29 de janeiro de 2018

Capítulo 17

Os primos de Nesryn estavam fora na escola quando ela bateu na porta externa da adorável casa dos tios no bairro Runni. Da rua empoeirada, a única visão da casa além dos muros altos e grossos era o portão de carvalho esculpido, reforçado com ferro trabalhado.
Mas quando este se abriu sob as mãos de dois guardas que acenaram na mesma hora, revelou um grande pátio sombreado de pedra pálida, flanqueado por pilares cobertos por buganvílias magentas e uma fonte alegre embutida com vidro marinho em seu centro.
A casa era típica de Antica e do povo Balruhni de quem Nesryn e sua família descendiam. Há muito ajustado aos climas do deserto, todo o edifício tinha sido erguido em torno do sol e do vento: as janelas externas nunca expostas do calor vindo do sul, as torres estreitas que captavam o vento no topo da construção voltadas para o oriente arenoso para manter os cômodos abaixo sempre ventilados. Sua família não tinha a sorte de ter um canal correndo abaixo da casa, como muitos dos mais ricos de Antica, mas com as plantas altas e os toldos de madeira esculpidos, a sombra mantida nos níveis públicos mais baixos ao redor do pátio era o suficiente durante o dia.
De fato, Nesryn respirou profundamente enquanto atravessava o lindo pátio, sua tia cumprimentando-a.
— Você já comeu?
Ela tinha comido, mas Nesryn respondeu:
— Me guardei para sua mesa, tia. — Era uma saudação comum halha entre a família – ninguém visitava uma casa, especialmente na família Faliq, sem comer. Pelo menos uma vez.
Sua tia – ainda uma mulher bonita, cujo nascimento de quatro filhos não diminuiu sua beleza nem um pouco – assentiu com a aprovação.
— Eu disse a Brahim ainda esta manhã que o nosso cozinheiro é melhor que os que estão no palácio.
Um bufo de diversão um andar acima, da janela com tela de madeira com vista para o pátio. O escritório de seu tio. Uma das poucas salas comuns no segundo nível, geralmente privado.
— Cuidado, Zahida, ou o khagan pode ouvi-la e levar nosso velho cozinheiro para seu palácio.
Sua tia revirou os olhos para a figura vagamente visível através da tela de madeira ornamentada e passou o braço pelo de Nesryn.
— Bisbilhoteiro. Sempre espiando nossas conversas aqui embaixo.
Seu tio riu, mas não fez mais comentários.
Nesryn sorriu, deixando sua tia levá-la para o interior espaçoso da casa, passando pela estátua curvilínea de Inna, Deusa das Famílias Pacíficas e do povo Balruhni, com os braços levantados em recepção e defesa.
— Talvez o cozinheiro do palácio seja o motivo pelo qual os membros da realeza estão tão magros
Sua tia expirou, acariciando a barriga.
— E não duvide por que ganhei tantas camadas esses anos — ela deu uma piscadela a Nesryn. — Talvez eu devesse me livrar do velho cozinheiro, afinal.
Nesryn beijou a bochecha suave de pétala da tia.
— Você está mais bonita agora do que quando eu era criança. — E ela realmente pensava isso.
Sua tia acenou em dispensa, mas ainda sorria quando entraram no interior fresco da casa própria. As colunas seguiam pelo teto alto ao longo do corredor, as vigas de madeira e os móveis esculpidos e moldados com as exuberantes flora e fauna de sua terra distante, há muito tempo. Sua tia a conduziu mais profundamente pela casa do que a maioria dos hóspedes jamais veria, até o segundo pátio menor na parte de trás. O da família, na maior parte ocupado por uma mesa comprida e cadeiras logo abaixo da sombra de um toldo. A esta hora, o sol estava do lado oposto da casa, precisamente por isso que a tia escolhera o local.
Sua tia a guiou para um assento adjacente à cabeceira da mesa, o lugar de honra, e apressou-se a informar o cozinheiro para trazer refrescos.
No silêncio, Nesryn ouviu o vento sussurrando através do jasmim serpeando na parede para a varanda acima. Era a casa mais serena que ela já tinha visto, especialmente em comparação com o caos da casa de sua família em Forte da Fenda.
Uma dor apertou seu peito, e Nesryn esfregou-o. Estavam vivos; eles tinham saído.
Mas não saia onde estavam agora. Ou o que eles poderiam enfrentar nesse continente cheio de tantos terrores.
— Seu pai fica com o mesmo olhar quando pensa demais — comentou seu tio por trás dela.
Nesryn girou em sua cadeira, sorrindo levemente quando Brahim Faliq entrou no pátio. Seu tio era mais baixo do que seu pai, mais magro, principalmente graças a não assar sobremesas para seu sustento. Não, seu tio ainda era atraente para um homem da sua idade, o cabelo escuro salpicado de prata, ambos talvez devido à vida mercante que o mantinha tão ativo.
