29 de janeiro de 2018

Capítulo 19

Chaol continuou movendo seus dedos dos pés um longo tempo depois de Yrene ter saído. Ele os mexia por dentro das botas, não exatamente os sentindo, mas era suficiente saber que eles estavam se movendo.
Seja lá como Yrene tivesse conseguido...
Ele não contou a Nesryn quando ela voltou antes do jantar, sem sinal de Valg para reportar. E ele apenas explicou baixinho que estava fazendo progresso com Yrene, assim, gostaria de adiar a visita à família dela para outro dia.
Ela pareceu um pouco abatida, mas concordou, aquela máscara fria deslizando sobre seu rosto em alguns piscares de olhos.
Ele a beijou quando ela caminhou para se vestir para o jantar. Segurou-a pelo pulso e a puxou para baixo, beijando-a uma vez. Breve – mas carinhosamente.
Ela ficou surpresa o bastante para que quando ele a puxou, ela não fez mais que deixar-se levar.
— Vá se aprontar — ele disse a ela, dando-lhe um empurrãozinho na direção de seu quarto.
Com um olhar por cima do ombro para ele, um sorriso nos lábios, Nesryn obedeceu.
Chaol encarou sua saída por alguns minutos, mexendo seus dedos dentro das botas.
Não havia calor ali – no beijo. Não um sentimento real.
Ele esperava isso. Praticamente a enxotara nessas últimas semanas. Ele não a culpava pelo ar de surpresa.
Ainda estava flexionando seus dedos quando chegaram ao jantar. Esta noite, ele pediria ao khagan por uma audiência. Novamente. De luto ou não, com protocolos ou não. E então alertaria o homem das coisas que sabia.
Ele faria a requisição para antes da sessão com Yrene – caso eles perdessem a hora. O que parecia ser uma ocorrência. Eles levaram três horas hoje. Três.
Sua garganta estava seca, a despeito do chá com mel que Yrene o fez beber até que ele estivesse quase enjoado. Então o fez se exercitar, muitos dos movimentos com sua assistência: rotacionar os quadris, rolar cada perna de um lado para o outro, girar os tornozelos e os pés em círculos. Tudo designado a manter o sangue seguindo para os músculos começando a atrofiar, designados a recriar as ligações entre sua espinha e seu cérebro, segundo ela.
Ela repetiu tais exercícios várias vezes, até que quase uma hora havia se passado. Até que estava cambaleando sobre seus pés, e aquele olhar embaçado estivesse de volta em seus olhos.
Exaustão. Porque enquanto girava as pernas dele, ordenando que ele movesse os dedos de vez em quando, ela mandava vibrações de sua magia através de suas pernas, ultrapassando sua coluna inteiramente. Pequenas pontadas em seus dedos dos pés – como um enxame de vaga-lumes passando por ele. Era tudo o que ele sentia, mesmo que ela estivesse remendando os pedaços em seu corpo. O pouco que ela conseguia fazer agora, com o pequeno progresso que fizera horas atrás.
Mas toda essa magia... Quando Yrene oscilou após a última repetição, ele chamou Kadja. Ordenou que uma carruagem armada fosse aprontada para a curandeira.
Yrene, para sua surpresa, não objetou. Ele supôs que isso seria difícil, quando ela estava próxima de dormir de pé na hora em que saía, com Kadja apoiando-a. Yrene apenas murmurou algo sobre montar seu cavalo novamente depois do café da manhã, e se foi.
Mas talvez a sorte que ele teve naquela tarde tenha sido a última.
Horas depois, o khagan não estava no jantar. Ele estava jantando privadamente com sua amada esposa, disseram. O restante não dito estava fácil de entender: o luto estava tomando o seu curso natural, e política poderia esperar. Chaol tentou parecer tão compreensivo quanto possível.
Ao menos Nesryn parecia estar fazendo algum progresso com Sartaq, mesmo que os outros príncipes parecessem aborrecidos com a presença deles.
