25 de janeiro de 2018

Capítulo 2. A morte do Rei Lear

A jovem atriz que faria o papel de Cordélia estava paralisada na porta do camarim de Solomon Friedman, como se tivesse sido fulminada por um raio. Calú afastou-a sem qualquer cerimônia e invadiu o camarim, antevendo a tragédia.
Emoldurado pelas luzes que circundavam o espelho do camarim, debruçado sobre a mesa de maquiagem, Solomon Friedman parecia repousar. Um pequeno círculo negro adornava-lhe a nuca, e um filete vermelho escorria pelos dois lados de seu pescoço, formando um delicado colar.
Ansiosamente, Calú agarrou-lhe o ombro e o puxou.
O corpo caiu para trás, contra o espaldar da poltrona giratória. Com o peso, a poltrona fez meia-volta, e o grande ator pareceu fixar o olhar parado, arregalado em seu aluno predileto. Um sorriso estático paralisava a expressão sob a barba falsa do personagem, como se cinicamente o velho Sol escarnecesse da própria morte.
Solomon Friedman estava morto. E parecia feliz.
O camarim já havia sido invadido por quase todo o elenco do Rei Lear, e foi como se uma corte de verdade chorasse em uníssono pela morte do seu rei, com seus duques e cavaleiros vestidos em veludos e ajaezados em ouro falso.
Lentamente Calú afastou as mãos do ombro do velho Sol.
Seus olhos ardiam, inflamados. Queriam chorar. Queriam explodir em forma de revolta. Mas o rapaz abafou a dor dentro do peito. Ele era um Kara. Não poderia permitir que o desespero superasse sua consciência. Solomon Friedman estava morto. Era preciso vingar aquele covarde assassinato! Era preciso agir.
Mesmo em meio à dor pela perda do seu querido professor de teatro, a atenção de Calú notou um detalhe que poderia ser importante. Olhou debaixo de uma pilha de livros que havia na mesinha ao lado. Em seguida, abaixou-se e pegou algo no cesto de papéis.
Não fazia nem cinco minutos que ele estivera naquele camarim visitando o velho Sol: o assassino ainda poderia estar por ali. Por um momento passou-lhe pela lembrança a imagem do homem que cruzara com ele na porta que ligava os camarins à plateia. Como era ele? O rapaz não conseguia lembrar-se. Estava muito escuro naquele momento. O que ele tinha visto não fora mais que um vulto.
Calú abriu caminho entre os atores que se lamentavam inutilmente em volta do cadáver e correu para a porta principal do teatro.
Foi encontrar Magrí agarrada à gola do porteiro, sacudindo-o como se quisesse despertá-lo de um desmaio:
— Fale, homem! Alguém saiu do teatro?
O porteiro ainda não sabia o que acontecera, e sua surpresa era devida apenas ao fato de estar sendo sacudido por uma menina tão linda e tão elegante. Aos poucos, Magrí e Calú puderam entender suas as palavras confusamente balbuciadas. Sua função era apenas impedir que alguém entrasse sem ingresso, e sua inteligência não chegava ao ponto de prestar qualquer atenção ao trânsito contrário, para o qual não estava treinado.
— Não... acho que... ninguém saiu...
Não foi preciso qualquer combinação entre os dois Karas.
Magrí empurrou o porteiro para dentro do teatro e fechou a porta, guardando-a com seu próprio corpo. Se alguém tentasse fugir por ali, teria de passar por cima do seu lindo cadáver.
Calú conhecia muito bem aquele teatro e correu para a entrada dos atores, que ficava nos fundos e seria a única alternativa para uma fuga rápida.
A porta estava escancarada.
Como um ator veterano, suando como nunca sob a luz dos refletores, o detetive Andrade movia-se com desenvoltura pelo palco. Aquele papel ele sabia desempenhar como ninguém.
Solomon Friedman fora morto com apenas um tiro na nuca. Um tiro que ninguém ouvira, por causa do ribombar de tambores que abria a peça. O assassinato devia ter sido cometido naquele exato momento.
Calú já retomara seu lugar na primeira fileira. Mais uma vez via-se envolvido em um crime hediondo. Só que, desta vez, a vítima era alguém muito próximo a ele. Alguém que ele amava. E, mais uma vez, ali estava o detetive Andrade, aquele policial dedicado, gordo, careca, sempre suando quando estava às voltas com um problema complicado para resolver.
Calú sentiu-se seguro: a investigação do assassinato do seu querido professor estava nas mãos de alguém que ele já aprendera a amar como seu próprio pai.
Cumprindo uma ordem do detetive, o administrador do teatro, um homem miudinho, conseguiu que todos os atores, técnicos e funcionários subissem ao palco.
— Não falta ninguém?
— Já verifiquei — respondeu o administrador. — Estão todos aqui.
O porteiro e a bilheteira tentavam fazer com que os espectadores voltassem aos seus lugares. A ordem do detetive tinha sido bem clara:
— Prestem muita atenção: eu quero que cada um volte exatamente para o lugar que ocupava no momento do crime, entenderam?
O porteiro e a bilheteira tinham entendido e, com muito custo, conseguiram reacomodar a plateia em seus lugares.
