15 de janeiro de 2018

Capítulo 18. O perigoso espiãozinho

Depois de enfiar o curativo com a mensagem no dedo do cadáver do Bronca, Chumbinho foi arrastado aos trancos por um corredor. Vários empregados falavam nervosamente ao seu redor, enquanto dois deles agarravam seus braços e os mantinham torcidos às costas.
Chumbinho não deixou escapar um só gemido. Era um Kara. Naquele momento, ele não pensava no que poderia acontecer consigo mesmo. Só tinha pensamentos para o colega assassinado e para a esperança de que sua mensagem fosse encontrada por um dos Karas.
No fim do corredor, o menino foi empurrado para dentro de uma sala. Jogaram-no numa cadeira, e os dois empregados que o haviam trazido ficaram ao lado, cada um segurando pesadamente Chumbinho por um ombro, como se ele fosse capaz de escapar voando pela janela Um dos homens dirigiu-se a um televisor igual àquele em que o menino tinha visto Márius Caspérides discutir com o Doutor Q.I.
A silhueta sinistra apareceu no vídeo do intercomunicador e o empregado começou a relatar o que tinha acontecido.
— ... algo estranho com duas das cobaias, Doutor Q.I. Nesta manhã...
Chumbinho tentou raciocinar depressa e prever as consequências do seu ato. Ele tinha sido apanhado em flagrante e agora tudo podia acontecer.
— ... são justamente os dois do Colégio Elite, Doutor Q.I....
Os empregados tinham visto ele e Bronca conversando. Logo, estava claro que os dois não tinham tomado a dose matinal da droga.
— ... certamente os dois não estavam sob o efeito da Droga da Obediência, Doutor Q.I....
Então era lógico para os bandidos que ele tinha impedido o Bronca de tomar a droga e seria punido por isso.
— ... estavam discutindo no banheiro. Foi aí que a cobaia número 19 saiu correndo feito um louco... Qual seria a punição? Chumbinho imaginava que a sua atitude de espião deveria representar um enorme perigo para a organização. E o que eles fazem com os espiões? O menino engoliu em seco ao lembrar-se das cenas de fuzilamento nos filmes de guerra.
— ... tivemos de atirar, não houve outro jeito. A cobaia número 19 está morta. Já mandei abandonar o cadáver, como planejamos. Quanto à cobaia número 20... Agora era a sua vez. Ele tinha causado aquela confusão toda e... Não! Havia um jeito. Ele tinha de representar de novo. Quem sabe conseguiria salvar a pele?
Do vídeo, veio a voz filtrada, tenebrosa, do Doutor Q.I.:
— Incompetência! Incompetência! Tudo o que eu vejo é incompetência. Vocês não se certificaram de que todas as cobaias tomassem o reforço da droga?
— Na verdade não, Doutor Q.I. — desculpou-se o funcionário. — As cobaias têm se comportado direitinho nesses dois meses. Executam todas as ordens sem discussão, tomam os reforços da droga sem necessidade de vigilância. Deixamos a bandeja com a droga no dormitório, como fazemos todas as manhãs. Ordenamos às cobaias que tomassem a droga e...
— Mas por que as cobaias 19 e 20 não tomaram? Vocês podem explicar isso.
— Bem, Doutor Q.I., eu...
A figura da tela do intercomunicador berrou para Chumbinho:
— Garoto! Por que você não tomou o remédio? Chumbinho começou com o seu teatro:
— Ahn? Onde estou? O que está acontecendo? Eu estava no colégio, falando com o Bino. Ele me deu uma coisa para experimentar... Disse que era ótimo... aí só me lembro de estar num banheiro, com o Bronca falando pra gente fugir... Onde estou? Quero ir pra casa!
Do vídeo, a voz veio mais baixa, quase paternal:
— Você já vai pra casa, menino. Vai só tomar um remedinho, e logo vai pra casa...
Chumbinho viu o empregado estender-lhe um comprimido e um copo d'água.
A Droga da Obediência! E agora? Todos estavam olhando para ele e não haveria jeito de fingir que tomava a droga. Ele era obrigado a tomar o comprimido, de verdade!
— Um remédio? — balbuciou o menino. — Depois eu vou pra casa?
— Vai sim, garoto. Agora tome o remédio.
Tentando disfarçar seu temor, Chumbinho pegou o comprimido.
Colocou-o na boca e tomou um gole d'água. Seus olhos se fechavam quando ele ouviu a voz metálica falar com brutalidade:
— De agora em diante, quero vigilância total sobre as cobaias. Não admito mais enganos! Levem esse moleque para junto dos outros!
Chumbinho deixou-se levar, molemente, como um boi que vai para o matadouro.

* * *

O Doutor Q.I. estava furioso quando desligou o intercomunicador. Mas sua zanga foi distraída pela manchete do jornal que estava à sua frente:
Mais dois estudantes do Elite desaparecem misteriosamente.
O comandante da Pain Control franziu as sobrancelhas e leu avidamente a matéria. Ali estava a lista completa dos seis desaparecimentos do Elite: Bronca, Chumbinho, Miguel, Calú e agora Magrí e Crânio.
Ele sacudiu a cabeça, tentando entender. Em seguida, apertou um botão do intercomunicador e deu uma ordem.
— Localizem nosso agente escolar. Quero falar com ele pelo intercomunicador.

* * *

O falso estudante estava na frente do vídeo. Mas estava totalmente modificado. Até a cor do seu cabelo era diferente. Só pelo olhar é que dava para ver que era mesmo o safadinho do Bino.
— Você tem agido bem até agora — cumprimentou a voz autoritária do Doutor Q.I. — Mas eu tenho razões para acreditar que houve quebra na nossa segurança.
— Quebra na segurança? — espantou-se Bino. — Eu posso garantir que...
— Não me interessam as suas garantias. Ouça com atenção e não discuta. Eu tenho uma missão muito importante para você. Trata-se de quatro garotos... O oferecedor da Droga da Obediência ouviu as ordens. O que ele devia fazer tinha de ser feito naquele mesmo dia.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!