Então ele jantou, continuando a mexer os dedos dos pés dentro das botas, e não falou com ninguém, mesmo Nesryn, até depois que eles voltaram para sua suíte e desmoronou na cama.
Ele despertou ao amanhecer, encontrando-se... ansioso por um banho e para se vestir. Encontrou-se tomando o café da manhã tão rápido quanto podia, enquanto Nesryn apenas ergueu as sobrancelhas.
Mas ela, também, sairia cedo para encontrar Sartaq no topo de um dos trinta e seis minaretes do palácio.
Haveria algum feriado no dia seguinte, em honra a um dos trinta e seis deuses cujos minaretes representavam. Sua deusa do mar, Tehome. Haveria uma cerimônia ao nascer do sol nas docas, com todos os integrantes da realeza, até o khagan, comparecendo para depositar coroa de flores na água. Presentes para a Senhora das Grandes Profundidades, Nesryn havia dito. Então um grande festejo no palácio quando o sol se pusesse.
Ele era indiferente aos seus próprios feriados em Adarlan, achando-os ritos ultrapassados para honrar forças e elementos que seus ancestrais não podiam explicar, e ainda assim o zumbido de atividades, as coroas de flores e conchas do mar sendo levados para o palácio para substituírem as faixas brancas, o cheiro de mariscos cozidos na manteiga e especiarias... isso o intrigava. O fazia ver um pouco mais límpido, mais brilhante, enquanto ele rodava através do palácio ocupado até o pátio.
O pátio em si era uma confusão de vendedores chegando e partindo, gente cuidando da comida, decoração e o que pareciam ser artistas. Tudo para suplicar à sua deusa do mar por clemência enquanto o final do verão dava lugar às violentas tempestades anuais que poderiam partir os navios e cidades inteiras no litoral.
Chaol olhou em volta do pátio em busca de Yrene, flexionando seus dedos dos pés. Ele viu seu cavalo e a égua dela ao lado das baias no muro leste, mas... sem sinal dela.
Ela chegara atrasada no dia anterior, então ele esperou até uma pausa nas entregas antes de fazer um gesto para que mãos estáveis o ajudassem a montar. Mas foi o guarda do dia anterior – aquele que mais o ajudou – que se apresentou quando o cavalo foi trazido. Shen, foi como Yrene o chamara; ela cumprimentou o guarda como se o conhecesse bem.
Shen não disse nada, embora Chaol soubesse que todo guarda neste palácio falasse um sortimento de línguas além de halha, apenas oferecendo um aceno como cumprimento. Que Chaol encontrou-se respondendo antes de montar em silêncio, seus braços se esforçando para puxar-se para cima. Ele conseguiu, talvez mais facilmente do que no dia anterior, ganhando o que ele poderia ter jurado ser uma piscadela de aprovação de Shen antes de o guarda voltar para o seu posto.
Expulsando o que havia em seu peito, Chaol apertou as tiras em seu suporte e examinou o pátio caótico e os seus portões abertos. Os guardas inspecionavam cada carroça, cada documento que confirmava que um pedido da realeza fora feito pelos itens trazidos.
Bom. Apesar de ele não ter falado pessoalmente com o khagan, pelo menos alguém avisara os guardas para terem cuidado – talvez Kashin.
O sol se ergueu, trazendo o calor consigo. Yrena ainda não tinha chegado.
As horas bateram dentro do palácio. Uma hora atrasada.
O cavalo pateou, impaciente sob ele, e deu tapinhas em seu pescoço suado e largo, murmurando.
Outros quinze minutos passaram. Chaol estudou os portões, a rua além.
Nenhum alarme viera da Torre, mas esperar ali, simplesmente esperar ali...
Ele se encontrou batendo as rédeas, dando um tapa no traseiro do cavalo para incitá-lo a caminhar.
Ele marcara alguns pontos do caminho que fizera com Yrene no dia anterior. Talvez pudesse encontrá-la enquanto ela vinha para cá.


