20 de janeiro de 2018

Capítulo 18. Uma canção morre no mar

O operador da torre do aeroporto de Corumbá não acreditava no que via. Um velho C-47 rosa-choque aproximava-se para o pouso, numa rota perfeita. E estava sendo pilotado por um garoto! Carros de bombeiros, ambulâncias e todo o pessoal disponível estavam na pista, preparando-se para um grande acidente.
Com os flaps abaixados no ângulo exato, o trem de aterrissagem do C-47 tocou o asfalto. Foi um pouso perfeito. Os freios foram acionados na hora certa, e o bojudo avião taxiou normalmente, como se aquele pequeno piloto nunca tivesse feito outra coisa na vida!
O detetive respirou aliviado. Já ia levantar-se quando Calu cochichou alguma coisa em seus ouvidos. Andrade pegou o fuzil M-16 e postou-se em último lugar para o desembarque. O helicóptero pousou na grama, ao lado do avião.
Quando a porta do C-47 foi aberta, Miguel já estava à espera. Atrás dele, o Senador e o tenente, seguidos pelo pessoal de socorro, que cercava o avião. Os empregados do aeroporto encostaram a escada de desembarque. Quando a carinha marota de Chumbinho apontou, a pequena multidão hesitou por um instante. Depois prorrompeu em aplausos, como se o menino fosse um astro de música popular.
Uma euforia descontrolada espalhava-se pela pista, quando Andrade interrompeu a alegria. Levantou o fuzil e apontou-o para o grandalhão.
— Senador, o senhor está preso!
Como se tivesse havido uma combinação, o motor do helicóptero foi cortado naquele momento. Todos silenciaram, sem compreender o absurdo de um desconhecido apontar uma arma para o homem mais respeitado do Pantanal. A expressão do Senador não foi de surpresa. Nem tão pouco de culpa. O Senador parecia mesmo era ofendido. O tenente de bigode deu uma gargalhada:
— Ora... O senhor é o detetive Andrade, de São Paulo, não é? Mas que ideia é essa de vir aqui, dar voz de prisão logo ao Senador, o cidadão mais conhecido de todo o Estado? Temos as nossas diferenças, mas o Senador é... bem, o Senador é o Senador! Calu e Crânio ladeavam Andrade. Crânio falou primeiro:
— Não. O Senador é também O Ente!
— E seu verdadeiro nome é Mike Sierrabrava! — acrescentou Calu.
O Senador nada disse. Não esboçou a menor defesa. Estava lívido, como um cavaleiro medieval que tivesse sido esbofeteado pela luva de um desafiante.
— Mike Sierrabrava? — espantou-se o tenente. — Que história é essa? O Senador é o comandante das forças federais que combatem o crime aqui no Pantanal! Eu sou da polícia do Estado, pobre e mal aparelhada. Temos divergido, mas é porque cada um de nossos grupos quer chegar primeiro nessa corrida contra o crime. Eu e ele sabemos que nosso principal inimigo, por aqui, é o Ente. Por isso é um absurdo pensar que...
Crânio voltou-se para Calu:
— Como descobriu esse nome? Mike Sierrabrava?
— O piloto baleado que falou em você, Ele disse também que o Ente é Mike Sierrabrava...
Magri, Chumbinho, Miguel e tia Matilde a tudo assistiam sem interferir. Um clima de tensão tomava conta de todos.
— Alguém quer me explicar o que está acontecendo? — o tenente estava perdendo o bom humor. — Detetive Andrade! Explique-se ou baixe essa arma!
— Não tenho nada a explicar. Se Crânio diz que o Senador é o Ente, ele deve estar certo!
— Deixe que eu explico! — apresentou-se Calu. — O Ente se esconde sob o mais perfeito disfarce, aqui no Pantanal. E que disfarce mais perfeito do que a pele do cidadão mais respeitável do Estado, no comando de uma operação montada para descobrir ele mesmo?
— Uma operação sediada em uma fazenda onde não há mulheres nem crianças! — acrescentou Crânio. — Só homens. Jovens e treinados. Uma comunidade de bandidos do crime organizado!
— Nada disso, garoto! — replicou, o tenente. — Uma comunidade de soldados. De policiais!
— Descobrimos a verdadeira significação do nome do chefão — cortou Calu.
— Ente. É a pronúncia de ant, que quer dizer “formiga”, em inglês. O crime organizado age acobertado pela lenda dos Formigas-paradas que...
Crânio impediu o amigo de continuar.
