29 de janeiro de 2018

Capítulo 2

Havia dois lados dela, pensou Nesryn.
O lado que agora era a Capitã da Guarda Real de Adarlan, e que tinha feito um voto a seu rei para ver o homem na cadeira de rodas ao lado dela ser curado – e reunir um exército do homem sentado no trono diante dela. Aquela parte de Nesryn manteve a cabeça erguida, ombros para trás e as mãos a uma distância não-ameaçadora da espada ornamentada em seu quadril.
Depois, havia o outro lado.
O lado que vislumbrou as torres, minaretes e cúpulas da cidade-deus que atravessaram o horizonte quando eles navegavam, o pilar brilhante da torre orgulhosamente acima de tudo isso, e teve que engolir as lágrimas. O lado que sentiu o cheiro de páprica esfumaçada e um sabor de gengibre crocante e vislumbrou o cominho logo quando desceu nas docas e soube, em seus ossos, que estava em seu lar. Sim, ela vivia, servia e morreria por Adarlan, pela família ainda ali, mas esse lugar, onde seu pai já vivera e onde até a mãe nascida em Adarlan se sentia mais à vontade... Este era o povo dela.
As peles em tons variados de marrom e bronz. A abundância daquele cabelo preto brilhante – o cabelo dela. Os olhos que variavam de caídos a largos, de redondos a estreitos, em tons de ébano e castanho e até mesmo o avelã e verde. Seu povo. Uma mistura de reinos e territórios, sim, mas... Aqui não havia insultos sibilados nas ruas. Aqui não haveria pedras atiradas por crianças. Aqui os filhos de sua irmã não se sentiriam diferentes. Indesejados.
E aquela parte dela... Apesar de seus ombros estarem eretos e o queixo estar erguido, seus joelhos de fato tremiam para quem – e o quê – estava diante dela.
Nesryn não se atreveu a contar a pai aonde e o que ia fazer. Apenas que ela viajara em uma missão solicitada pelo rei de Adarlan e não voltaria por algum tempo.
Seu pai não acreditaria. Nem mesmo Nesryn acreditava direito.
O khagan tinha sido uma história sussurrada diante da lareira nas noites de inverno, as lendas sobre seus descendentes contadas enquanto seu pai sovava grandes massas de pão para a manhã seguinte. As histórias sobre os antigos khagans eram contadas antes de dormir para acalmá-la em um doce sono ou mantê-la acordada a noite toda em um terror profundo.
O khagan era um mito vivo. Tanto de uma divindade quanto os trinta e seis deuses que governaram esta cidade e seu império.
Havia tantos templos para aqueles deuses em Antica como havia tributos para os vários khagans. Mais até.
Chamavam o lugar de cidade-deus por isso – e pelo deus vivo sentado no trono de marfim em cima daquele estrado dourado.
Era realmente ouro puro, assim como as lendas sussurradas de seu pai diziam.
E os seis filhos do khagan... Nesryn poderia nomeá-los todos sem a apresentação.
Após a meticulosa pesquisa que Chaol fizera durante a viagem de navio, ela não tinha dúvidas de que ele poderia, também.
Mas não era assim que esse encontro correria.
Ela ensinara ao antigo capitão sobre sua terra natal durante as últimas semanas, e ele instruíra Nesryn sobre o protocolo da corte. Ele raramente estava diretamente envolvido, sim, mas testemunhara o suficiente enquanto servia ao rei.
Um observador do jogo que agora deveria ser um jogador principal. Com as apostas insuportavelmente altas.
Eles aguardaram em silêncio que o khagan falasse.
Ela tentou não admirar enquanto atravessava o palácio. Nunca colocara o pé dentro dele durante suas poucas visitas à Antica ao longo dos anos. Nem o pai, nem o avô, nem nenhum de seus antepassados. Em uma cidade-deus, este era o mais sagrado dos templos. E mais mortal dos labirintos.
O khagan não se moveu em seu trono de marfim.
Um trono mais novo e mais largo, que datava de cem anos atrás – quando o sétimo khagan arrancara o antigo porque seu grande quadril não cabia nele. Ele comera e bebera até a morte, a história afirmava, mas pelo menos teve o bom senso de nomear seu herdeiro antes de agarrar seu peito um dia e cair morto... naquele trono.
Urus, o atual khagan, não tinha mais de sessenta anos, e parecia em condições muito melhores. Embora os cabelos escuros fossem tão brancos quanto seu trono esculpido, embora cicatrizes salpicassem sua pele enrugada como um lembrete de tudo contra o que ele havia lutado por esse trono nos últimos dias da vida de sua mãe... Seus olhos de ônix, delgados e descontrolados, eram brilhantes como estrelas. Cientes e viam tudo.
No topo de sua cabeça nevada não havia coroa. Pois os deuses entre mortais não precisavam de símbolos de sua soberania divina. Atrás dele, faixas de seda branca presas às janelas abertas flutuavam na brisa quente. Enviando os pensamentos do khagan e de sua família para onde a alma do falecido – quem quer que fosse, alguém importante, sem dúvida – já havia se juntado ao eterno céu azul e à terra adormecida que o khagan e todos os seus antepassados ainda honraram em vez do panteão de trinta e seis deuses que seus cidadãos permaneceram livres para adorar.