Antica estava barulhenta com vendedores e o povo fazendo os preparativos para o feriado do dia seguinte. E aqueles que já brindavam à Senhora das Grandes Profundidades enchiam tavernas e comiam em restaurantes que ladeavam as ruas, músicos tocando em cada um deles.
Levou quase duas vezes mais tempo para chegar aos portões adornados com corujas da Torre, embora parte dessa lentidão fosse devida ao seu exame de cada rua abarrotada e beco em busca de Yrene. Mas ele não encontrou nenhum sinal da curandeira.
Ele e seu cavalo suavam quando chegaram aos portões da Torre, os guardas sorrindo para ele – rostos que ele havia decorado a partir da lição do dia anterior.
Quantas vezes ele vira tal saudação em Adarlan? Tomara por garantida?
Ele sempre entrara pelos portões de ferro negro do palácio de vidro sem hesitação, sem realmente fazer mais do que notar quem estava parado ali e quem não estava no padrão. Ele treinara com aqueles homens, aprendera sobre suas famílias e suas vidas.
Seus homens. Eles foram os homens dele.
Então Chaol respondeu-os com um sorriso largo, e não pôde encarar seus olhos brilhantes por mais que alguns segundos enquanto entrava no pátio da Torre, o cheiro de lavanda envolvendo-o.
Ele parou a alguns metros para dentro, girou sua montaria e perguntou para o guarda mais perto:
— Yrene Towers saiu hoje?
Assim como aqueles do palácio do khagan, cada guarda da Torre era fluente em pelo menos três línguas: halha, o idioma do continente do norte e também a das terras do leste. Com visitantes de toda a Erilea, aqueles da Torre tinham que ser fluentes nas três línguas mais comuns.
O guarda diante dele balançou a cabeça, suor escorrendo por sua pele escura em resposta ao calor.
— Não ainda, Lorde Westfall.
Talvez fosse rude procurá-la quando ela estava tão ocupada com outras coisas que não pôde ir até ele no horário. Ela mencionara outros pacientes, afinal.
Com um aceno de agradecimento, ele novamente virou o ruão para a Torre, e estava prestes a adentrar no pátio a sua esquerda quando uma voz anciã disse abaixo dele:
— Lorde Westfall. Que bom vê-lo fora e por perto.
Hafiza. A Alta Curandeira estava a poucos metros, uma cesta drapeada pendurada em seu braço fino e duas moças flanqueando-a. Os guardas fizeram uma reverência, e Chaol inclinou a cabeça.
— Eu estava procurando por Yrene — ele falou como cumprimento.
As sobrancelhas alvas de Hafiza se ergueram.
— Ela não foi encontrá-lo esta manhã?
Inquietação endureceu sua garganta.
— Não, embora talvez tenhamos nos desencontrado...
Uma das curandeiras de Hafiza se aproximou dela e murmurou para a Alta Curandeira:
— Ela ainda está deitada, minha senhora.
Hafiza agora erguia as sobrancelhas para a mulher.
— Ainda?
Um balançar de cabeça.
— Drenada. Eretia a checou uma hora atrás – ela estava dormindo.
A boca de Hafiza apertou, enquanto Chaol tinha a sensação de que sabia o que ela diria. Sentiu culpa antes que ela falasse.
— Nossos poderes podem fazer grandes coisas, Lorde Westfall, mas também demandam um grande custo. Yrene estava... — ela buscou as palavras, mesmo não usando sua própria língua para dissipar a culpa dele — estava adormecida na carruagem quando chegou noite passada. Ele teve que ser carregada até seu quarto.
Ele se encolheu.
Hafiza deu uma batidinha na bota dele, e Chaol pôde jurar sentir o movimento em seus dedos.
— Não há com o que se preocupar, meu senhor. Um dia de sono, e ela estará de volta ao palácio amanhã de manhã.
— Se amanhã é feriado — ele sugeriu — ela deveria tirar o dia de folga.
Hafiza riu.
— O senhor não conhece Yrene muito bem se pensa que ela considera esse feriado como folga — ela apontou para ele. — Embora se você quiser uma folga, certamente deveria dizer a ela, porque sem dúvida ela estará batendo em sua porta ao nascer do sol.
Chaol sorriu, mesmo enquanto observava a torre elevando-se acima de sua cabeça.
— É um sono restaurador — Hafiza adicionou. — Completamente natural. Não deixe isso preocupá-lo.
Com um último olhar para o alto da torre pálida, ele acenou e virou seu cavalo de volta para os portões.
— Eu poderia escoltá-la para algum lugar?
O sorriso de Hafiza era mais brilhante que o sol do meio-dia.
— Certamente pode, Lorde Westfall.


