20 de janeiro de 2018

Capítulo 2. O ouro da Máfia

Miguel e o detetive Andrade conheciam um ao outro como se fossem a mesma pessoa. E confiavam um no outro como se fossem um só. Tinham se tornado amigos na luta, na tremenda aventura da Droga da Obediência. Mas não era comum Miguel encontrar-se com o detetive Andrade sorrindo e à sua espera na saída do Colégio Elite.
Apenas metade do sorriso era de verdade. Miguel sentiu que o detetive tinha real prazer em revê-lo, como um pai à espera do filho na estação. Mas Andrade suava muito, enxugando a testa com um lenço, apesar do friozinho de junho. E isso queria dizer que alguma coisa ia muito mal.
— Olá, Miguel!
Os dois tinham vontade de abraçar-se, mas ambos sabiam que aquele não era apenas um encontro social. Nem se apertaram as mãos.
— O que houve, Andrade? O detetive fez-se de surpreso.
— O que houve? Ora, nada de especial. Eu só estava...
— ...passando por aqui justo na hora da saída do Colégio Elite? E resolveu dar uma paradinha para saber como vão seus jovens amigos no último dia de aula do semestre? Está certo, Andrade, vou lhe dizer como nós estamos passando. Eu, por exemplo, estou morrendo... morrendo de curiosidade para descobrir por que o meu amigo detetive está suando...
Andrade balançou levemente a cabeça e sorriu.
— Está bem, Miguel. Aceita uma carona pra casa?
Andrade não estava com carro oficial. Tinha estacionado seu velho fusquinha em local proibido. Naturalmente, havia um papel amarelo preso ao limpador de para-brisa.
— Inferno! Uma multa! Com o salário miserável que a gente ganha do governo e ainda por cima uma multa para pagar!
Andrade amarrotou a multa, enfiando-a no bolso, e voltou-se para o garoto.
— Vejo que você está muito bem, Miguel. E o Crânio, como vai?
— Por que pergunta justamente pelo Crânio?
— Você não respondeu à minha pergunta...
— Crânio foi para a fazenda de uma tia dele, no Pantanal de Mato Grosso.
— Foi o que os pais dele me disseram. Pensei que você pudesse me dar outra pista...
— Outra pista? Como assim, Andrade? O que aconteceu?
Andrade atrapalhou-se todo.
— Calma, Miguel. Na verdade não há nada para... quero dizer... Bem... É que um piloto chamado Bezerra apareceu morto no Pantanal. Devia ser um viciado em drogas, pois seus braços mostravam horríveis marcas de injeção e a autópsia revelou uma boa quantidade de heroína no organismo. Foi encontrado numa canoa, com uma bala nas costas e a mão mutilada pelas piranhas...
— Nossa! Mas o que isso tem a ver com o Crânio?
 Andrade tirou alguma coisa de dentro do paletó.
— Encontramos isto no bolso do piloto!
Na mão do detetive, Miguel viu uma gaitinha prateada.