Ou qualquer outro deus fora dele, se seus territórios fossem recentes o suficiente para não terem incorporado seus deuses no pacote. Tinha que haver vários desses já que, durante as três décadas de governo, o homem sentado diante deles havia adicionado um punhado de reinos às suas fronteiras.
Um reino para cada anel adornando seus dedos cobertos de cicatrizes, com pedras preciosas brilhando entre eles.
Um guerreiro enfeitado em elegância. Essas mãos deslizaram dos braços de seu trono de marfim – feitos a partir das presas dos poderosos animais que percorriam as pastagens centrais – e se acomodaram no colo, escondidas sob camadas de seda azul bordadas em ouro. Anil, a tintura das terras fumegantes e exuberantes no oeste. De Balruhn, onde os parentes da própria Nesryn se originaram antes que curiosidade e ambição levassem seu bisavô a arrastar sua família por sobre montanhas, pastagens e desertos até a cidade-deus no norte árido.
Os Faliqs haviam sido comerciantes, e de nada particularmente bom. Tecidos simples e bons, especiarias domésticas. Seu tio ainda negociava tais produtos e, através de vários investimentos lucrativos, se tornara um homem moderadamente rico, a família agora morava em uma bela casa nessa mesma cidade. Um degrau de distância de um padeiro – o caminho que seu pai havia escolhido ao deixar essas costas.
— Não é todo o dia que um novo rei envia alguém tão importante para nossas costas — o khagan falou finalmente, usando o idioma deles e não halha, a língua do continente do sul. — Suponho que devemos julgá-lo uma honra.
Seu sotaque era tão parecido com o de seu pai, mas o tom necessitava do calor, do humor. Um homem que fora obedecido durante toda a sua vida e lutou para ganhar sua coroa. E executou dois dos irmãos que se provaram ser perdedores. Os três sobreviventes... um tinha ido para o exílio, e os outros dois juraram fidelidade ao irmão. Ao fazer com que os curandeiros da Torre os tornassem inférteis.
Chaol inclinou a cabeça.
— A honra é minha, Grande khagan.
Não Majestade – isto era para reis ou rainhas. Não havia nenhum termo alto ou grande o suficiente para o homem diante eles. Somente o título que o primeiro de seus antepassados carregou: o Grande khagan.
— De vocês. — Disse o Khagan, aqueles olhos escuros agora deslizando para Nesryn. — E quanto a sua companheira?
Nesryn lutou contra o desejo de se curvar novamente. Dorian Havilliard era o oposto desse homem, percebeu. Aelin Galathynius, no entanto... Nesryn se perguntou se a jovem rainha teria mais em comum com o khagan do que com o rei Havilliard. Ou poderia ter, se Aelin sobrevivesse o bastante. Se ela alcançasse seu trono.
Nesryn empurrou esses pensamentos para baixo quando Chaol olhou para ela, tensionando os ombros. Não pelas palavras, não pela companhia, simplesmente porque sabia que o mero ato de ter que olhar para cima, enfrentar este poderoso rei guerreiro naquela cadeira... aquele seria um dia difícil para ele.
Nesryn inclinou ligeiramente a cabeça.
— Eu sou Nesryn Faliq, Capitã da Guarda Real de Adarlan. Como Lorde Westfall já foi antes de o rei Dorian nomeá-lo como sua mão no início deste verão. — Ela agradeceu que os anos passados vivendo em Forte da Fenda tivessem lhe ensinado a não sorrir, não se encolher ou mostrar medo, grata por ter aprendido a manter a voz calma e constante mesmo enquanto seus joelhos tremiam. Nesryn continuou: — Minha família vem daqui, Grande Khagan. Antica ainda possui uma parte da minha alma. — Ela colocou uma mão sobre seu coração, os finos fios de seu uniforme de ouro e carmesim, as cores do império que faziam sua família muitas vezes se sentir caçada e indesejada. — A honra de estar em seu palácio é a maior da minha vida.
Era, talvez, verdade.
Se ela encontrasse tempo para visitar sua família no silencioso e cheio de jardins bairro Runni – um lar principalmente para comerciantes como seu tio – eles certamente considerariam isso.
O khagan apenas sorriu um pouco.
— Então, permita-me acolhê-la em seu verdadeiro lar, capitã.
Nesryn sentiu, mais do que viu, o cintilar de irritação de Chaol. Ela não estava inteiramente certa sobre o que o desencadeou: a reivindicação em sua terra natal, ou o título oficial que agora passou para ela.
Nesryn inclinou a cabeça novamente em agradecimento.
O khagan voltou novamente a atenção para Chaol.
— Assumirei que esteja aqui para me convencer a me juntar a essa sua guerra.
Chaol respondeu com a mesma tonalidade:
— Estamos aqui a pedido do meu rei. — Uma nota de orgulho veio com essa palavra. — Para começar o que esperamos que seja uma nova era de comércio próspero e paz.