A Alta Curandeira era parada em cada quarteirão por aqueles que desejavam meramente tocar sua mão, ou serem tocados por elas.
Sagrada. Santa. Amada.
Eles levaram trinta minutos para percorrer doze quarteirões desde a Torre. E embora ele tivesse oferecido esperar enquanto Hafiza e suas companheiras entravam em uma casa modesta numa rua calma, elas o dispensaram.
As suas estavam entupidas o suficiente para impedi-lo de explorar, então Chaol logo seguiu seu caminho para o palácio.
Mas mesmo enquanto conduzia seu cavalo por entre a multidão, ele se pegava olhando para a torre pálida agigantando-se no horizonte. Para a curandeira dormindo dentro dela.




Yrene dormiu por um dia e meio.
Ela não queria fazê-lo. Apenas conseguiu despertar o tempo suficiente para cuidar de suas necessidades e afastar Eretia quando ela passou a irritá-la, para certificar-se de que ela ainda estava viva.
A cura de ontem — de dois dias atrás, ela percebeu enquanto se vestia com a luz cinzenta antes do amanhecer — a dizimara. Esse pequeno progresso, a hemorragia nasal depois, tomaram seu preço.
Mas os dedos dos pés se moveram. E os caminhos pelos quais ela enviou sua magia flutuando, pontos de luz atravessando-o... Danificados, sim, mas se ela pudesse começar a substituir lentamente aqueles pequenos comunicadores fraturados dentro dele... Seria longo, e difícil, ainda...
Yrene sabia que não era apenas culpa que a fez levantar-se tão cedo no dia de Tehome.
Ele era de Adarlan – ela duvidava que ele fosse tirar o dia de folga.
O amanhecer mal havia começado na hora que Yrene saiu para o pátio e parou.
O sol começava a bater nas muralhas, espalhando algumas manchas de luz dourada nas sombras arroxeadas.
E em uma dessas manchas de luz do sol, os finos fios de ouro em seu cabelo castanho brilhando...
— Ela desperta — Lorde Chaol falou.
Yrene caminhou até ele, cascalho crepitando alto no amanhecer lânguido.
— Você veio até aqui?
— Sozinho.
Ela apenas arqueou uma sobrancelha para a égua branca ao lado dele.
— E trouxe o outro cavalo?
— Um completo cavalheiro.
Ela cruzou os braços, franzindo o cenho até onde ele se estava montado.
— Qualquer outro movimento?
O sol da manhã iluminou seus olhos, transformando o castanho em quase ouro.
— Como você está se sentindo? — ele devolveu.
— Responda a minha pergunta, por favor.
— Responda a minha.
Ela ficou um pouco boquiaberta. Debateu fazer uma careta.
— Estou bem — disse ela, acenando. — Mas você sentiu mais alguma coisa?
— Obteve o descanso da qual precisava?
Yrene ficou boquiaberta com ele verdadeiramente desta vez.
— Sim. — Ela franziu o cenho agora, também. — E não é da sua conta...
— Certamente é.
Ele disse isso com tanta calma. Com tal direito masculino.
— Sei que em Adarlan as mulheres se abaixam a cabeça para qualquer coisa que os homens dizem, mas aqui, se eu disser que não é da sua conta, então não é.
Chaol lhe deu um meio sorriso.
— Então estamos de volta à animosidade hoje.
Ela reprimiu seu grito crescente.
— Não estamos de volta a nada. Eu sou sua curandeira, e você é meu paciente, e eu perguntei sobre o estado do seu...
— Se não estiver descansada — ele falou, como se fosse a coisa mais racional do mundo — então eu não deixarei você se aproximar de mim.
Yrene abriu e fechou a boca.
— E como você vai decidir isso?
Lentamente, seus olhos a estudaram. Cada centímetro.
O coração dela trovejou pelo longo olhar. Pelo foco implacável.
— Boa cor — comentou ele. — Boa postura. Certamente a rudeza está de volta.
— Eu não sou um cavalo premiado, como você disse ontem.
— Dois dias atrás.
Ela cruzou os braços, apoiando as mãos nos bíceps.
— Eu estou bem. Agora, e quanto a você? — cada palavra era cortante.
Os olhos de Chaol dançaram.
— Eu estou me sentindo bastante bem, Yrene. Obrigado por perguntar.
Yrene. Se ela não estivesse inclinada a subir naquele cavalo e estrangulá-lo, poderia ter contemplado como a maneira que ele falou o seu nome fez seus dedos dos pés se enrolarem.
— Não tome minha gentileza por estupidez. Se você teve algum progresso, ou regresso, eu descobrirei — ela apenas assobiou.
— Se esta é a sua gentileza, então eu odiaria ver seu lado ruim.