* * *

No Parque do Ibirapuera, onde a extensão dos gramados era uma garantia de isolamento, Miguel, Magri, Calu e Chumbinho começaram levando uma bronca de Andrade.
— Quer dizer que Crânio foi para o Pantanal na pista do assassino do professor Elias? Por que vocês não me avisaram? Inferno! Não somos amigos? Não há mais confiança entre nós?
— Não é isso, Andrade — explicou Calu. — Apenas achamos que não havia nada para contar a você. Pensamos que ele não descobriria nada. Que só passaria alguns momentos agradáveis com a tia, lá no Pantanal. A teoria de Crânio sobre o assassinato do professor Elias era absurda...
— É claro que era absurda! O Pantanal não tem nada a ver com a morte do seu professor! — explodiu Andrade. — Mas, do jeito que vocês metem o nariz em tudo que não são chamados, Crânio deve ter se envolvido com problemas muito maiores do que o assassinato do professor. E problemas dos grandes é o que não falta lá no Pantanal...
Magri tentou mostrar um pouco de otimismo:
— Espere aí, Andrade. É muito cedo para dizer que Crânio desapareceu no Pantanal. Na certa, ele está fazendo uma linda excursão, desligado do mundo. Logo ele aparece, cheio de aventuras para contar. Só porque o tal piloto estava com a gaita de Crânio no bolso, isso não quer dizer que...
— Quer dizer muito, Magri. Aqui está o “bolso” onde encontramos a gaitinha...
De dentro de um saco de papel pardo, Andrade tirou uma jaqueta ensanguentada, com um buraco de bala nas costas!
— A jaqueta de Crânio!
— Como sabe que é dele, Magri? É uma jaqueta comum. Todo mundo tem uma dessas...
— É dele, Calu. Está vendo este adesivo? Fui eu que colei...
Por um instante, a revelação da garota gelou todos os ânimos.
— Então o pobre piloto baleado estava vestindo a jaqueta de Crânio? — raciocinou Chumbinho. — Mas isso não quer dizer nada. Crânio pode ter dado a jaqueta para ele, só isso.
Miguel falou, pela primeira vez:
— Crânio daria a jaqueta a alguém sem antes tirar do bolso a gaitinha? Vocês acham que ele se separaria da gaitinha?
— Claro que não. Mas, e se a jaqueta foi roubada? E se...
— Só o piloto assassinado poderia responder a essa pergunta, Chumbinho — cortou Miguel. — Mas os mortos não falam.
— Ele falou antes de morrer, Miguel.
Os quatro Karas olharam para o gordo detetive. Andrade enxugou a careca mais uma vez e continuou:
— O pescador que o encontrou, no rio Taquari, repetiu palavra por palavra o que disse o tal Bezerra, antes de morrer.
— Que palavras foram essas?
Andrade tirou a cadernetinha de anotações do bolso.
— Estão aqui... deixa ver... O piloto disse: “Crânio...”
— Como?!
— É isso mesmo, Magri. Ele disse: “Crânio... encontrem... o Ente... Formigas-paradas... Mike Sierrabrava... é o Ente... é Mike Sierrabrava... eu descobri... é ouro... é ouro puro... Crânio... pelo amor de Deus...”
Os Karas se entreolharam. Um piloto tinha sido assassinado no Pantanal e morrera falando no gênio dos Karas!
— O que quer dizer tudo isso, Andrade? — perguntou Miguel. — Quem é Mike Sierrabrava? Que “Ente” é esse? E que história é essa de ouro e de formigas?
Andrade suspirou profundamente. Ele adorava aqueles jovens. Eram brilhantes, geniais! Mais corajosos que a maioria dos seus colegas da polícia. Mas eram apenas adolescentes. Na idade de estudar, ir a festas e deixar os grandes problemas para os mais velhos. Só que um deles poderia estar em grande perigo, poderia até estar... Não! Andrade nem podia admitir isso. Talvez aqueles garotos pudessem ajudá-lo a... Talvez se lembrassem de alguma coisa que... Não tinha jeito. O jeito era abrir o jogo.
— A história é longa e macabra, meus queridos. Naturalmente vocês já ouviram falar da situação do Pantanal...
— O último refúgio da natureza selvagem — discursou Calu, como se fosse um político de província. — A maior reserva pura da fauna e da flora tropical. Mas, e daí?
— E daí que a selvageria não tem nada a ver com a natureza, lá por aqueles lados. O Pantanal está dominado por contrabandistas, traficantes de tóxicos e assassinos de jacarés. E o que é ruim sempre dá um jeito de piorar: o crime organizado internacional descobriu o Pantanal!
— Oh, oh! Quer dizer que o negócio de sapatos e bolsas de couro de jacaré é tão bom que está interessando até aos grandes criminosos? Até à Máfia?
— O morticínio dos jacarés é uma barbaridade. Mas há outras. Quando se fala de crime internacional, fala-se principalmente do tráfico de drogas. Esse sim é um negócio impressionante. O dinheiro nele movimentado é maior que todo o dinheiro mundial gasto com alimentação, saúde e educação. Suas redes de distribuição fariam inveja à organização da Coca-Cola. A indústria da droga é a que mais cresce no mundo. Por ano, os criminosos arrecadam meio trilhão de dólares, isto é, três vezes mais do que todos os dólares em circulação no mundo todo. Um império econômico e militar que só perde para os Estados Unidos e para a União Soviética...
A voz de Andrade calou-se para um instante de fôlego e, durante um breve mas profundo respirar, passou-lhe pela cabeça que aquela não deveria ser uma simples questão policial. Era uma ameaça tão séria que as forças armadas deveriam enfrentá-la como uma operação de guerra.
