas incômodas.
A última porta rangeu nos gonzos, e os dois Karas penetraram no quartinho do alto da torre. Uma lufada de ar gelado recebeu-os, fazendo com que os dois se arrepiassem até a medula dos ossos.
Como se os esperasse, a figura do velho sentado olhava fixamente para eles. A luz das velas refletiu-se em seus olhos e chispas de ódio vítreo fulminaram os dois invasores.
— Ca-Ca-Calu... Será que você não poderia ter tido outra ideia?
O ator do grupo dos Karas aproximou-se lentamente, como se a velha figura estivesse dormindo de olhos abertos e o rapazinho não quisesse acordá-la.
Segurando o candelabro, Chumbinho olhou por sobre o ombro de Calú.
O trabalho parecia de primeira. Kurt Kraut tinha posto toda a sua habilidade naquela tarefa. Até os olhos de vidro tinham a expressão certa. Uma expressão que feria a própria alma de quem os olhasse.
Ali estava o grande segredo. Não aparentaria nem sessenta anos. O bigodinho e o cabelo bem alisado, caído na testa, eram inconfundíveis.
Ali estava o trunfo de Kurt Kraut, o sádico taxidermista que embalsamava as cabeças das crianças judias que mandava matar nas câmaras de gás do campo de extermínio de seres humanos chamado Sobibor.
Ali estava a grande obra de Kurt Kraut: a eternização do Mal.
Ali estava o cadáver embalsamado de Adolf Hitler!
Buzinando e tentando vencer o trânsito pesado da rodovia Raposo Tavares naquele fim de tarde, Andrade suava e falava com o fusquinha, como se o carrinho fosse um cavalo que precisa de estímulo para correr mais depressa.
— Anda, lata velha! Se você não ratear, prometo levar você ao lava-rápido! Vamos, queridinho! 
— Parece que o velho alemão chegou ao seu destino, Andrade — informou Crânio, às voltas com o aparelho receptor. — Os bips agora estão sendo emitidos do mesmo lugar...
— Anda, lata velha!
Os bips guiaram Andrade, os três Karas e a “lata velha” por uma estradinha de terra quase oculta pela vegetação.
Poucos minutos depois, os quatro avistaram uma construção diferente, uma espécie de castelo europeu, cercado por muros de pedra. Irritantemente, os bips soavam no aparelho receptor, vindos daquela fortaleza murada.
A uns cem metros da entrada, Andrade desligou o fusquinha. Magrí sentiu seu coração pular, na expectativa de um fim para todo aquele suspense.
— É aqui. Aposto que Calú e Chumbinho estão lá dentro!
Pelo celular, o gordo detetive comunicou-se com a Polícia Federal. Deu a localização do lugar ao Doutor Pacheco e esperou. Com as sirenes ligadas, os federais chegariam em meia hora, talvez...
Por enquanto, não havia nada a fazer.
Miguel desligou o aparelho receptor. Agora não era mais necessário ficar ouvindo o bip. Agora só era necessário esperar.
Esperar... Magrí não conseguia ficar parada. Ela não era menina de ficar esperando sentada num fusquinha enquanto anoitecia e os seus amigos pudessem estar em perigo.
— Vou andar um pouco. Quem sabe eu vejo a polícia chegando, daquela curva da estrada...
Andou uns poucos metros, até que não pudesse mais ser vista pelos amigos. Aí, silenciosamente, escalou o muro do castelo.
Já estava meio escuro, mas a menina percebeu o perigo:
“Cuidado, Magrí!”, disse para si mesma. “Cães!”
No alto do muro, escondeu-se atrás da copa de uma árvore.
“Calú... meu querido... Onde está você?”
A imagem sorridente do menino mais bonito do Colégio Elite não se afastava de sua memória. E do seu coração.
Chumbinho voltou sozinho para o Kabinet. Tinha acabado de fechar a passagem secreta da estante quando o velho Komandant entrou. O menor dos Karas se recompôs e deu uma pequena bronca no recém-chegado:
— Demorou, Herr Kraut! Trouxe a lista?
— Aqui está, meu Guia...