Ela sabia que as palavras foram brincadeira, e mesmo assim... suas costas ficaram rígidas.
Ele pareceu perceber, e se abaixou em sua sela.
— Foi uma piada, Yrene. Você tem sido mais do que generosa com... foi uma piada.
Ela deu de ombros, indo para o cavalo branco.
— Como as outras curandeiras estão indo... depois do ataque? — ele perguntou, talvez como uma tentativa de levar a conversa para algo mais neutro.
Um arrepio subiu por sua espinha enquanto ela pegava as rédeas da égua, mas não fazia nenhum movimento para montar. Yrene se oferecera para ajudar com o enterro, mas Hafiza recusou-se, dizendo-lhe para guardar suas forças para Lorde Westfall. Mas não a impediu de visitar a câmara da morte sob a Torre há dois dias – de ver o corpo dissecado posto na laje de pedra no centro da câmara de pedra, o rosto coriáceo e drenado, os ossos que pareciam despontar da pele fina como papel. Ela havia oferecido uma oração a Silba antes de ir embora, e não estava acordada ontem quando a enterraram nas catacumbas muito abaixo da torre.
Yrene agora franziu a testa para a torre que se avultava, sua presença sempre com tanto conforto e ainda...
Desde aquela noite na biblioteca, apesar dos melhores esforços de Hafiza e Eretia, havia um silêncio nos corredores, na própria torre. Como se a luz que preenchia este lugar tivesse enfraquecido.
— Estão lutando para manter uma sensação de normalidade — Yrene respondeu finalmente. — Penso que em desafio contra... contra quem quer que tenha feito isso. Hafiza e Eretia lideraram pelo exemplo, mantendo-se calmas, focalizadas e sorridentes quando podem. Acho que ajuda as outras garotas a não ficarem tão petrificadas.
— Se quiser que eu ajude com outra lição — ele ofereceu — meus serviços estão à sua disposição.
Ela assentiu distraidamente, passando o polegar sobre o freio.
Silêncio caiu por um longo momento, sendo preenchido pelo cheiro de lavanda e das árvores carregadas de limão. Então:
— Você estava realmente planejando bater em minha porta ao amanhecer?
Yrene se virou da paciente égua branca.
— Você não parece do tipo que fica deitado até tarde. — Ela ergueu as sobrancelhas. — Embora, se você e a capitã Faliq estiverem engajados em...
— Você pode vir ao amanhecer, se quiser.
Ela assentiu. Mesmo que normalmente ela amasse dormir.
— Eu estava indo checar um paciente antes de visitá-lo. Desde que nós tendemos a... gastar bastante tempo. — Ele não respondeu, então foi em frente: — Eu posso encontrá-lo no palácio em duas horas, se você...
— Eu vou com você. Não me importo.
Ela soltou as rédeas. Observou-o. Suas pernas.
— Antes de irmos, eu gostaria de fazer alguns exercícios com você.
— Sobre o cavalo?
Yrene foi na direção dele, cascalho assobiando sob seus sapatos.
— Na verdade é uma forma de tratamento bem-sucedida para muitos – não apenas para aqueles com lesões na espinha. Os movimentos de montar a cavalo podem melhorar o processamento sensorial, entre outros benefícios. — Ela desatou o suporte e deslizou o pé dele do estribo. — Quando eu estava nas estepes no inverno passado, curei um jovem guerreiro que havia caído de seu cavalo em uma caçada – a lesão era quase a mesma que a sua. Sua tribo desenvolveu o suporte para ele antes de eu chegar lá, já que ele estava menos inclinado a ficar dentro de casa do que você.
Chaol bufou, passando uma mão pelos cabelos.
Yrene ergueu o pé e começou a girá-lo, lembrando o cavalo em que ele estava sentado.
— Levá-lo a fazer qualquer exercício – a terapia – foi uma provação. Ele odiava estar preso em seu gir, e queria sentir o ar fresco em seu rosto. Então, apenas para me dar um momento de paz, deixei-o subir na sela, andar um pouco e então fazíamos os exercícios enquanto ele estava montado. Apenas em troca de mais exercícios abrangentes na tenda. Mas ele fez tamanho progresso enquanto montava que se tornou uma parte principal do nosso tratamento.
Yrene inclinou-se suavemente e endireitou a perna.
— Eu sei que você não pode sentir muito além dos dedos dos pés...
— Nada.
— ... mas quero que você se concentre em movê-los. O quanto você conseguir. Juntamente com o resto de sua perna, mas concentre-se em seus pés enquanto faço isso.
