25 de janeiro de 2018

Capítulo 20. A Loja do embalsamador

A pequena loja estava fechada. Em frente, na outra calçada, Miguel, Magrí e Crânio esperavam olhando para a placa onde estava escrito:
BICHOS EMPALHADOS EM GERAL
ARTE EM TAXIDERMIA
Depois de terem encontrado a etiqueta do fornecedor do esquilo empalhado, não foi difícil descobrir o endereço no recibo da loja de taxidermia, que estava arquivado na secretaria do Colégio Elite.
Os pais dos meninos nem desconfiavam do que estava acontecendo. Cada um dos Karas tinha telefonado e avisado que ia almoçar na casa do outro, para “estudar para uma prova”. O mesmo recado foi transmitido para as casas de Chumbinho e de Calú. Almoçaram um sanduíche e seguiram de táxi para o bairro do Bexiga.
Os três não se falavam, como se não se conhecessem.
Miguel e Crânio permaneciam de pé, à beira da calçada, como se estivessem à espera de um ônibus. Só que não passava nenhum ônibus naquela rua. Na esquina, uma mocinha malvestida, de jaqueta surrada, segurando um embrulho volumoso e malfeito nem parecia a elegante Magrí.
Não esperaram muito. Eram quase quatro horas quando um velho de chapéu, alto e empertigado, aproximou-se andando apressadamente depois de estacionar seu carro meio distante, em um lugar permitido.
O velho abriu a porta da loja e entrou.
Logo em seguida, com o ar mais humilde do mundo, Magrí entrou na loja, abraçada ao embrulho amarrotado.
— Boa tarde... O senhor é Ferenc Gábor, o taxidermista?
Atrás do balcão, o velho mostrou-se mal-humorado:
— O que você quer? A loja já vai fechar.
— Mas o senhor acabou de abri-la...
— Não interessa! O que você quer? Estou muito ocupado!
Magrí colocou delicadamente o embrulho sobre o balcão e abriu-o, revelando um esquilo empalhado, sem os olhos de vidro e com uma das pernas quebrada.
— Eu... eu trabalho na secretaria do Colégio Elite, senhor Gábor... — explicou a menina, timidamente. — Pediram que eu trouxesse isto para o senhor. Disseram que foi o senhor que fez este trabalho. Perguntaram se o senhor poderia consertar...
Os três Karas tinham feito uma barbaridade. Tinham furtado o esquilo do laboratório do Colégio Elite, quebrado sua perna e arrancado seus olhos. O paradeiro de Calú e Chumbinho valia qualquer coisa. Até mesmo um furto.
Depois de tudo resolvido, qualquer um deles tinha pais ricos o suficiente para doar até um milhão de esquilos ao colégio. E vivos, se fosse necessário.
O velho alemão pareceu revoltado ao ver o esquilo.
Revirou-o e voltou-se para Magrí.
— Por que fizeram uma barbaridade destas? O pessoal do seu colégio não sabe respeitar uma obra de arte?
— O senhor sabe... as crianças...
— Ah, essa juventude de hoje! Não respeita nem mesmo a arte!
Enquanto o velho examinava o esquilo, resmungando e preparando um orçamento para o conserto, Magrí procurava vasculhar a pequena oficina com os olhos. A loja tinha um cheiro de bolor, de poeira, de morte. Nada parecia suspeito. Arranjados em prateleiras, dezenas de animais empalhados olhavam para a menina com seus olhos de vidro. Eram trabalhos muito bem-feitos. Quase perfeitos. Sacos com palha, paina, arames e muitos frascos com essências embalsamadoras completavam as quinquilharias que serviam para a arte da taxidermia.
Meio coberta por uma lona, havia uma máquina. Parecia ser uma pequena impressora tipográfica. Ao lado dela, Magrí viu uma pilha de papéis ainda não impressos. Eram folhas de papel amarelo!
O velho estava de costas, revirando o esquilo numa bancada de trabalho. Silenciosa como uma cobra, Magrí abaixou-se e pegou uma das folhas de papel amarelo. Escondeu-a dentro da jaqueta, um décimo de segundo antes de o velho voltar-se para ela com o orçamento anotado em um talão de pedidos. Destacou a primeira folha e estendeu-a para a menina.
Magrí recebeu a folha com o orçamento e saiu, sem mais nada dizer.
Crânio apalpou cuidadosamente a folha de papel amarelo que Magrí trouxera e procurou compará-la mentalmente com o panfleto impresso que estava com a polícia.
— Parece o mesmo papel, não é, Crânio?
— À primeira vista é o mesmo tipo de papel, Magrí. Você fez um bom trabalho...
Crânio tentou lembrar-se da letra que escrevera as ameaças em alemão no panfleto amarelo. Seria bom se ele pudesse compará-la com a letra do taxidermista, que estava na folha de orçamento entregue a Magrí. Era difícil garantir que as duas tivessem sido escritas pela mesma mão.
Ele se lembrava de que a letra do panfleto era de fôrma. E aquela, do orçamento, era cursiva.
— Só a polícia técnica poderá comprovar se o panfleto ameaçador foi impresso neste mesmo tipo de papel e na máquina da loja de taxidermia, Karas — explicou o gênio dos Karas. — E também só os técnicos poderão provar que foi o dono da loja quem escreveu a frase ameaçadora no folheto. Mesmo assim, isso me parece muito pouco para uma acusação de assassinato. No máximo, o dono do papel e da letra poderá ser acusado de ameaçar cidadãos de origem judaica...
— Acho que não conseguiremos nada através desses caminhos oficiais, Crânio — argumentou Miguel. — Temos de continuar agindo por nossa conta.
— E o que podemos fazer por nossa conta?
Miguel mostrou a sacola de Calú que ele trouxera consigo:
— Vamos arranjar um telefone e ligar para o celular do Andrade. Ele precisa encontrar o carro da Polícia Federal que tem o receptor que capta os bips deste transmissor aqui na sacola. Minha ideia é esta, Karas...
Depois de pegar na gaveta a cadernetinha que viera buscar, o velho taxidermista enfiou o chapéu na cabeça e saiu. Trancou a porta da loja e começou a caminhar com passos apressados.
Na direção contrária vinham dois jovens conversando animadamente e brincando um com o outro. O alemão tentou desviar-se deles, mas o que parecia mais estabanado acabou esbarrando violentamente em seu ombro. O velho alemão perdeu o equilíbrio e ia caindo, quando o outro jovem o amparou. O primeiro abaixou-se e apanhou o seu chapéu, que havia caído no chão. Sacudiu-o e devolveu-o ao velho, sorrindo sem jeito:
— Desculpe, senhor...
O alemão resmungou algum desaforo, de mau humor, e seguiu apressado para onde deixara o carro estacionado.

* * *

Longe dali, Andrade fizera um escarcéu e conseguira que o Doutor Pacheco instalasse em seu fusquinha o receptor de bips. Agora, ele tinha de forçar o velho motor do seu carrinho para encontrar o mais rápido possível aqueles três meninos endiabrados.
O receptor, colocado no banco traseiro, emitia bips cada vez mais distantes. O que teriam aprontado Miguel, Crânio e Magrí?
O que o gordo detetive não podia adivinhar é que, naquele momento, o minúsculo transmissor estava afixado dentro do chapéu de um velho taxidermista do Bexiga!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!