25 de janeiro de 2018

Capítulo 19. A pátria do crime

Calú e Chumbinho desceram a longa escada em espiral sentindo-se zonzos como se tivessem bebido. A surpresa que o Komandant lhes revelara fora grande demais! Felizmente os verdadeiros nazistinhas também não sabiam daquilo, pois do contrário a reação dos dois Karas os teria denunciado.
O velho Komandant ainda saboreava o efeito daquela surpreendente excursão, quando os três chegaram de volta ao Kabinet de trabalho do Castelo Wachenfeld. O velho serviu-se de um cálice de Schnaps e aceitou normalmente a recusa dos dois garotos aos cálices que ele lhes oferecera:
— Gut! O jovem Guia não bebe! Gut! O Fuhrertam também não bebia!
Bebeu o Schnaps de um só gole. Quando se voltou para Chumbinho, seus olhos brilhavam, pela excitação e pelo álcool.
— Meu jovem Guia! Agora tudo está preparado. O que eu acabei de mostrar-lhe terá um efeito moral avassalador, tanto para dar ânimo ao nosso pessoal quanto para arrasar nossos inimigos! Na próxima semana, nossos aliados começarão a chegar ao Castelo Wachenfeld. Nossos planos, meu jovem Guia, já podem passar do papel para a ação!
Com o ar mais tranquilo do mundo, Chumbinho perguntou:
— Fale-me desses planos, Komandant!
O velho pareceu surpreendido:
— Como? O senhor não está a par de...
Calú apressou-se em ajudar o amigo:
— É claro que o Guia está a par de tudo, seu velho imbecil! O senhor parece que não entende as coisas!
— Eu... quer dizer... eu pensei que...
— Pois pare de pensar e repasse os planos, idiot! Quer fazer o Guia perder tempo?
O alemão tremeu, inseguro, e desculpou-se:
— Nein... É claro... vamos repassar os planos...
Pegou um comprido rolo de papel e desenrolou-o sobre a grande mesa. Era um mapa da América Latina, desde o México até a Patagônia. Círculos negros destacavam as capitais. No Brasil, havia círculos em Brasília, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
— Aqui está, meu Guia. O mapa do futuro IV Reich! Dentro de uma semana, a bandeira com a suástica estará tremulando daqui até aqui! Nossa nova pátria, meu Guia!
Calú já tinha percebido que aquele velho era um demente. A frieza e a crueldade estavam tatuadas em sua expressão, mas faltava uma coisa: inteligência. Com cuidado, era possível enrolá-lo.
— Gut, gut, Herr Komandant! O senhor está ciente de todos os detalhes do plano?
— É claro que sim, jovem Kamerad. Eu sou o Komandant da Organização no...
— Isso eu sei! Quero agora saber se fizemos uma boa escolha ao nomearmos o senhor. Repita, palavra por palavra, todos os detalhes do nosso plano!
O Komandant procurou raciocinar, mas não conseguiu uma explicação satisfatória para a ordem do companheiro do Esperado.
— Quer dizer... repetir tudo? É uma espécie de teste, Kamerad?
A autoridade de Chumbinho, na pele do Esperado, era mais forte que a de Calú aos olhos do velho. Por isso, o mais novinho dos Karas assumiu a farsa:
— Não importa saber de que espécie são as ordens que o senhor recebe! O que importa é obedecer às ordens! Quero que todos os detalhes estejam perfeitamente preparados. Eu não admito erros, Komandant! Faça o que lhe mandam, já!
—Claro... claro, meu Guia... Tudo está muito bem preparado, veja... — seu comprido indicador apontava para o mapa, à medida que falava. — O primeiro grande passo foi fazer contato com todos os grupos que controlam o crime no mundo inteiro...
A cada nova palavra do velho mais se surpreendiam os dois Karas. Para Calú, encontrar o assassino do seu velho professor de teatro parecia agora um objetivo de menor importância diante do que o Komandant dizia.
Durante décadas, os nazistas derrotados tinham ruminado uma forma de voltar ao poder, mas as lições das barbaridades por eles cometidas na Segunda Guerra Mundial haviam criado uma espécie de defesa de todos contra a louca pregação nazista. Até que as frustrações daqueles dementes encontraram um outro tipo de frustração e, consequentemente, encontraram seu perfeito aliado: o crime organizado internacional! Por mais lucro que tenham conseguido os criminosos que controlam a produção e o tráfico de drogas, o jogo, a chantagem e a prostituição em todo o mundo, não era possível comprar paz e tranquilidade para continuar impunemente com suas sinistras atividades.
