15 de janeiro de 2018

Capítulo 2. Estranhos acontecimentos

Chumbinho teve de esperar no escuro, mas a reunião dos quatro Karas, improvisada para resolver o problema provocado pelo menino, foi rápida. Não havia o que discutir, pois o pirralho descobrira o esconderijo secreto. O jeito era continuar a reunião como se Chumbinho fosse um dos Karas. Mais tarde teriam de encontrar outro esconderijo e despistar o garoto. Todo o esquema de segurança dos Karas teria de ser alterado, as rotinas revistas, os códigos secretos modificados. Diabo! Ia ser uma mão-de-obra danada. Raio de moleque!
É claro que Chumbinho devia pensar que os Karas eram uma equipe maluca que se reunia secretamente para brincar de espião e detetive, porque o menino quase chorou de emoção quando foi submetido a uma rápida “cerimônia de iniciação” na “Ordem dos Karas”, que Miguel inventou na hora só para fazer feliz o pequeno invasor.
Espetaram o dedo do menino com um canivete, fizeram-no escrever uma declaração de fidelidade e carimbá-la com o próprio sangue (uma gotinha só); ele teve de repetir um juramento (também inventado na hora) cheio de expressões como “até à morte”, “oferecerei a própria vida” e outras bobagenzinhas que deixaram o pobre do Chumbinho com um nó na garganta e uma lágrima equilibrada na beiradinha da pálpebra. Calú queria introduzir outras brincadeiras na tal cerimônia, mas Miguel não deixou; a emergência máxima não podia mais ser adiada.

* * *

Agora eram quatro ouvindo Miguel e as razões da emergência máxima, só que um deles não cabia em si de orgulho e achava que todo mundo estava ouvindo o bater emocionado do seu coraçãozinho.
— E claro que todos vocês já ouviram falar do desaparecimento de estudantes — recomeçou o líder dos Karas. — Vejam aqui nestes jornais: este rapaz sumiu do Equipe, esta garota, do Dante, este outro, do Rainha, este aqui, do Galileu, esta, do Objetivo, outro do Dante, um do Vera...
— Mas o Elite, até agora, está fora disso — interrompeu Magrí. — Não sei então por que os Karas...
— O “até agora” acabou, Magrí. Neste instante, na sala do diretor, estão os pais do Bronca com dois sujeitos com pinta de polícia.
— E daí? Isso não quer dizer que...
— Eu vi as caras de fantasma dos pais do Bronca, pessoal. Cheguei perto e ouvi a mãe dele chorando e dizendo: “Meu filho! Onde está o meu filhinho?...”
— É mesmo! — lembrou Calú. — Desde a semana passada eu não vejo o Bronca!
Todos se calaram. A terrível onda de desaparecimentos estava apavorando a cidade. Em dois meses, vinte e sete estudantes haviam se evaporado sem deixar nem cheiro. A polícia rodava feito barata tonta, percorrendo a cidade com as sirenes abertas, batendo em todas as portas, dando entrevistas para todos os canais de televisão, e nem um bilhete ou uma nota de resgate tinha aparecido para jogar um pouco de luz naquele mistério. Agora, parecia ser a vez do Elite.
Chumbinho estava excitadíssimo. Durante meses tinha seguido cada passo dos Karas, tinha preparado cuidadosamente seu plano e, no momento certo, tinha conseguido o que queria: ser um dos Karas, o avesso dos coroas, o contrário dos caretas! E agora estava envolvido numa aventura da pesada. Com sequestros, polícia e tudo. Era demais!
— Logo o Bronca! — lembrou Chumbinho. — Ainda na sexta-feira eu convidei o Bronca para uma escapadinha até o fliperama. Gozado! Ele estava tão... tão esquisito...
Até aquele momento, Crânio só tinha ouvido a discussão, com sua gaitinha nos lábios, sem um som e também sem uma palavra.
— Esquisito, Chumbinho? — perguntou Crânio. — Esquisito, como?
— Sei lá. Esquisito... careta... diferente... sei lá!
— Fale, garoto! — comandou Miguel. — Tudo pode ajudar a gente.
Mais uma vez Chumbinho tinha conseguido tornar-se o centro de atração dos Karas. Estava radiante!
— Bom... vocês sabem como é o Bronca...
— Claro que sabemos, Chumbinho — apressou Magrí. — É o sujeito mais esquisito do Elite. É por isso que todo mundo chama o Bronca de Bronca.
— Pois é — continuou Chumbinho. — Na sexta-feira, ele estava diferente. Era como se não fosse o Bronca. Diferente! Parecia um carneirinho, mas um carneirinho com um olhar estranho, parado, nem sei explicar direito...
— Vê se dá um jeito de explicar, moleque! — ralhou Calú. — Fala logo. Vê se não enrola!
— Não estou enrolando, Calú! Eu falei pra gente pular o muro e ir até o flíper, mas o Bronca disse que não, ficou dizendo que era proibido, ficou repetindo que tudo era proibido, que ele tinha de obedecer...
Aí Calú estourou:
— Ora, deixa de besteira, Chumbinho! O Bronca é o maior rebelde do Elite. Proibição pra ele é piada!
— Mas é isso mesmo que eu estou tentando explicar! Por isso é que eu disse que ele estava tão diferente. Estava... obediente...
— Obediente?! —riu-se Calú. —Tem graça! O Bronca, obediente!
Miguel compreendeu que, pelo menos por enquanto, não ia ser possível livrar-se do Chumbinho. Por enquanto ele poderia ser útil. Era uma testemunha. Mais tarde não faltaria ocasião de inventar uma forma de afastar o garoto.
— Muito bem, Karas, vamos agir. Magrí, tente descobrir se o Bronca tinha alguma namorada. Com cuidado. Pelo jeito, nem os pais, nem a polícia, nem o diretor querem que o desaparecimento venha a público. Eu vou descobrir onde ele mora e procurar os lugares que ele frequentava. Calú, papeie com os colegas de classe do Bronca. Descubra quem foi o último a falar com ele. Descubra tudo o que puder. Amanhã nos encontraremos aqui, no primeiro intervalo.
— E eu? — perguntou Chumbinho.
Raio! O que fazer com o Chumbinho? Ele era necessário para descrever os últimos passos do Bronca, mas era só. Se ele não tivesse alguma tarefa, ia acabar perturbando. Miguel teve uma ideia: havia o Bino, um garoto novo na escola, meio apagado, que tinha sido transferido para o Elite há poucos dias. Era isso! Bastava colocar Chumbinho em campo neutro e ele não iria atrapalhar.
— Preste atenção, Chumbinho. Agora você é um dos Karas. Não se esqueça do seu juramento. Quero que você cole no Bino, mas com muito cuidado. Pergunte se ele já fez amizades no colégio, pergunte se ele conhece o Bronca... não force nada e não fale do assunto com mais ninguém. Amanhã você me conta o que conseguiu, tá?
— Joia, chefe! — O menino sorriu feliz. — Deixa comigo!
— Quanto a você, Crânio...
— Eu? — riu-se o gênio da turma. — Eu vou pra casa!
— Pra casa?! — estranhou Chumbinho. —Numa hora dessas? Fazer o quê?
— Pensar, Chumbinho, pensar...

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!