— Não, Calu. O Ente nada tem a ver com os Formigas-paradas. Eu estive com eles. Eles são aquele grupo de velhos índios que nos salvaram no acampamento do Centurião. Mas quanto ao resto você está...
— Errado!
O grito pegou todos de surpresa, principalmente os acusadores. Era Miguel.
O líder dos Karas avançou para o centro da roda, ficando entre o cano do fuzil empunhado por Andrade e o Senador.
— Sinto muito, Calu. Sinto muito, Crânio. Mas vocês estão errados.
— Errados? Mas como, Miguel? O Senador me prendeu, deu um jeito para afastar Crânio das investigações...
— Foi na fazenda do Senador que a caixa de slides do professor Elias desapareceu. Ele sabia que eu estava na pista certa!
— Nada disso tem a menor importância. Nada disso prova nada. No Pantanal, o Ente é sinônimo do ouro da Máfia. Nada poderemos provar enquanto não mostrarmos onde está esse ouro.
— Isso todos nós queremos saber, garoto!
— Certo, tenente. Mas isso eu sei!
— Como?! — até Andrade se espantou. — Desde quando você sabe?
— Acabei de encontrar a última peça do quebra-cabeça, nesta manhã, quando este avião colorido passou por cima de nossas cabeças. Temos de raciocinar sobre as palavras do piloto assassinado.
Crânio estava queimando por dentro. Não podia admitir ser acusado de um raciocínio errado na frente de todo mundo.
— Bezerra viu os slides do professor Elias. Eu o fiz descrevê-los, sob hipnose. Elias fotografou um avião dos contrabandistas, lá naquele aeroporto clandestino, provavelmente sendo carregado com muambas. Ele falou do avião, brilhando ao sol… sol vermelho... sol amarelo... Ninguém percebe que avião é esse? É o Tucano amarelo do Senador! Elias fotografou o avião do Senador, no aeroporto clandestino, carregando as muambas da Máfia!
Miguel sorriu de leve. Sua teoria se confirmava.
— Ele falou em Mike Sierrabrava lá no acampamento dos bandidos?
— Não. Ele não falou nada disso.
— Então podemos supor que esta foi uma nova informação que o piloto obteve depois que se separou de você. Certamente durante o tempo em que flutuava naquele barco, esperando a morte. Ele viu alguma coisa. E eu sei o que ele viu.
Andrade estava sendo contagiado pela impaciência reinante.
— Fale logo, Miguel. Isso já está indo longe demais...
Miguel prosseguiu, sem se apressar.
— Todos estão se esquecendo de um detalhe muito importante. Bezerra era um piloto.
— E daí?
— E daí que existe uma linguagem internacional entre os pilotos, na hora de citar iniciais, para que não haja confusão nos contatos pelo rádio. Eles não dizem “a”, dizem “alfa”. Não dizem “z”, dizem “zulu”. Não dizem “h”, dizem “hotel”. Não dizem “m”, dizem “mike”!
Todos olharam o avião rosa-choque. Pintado em preto sobre o rosa da fuselagem, o prefixo PT-MSB!
— Aí está! — Miguel mostrava-se triunfante. — Papa-tango-mike-sierrabravo, e não Mike Sierrabrava! O piloto Bezerra reconheceu este avião em sua última viagem pelo rio Taquari. Era o mesmo avião que o professor Elias fotografou! Não era o avião amarelo, era o avião cor-de-rosa!
— O meu avião? — protestou tia Matilde. — O que o meu avião tem a ver com tudo isso?
— Seu avião estava lá, na semana santa, no aeroporto clandestino, brilhando ao sol! Sol amarelo... sol vermelho... Sol rosa-choque!
— Que besteira, rapaz! — interferiu o tenente. — Não force a barra, bancando o detetivezinho nas horas vagas! O que a cor do avião tem a ver com isso! Como disse  o Crânio, poderia até ser o avião do Senador. Um Tucano amarelo como gema de ovo, Poderia ser qualquer avião!
— Não! Só poderia ser este avião! Só este tem o prefixo mike-sierra-bravo!
Tia Matilde ficou aflita.
— Quer dizer que... que alguém andou fazendo contrabando com meu aviãozinho? Pepino! Aquele bandido! Só pode ter sido ele!
— O problema é maior que somente contrabando, tia Matilde. Bem maior que as peles dos jacarés assassinados aos milhões. Sol amarelo... sol vermelho... Vejam!
Miguel tomou o fuzil das mãos de Andrade e arranhou com força a fuselagem do avião, fazendo o barulho irritante do riscar de um giz na lousa. Sob a camada de tinta cor-de-rosa, um brilho amarelo surgiu.