O velho entusiasmava-se, como se esperasse uma salva de palmas ao fim de cada frase:
— Brilhante, meu Guia! Tanto eles quanto nós precisávamos de uma nova pátria, um lugar onde nossas atividades fossem legais, onde pudéssemos trabalhar sem que ninguém nos incomodasse! Era preciso um novo Estado. Era preciso conquistar uma pátria para o IV Reich!
Então era isso! Um novo Estado, uma pátria do crime, onde o Mal seria o Bem, onde o crime seria a legalidade!
Um enorme território onde a produção e o tráfico de tóxicos fossem uma atividade econômica normal! E o lugar para a instalação dessa pátria era a América Latina! E o Brasil era o centro de tudo! 
— Brilhante, não é, meu Guia? Afinal de contas, o que é o Bem? O que é o Mal? Aquilo que hoje é considerado Bem poderá transformar-se em Mal, se algum governo o proibir. E o Mal se tornará Bem quando todas essas atividades forem permitidas no novo Reich!
Usando de todo o seu talento teatral para impedir as próprias faces de corarem, Calú examinou o mapa e perguntou:
— O IV Reich, Komandant! E o plano da tomada do poder é mesmo genial, não é?
O velho caiu como um patinho:
— Wunderbahr! “Genial”! Na próxima semana, estaremos reunidos com políticos e militares corruptos de todos os países da América Latina, aqui, no Castelo Wachenfeld! Já compramos todos eles com alguns milhões de dólares. Estaremos reunidos com a presença do nosso jovem Guia! Vamos marcar o dia e a hora. Depois, no mesmo momento, serão desfechados golpes de Estado em todos os países da América Latina! Tomaremos o poder ao mesmo tempo, meu Guia! Exatamente como o seu bisavô fazia. Um Blitskriegl “Uma guerra relâmpago”! Wunderbabr!l “Maravilhoso”! Não é, meu Guia?
Chumbinho sentia seu coração bater tão forte que chegou a pensar que o alemão seria capaz de ouvi-lo.
Calú tremeu. A ousadia de Chumbinho ainda acabaria por desmascará-los.
— É claro que sim, idiot! A maior parte dessas ideias foi minha!
O raciocínio de Calú estava um rebuliço. Aquele plano era totalmente louco! Como os nazistas e os líderes do crime internacional pensavam ter sucesso com tamanha maluquice? Por mais dinheiro que tivessem, como poderiam eles esperar que as poderosas nações do planeta aceitassem esse novo Estado?
O Komandant, como se adivinhasse sua dúvida, continuou:
— Com dinheiro, meu Guia, tudo é mais fácil! O dinheiro não tem moral! Todos esses países estão atolados em dívidas com os países ricos. E não têm como pagá-las! E dinheiro é o que não falta para a Máfia e para todas as organizações que exploram as drogas e o crime. Bastará então pagar parte da dívida externa de todos os países! Nem será preciso pagar tudo, não é, meu Guia? Os banqueiros internacionais não existem se não existir quem deva dinheiro para eles! O que eles querem é receber os juros, em dia. E isso nós vamos garantir a eles! Todas as potências vão reconhecer o IV Reich na mesma hora! O crime organizado será oficial! O nazismo voltará ao poder!
Seu braço estendeu-se na saudação nazista e ele terminou, tresloucado:
— Com a vossa liderança, meu Guia, o bisneto do grande Fuhrer, e com o conhecimento do grande segredo, que eu mesmo preparei e protegi durante todos esses anos, o IV Reich reinará sobre a Terra!
Calú raciocinava. A Polícia Federal precisava saber do que estava para acontecer. Mas a sacola com o transmissor havia caído de suas mãos quando ele subira ao helicóptero. Estavam isolados, nas mãos dos loucos mais fanáticos do planeta!
O Komandant respirava ofegante, como se estivesse correndo enquanto discursava. Sua excitação era evidente.
Chumbinho parou de andar pela sala e falou rispidamente:
— Muito bem, Komandant. Tudo está mesmo preparado para a reunião da semana que vem? Virão todos? Os chefes do crime organizado? Os políticos e militares corruptos de toda a América Latina?
— Sim, meu Guia. Todos já confirmaram a presença.
— Certo! Quero agora ver a lista com todos os nomes!
O alemão apalpou o próprio paletó.
— A lista? Claro... está aqui mesmo... Oh, meu Guia, eu deixei a caderneta com os nomes na minha loja... eu...