Um dos filhos do khagan – uma jovem com cabelos como noite em movimento e olhos como fogo escuro – trocou um olhar irado com o irmão à esquerda, um homem talvez três anos mais velho.
Hasar e Sartaq, então. Terceira e segundo filhos, respectivamente. Cada um usava calças folgadas semelhantes e túnicas bordadas, com botas de couro finas erguendo-se até os joelhos. Hasar não era uma grande beleza, mas aqueles olhos... A chama que dançava neles enquanto olhava para o irmão mais velho compensava.
E Sartaq – comandante dos cavaleiros ruk de seu pai. Os Rukhin.
A cavalaria aérea do norte de seu povo havia habitado há muito tempo as altas Montanhas Tavan com seus ruks: enormes pássaros em forma de águia, grandes o suficiente para levar gado e cavalos. Sem o peso absoluto e destrutivo das serpentes aladas das bruxas Dentes de Ferro, mais rápidos, ágeis e inteligentes como raposas. As montarias perfeitas para os lendários arqueiros que os levavam para a batalha.
O rosto de Sartaq era solene, seus ombros largos esticados para trás. Um homem talvez tão à vontade em suas roupas finas como Chaol. Ela se perguntou se o seu ruk, Kadara, estava empoleirado em um dos trinta e seis minaretes do palácio, olhando os criados e guardas que se encolhiam, esperando impaciente o retorno de seu mestre.
Se Sartaq estava aqui... Eles deveriam saber, então. Com bastante antecedência. Que ela e Chaol estavam vindo.
O olhar cúmplice que passou entre Sartaq e Hasar contou bastante a Nesryn: eles, pelo menos, haviam discutido as possibilidades dessa visita.
O olhar de Sartaq deslizou de sua irmã para Nesryn.
Ela piscou os olhos. Sua pele morena era mais escura do que a dos outros – talvez por todo o tempo passado no céu e sob a luz do sol – e seus olhos eram de um ébano sólido. Profundos e ilegíveis. Seu cabelo preto permanecia solto, exceto por uma pequena trança que se curvava sobre o arco da orelha. O resto de seus cabelos caía sobre seu peito musculoso, e balançou ligeiramente quando ele deu o que Nesryn julgava ser uma inclinação zombeteira de sua cabeça.
Ralé, um par humilhado. Era o que Adarlan tinha enviado. O antigo capitão ferido, e a atual capitã. Talvez as palavras iniciais do khagan sobre honra tivessem sido uma menção velada ao que ele percebeu como insulto.
Nesryn arrastou sua atenção para longe do príncipe, mesmo sentindo o olhar penetrante de Sartaq persistindo como um toque fantasmagórico.
— Nós viemos com presentes de Sua Majestade, o Rei de Adarlan — disse Chaol, e se retorceu em sua cadeira para fazer os criados atrás deles avançarem.
A rainha Georgina e sua corte praticamente assaltaram os cofres reais antes de fugirem para as suas casas nas montanhas na primavera. E o antigo rei havia contrabandeado muito do que restava nos últimos meses. Mas antes de navegarem para cá, Dorian aventurara-se nos muitos cofres abaixo do castelo. Nesryn ainda podia ouvir seu praguejar ecoado, mais sujo do que nunca o ouvira falar, pois eles encontraram pouco mais do que algumas moedas de ouro lá dentro. Aelin, como de costume, tinha um plano.
Nesryn estava parada ao lado de seu novo rei quando Aelin abriu dois baús em suas câmaras. Joias para uma rainha – para uma Rainha dos Assassinos – brilharam lá dentro.
— Tenho fundos suficientes por enquanto — Aelin apenas dissera a Dorian quando ele começou a se opor. — Dê ao khagan um pouco do melhor de Adarlan.
Nas semanas seguintes, Nesryn se perguntou se Aelin estava feliz por se livrar do que comprara com o dinheiro do sangue. As joias de Adarlan, ao que parecia, não iriam para Terrasen.
E agora, enquanto os criados traziam os quatro baús menores – divididos dos dois originais para que parecesse mais, sugeriu Aelin – quando abriram as tampas, a corte silenciosa se aprumou para ver.
Um murmúrio passou por eles ao verem as brilhantes gemas, o ouro e a prata.
— Um presente — declarou Chaol, quando até mesmo o próprio khagan inclinou-se para examinar as pedras. — Do rei Dorian Havilliard de Adarlan, e Aelin Galathynius, Rainha de Terrasen.
Os olhos da princesa Hasar responderam a Chaol à menção do segundo nome.
O príncipe Sartaq apenas olhou de volta para o pai. O filho mais velho, Arghun, franziu a testa para as joias.
Arghun – o político entre eles, amado pelos comerciantes e corretores de poder do continente. Esbelto e alto, era um erudito que não negociava com moedas e finesse, mas com conhecimento.
Príncipe dos espiões, era como chamavam Arghun. Enquanto seus dois irmãos se tornaram os melhores guerreiros, Arghun tinha usado sua mente, e agora supervisionava os trinta e seis vizires de seu pai. Então, franziu a testa para o tesouro...