— Aí está! O ouro da Máfia!
Miguel arranhou mais a pintura, aumentando a certeza e a surpresa de todos.
— O avião é todo de ouro! Toneladas de ouro voando pelo Pantanal, todo esse tempo! Quem desconfiaria? Que melhor esconderijo do que esse para a riqueza do crime organizado? As placas de aço originais foram substituídas por placas de ouro puro! Foi isso que o professor Elias fotografou: um avião todo de ouro enquanto estava sendo pintado de rosa-choque! Sol amarelo: o ouro! Sol vermelho: o rosa sendo pintado!
Tia Matilde tremia da cabeça aos pés.
— Pepino! Desgraçado! Como pôde fazer tudo isso?
Miguel calou-se. Ele e
Crânio entreolharam-se. O gênio dos Karas percebeu o erro em que incorrera. Agora compreendia tudo. O que tinha de ser dito a seguir era mais duro. E cabia a Crânio a parte mais difícil. Não erraria mais.
— Entendi, Miguel. Deixe o resto comigo.
— Meu sobrinho! Viu o que fizeram com sua tia?
Crânio aproximou-se de tia Matilde. Passou o braço por seus ombros, consolando-a.
— Pepino era mesmo um assassino, tia. Magri me contou tudo, lá no avião. Se não fosse Calu, estaríamos todos no fundo do mar a esta hora. Mas Pepino não agia por sua própria cabeça. Era um empregado deste Ente, que deve ser varrido do Pantanal. Pelo rádio, ao falar com o Centurião, Pepino disse que o Ente estava com um garoto metido e corria o risco de ser desmascarado. Calu supôs, na hora, que Pepino falava de Miguel, que palmilhava o Pantanal junto com o Senador, seguindo as pistas deixadas por Magri. Quando Magri me contou essa conversa, minhas suspeitas contra o Senador se reforçaram. Mas Pepino não se referia a Miguel, referia-se a Calu! Era Calu o garoto metido que estava indo para o acampamento junto com o Ente. Ele estava indo de avião!
— O que você está dizendo, meu sobrinho?
— Por que o Centurião e Pepino pretendiam impedir a decolagem abrindo uma cratera na cabeceira da pista? Por que não colocaram logo a dinamite debaixo do avião? É tudo muito claro! Eles não podiam mandar o Ente pelos ares!
Crânio afastou-se alguns passos de tia Matilde e encarou-a.
— Tia Matilde! Tia! “Ente” não é apenas a pronúncia de ant, que quer dizer “formiga”, em inglês. “Ente” é também a pronúncia de aunt, que quer dizer “tia”, em inglês! Tia! Tia Matilde, a tia de todo o Pantanal! Tia Matilde: o Ente! O tesoureiro do crime organizado internacional! Pode prendê-la, Andrade!
O rapaz estendeu o fuzil M-16 para o detetive, mas tia Matilde foi mais rápida. Com uma agilidade inesperada para seus sessenta anos, saltou como um tigre entre os dois.
— Quietos, meus queridos! Esta arma já fez muito estrago no Vietnã. Não quero que agora ela seja obrigada a fazer a mesma coisa no Pantanal...
Agilmente subiu para o C-47. Da porta empurrou a escada com o pé. Como se estivesse achando tudo aquilo muito divertido, Crânio perguntou alto, sorrindo abertamente:
— É claro que a senhora sabe pilotar, não é, tia Matilde?
— É claro, sobrinho! Não falei isso antes para dar um dia de glória ao seu amigo! Afinal, nunca haverá dois garotos que possam se gabar de ter pilotado um avião de ouro maciço, não é? Adeus, meu querido. Pena que você tenha passado tão pouco tempo com sua tia nestas férias. Da próxima vez, quem sabe? Lembranças em casa!
A porta fechou-se. Em um minuto, os motores do C-47 estavam em funcionamento. O Senador correu para o rádio do helicóptero e sintonizou a frequência do C-47.
— Tia Matilde! Tia Matilde! Entregue-se! Não adianta tentar fugir. Não haverá lugar no mundo em que a senhora possa pousar sem ser presa na mesma hora. Entregue-se, tia Matilde!
Crânio estava de cabeça erguida. Estivera errado todo o tempo e, no final, coubera a ele mesmo desmascarar a própria tia.
— Minha teoria estava errada. Mas eu não tinha todos os dados, né?
A seu lado, Miguel sorria e estendia-lhe alguma coisa na palma da mão.
— Encontramos isso por aí. Por acaso não é sua? Uma gaitinha de boca brilhava ao sol.
O gênio dos Karas abraçou-se ao amigo, amigo, longamente...

