25 de janeiro de 2018

Capítulo 17. Sieg Heil, Chumbinho!

O helicóptero pousou lentamente, como um enorme ventilador brincalhão que se divertia desarrumando aquela pequena multidão, cuidadosamente vestida e penteada para o grande momento.
Ao surgir na porta do helicóptero, Chumbinho sentiu-se uma espécie de Caramuru, logo depois de fazer soar o trovão de seu bacamarte e prostrar em admiração uma tribo de índios ingênuos.
Os braços de todos se esticaram com as palmas das mãos estendidas para a frente e todas as vozes berraram, ao mesmo tempo:
— Sieg Heil! Sieg Heil! Sieg Heil!
— Pufterxais! Enterstenter taisl denter Enterspen terraisdomber denterventer mentersmomber senterr aislguén term mufterinistomber inismpomberrtaisntenter, Caislufter!
À frente da multidão, um velho empertigado parecia ser a figura mais importante. Dirigiu-se respeitosamente na direção de Chumbinho e falou em alemão:
— Mein Fuhreú Em nome do Supremo Komand da Organização, eu lhe dou as boas-vindas!
Também em alemão, Calú interrompeu com arrogância, do jeito que tinha aprendido nos filmes de guerra:
— Kamerad! Por razões de segurança, o Esperado decidiu que só devemos falar em português, uma vez que estamos neste país!
O velho alemão pareceu surpreso e perguntou, ainda em alemão:
— Só em português? Por quê?
Naquele momento, Calú parecia Charles Chaplin na sua clássica interpretação de Adolf Hitler no filme O grande ditador.
— O senhor, quem é?
— Eu? Sou o Komandant da Organização no Brasil...
— Então, como Komandant, o senhor devia ser o primeiro a saber que ninguém, mas ninguém mesmo, tem o direito de perguntar as razões daquilo que o Esperado decidiu!
— Sim, claro... Entschuldigung...
— Entschuldigung, não, Komandant! — berrou Calú. — Diga “desculpe”, em português!
A ousadia de Calú era demais! Mas, talvez mesmo por ser demais, o velho Komandant estava quase chorando ao dirigir-se a Chumbinho:
— Desculpe, mein Fuhrer... desculpe... Posso dizer mein Fuhrer?
— Não! — Chumbinho procurou agir exatamente como vira Calú fazer. — Diga “meu Guia”!
— Meu Guia...
— Outra vez!
— Meu Guia!
— Mais alto!
— Meu Guia!
— Agora todo mundo junto! Vamos lá: meu Guia!
E a pequena multidão gritou, em uníssono:
— Meu Guia!
— Agora gritem “viva”!
— Vivaaa!
— Três vezes!
— Viva! Viva! Vivaaa!
Chumbinho estava se divertindo como nunca!

* * *

Os três Karas tentaram atender ao mesmo tempo quando tocou o telefone público da lanchonete onde os três tinham combinado esperar pelo resultado das investigações de Andrade.
Do outro lado da linha, o gordo detetive esfriou a expectativa dos garotos. Informou que acabara de telefonar para seu amigo influente no Supremo Tribunal Eleitoral.
O tal amigo consultara os computadores e... nada! Seus contatos na Delegacia de Estrangeiros também não encontraram nenhum Davi Segai registrado. Aquela pista dera em nada!
— Além dessa decepção, eu só tenho uma novidade, Miguel — informou o detetive. — A perícia concluiu que a bala que matou Solomon Friedman saiu da mesma arma com que atiraram contra Ferenc Gábor!
— E daí, Andrade?
— Daí que estamos na mesma, Miguel...
Miguel desligou e ficou olhando para o telefone da lanchonete como se ali pudesse ver a expressão derrotada do seu amigo detetive. E agora? O que fazer? Calú e Chumbinho estavam em mãos perigosíssimas e totalmente desconhecidas. Para que lado andar? Como investigar?
Crânio estava tenso. Empunhou a gaitinha e começou a passá-la pelos lábios, sem dela tirar nenhum som. Magrí sentiu duas lágrimas quentes escorrerem-lhe pelo rosto.
— Chumbinho... Calú... meu querido... — balbuciou a menina.
Em momentos como aquele, a liderança de Miguel tinha de mostrar-se ativa. Era preciso manter os Karas em ação:
— Temos uma outra pista, Karas. Não parece muito forte, mas o jeito é seguir o que há para ser seguido. Se não achamos Davi Segai, vamos seguir Ferenc Gábor!
— Ferenc Gábor? — repetiu Magrí. — Não é preciso segui-lo. Nós sabemos que ele está no hospital. Logo que melhorar, Andrade vai interrogá-lo. Só que eu acho difícil que haja alguma coisa que ele possa nos contar...
— Ferenc Gábor nunca esteve antes no Brasil, Magrí — continuou Miguel. — Mas Chumbinho disse que já tinha ouvido esse nome em algum lugar. Que já tinha lido esse nome, talvez no próprio Colégio Elite.
— É verdade — concordou Crânio, guardando de novo a gaitinha. — Ele disse isso no fusquinha, quando Andrade foi nos pegar no Elite, e repetiu a mesma coisa no bosque do Ibirapuera, depois que Calú nos contou a história do velho Sol. Ele disse que talvez tivesse lido o nome de Ferenc Gábor no laboratório do Colégio Elite.
— Essa pode ser a outra ponta do novelo — continuou Miguel. — Se Chumbinho tivesse lido o nome de Ferenc Gábor na biblioteca, isso não teria a menor importância. Mas o laboratório não é o lugar certo para se ler sobre arte!
Magrí enxugou as lágrimas e levantou-se:
— Está bem, Miguel. Sei que vai nos adiantar muito pouco saber onde Chumbinho ouviu falar de Ferenc Gábor.
Mesmo que exista um outro sujeito com o nome de Ferenc Gábor em São Paulo, isso na certa não terá nada a ver com o caso. Provavelmente não vai nos adiantar nada encontrar um xará de Ferenc Gábor. Sei que a única investigação que poderia dar em alguma coisa seria se encontrássemos algum Davi Segai. Mas este não existe no Brasil... Então, vamos atrás do que é possível seguir!
— Está decidido, Karas — finalizou Miguel. — Vamos para o Elite, em busca de Ferenc Gábor. 

