15 de janeiro de 2018

Capítulo 19. Códigos combinados

Na lanchonete da avenida São João, dois rapazes sentados em uma mesinha de canto olhavam ansiosamente para o relógio da parede quando uma garota entrou e sentou-se ao seu lado.
— Miguel ainda não chegou? — perguntou a garota em voz baixa.
— Ainda não — respondeu Crânio, que tinha o nariz deformado pela massa plástica de maquiagem. — Nós estávamos preocupados com você. São quase nove horas!
— Você encontrou o Bino? — perguntou Calú.
— Não, mas tenho uma pista.
Em poucas palavras Magrí relatou a morte do Bronca e a história do curativo no dedo. Por fim, estendeu o dedal de esparadrapo e gaze para Calú:
— Veja você, Crânio —disse Calú, que não conseguia acostumar-se com os enormes óculos que usava como disfarce.
Crânio abriu cuidadosamente o curativo, que já estava imundo depois de rolar mais de um dia em várias mãos. Dentro dele descobriu um papelzinho enrolado.
— Só pode ser a letra do Chumbinho — observou Magrí. — Mas não dá pra entender nada.
Os três leram ansiosamente, enquanto Crânio transcrevia a mensagem em letras maiores num guardanapo de papel da lanchonete. O texto era a coisa mais confusa do mundo:

Dsenterginis dinis Enterbomberdaisômberlcaisinis:
Tombersaisgenter! Inis chinisvomber ómber
Minissaisufterr Cinisrtómbersaisdomberr

— Parece o nosso Código Vermelho — observou Magrí. — Mas não faz sentido...
Crânio sorriu:
— Esse Chumbinho é mesmo uma figura! Você tem razão, Magrí. Aqui tem o Código Vermelho. Só que, por segurança, o danado do Chumbinho usou dois códigos combinados! Vamos traduzir primeiro o Código Vermelho.
Em outro guardanapo, Crânio escreveu o Código Vermelho dos Karas:
A = ais
E = enter
I = inis
omber
ufter
Agora, era só substituir aqueles sons estranhos pelas vogais correspondentes:
— Hum... deixa ver. Dsenterginis... dá dsegi... Feita a tradução, a mensagem ficou assim:

Dsegi di Ebodaôlcai: Tosage!
I chivo ó Mísaur Cirtósador.

— Bem bolado! —aplaudiu Calú. —Aposto que agora basta aplicar o Código Tenis-Polar!
Era isso mesmo. Para decifrar o código, bastava escrever a palavra tênis sobre a palavra polar, de modo que o correspondesse ao e assim por diante. Depois, era só substituir uma letra pela outra. Crânio escreveu em outro guardanapo:
— Dsegi. D não tem código, fica mesmo; é igual a r; e é igual a o; g também não tem código, fica mesmo; e é a. Pronto! Temos a primeira palavra!
No guardanapo, estava escrita a palavra Droga.
— Droga? Estamos na pista certa. Vamos ver o resto.
Em pouco tempo, a mensagem de Chumbinho estava traduzida:
Droga da Obediência: Perigo! A chave é Márius Caspérides.
— Boa, Chumbinho! — Se o menino estivesse ali, na certa ganharia um beijo da Magrí. Calú começou a compreender:
— Quer dizer que aquela droga que deixa as pessoas com cara de idiota é a Droga da Obediência?
— É... — concordou Crânio. — E, pelo nome, dá até para ter uma ideia do que representa essa porcaria. Droga da Obediência! Por isso o Bronca estava tão bonzinho, não é? Tão obediente, tão bom menino...
— Só que agora o Bronca está morto! — lembrou Magrí, com um nó na garganta.
— Droga da Obediência... obediência... morte! — raciocinou Crânio em voz alta. — Uma droga que reduz as pessoas à obediência absoluta!
— Aposto que muitos pais e professores bem que gostariam de contar com um pouco dessa droga, né?
— Não caçoe, Calú! A coisa é muito séria. Estamos lidando com gente que sequestra estudantes, que os usa como cobaias! — ralhou Crânio.
— Que os mata! — acrescentou Magrí.
— E quem será essa “chave”? Quem será Márius Caspérides?
— Já ouvi esse nome — informou Crânio. — É um cientista, um bioquímico, se não estou enganado. Acho que li alguma coisa a respeito dele. Na última reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência ele apresentou uns estudos sobre engenharia genética aplicada ao tratamento de doenças psiquiátricas graves, ou qualquer coisa do gênero.
— Um bioquímico? — perguntou Magrí. — Então vai ver ele sabe alguma coisa sobre essa Droga da Obediência.
— Vamos procurá-lo, então! — decidiu Calú.
— Mas, como encontrá-lo?
Crânio saiu-se com um sorriso misterioso:
— Eu tenho um método científico e infalível para resolver um problema como esse!
— É mesmo? E qual é o método?
— Procurar na lista telefônica! — brincou o gênio dos Karas.

* * *

Foi fácil encontrar o endereço do bioquímico Márius Caspérides na lista telefônica da lanchonete. Ficou decidido que Magrí e Crânio iriam procurá-lo.
— E Miguel?
— Talvez tenha ido para o esconderijo secreto — supôs Calú. — Eu vou para lá. Descubram o tal bioquímico e me encontrem no esconderijo.

* * *

Calú foi sozinho num táxi. No outro, ia um garoto muito inteligente e muito feliz: Magrí deixara-se abraçar e foi a viagem toda com a cabecinha repousando no ombro de Crânio...

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!