Ele ficou em silêncio, e ela não se importou em olhar para cima enquanto movia a sua perna, fazendo os exercícios que podia com o cavalo sob ele. O peso sólido da perna era o suficiente para fazê-la suar, mas ela continuou, esticando e dobrando, girando e torcendo. E em suas botas, o couro fino e preto se movia... seus dedos se moviam por baixo.
— Bom — Yrene disse a ele. — Mantenha-se assim.
Os dedos esticaram o couro novamente.
— As estepes – é onde o povo do khagan foi originado.
Ela seguiu para outro conjunto completo de exercícios, certificando-se de que os dedos dele se moviam o tempo todo, antes de responder. Colocou a perna de volta no estribo e prendeu-a, deu uma volta enorme pela frente do cavalo, soltou a outra perna, e respondeu:
— Sim. Uma terra bonita e prístina. As colinas gramadas continuam para sempre, interrompidas apenas por florestas de pinheiros esparsas e algumas montanhas lisas. — Yrene grunhiu contra o peso da perna quando começou o mesmo conjunto de exercícios. — Você sabia que o primeiro khagan conquistou o continente com apenas cem mil homens? E que ele fez isso em quatro anos? — ela observou a cidade despertando em torno deles, maravilhando-se. — Eu sabia sobre a história de seu povo, sobre o Darghan, mas quando fui às estepes, Kashin me disse... — ela ficou em silêncio, desejando que pudesse recuperar o último pedaço.
— O príncipe foi com você? — Uma pergunta calma e casual. Ela deu um tapinha em seu pé numa ordem silenciosa para manter os dedos em movimento. Chaol obedeceu com um riso.
— Kashin e Hafiza vieram comigo. Nós ficamos lá por um mês — Yrene flexionou o pé, para cima e para baixo, trabalhando através dos movimentos repetitivos com cuidado lento e deliberado. A magia ajudava na cura, sim, mas o elemento físico desempenhava um papel igualmente importante. — Está movendo os dedos dos pés tanto quanto consegue?
Um resmungo.
— Sim senhora.
Ela escondeu o sorriso, esticando a perna até onde o quadril permitia e girando em pequenos círculos.
— Suponho que na viagem às estepes foi quando o príncipe Kashin abriu seu coração.
Yrene quase deixou a perna cair, mas em vez disso olhou para ele, encontrando aqueles ricos olhos castanhos cheios de humor seco.
— Não é da sua conta.
— Você ama dizer isso, para alguém que parece tão decidida em exigir que eu conte tudo.
Ela revirou os olhos e voltou a dobrar a perna na altura do joelho, alongando-se e relaxando.
— Kashin foi um dos primeiros amigos que fiz aqui — disse ela depois de um longo momento. — Um dos meus primeiros amigos em qualquer lugar.
— Ah. — Uma pausa. — E quando ele quis mais do que amizade...
Yrene baixou a perna de Chaol finalmente, baixando-a de volta no suporte e limpando o pó das botas de suas mãos. Ela colocou as mãos nos quadris enquanto o encarava, apertando os olhos contra a luz crescente.
— Eu não queria mais do que isso. Eu disse tanto a ele. E é isso.
Os lábios de Chaol se contraíram em direção a um sorriso, e Yrene finalmente se aproximou de sua égua à espera, subindo na sela. Quando se esticou, arrumando as saias de seu vestido sobre as pernas, ela disse:
— Meu objetivo é voltar para Charco Lavrado, para ajudar onde mais sou necessária. Não senti nada forte o suficiente por Kashin para me impedir de seguir esse sonho.
O entendimento encheu seus olhos, e ele abriu a boca – como se pudesse dizer algo sobre isso. Mas ele apenas acenou com a cabeça, sorriu de novo e disse:
— Fico feliz que não tenha feito — ela levantou uma sobrancelha em uma pergunta e seu sorriso cresceu. — Onde eu estaria sem você aqui para me latir ordens?
Yrene franziu o cenho, pegando as rédeas e dirigindo o cavalo em direção aos portões quando disse bruscamente:
— Deixe-me saber se você começar a sentir algum desconforto ou formigamento nessa sela – e tente manter seus dedos mexendo o mais rápido possível.
Para o seu crédito, ele não se opôs. Apenas disse com aquele meio sorriso:
— Conduza o caminho, Yrene Towers.
E embora ela se dissesse a si mesma que não... um pequeno sorriso puxou a boca de Yrene enquanto eles cavalgavam para a cidade que despertava.