Mas o rosto de Brahim... era o rosto de Sayed Faliq. O rosto de seu pai. Com menos de dois anos separando-os, alguns pensavam que eles gêmeos quando cresciam. E foi a visão desses traços, o rosto ainda bonito que fez a garganta de Nesryn se apertar.
— Um dos poucos traços que herdei dele, parece.
De fato, onde Nesryn era silenciosa e propensa à contemplação, o riso crescente de seu pai tinha sido tão constante em sua casa quanto o alegre canto e riso de sua irmã.
Ela sentiu seu tio estudando-a enquanto pegava um lugar do outro lado, deixando o cabeceira da mesa para Zahida. Os homens e as mulheres governavam a família em conjunto, sua regra conjunta tratada como lei por seus filhos. Nesryn certamente tinha caído da linha, embora sua irmã... ela ainda podia ouvir as discussões entre sua irmã e seu pai enquanto Delara crescia e ansiava por independência.
— Para a Capitã da Guarda Real — refletiu seu tio — estou surpreso que tenha tempo de nos visitar tantas vezes.
Sua tia bamboleou para perto, trazendo uma bandeja de chá de menta gelado.
— Calado. Não reclame, Brahim, ou ela parará de vir.
Nesryn sorriu, olhando entre eles enquanto sua tia lhes servia um copo de chá, colocava a bandeja na mesa entre eles e reclamava o assento na cabeceira da mesa.
— Pensei em vir agora, enquanto as crianças estão na escola.
Outro dos muitos decretos maravilhosos do khaganato: cada criança, não importava quão pobre ou rica, tinha o direito de frequentar a escola. De graça. Como resultado, quase todos no império eram alfabetizados, muito mais do que Nesryn poderia dizer de Adarlan.
— E aqui estava eu — disse seu tio, sorrindo com ironia — esperando que você voltasse a cantar para nós. Desde que nos deixou no outro dia, as crianças estão cantando suas canções como gatos de rua. Eu não tenho coração para dizer-lhes que suas vozes não são tão afinadas quanto a de sua estimada prima.
Nesryn riu, mesmo quando seu rosto se aqueceu. Ela cantava para poucos – apenas para a família. Nunca havia cantado para Chaol ou alguém, ou mesmo mencionara que a voz dela era... mais do que boa. Não era algo que poderia ser facilmente abordado em conversa, e os deuses sabiam que os últimos meses não foram favoráveis ao canto. Mas ela se viu cantando para seus primos na outra noite, uma das músicas que seu pai lhe ensinara. Uma canção de ninar de Antica. No final, os tios haviam se abraçado, um olhando nos olhos do outro... bem, agora não havia como voltar atrás, havia?
Provavelmente seria provocada por isso até que não abrisse mais a boca.
Quem dera ela tivesse ido ali só para cantar. Ela suspirou, preparando-se.
No silêncio, seus tios trocaram olhares. Sua tia perguntou calmamente:
— O que foi?
Nesryn tomou um gole do chá, considerando suas palavras. Eles, pelo menos, lhe deram o presente de esperar que ela falasse. Sua irmã já estaria sacudindo seus ombros, exigindo uma resposta.
— Houve um ataque na Torre na outra noite. Uma jovem curandeira foi morta por um intruso. O assassino ainda não foi encontrado.
Não importava que ela e Sartaq houvessem vasculhado os poucos esgotos e canais abaixo de Antica na noite anterior, não encontraram um único caminho para a Torre; nem qualquer sinal de um ninho de valg. Tudo o que eles descobriram foram o típico cheiro horrível e ratos correndo sob os pés.
Seu tio preguejou, atraindo um olhar de sua tia. Mas até mesmo ela esfregou o peito antes de perguntar:
— Nós ouvimos os rumores, mas... você veio nos alertar?
Nesryn assentiu.
— O ataque se alinha com as técnicas dos inimigos em Adarlan. Se eles estiverem aqui, nesta cidade, temo que tenha conexão com a minha chegada.
Ela não ousou contar demais para eles. Não por falta de confiança, mas por medo de quem pudesse estar ouvindo. Desse modo, eles não saberiam sobre os valg, ou Erawan, ou as chaves.
Eles sabiam de sua missão de criar um exército, pois não era segredo, mas... ela não arriscava em contar-lhes sobre Sartaq. Que ele e seu rukhin poderiam ser o caminho para ganhar o apoio do khagan, que seu povo poderia saber algo sobre os valg, saber como lidar com eles. Ela nem se arriscou a lhes dizer que montou a ruk do príncipe. Não que eles realmente fossem acreditar. Bem de vida como sua família poderia ser, havia riqueza, e então havia realeza.
— Eles mirarão em nossa família para chegar até você? — seu tio perguntou.
Nesryn engoliu.