Colares de diamante e rubi. Braceletes de ouro e esmeralda. Brincos – verdadeiros pequenos lustres – de safira e ametista. Anéis exageradamente forjados, alguns coroados com joias tão grandes quanto o ovo de uma andorinha. Pentes e grampos e broches. Adquiridos com sangue, comprados pelo sangue.
A mais jovem das filhas reais reunidas, uma mulher bem arrumada e alegre, inclinou-se para o baú mais próximo. Um grosso anel de prata com uma safira de tamanho quase obsceno adornava sua mão esbelta, pressionada delicadamente contra a considerável curva de sua barriga.
Talvez seis meses, embora as roupas largas – ela favorecia o roxo e o rosa – e sua leve construção pudessem enganar. Certamente, seu primeiro filho, resultado de seu casamento arranjado com um príncipe de um território ultramarino para o Extremo Oriente, um reino ao sul de Doranelle que ouvira os rumores de sua vizinha rainha feérica e queria garantir a proteção do Império do Sul através do oceano.
Talvez Nesryn e os outros se perguntassem o que fez o khaganato querer expandir seu próprio continente considerável. Ela não se deixou olhar demais para a vida que crescia sob aquela mão adornada.
Pois se um dos irmãos de Duva fosse coroado khagan, a primeira tarefa do novo governante – depois que sua prole fosse suficiente produzida – seria eliminar novos desafiantes para o trono. Começando com os filhos de seus irmãos, se eles desafiassem seu direito de governar.
Ela se perguntou como Duva conseguia suportar. Se ela amava o bebê crescendo em seu ventre, ou se era sábia o suficiente para não permitir tal sentimento. Se o pai desse bebê faria tudo o que pudesse para garantir a segurança dessa criança, se isso acontecesse.
O khagan finalmente recostou em seu trono. Seus filhos se aprumaram novamente, a mão de Duva caindo de lado.
— Joias — explicou Chaol — produzidas pelos melhores artesãos adarlanianos.
O khagan tocou um anel citrino com sua própria mão.
— Se vieram de Aelin Galathynius, não tenho dúvidas de que tenham sido.
Um instante de silêncio entre Nesryn e Chaol. Eles sabiam – anteciparam – que o khagan tinha espiões em cada terra, em todos os mares. Que o passado de Aelin poderia ser um pouco difícil de contornar.
— Pois você não é apenas a mão de Adarlan — prosseguiu o khagan — mas também o embaixador de Terrasen, não é?
— De fato, sou — disse Chaol simplesmente.
O khagan levantou-se e seus filhos imediatamente se afastaram para abrir caminho para ele no estrado dourado.
O mais alto deles – forte e talvez com menos controle do que a intensidade silenciosa de Sartaq – observou a multidão como se avaliasse qualquer ameaça. Kashin. O quarto filho.
Se Sartaq comandava os ruks nos céus do norte e centro, Kashin controlava os exércitos em terra. Os soldados da infantaria e os senhores dos cavalos, principalmente. Arghun domina os vizires e Hasar dizia o rumor, fazia com que os exércitos se curvassem para ele. No entanto, havia algo menos polido sobre Kashin, com seu cabelo escuro trançado de volta do rosto amplo. Bonito, sim, mas era como se a vida entre suas tropas o houvesse mudado, e não necessariamente de maneira ruim.
O khagan desceu o estrado, suas vestes de cobalto sussurrando ao longo do chão. E a cada passo sobre o mármore verde, Nesryn percebeu que esse homem realmente havia comandado não apenas os ruks no céu, mas também os cavaleiros, e balançava os exércitos para se juntar a ele. E então, Urus e seu irmão mais velho tinham ido de mãos dadas em combate por ordem de sua mãe, enquanto ela morria de uma doença desconhecida que até a Torre não podia curar. O filho que saísse da batalha se tornaria khagan.
A antiga khagan tinha uma inclinação para o espetáculo. E para essa luta final entre os dois descendentes selecionados, ela os colocou no grande anfiteatro no coração da cidade, as portas se abriram para qualquer um que pudesse entrar e encontrar um assento. As pessoas sentaram-se sobre os arcos e degraus, com milhares amontoados nas ruas que fluíam para a construção de pedra branca. Ruks e seus cavaleiros estavam empoleirados nos pilares que coroavam o nível mais alto, mais rukhin circulando nos céus acima.
Os dois possíveis herdeiros haviam lutado por seis horas.
Não apenas um contra o outro, mas também contra os horrores que sua mãe desencadeara para testá-los: grandes felinos brotaram de gaiolas escondidas sob o chão arenoso; charretes com espinhos de ferro e lançadores de arpão surgiam das profundezas do túnel de entrada e corriam sobre eles.
O pai de Nesryn estava entre a multidão frenética nas ruas, ouvindo os relatórios gritados por aqueles que estavam pendurados nas colunas.
O golpe final não foi um ato de brutalidade ou ódio.
O irmão mais velho do agora khagan, Orda, tinha uma lança cravada em sua lateral graças àquelas charretes. Depois de seis horas de sangrenta batalha e sobrevivência, o golpe o atingira.