Quando tudo estava do jeito que ordenara, o detetive passou o lenço suado pela careca mais uma vez e pediu calma:
— Um momento! Agora só falo eu!
Aos poucos, sua ordem foi sendo obedecida. Cada ator, no palco, e cada espectador, na plateia, olhava para o gordo detetive com uma ansiedade maior do que se ali estivesse o grande Solomon Friedman representando o Rei Lear.
— A casa estava lotada, não estava? — perguntou Andrade, sem se voltar para o pequeno administrador.
— Completamente! — concordou o homenzinho. — Todos os ingressos foram vendidos. E também já verifiquei que todos eles estão devidamente rasgados, na urna da entrada.
— Isso quer dizer então que todos que compraram ingresso compareceram ao teatro?
— Sim, senhor...
— Muito bem... muito bem... — resmungou Andrade.
— Temos um bom número de suspeitos. O assassinato pode ter sido cometido por qualquer um dos atores, qualquer um dos funcionários ou qualquer um dos espectadores...
— Ei, espere aí! — protestou o ator que faria o Duque de Albany e cujo bigode falso já estava meio despencado.
— O senhor está nos acusando de...
— Por que justamente nós? — cortou uma atriz exageradamente maquiada para o papel de Goneril, a terrível filha mais velha do Rei Lear. — Pode ter sido qualquer pessoa!
— Não! — cortou o gordo detetive. — Só pode ter sido uma pessoa!
Andrade foi até os bastidores e logo voltou puxando para o palco um tripé sobre rodinhas no qual estava instalado um refletor. Virou-o desajeitadamente e apontou o foco de luz para um ponto da plateia, na sexta fileira.
Havia um lugar vago!
Andrade sentiu-se como um ator ao fazer a revelação final de uma peça de mistério.
— É... Todos entregaram seus ingressos na entrada, o porteiro os rasgou e colocou na urna. Mas parece que agora está faltando alguém...
Novamente sentada na primeira fileira, Magrí apertou o braço de Calú. Eles haviam bloqueado as duas saídas.
Mas o assassino tinha sido mais rápido...
Andrade estava olhando para a menina, com carinho.
Fora sua voz que ele ouvira ao telefone, comunicando-lhe o crime. Sentiu falta de Miguel, de Crânio e de Chumbinho.
Chumbinho! Pouco mais que um menino... alegre, reinador... mas valente como ninguém. Por um instante, passou pela cabeça do detetive a lembrança das aventuras que o destino o fizera partilhar com aqueles cinco adolescentes que ele já aprendera a amar como se fossem seus próprios filhos.
Todos estavam quietos à espera da próxima fala do principal ator da peça policial que agora se desenrolava no palco. Uma peça que estava sendo escrita ali, naquele momento, pela realidade.
Andrade voltou-se para a plateia, olhando na direção da sexta fileira e falando desnecessariamente alto, pois a boa acústica do teatro permitia que até um sussurro fosse ouvido por todos:
— Alguém aí dessa fileira lembra-se de quem estava sentado naquela poltrona?
Em volta da poltrona vazia, todos se entreolharam. Na ponta da sexta fileira, uma senhora levantou-se e falou nervosamente:
— Bom, acho que me lembro de alguém... Um homem, pedindo passagem para sair, pouco antes de a peça começar... Quando ouvimos o grito, ele não tinha voltado ainda...
— A senhora poderia descrever esse homem?
— A plateia estava na penumbra... — titubeou a mulher. — Era um homem... de idade, talvez... 
— Um velho? — perguntou o detetive, de cima do palco.
— É difícil... estava tão escuro! Era velho, sim... talvez...
A testemunha parecia duvidar de si mesma. Só sabia dizer “talvez”. Andrade pensou que ela seria de pouca utilidade num julgamento.
— Muito velho?
— É difícil dizer... o meu pai, por exemplo, ninguém diria que ele tem...
Andrade começou a perder a paciência...
— O velho que a senhora viu era seu pai?
— Meu pai?! Oh, não! Claro que não!
— Então deixe seu velho pai fora disso, por favor. A senhora poderia calcular a idade do homem que viu sair dessa poltrona?
— Não sei... uns sessenta anos, talvez...
— Era alto? Era baixo? Era gordo? Era magro?
— Era... um tipo comum, eu acho...
— Mas a senhora não notou alguma característica no tal homem que pudesse nos ajudar?
— Não sei... Só o que ele tinha de estranho era... talvez... a voz... quando ele pediu passagem para sair...
— Ele pediu licença?
— Bem... não propriamente. Ele resmungou algumas palavras... Deveria estar pedindo licença... talvez... com uma voz diferente...
— Uma voz “diferente”? O que tinha a voz de diferente?
— Um sotaque... um sotaque estrangeiro...
— A senhora saberia dizer de que língua era esse sotaque?
— Acho que... parecia alemão... talvez...

2 comentários:

  1. Essa senhora seria tipo eu como testemunha... não iria conseguir me lembrar de nada, meu Deus...

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    Respostas
    1. Também não ia lembrar de nada rs

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Boa leitura, E SEM SPOILER!