— Vencer essa guerra só será possível com a união de todos. Mas às vezes penso que o consumo de drogas pelos jovens é muito bem-visto pelos poderosos. É fácil manipular um drogado. É fácil controlar um jovem com a cabeça cheia de fumaça ou as veias cheias de veneno. Difícil é controlar os anseios e as esperanças de uma juventude de cabeça limpa e nariz em pé. Por isso, para os donos do poder, é uma saída perfeita manter seus privilégios dissolvendo, a poder de fumaça e cocaína, as ideias rebeldes dos cérebros dos jovens.
Cérebros como os daqueles quatro queridos garotos, que ouviam seu desabafo com respeito. Mais uma vez, Andrade quis colocar todos no colo, de uma só vez, como se eles fossem os filhos que nunca teve.
— O crime organizado se enriqueceu com os tóxicos a tal ponto que a repressão não consegue mais nada. A única forma eficiente de combatê-lo seria abalar suas finanças. Mas os fantásticos lucros dos criminosos sempre estiveram muito bem protegidos em depósitos secretos nos bancos suíços e do Caribe.
— Que absurdo! Então não é crime guardar dinheiro obtido com a venda de drogas? — revoltou-se Miguel.
— É... parece que os maiores crimes estão a salvo da lei... — concordou o detetive. — Por isso uma nova tática tornou-se necessária: esses banqueiros estão sendo pressionados a consentir que as contas secretas sejam abertas à investigação.
Assim, as fortunas desses criminosos seriam descobertas e bloqueadas, e o crime internacional ficaria enfraquecido.
— Se não é possível acabar com o crime, a solução é levar os criminosos à falência, não é?
— Em teoria era isso, mas acontece que o sigilo dessas pressões sobre os banqueiros foi quebrado, e os comandantes do crime organizado tomaram outras providências. Como a proteção do dinheiro depositado não seria mais segura, há indícios de que os criminosos começaram a transformá-lo em ouro.
— E o que seria feito com o ouro?
— Certamente guardado em lugar seguro, até que as coisas esfriassem. Um lugar sem lei, onde o ouro pudesse ficar escondido por algum tempo. E que melhor refúgio do que o Pantanal!
— Então era desse ouro que o piloto falava? Quer dizer que ele descobriu onde está escondido o ouro da Máfia?
— Talvez, Magri. Só que esse Bezerra, o piloto, nunca mais poderá contar onde está o tal ouro...
— Ele falou também em um certo “Ente”. Esse Ente faz parte da conspiração?
— O Ente é a própria conspiração, Miguel. Descobriu-se que ele é uma espécie de tesoureiro do crime organizado. Mas ninguém descobriu quem é ele. Certamente alguém poderoso e influente no Pantanal. Alguém acima de qualquer suspeita, para o ouro da Máfia não correr nenhum risco.
— Conforme as palavras de Bezerra, o Ente chama-se Mike Sierrabrava — lembrou Chumbinho, que nunca esquecia qualquer palavra que ouvisse, mesmo que fosse uma única vez. — E esse Mike Sierrabrava é um sujeito influente?
— Não foi encontrado ninguém com esse nome, Chumbinho.
— Você falou com os pais de Crânio? Contou-lhes tudo?
— Não, Magri. Inventei uma desculpa qualquer para telefonar procurando por ele. Não lhes contei nada. Não quis alarmá-los. De que adiantaria? Temos tão pouca coisa...
Miguel encarou o detetive e raciocinou:
— Tudo o que temos são as palavras do piloto. Não sabemos como descobrir o tal Mike Sierrabrava. É claro que, como tesoureiro do crime, ele está usando uma identidade secreta. E a outra pista do piloto: “Formigas-paradas”? O que será isso?
— Parece que é uma história meio maluca. Os pantaneiros falam em espíritos malignos que assombram a região. Nem sei por que são chamados Formigas-paradas...
— Não sabe, Andrade? — sorriu Calu, triunfante. — Mas é tão simples! Espíritos do mal, um grupo de misteriosos assassinos, Formigas-paradas, o Ente… Você não vê uma ligação nisso tudo?
— Que ligação você está vendo, Calu?
— “Ente” é a pronúncia de ant, que significa “formiga”, em inglês!
— Quer dizer que...
— Quero dizer que os Formigas-paradas formam o grupo de bandidos encarregados de guardar o ouro. E o Ente é o formigão maior, o líder!
Andrade olhou com orgulho para o garoto.
— Ouça, Calu. Eu sou apenas um detetive da polícia estadual. Não posso me envolver oficialmente com investigações fora da minha área. Foi a gaitinha no bolso do piloto que me chamou a atenção. Descobri por conta própria tudo o que estou contando. Mas eu quero que vocês fiquem de fora e deixem todas as investigações e as teorias por minha conta.
— Mas você não disse que não pode se envolver com um crime ocorrido fora do Estado de São Paulo?
— Eu tenho de me envolver, pois se trata de Crânio. Vou investigar por conta própria, como um cidadão comum. Tirei uma licença e estou de partida para o Pantanal.
Miguel olhou rapidamente para os outros três e foi como se tivessem feito uma assembleia relâmpago através de simples olhares.
— Nós também vamos, Andrade.
— Vocês?! De jeito nenhum! Só por cima de meu cadáver!

2 comentários:

  1. Caramba Calu desvendou a mensagem subliminar da frase em dois segundos!!!

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  2. "Só por cima de meu cadáver!" pensando bem..podem ir sim.. rsrsrs

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Boa leitura, E SEM SPOILER!