— Eu não acredito nisso, mas não colocaria limite neles. Ainda desconheço se esse ataque tem relação a minha chegada ou se estamos tirando conclusões precipitadas, mas com a menor chance de que seja verdade... venho avisá-los para contratar mais guardas se puderem — ela olhou entre eles, colocando as mãos sobre a mesa. — Lamento ter trazido isso para sua casa.
Outro olhar trocado entre eles, e cada um a pegou pela mão.
— Não há nada para se desculpar — disse a tia. Assim como seu tio acrescentou:
— Sua chegada tão inesperada foi uma benção além da medida.
Sua garganta se fechou. Isso... era o que Erawan estava se preparado para destruir.
Ela encontraria uma maneira de erguer esse exército. Resgatar sua família da guerra, ou impedir que ele atingisse essas costas.
— Contrataremos mais guardas, uma escolta para as crianças irem para a escola — sua tia declarou, acenado para o marido. — E para qualquer lugar que formos nesta cidade.
— E você? — o tio de Nesryn perguntou. — Andando pela cidade sozinha.
Nesryn acenou com a mão, embora sua preocupação a enternecesse. Ela se absteve de dizer-lhes que tinha caçado valg nos esgotos de Forte da Fenda durante semanas, que os procurara nos esgotos de Antica na noite anterior. E certamente se absteve de dizer a eles quão envolvida estava na destruição do castelo de vidro. Ela não desejava ver seu tio tombar na cadeira, ou assistir os cabelos grossos e lindos da tia ficarem brancos.
— Eu posso cuidar de mim mesma.
Eles não pareceram tão convencidos, mas concordaram com a cabeça. Então o cozinheiro surgiu, sorrindo amplamente para Nesryn, pequenos pratos de saladas frias entre suas mãos molhadas.
Durante longos momentos, Nesryn comeu tudo o que a tia e o tio empilharam no prato dela, que era realmente tão bom quanto qualquer comida no palácio. No momento em que ela estava cheia ao ponto de explodir, quando drenou seu chá até o fim, sua tia disse com astúcia para ela:
— Eu esperava que você trouxesse um convidado.
Nesryn murmurou, tirando o cabelo do rosto.
— Lorde Westfall está bastante ocupado, tia. — Mas se Yrene o tinha levado a cavalo esta manhã... talvez ela conseguisse trazê-lo aqui no dia seguinte. Apresentá-lo à sua família, aos quatro filhos que encheram esta casa de caos e alegria.
Sua tia sorriu delicadamente por cima do copo.
— Oh, eu não quis dizer ele — um sorriso malicioso entre Zahida e Brahim. — Eu quis dizer o príncipe Sartaq.
Nesryn estava feliz por ter terminado o chá.
— Por que ele?
Aquele sorriso malicioso não desapareceu.
— Rumores dizem que alguém — um olhar apontado para Nesryn — foi vista montando com o príncipe no amanhecer de ontem. Em cima de seu ruk.
Nesryn manteve-se reprimida.
— Era... eu. — Ela rezou para que ninguém a tivesse visto com ele na noite passada – a notícia sem dúvida alcançaria os ouvidos do agente valg, de que eles estavam sendo caçados.
Seu tio riu.
— E você planejou nos contar quando? As crianças estavam fora de si com entusiasmo de que sua amada prima montou na própria Kadara.
— Eu não queria me gabar. — Uma desculpa patética.
— Hmmm. — Foi tudo o que o tio dela respondeu, travessura dançando em seu olhar.
Mas a tia de Nesryn lhe deu um olhar conhecedor, aço em seus olhos castanhos, como se também não tivesse se esquecido por um momento da família que permanecia em Adarlan e talvez agora tentasse fugir para essas costas.
— Os ruks não temerão as serpentes aladas — a tia simplesmente falou.

9 comentários:

  1. Os ruks não temerão as serpentes aladas porque eles lutarão com as serpentes aladas. Essa guerra será épica... Tanta preparação e no fim se bobear a guerra sera em três paginas. :/

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  2. "— Oh, eu não quis dizer ele — um sorriso malicioso entre Zahida e Brahim. — Eu quis dizer o príncipe Sartaq."

    Por algum motivo eu gargalhei muito nessa parte, devo ter demência heuheu
    Os tios dela maliciando e eu maliciando junto ksksks
    Será lindo ver os ruks lutando ao lado das serpentes aladas das Treze 😍

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    1. Sim❤️

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    2. Neeee vai ser tão lindo socorrooo ai mds eu n to preparada pro próximo livro ♡♡♡♡♡♡

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    3. Muito liindoooo.. Não cabo em mim de ansiedade.

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  3. Manoooooo, vontade de chorar ao imaginar essa batalha épica acontecendo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!