— Absurdo!O senhor não tem amor à vida, Komandant?
— Eu...
— Quero essa lista, já, já!
O alemão gaguejava:
— Já, meu Guia... vou buscar imediatamente... volto em menos de duas horas... Enquanto o Komandant, com um ar humilde, se voltava para sair da sala, Calú tentava juntar tudo o que sabia até aquele momento.
Quem seria aquele velho? Lembrou-se do relato de Solomon Friedman sobre o campo de extermínio de Sobibor e juntou-o com o grande segredo que conhecera no alto da torre. Olhos vítreos, fanáticos, fixos... Aquela imagem se somava ao pesadelo de milhares de cabeças de crianças judias embalsamadas em Sobibor. Meine Hòlle... Era isso! Aquele homem só poderia ser...
— Um momento, Komandant!
O velho parou e voltou-se para o rapaz.
Calú encarou o velho e jogou sua grande cartada:
— Está tudo muito bem preparado, Komandant. Eu e o jovem Guia conhecemos todos esses detalhes melhor do que o senhor. Nós sabemos de tudo. Sabemos até quem é o senhor!
— Eu? Ora, eu sou o mais fiel dos...
— Sabemos o seu nome verdadeiro, Komandant. O nome que o senhor deixou de usar depois do fim da guerra!
O velho pareceu surpreso:
— Meu verdadeiro nome? Mas ninguém sabe...
— O Guia sabe tudo! O senhor é o SS Leutnant Kurt Kraut!
O alemão não parecia surpreso. Ao contrário, mostrava-se quase como se tivesse sido lisonjeado.
— Brilhante, Kamerad! Eu devia saber que o Guia sabe de tudo, até mesmo o meu verdadeiro nome, que escondi durante todos esses anos! A Organização sempre soube que eu, na verdade, não sou o judeu que represento ser.... Mas nem ela sabia o meu verdadeiro nome. Como SS Leutnant Kurt Kraut, eu lutei até o último minuto da guerra, meu Guia. Estava perto de Brest-Litóvsk quando os malditos soviéticos chegaram. Eu tinha acabado de capturar novamente três judeus que pensavam poder fugir de Sobibor. Para escapar e continuar servindo ao Reich alemão, era preciso usar a cabeça. Eu tatuei o número de um dos judeus no meu braço. Veja!
Arregaçou a manga do paletó e da camisa e mostrou o antebraço esquerdo. Uma série de números estava ali, em azul-escuro, quase negro. A série terminava pelos números 4443.
— Vesti os trapos do judeu e obriguei o desgraçado a vestir a minha farda. Mas uma granada russa impediu que eu acabasse com os prisioneiros. Perdi os sentidos e, quando despertei, disse aos idiotas russos que eu era um fugitivo de Sobibor. Os cretinos acreditaram! Depois, eu consegui fugir para o Brasil e.... bem, foi preciso levar uma vida discreta para não chamar a atenção das malditas organizações judaicas que jogaram a opinião pública contra a grande obra do seu bisavô, meu Guia. Foi um tempo muito duro, meu Guia, muito duro... Para piorar tudo, um dos prisioneiros que eu tinha recapturado em Brest-Litóvsk, um desgraçado de um ator judeu, não morreu naquela noite e veio também para o Brasil. Era a única pessoa que podia me reconhecer. Felizmente, porém, esse judeu não existe mais...
Kurt Kraut não conseguia mostrar-se totalmente feliz com o anúncio da morte de Solomon Friedman. Balançou a cabeça e continuou:
— Ontem, meu Guia, eu estava aliviado por me ver livre do ator judeu que tinha sido o meu fantasma durante tanto tempo. Mas ontem mesmo eu soube que outro dos prisioneiros sobreviveu depois da explosão da granada russa. Viveu na França todos esses anos e agora resolveu aparecer no Brasil. Minha segurança está novamente em perigo, meu Guia. O judeu que veio da França tem o mesmo nome que...
Chumbinho procurava representar o melhor que podia, mas o acúmulo de surpresas estava sendo demais, até para ele. Dominou-se e procurou reforçar a admiração do velho:
— Sabemos de tudo isso, SS Leutnant Kurt Kraut. Sabemos até o nome judeu que o senhor usa. O senhor, aqui no Brasil, é conhecido por Davi Segai!
O Komandant estranhou:
— Davi Segai? Oh, não, meu Guia. Eu uso o nome de Ferenc Gábor!

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