E Urus afastara sua espada. O silêncio absoluto havia caído na arena. Silêncio enquanto Urus estendia uma mão ensanguentada ao seu irmão caído – para ajudá-lo.
Orda atacou com uma adaga escondida direto no coração de Urus.
Ele errou por centímetros.
E Urus rasgou arrancou aquela adaga, gritou e a mergulhou de volta em seu irmão.
Urus não errou como seu irmão.
Nesryn se perguntou se uma cicatriz ainda marcava o peito do khagan enquanto ele agora caminhava para ela e Chaol e as joias exibidas. Se a khagan anterior chorou em privado por seu filho caído, sabendo que seria morto por aquele que levaria sua coroa em questão de dias. Ou se ela nunca se permitiu amar seus filhos, sabendo o que deveria acontecer com eles.
Urus, khagan do continente do sul, parou diante de Nesryn e Chaol. Ele se elevou sobre Nesryn com os ombros ainda largos, a espinha ainda reta.
Ele se inclinou com apenas um toque de rigidez concedida pela idade para arrancar um colar de diamante e safira do peito. Ele brilhava como um rio vivo em suas mãos adornadas de cicatrizes.
— Meu mais velho, Arghun — falou o khagan, fazendo um movimento com o queixo para o príncipe que acompanhava tudo — recentemente me informou sobre alguns fatos fascinantes sobre a rainha Aelin Ashryver Galathynius.
Nesryn esperou pelo golpe. Chaol apenas manteve o olhar de Urus.
Mas os olhos escuros de khagan – os olhos de Sartaq, ela percebeu – dançaram enquanto dizia a Chaol:
— Uma rainha aos dezenove poderia ser preocupante. Dorian Havilliard ao menos, foi treinado desde o nascimento para suportar sua coroa, para controlar uma corte e um reino. Mas Aelin Galathynius...
O khagan bateu o colar no peito. O golpe foi tão alto como aço sobre pedra.
— Suponho que alguns achem que treinar durante dez anos a tenha tornado uma assassina experiente — disse ele.
Murmúrios voltaram a atravessar a sala do trono. Os olhos incandescentes de Hasar praticamente brilhavam. O rosto de Sartaq não mudou. Talvez uma habilidade aprendida com seu irmão mais velho – cujos espiões tinham que ser habilidosos se tivessem aprendido sobre o passado de Aelin. O próprio Arghun parecia lutar para não abrir um sorriso presunçoso nos lábios.
— Nós podemos estar separados pelo Mar estreito — o khagan falou a Chaol, cujos traços não alteraram muito — mas até mesmo nós ouvimos falar de Celaena Sardothien. Você me traz joias, sem dúvida de sua própria coleção. Joias para mim, quando minha filha Duva — um olhar para sua filha grávida e linda, de pé ao lado de Hasar — ainda não recebeu qualquer tipo de presente de casamento de seu novo rei ou rainha retornada, enquanto outros governantes enviaram quase meio ano atrás.
Nesryn escondeu seu estremecimento. Um descuido que poderia ser explicado por tantas verdades – mas não por aquelas que eles ousariam falar, não aqui. Chaol não ofereceu nenhum conforto enquanto permanecia em silêncio.
— Mas — prosseguiu o khagan — independente das joias que agora atira aos meus pés como sacos de grãos, eu preferiria ter a verdade. Especialmente depois que Aelin Galathynius quebrou seu castelo de vidro e assassinou seu antigo rei, além de tomar sua capital.
— Se o príncipe Arghun tem a informação — Chaol falou finalmente com uma frieza implacável — talvez o senhor não precise de mim.
Nesryn sufocou seu descrédito ao desafio, ao tom...
— Talvez não — concordou o khagan, mesmo quando os olhos de Arghun se estreitaram ligeiramente. — Mas penso que você gostaria de ter alguma verdade de mim.
Chaol não perguntou. Não pareceu remotamente interessado além do seu:
— É?
Kashin endureceu. O defensor mais feroz de seu pai, então. Arghun apenas trocou olhares com um vizir e sorriu para Chaol como uma víbora pronta para atacar.
— Aqui está porque penso que veio, Lorde Westfall, Mão do Rei.
Somente as gaivotas que se movimentavam acima da cúpula da sala do trono se atreveram a fazer barulho.
O khagan fechou tampa após tampa dos baús.
— Penso que você veio convencer-me a participar da sua guerra. Adarlan foi partida, Terrasen está destituída e, sem dúvida, terá problemas em convencer seus senhores sobreviventes a lutar por uma rainha que não foi posta à prova e durante dez anos se divertiu em Forte da Fenda, comprando joias com dinheiro de sangue. Sua lista de aliados é curta e frágil. As forças de Duque Perrington são qualquer coisa menos isso. Os outros reinos do seu continente estão destruídos e separados dos seus territórios do norte pelos exércitos de Perrington. Então você chegou aqui, rápido como só os oito ventos podem trazer, e veio me implorar para enviar meus exércitos às suas costas. Para me convencer de derramar nosso sangue em uma causa perdida.
— Alguns podem considerar uma causa nobre — respondeu Chaol.