* * *

— Ah, meu jovem Guia! Que prazer tê-lo aqui!
O Komandant estava muito emocionado. O momento que ele tanto esperara tinha finalmente chegado. À sua frente, no seu Kabinet, estava o Esperado, em carne, osso e sangue ariano!
Chumbinho sentou-se na cadeira alta da mesa de trabalho, e Calú, na cadeira das visitas. O velho Komandant teve de ficar de pé.
— O mundo pensa que nos derrotou, mas agora vamos mostrar a eles a força que ainda temos, meu jovem Guia! — o Komandant estava pálido, humilde, como se falasse com um deus. — Eles pensaram que o Fuhrer tinha acabado naquela madrugada, no Bunker da Chancelaria! Mas eles não sabiam da grande paixão de Adolf Hitler!
Sobre a mesa do Komandant estava um velho porta-retratos com uma foto, amarelecida pelo tempo, de uma jovem cujos traços mal dava para se distinguir. Calú olhou.
A moça não se parecia com Eva Braun, a mulher que se casara com Hitler poucas horas antes de os dois se suicidarem, em 1945, no esconderijo subterrâneo da Chancelaria do III Reich, em Berlim, quando a guerra já estava perdida para os nazistas.
O velho Komandant levantou-se e pegou o porta-retratos.
— Aqui está, meu Guia! Geli Raubal, a sobrinha do grande Hitler, que teve a honra de ter sido amada pelo Fuhrer... ahn... desculpe, pelo Guia... pelo Guia de todos nós! Ela morreu em 1931, na casa de campo que tem o mesmo nome deste castelo, meu Guia: Wachenfeld. E ninguém ficou sabendo que a amada de Adolf Hitler tinha deixado uma filha! Uma filha do grande Adolf Hitler!
O velho estava quase em lágrimas.
— A menina foi guardada como uma relíquia. Poucos souberam do seu paradeiro. Mas, secretamente, a dinastia do grande Hitler continuou até que pudéssemos ter a sua pessoa, meu Guia, para reconduzir a todos nós de volta ao nosso passado de glória!
O velho estava à beira de um colapso de euforia, e os dois meninos tiveram de segurar-se na cadeira para resistir à revelação:
— O senhor, meu jovem Guia! O bisneto de Adolf Hitler!
O almoço foi servido no vasto salão nobre de banquetes do Castelo Wachenfeld. Na mesa de mogno entalhado caberiam umas quarenta pessoas, mas havia só três: Chumbinho, à cabeceira, quase enterrado na cadeira de espaldar alto, o Komandant à sua direita e Calú à sua esquerda.
A comida alemã estava muito bem preparada, mas Chumbinho pouco tocou nos vários pratos que desfilaram à sua frente. Na pele do Esperado, Chumbinho deveria agir como se soubesse de todos os planos da Organização. Mas não sabia o que dizer. Tudo o que conseguia era manter uma arrogante superioridade, enquanto Calú, que também não sabia o que dizer, falava o tempo todo, dando ordens, recusando certa comida, mostrando-se importante.
Mas o alemão não parecia desconfiar de nada. Falava sem rodeios, pois havia represado durante anos o entusiasmo pelos novos tempos de poder que agora estavam próximos:
— Os preparativos estão perfeitamente de acordo com os planos, meu Guia. Nosso jovem exército está em treinamento acelerado! Que ideia brilhante, meu Guia! Um país como este, enorme, rico, mas cheio de crianças e jovens abandonados! Estamos recolhendo esses recrutas com a maior facilidade. Aqui, eles recebem o melhor treinamento militar e ideológico. São todos analfabetos, mas isso não tem importância, não é? Para que ensiná-los a ler? O que nós queremos é a carne deles, para lutar e morrer pela nossa causa! Que grande ideia, meu Guia! Que grande ideia!
“Então era isso!”, pensou Calú. “Uma organização de nazistas fanáticos e enlouquecidos que recolhem crianças e jovens pelas ruas para transformá-los em soldados! Mas é com este 'exército' que os nazistas pretendem voltar ao poder? Que ideia mais maluca!”
— Os meninos adoram o Castelo Wachenfeld, meu Guia! Adoram o Lar da Juventude Brasileira. Aqui, pela primeira vez em suas vidas, estão sendo bem alimentados. Aqui eles têm uma cama quente para dormir e um médico alemão para tratar de sua saúde. Logo serão soldados perfeitos, meu Guia! Temos agora a Brasilianische Jugend, uma reprodução perfeita da saudosa Nazijugendl A “Juventude Nazista”!
Calú sentiu vontade de chorar. O abandono de grande parte da juventude brasileira estava sendo usado por aqueles malucos para um destino ainda pior do que a miséria! Seria esse o preço que o Brasil teria de pagar pelo pecado de ter abandonado suas crianças?
Afinal, qual seria o destino delas, se aquele mundo fanático de crimes não lhes tivesse aparecido? Não seria também um outro mundo de crimes? Não seria também acabar morto pelas balas da polícia ou enterrado nas prisões?

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