15 de janeiro de 2018

Capítulo 20. Em busca de fortes emoções

Miguel sentia-se muito desconfortável com a cabeleira encaracolada que Calú tinha arranjado para ele. Com o bigode ralo de adolescente, então, ele se sentia ridículo. Mas tinha de concordar que o trabalho de maquiagem de Calú era de primeira.
Para falar a verdade, até que Miguel gostaria mesmo de já ter bigode. Mas, por mais que ele raspasse, até agora os primeiros fios de barba ainda não tinham aparecido.
Misturado na multidão de estudantes do Logos, naquela hora Miguel não pensava no desconforto da cabeleira nem no ridículo do bigodinho precoce. O líder dos Karas procurava avidamente o oferecedor. Mas o tempo passava e Miguel não conseguia encontrar o Bino.
“E claro que ele deve estar disfarçado”, pensava o rapazinho. “E deve ser um mestre do disfarce para se matricular em dez colégios, sempre com uma cara diferente. Será que eu vou conseguir reconhece-lo? Tenho de conseguir!”
A cabeleira encaracolada fazia Miguel suar. Quando o sinal tocou e todos começaram a correr para as classes, ele deu um jeito de entrar no banheiro. Tirou a cabeleira e colocou a cabeça debaixo da torneira.
Nesse momento, ouviu uma voz atrás de si:
— Oi...
Com a água escorrendo pelo rosto, Miguel viu um garoto estranho, diferente, que olhava fixamente para ele.
— Hum? Oi... — respondeu Miguel.
— Você é novo por aqui? — perguntou o estranho.
Foi aí que Miguel percebeu o erro que tinha cometido. Aquele era Bino, espetacularmente disfarçado! E ele, Miguel, estava ali, desprevenido, apanhado como um patinho! Disfarçadamente livrou-se da cabeleira, deixando-a cair no cesto de papéis ao lado da pia.
— Novo? Eu... comecei neste ano. E você?
— Acabei de me matricular. Bino! Era ele mesmo! Teria reconhecido Miguel? Talvez não, quem sabe? Talvez ele nem se lembrasse de Miguel, já que tinha estado tão pouco tempo no Elite...
— Você está com algum problema, amigão? O desgraçado estava entrando direto no assunto. Sem medo. Sem rodeios. E agora?
Miguel achou melhor arriscar tudo e entrar logo com o seu jogo:
— Sei lá. Estou numa fossa... Sem pique, sei lá...
Bino chegou-se amigavelmente, sorrindo, e passou o braço pelos ombros de Miguel:
— Eu tenho uma coisa legal, aqui. Você quer emoções?
— Estou a fim. Coisa forte?
— Da pesada. Entra nessa?
Bino parecia estar com pressa. Não disfarçava nada, como se tivesse certeza de que Miguel aceitaria. Com firmeza, foi levando Miguel para fora.
— Então venha cá. Você vai gostar.
Alguma coisa estava errada. A intuição de Miguel o alertava, mas ele tinha de seguir em frente. Tudo estava fácil demais, mecânico demais, sem qualquer simulação.
Saíram do colégio, e Bino, sempre com o braço em torno dos ombros de Miguel, levou-o para a direita, descendo a avenida Rebouças.
Aonde estava sendo levado? Miguel não sabia, mas estava certo de que o método usado para raptar Bronca e Chumbinho não tinha sido aquele. Eles estavam quebrando a rotina. Será que... Uma perua toda fechada parou ao lado dos dois. A porta foi aberta e alguém ordenou:
— Entre!
No instante em que ele descobriu que estava caindo numa armadilha, não havia tempo para mais nada. Bino empurrou-o por trás.
Pela frente, um braço musculoso agarrou-lhe o pescoço, e uma pesada mão tapou-lhe a boca e o nariz com um pano.
Lutando para libertar-se, Miguel sentiu o cheiro forte do clorofórmio.

* * *

A cabeça rodava e o estômago estava enjoado quando Miguel acordou. Viu-se em um quarto nu, como uma cela. Não havia janelas. A ventilação vinha de uma abertura no teto e uma lâmpada iluminava frouxamente o quarto.
Passou a mão pelo rosto e viu que não tinha mais o bigodinho falso. A cama onde estava estirado era dura, mas a limpeza do ambiente fazia aquilo parecer mais um hospital do que uma prisão.
“Deve ser um quarto de luxo. Até televisão tem aqui!”, pensou o rapaz, sentando-se na cama. A tal “televisão” acendeu-se sozinha e uma silhueta apareceu no vídeo:
— Boa tarde, Miguel. Eu estava esperando por você.

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Boa leitura! E SEM SPOILER!