— Ainda não terminei — disse o khagan, erguendo a mão.
Chaol se irritou, mas não falou novamente. O coração de Nesryn trovejou.
— Muitos argumentariam — disse o khagan, agitando aquela mão levantada em direção a alguns vizires, em direção a Arghun e Hasar — para ficarmos fora dela. Ou, melhor ainda, que nos aliemos com a força que com certeza sairá vitoriosa, com quem o comércio foi lucrativo para nós esses dez anos.
Um movimento dessa mão em direção a outros homens e mulheres nas vestes douradas dos vizires. Em direção a Sartaq, Kashin e Duva.
— Alguns diriam que arriscamos a aliança com Perrington apenas para enfrentar seus exércitos em nossos portos um dia. Que os reinos quebrados de Eyllwe e Charco Lavrado podem voltar a ser ricos sob uma nova ordem, e encher nossos cofres com um bom comércio. Não tenho dúvidas de que você me prometerá que será assim. Você me oferecerá ofertas comerciais exclusivas, provavelmente em sua própria desvantagem. Mas está desesperado, e não há nada que você possua, que eu já não tenha. Que eu não possa tomar se quiser.
Chaol manteve a boca fechada, felizmente. Mesmo que seus olhos castanhos tenham começado a ferver em ameaça silenciosa.
O khagan olhou para o quarto e último baú com pentes e escovas, garrafas ornamentais de perfume feitas pelos melhores artesões de vidro de Adarlan. Os mesmos que construíram o castelo que Aelin quebrara.
— Então, você veio convencer-me a me juntar à sua causa. E que considere a proposta enquanto fica aqui. Veio, sem dúvida, também para outro propósito.
Um movimento daquela mão com cicatrizes e joias em direção à cadeira. A cor manchou as bochechas de bronze de Chaol, mas ele não se encolheu. Nesryn se forçou a fazer o mesmo.
— Arghun me informou que suas lesões são recentes – que aconteceram quando o castelo de vidro explodiu. Parece que a Rainha de Terrasen não foi tão cuidadosa em proteger seus aliados.
Chaol trincou o maxilar ao ver que todos, de príncipes a criados, olhavam para ele com pena.
— Porque suas relações com Doranelle agora são tensas, também graças a Aelin Galathynius, suponho que o único caminho para a cura que continue aberto para você esteja aqui. Na Torre Cesme.
O khagan deu de ombros, o único sinal da irreverente juventude guerreira pela qual passara.
— Minha amada esposa ficará profundamente chateada se eu negasse a um homem ferido uma chance de cura — a imperatriz não estava em nenhum lugar nesta sala, Nesryn percebeu com um sobressalto. — Eu também, é claro, lhe concedo permissão para entrar na Torre. Se os seus curandeiros concordarão em trabalhar com você, será com eles. Mesmo eu não controlo a vontade da Torre.
A Torre. Dominava a fronteira sul de Antica, aninhada no topo da sua colina mais alta com uma visão da cidade que se inclinava em direção ao mar verde. Domínio de seus famosos curandeiros e tributo a Silba, a deusa da cura que os abençoou. Dos trinta e seis deuses que este império recebeu ao longo dos séculos, de religiões próximas e distantes, nesta cidade-deus... Silba reinava incontestavelmente.
Chaol parecia engolir brasas, mas conseguiu curvar sua cabeça.
— Agradeço pela sua generosidade, Grande Khagan.
— Mais tarde, vou informá-los de que você estará pronto amanhã de manhã. Como não pode ir para eles, alguém será enviado para você. Se eles concordarem.
Os dedos de Chaol se deslocaram em seu colo, mas ele não os apertou. Nesryn ainda prendia a respiração.
— Estou à disposição deles — disse-lhe com força.
O khagan fechou o último baú de joias.
— Pode ficar com seus presentes, mão do rei, embaixador de Aelin Galathynius. Não tenho utilidade para eles, e não tenho interesse.
A cabeça de Chaol moveu-se como se alguma coisa no tom de khagan o tivesse esmurrado.
— Por quê?
Nesryn quase não escondeu seu encolhimento. Era mais uma demanda do que qualquer um ousara, a julgar pela raiva surpresa nos olhos de khagan, nos olhares trocados entre seus filhos.
Mas Nesryn pegou a cintilação de outra coisa dentro dos olhos de khagan. Um cansaço.
Algo oleoso deslizou em seu intestino enquanto observava as bandeiras brancas que tremulavam nas janelas por toda a cidade. Quando olhou para os seis herdeiros e contou novamente.
Não seis.
Cinco. Apenas cinco estavam aqui.
Faixas de morte na casa real. Em toda a cidade.
Eles não eram pessoas de luto – não da maneira como estariam em Adarlan, vestindo-se de preto e lamentando-se por meses. Mesmo entre a família real do khagan, a vida se recuperava e prosseguia, seus mortos não eram colocados em catacumbas ou caixões de pedra, mas envoltos em branco e colocados sob os céus abertos de sua reserva sagrada selada nas estepes distantes.