10 comentários:

  1. A Yrene mudou muito de como ela era em A Lâmina da Assassina. Nem parece a mesma pessoa

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    1. As ocasiões eram diferente, em A Lâmina da Assassina ela vivia com medo, sendo maltratada e tinha 19 anos. Mas a situação agora é diferente, ela tem quase 22 anos e uma das melhores curandeiros da Torre,com responsabilidades e sonhos. É claro que ela estaria diferente

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  2. Aaaaah queria que ela ficasse com o príncipe

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  3. Alguns anos se passaram, é isso que se espera que o tempo faça. Mude. E mesmo assim não teve o suficiente na Lâmina da Assassina, além de uma garota assustada e desesperada pra sair de sua situação atual. Eu to impressionada com a forca que essa personagem adquiriu. Ate parece a Celaena.

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  4. "Yrene. Se ela não estivesse inclinada a subir naquele cavalo e estrangulá-lo, poderia ter contemplado como a maneira que ele falou o seu nome fez seus dedos dos pés se enrolarem."

    E é assim que nasce um amor, com violência, vontade de estrangular a pessoa amada ksksks falo por experiência própria heuheu

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  5. Eles são tão fofos juntos ❤️❤️❤️

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  6. Estou impressionada com o bom humor do Chaol, espero que ele continue assim. Todo sério e rabugento, mal humorado, tava chato de mais!
    E sou só eu que estou achando mó graça dele mexendo os dedos dos pés toda hora? Tô rindo muito com isso, acho que não sou normal! Kkkkkkkkk

    Flavia

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  7. Sinceramente odeio chão, mas amo a yrene

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Boa leitura, E SEM SPOILER!