* * *

O C-47 foi chamado pelo rádio durante quase duas horas. Tia Matilde sobrevoara a cordilheira dos Andes, e continuava para oeste, em direção ao oceano Pacífico. O combustível já devia estar no fim, quando pela primeira vez se ouviu umaresposta às chamadas de rádio. A estática de transmissão entrou pelos alto-falantes do aeroporto de Corumbá e todos puderam ouvir, claramente: Somewhere over the rainbow, way up high... way up high there's a land that I heard once in a lullaby...
Cantando, tia Matilde levava o ouro da Máfia para o fundo do Pacífico... Em algum lugar, além do arco-íris...

* * *

Esperavam a chamada para o embarque de volta a São Paulo. Embora sob o calor de Mato Grosso, Andrade não suava nem um pouquinho. Em volta da mesa da lanchonete, cercado pelos cinco Karas, ouvia o Senador comentar as últimas informações da Interpol, recebidas por telex:
— Tia Matilde era tia de todo mundo e não era tia de ninguém. Dizem que foi uma jovem lindíssima. Já estava viúva de um irmão do avô de Crânio quando foi para os Estados Unidos casar-se com Don Vitório, um dos mais poderosos capomafiosos do mundo!
— Herança de macarrão! — gozou Magri. — Tia Matilde herdou foi a fortuna criminosa do marido e todo o seu poder. A tia-fazendeira do Pantanal! Alegre, espalhafatosa e toda envolvida em sua cor preferida. Que disfarce melhor para o Ente? Quem haveria de desconfiar dela?
“Só mesmo estes meus queridos garotos!” — pensou Andrade, orgulhoso como um pai.
— Bem, o importante é que desbaratamos o crime organizado, pelo menos por ora — continuou o Senador. — Meus homens invadiram a fazenda Rosa-Pink, por terra e pelo ar, e conseguimos prender a turma toda.
— No fim das contas — avaliou Crânio — acabei não conhecendo a famosa fazenda de tia Matilde, Senador.
— A Fortaleza Cor-de-rosa do Crime! — apelidou Chumbinho. — Melhor mesmo não conhecer...
Crânio olhou para os curativos das mãos, já quase curadas, e sentiu-se na obrigação de pedir desculpas ao Senador.
— E eu, que julguei aquele seu discurso, no avião amarelo, como mais uma forma de encobrir o disfarce do tal Ente... Me enganei redondamente, Senador. Estou envergonhado...
— Não há razão para isso, garotão. Afinal, vocês resolveram todo o caso, apesar de as acusações terem começado pelo lado errado. Acho que a minha cara não inspira muita confiança. Todos vocês desconfiaram de mim...
— Miguel não desconfiou! — Magri olhava com carinho para o líder dos Karas.
— De todo esse mistério — Miguel mudou de assunto meio sem jeito — vai restar sempre uma dúvida. Como desapareceu a caixa de slides do professor Elias lá na sua fazenda, Senador? — perguntou Miguel.
— Se os slides foram roubados por algum agente da Máfia infiltrado na fazenda — supôs Magri — certamente foram entregues à tia Matilde, A esta hora devem estar no fundo do Pacífico, junto com o ouro.
— Mas que velha danada! — riu Chumbinho. — Quem poderia desconfiar dela? Quando Crânio foi capturado ela fez questão de liderar as buscas, para afastar todo mundo do acampamento do Centurião.
— E, no avião rosa-choque, ela representou melhor do que eu! — lembrou Calu. - Quando Pepino veio propor o falso ataque ao acampamento do Centurião, a velha representou como uma profissional. Nem eu desconfiei!
— A conta é minha! — exigiu o Senador, com aquela voz impressionante, arrancando a conta da lanchonete das mãos do detetive. — Mas vocês têm de me explicar por que temos de esconder da imprensa, de todo mundo a atuação brilhante de vocês nesse caso!
— Para todos os efeitos, Senador, eu estou de férias — explicou Andrade — E os garotos não gostam de publicidade. Queremos que essa vitória seja toda sua!
— Eu não preciso de glória, detetive Andrade. Eu preciso do Pantanal. Eu preciso deste paraíso, vivo, cheio de jacarés, e com os índios caçando livremente por entre as arvores. A glória não vai me devolver os ninhais destruídos não vai salvar a cultura indígena, não vai combater as piranhas e repor os jacarés assassinados.

* * *

No alto da árvore, Cabo Malandro estava aborrecido. Aquela caixa não continha amendoins, nem biscoitos. Aquelas porcarias quadradinhas eram duras e tinham um gosto horrível! Chateado, o macaquinho começou a jogar os slides no rio, um a um.

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