Nesryn olhou a linha de cinco herdeiros, contando. Os cinco mais velhos estavam presentes. E assim que ela percebeu que Tumelun, a mais jovem – quase dezessete anos – não estava lá, o khagan disse a Chaol:
— Seus espiões são de fato inúteis se você não ouviu falar.
Com isso, ele caminhou para o seu trono, deixando Sartaq dar um passo à frente, os olhos sem profundidade do príncipe mais velho, velados de tristeza. Sartaq deu a Nesryn um aceno silencioso. Sim. Sim, suas suspeitas estavam corretas.
A voz sólida e agradável de Sartaq encheu a câmara.
— Nossa amada irmã, Tumelun, morreu inesperadamente há três semanas.
Oh, deuses. Tantas palavras e rituais passados; meramente ir até ali exigir o auxílio na guerra era ruim, desagradável...
Chaol falou no silêncio, encontrando os olhares de cada príncipe e princesa de rosto tenso, e finalmente o próprio khagan de olhos cansados.
— Apresento as minhas mais profundas condolências.
— Que o vento do norte a leve para planícies mais justas — Nesryn desejou.
Apenas Sartaq se preocupou em agradecer, enquanto os outros agora se tornaram frios e duros.
Nesryn lançou a Chaol um olhar silencioso e alerta para não perguntar sobre a morte. Ele leu a expressão em seu rosto e assentiu.
O khagan tocou numa mancha em seu trono de marfim, o silêncio tão pesado quanto um dos casacos que os senhores dos cavalos ainda usavam contra aquele amargo vento do norte sobre as estepes e suas implacáveis selas de madeira.
— Estivemos no mar por três semanas — Chaol tentou oferecer, sua voz mais suave agora.
O khagan não se incomodou em entender.
— Isso também explicaria por que você não conhece as outras notícias, e por que estas joias frias podem ser mais úteis para você. — Os lábios do khagan se abriram em um sorriso sem humor. — Os contatos de Arghun também trouxeram a palavra de um navio esta manhã. Os seus cofres reais em Forte da Fenda não estão mais acessíveis. Duque Perrington e sua série de monstros voadores derrubaram Forte da Fenda.
Silêncio, pulsante e vazio, varreu Nesryn. Ela não tinha certeza se Chaol respirava.
— Não temos notícias da localização do Rei Dorian, mas ele estava lá. Fugiu na mesma noite, se o rumor for verdadeiro. A cidade caiu. Tudo ao sul de Forte da Fenda pertence a Perrington e suas bruxas agora.
Nesryn viu os rostos de suas sobrinhas e sobrinhos primeiro. Então o rosto de sua irmã. Então, seu pai. Viu sua cozinha, a padaria. As tortas de peras todas frias na longa mesa de madeira.
Dorian os deixara. Deixou todos eles para... fazer o quê? Encontrar ajuda? Sobreviver? Correr para Aelin?
A Guarda Real continuou a lutar? Alguém lutou para salvar os inocentes na cidade?
Suas mãos tremiam. Ela não se importava. Não se importava se essas pessoas vestidas com riquezas rissem.
As crianças de sua irmã, as grandes alegrias de sua vida...
Chaol olhava para ela. Nada em seu rosto. Sem devastação, sem choque.
Aquele uniforme carmesim e dourado tornou-se sufocante. Estrangulador.
Bruxas e serpentes aladas. Em sua cidade. Com aqueles dentes e unhas de ferro. Destruindo e sangrando e atormentando. Sua família – sua família...
— Pai.
Sartaq avançou mais uma vez. Aqueles olhos de ônix deslizaram entre Nesryn e o khagan.
— Foi uma longa jornada para os nossos hóspedes. Deixemos política de lado — ele falou, lançando um olhar desaprovador para Arghun, que parecia se divertir com a notícia. Ele que a trouxera, deixou o piso de mármore verde se movendo sob suas botas — ainda somos uma nação de hospitalidade. Deixe-os descansar por algumas horas. E então, juntem-se a nós para o jantar.
Hasar chegou ao lado de Sartaq, franzindo o cenho para Arghun enquanto o fazia. Talvez não como reprimenda a seu irmão, mas simplesmente porque Arghun não lhe contara as novidades.
— Não permita que nenhum hóspede passe pela nossa casa e fique sem conforto. — As palavras eram acolhedoras, porém o tom de Hasar era qualquer coisa menos isso.
O seu pai deu um olhar atônito.
— De fato. — Urus acenou uma mão em direção aos criados pelos pilares distantes. — Acompanhe-os até seus quartos. E despache uma mensagem para a Torre para enviar sua melhor... Hafiza, ela virá.
Nesryn quase não ouviu o resto. Se as bruxas tomaram a cidade, então os valg que a infestavam no início deste verão... Não haveria ninguém para lutar contra eles. Ninguém para proteger sua família.
Se tivessem sobrevivido.
Ela não podia respirar. Não podia pensar.
Ela não deveria ter deixado Forte da Fenda. Não deveria ter aceitado esta missão.
Podem estar mortos ou sofrendo. Mortos. Mortos.
Ela não percebeu a criada que veio empurrar a cadeira de Chaol. Mal notou a mão que Chaol esticou para envolver a dela.
Nesryn não se curvou tanto para o khagan enquanto eles saíam.
Não conseguiu parar de ver seus rostos.
As crianças. As crianças sorridentes de sua irmã.
Ela não deveria ter vindo.