Chumbinho arrancou a cadernetinha das mãos de Kurt Kraut e enfiou-a no bolso, sem a menor cerimônia.
— Gut, SS Leutnant Kurt Kraut! O senhor está trabalhando direito. Logo que a nova revolução nazista estiver vitoriosa, eu vou promovê-lo a Òbersturmfuhreú
Mentalmente, o menino havia ensaiado um bocado para conseguir pronunciar aquela palavra tão difícil que Calú lhe ensinara. Mas valeu a pena, pela reação do velho nazista:
— Oh, meu Guia! Quanta honra...
Nesse momento, lá do alto da torre, preparado para a maluquice do seu plano, Calú ouviu o canto estridente de um pássaro. Um canto que jamais passou pelo bico de qualquer ave. Um som que só podia ter saído de um par de lindos lábios. Dos lábios de Magrí.
“Os Karas!”, alegrou-se Chumbinho ao também reconhecer o sinal de Magrí. “Eles nos encontraram!”
O menino pensou rapidamente. Os Karas tinham de ser avisados.
— Komandant, eu quero dar uma volta pelo jardim, agora.
— Oh, meu Guia... — o velho tentou demovê-lo. — Creio que não será bom... Sabe? A segurança...
— Por quê? O sistema de segurança que o senhor instalou aqui é falho?
— Não, meu Guia... É um sistema perfeito...
— Se o sistema é perfeito, então não há nada a temer. Saia da frente, Herr Kraut. Eu sempre gosto de dar um passeio antes do jantar!
— O seu companheiro vai também?
— Não. Ele está meio cansado. Foi descansar no quarto. Não quero que ele seja incomodado!
— Jawohl, meu Guia!
O alemão, pressurosamente, deu ordens para que os cães dobermans fossem presos, destacou dois guardas para escoltarem o Esperado e ele, e apontou o caminho:
— Está tudo pronto, meu Guia. Podemos ir...
Como se fosse mesmo um guia de escoteiro, Chumbinho puxou o passeio, fazendo o velho e os guardas andarem meio acelerado em volta do imenso jardim do Castelo Wachenfeld. O garoto sabia para onde devia andar. Disfarçou, fez o pessoal dar algumas voltas e aproximou-se do lado do muro de onde tinha ouvido o “pássaro” cantar.
No alto do muro, atrás da copa de uma árvore,
Chumbinho pensou ter visto um vulto. Deu uma risada e cumprimentou o Komandant, em voz bem alta:
— Muito bem, Herr Kurt Kraut! O jardim é lindo, Herr Kurt Kraut!
— Não fale tão alto, meu Guia — sussurrou o velho, para que os dois guardas não o ouvissem. — Por que fica repetindo o meu nome? Os guardas não sabem quem eu sou... A segurança...
— O que tem a segurança, Herr Kurt Kraut? Quais são as falhas do seu sistema de segurança? Não há guardas armados?
— Claro que sim! Há muitos guardas armados, meu Guia...
— Há muitos guardas e bem armados, não é? E os jovens da Juventude Brasileira? Estão preparados?
— Sempre, meu Guia. Eles estão sempre preparados para a ação...
— Há muitos jovens e bem armados! Muito bem! E o helicóptero? Está pronto para decolar?
— Está sim... do outro lado do Castelo Wachenfeld...
— O helicóptero está pronto para voar! Muito bem! Do outro lado do castelo, não é?
— Por que repete tudo o que eu digo, meu Guia?
— Está tudo preparado?
— S... sim...
— Então não me amole, Herr Kurt Kraut!
— Por que está gritando, meu Guia?
— Eu?! Gritando? Eu estou gritando, Herr Kurt Kraut?
Afastaram-se dali. Chumbinho estava fazendo gato-sapato do Anjo da morte!
O recado estava dado. Magrí agora sabia onde estava o helicóptero e sabia que havia guardas armados e um pequeno exército de adolescentes, prontos para a defesa do castelo. E sabia mais: sabia que aquele velho que eles haviam seguido desde a loja de taxidermia era Kurt Kraut, o Anjo da morte!

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