10 comentários:

  1. Começo do cap: Chaol, relaxa e se controla aí.Escute o grande khasar(sla como se escreve)
    Descobriu a morte: muito constrangedor
    Notícia de forte de fenda: Nersyn... É inútil, ms deixa eu te abraçar e thanks Satarq por "interromper" esse clima bad.

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  2. A narrativa do Chaol é a mais chata aff espero que ele faça alguma coisa até o final do livro, pq ele foi inútil em todos os livros.

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  3. ... Iae, como vai ser o possíveis shipps ?

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  4. Desculpa, mas eu já me apaixonei pelo Sartaq e já estou shipando ele com a Nesryn, aliás amada o que é que você acha que poderia fazer em Forte da Fenda?
    Cada vez que vejo o nome Aelin e Dorian (principalmente dele) meu coração dói porque eu estou morta de saudades e só de pensar que tá acabando... :,(

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    1. Faço das suas palavras as minhas

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  5. "— Se o príncipe Arghun tem a informação — Chaol falou finalmente com uma frieza implacável — talvez o senhor não precise de mim.
    Nesryn sufocou seu descrédito ao desafio, ao tom...
    — Talvez não — concordou o khagan, mesmo quando os olhos de Arghun se estreitaram ligeiramente. — Mas penso que você gostaria de ter alguma verdade de mim.
    Chaol não perguntou. Não pareceu remotamente interessado além do seu:
    — É?"
    Adorei o tom que o Chaol usou com esse velho,sinceramente eu detestei esse khagan 😒

    Eu me apaixonei pelo Sartaq, gente eu louca, ja tô shippando a Nesryn com ele heuheu

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  6. Eu aqui tentando lembrar dos detalhes que aconteceu, como Dorian fugiu de Forte da Fenda e eu não me lembro direito! Ah. .. Vou ter que voltar lá pra lembrar os detalhes.

    E esse Khagan, velho nojento. Esse Argun, sei lá, não gostei dele tbm. O Sartaq pode ser que seja legal, vamos ver um pouco mais pra decidir!

    Flavia

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  7. Sou só eu que estou achando esses dois primeiros capítulos meio chatinhos? Ah, conhecendo a Sarah eu sei que daqui a pouco a narrativa vai ser mais emocionante, porque... nossa, os livros que ela escreve são maravilhosos! Nunca me decepcionou, então... Todos aqueles que tbm acham que o livro começou chatinho, não desistam de ler. Maas é sinônimo de emoção e abalo!

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  8. Consegui ler em 10 dias, melhor livro de todos!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!