15 de janeiro de 2018

Capítulo 17. O cadáver mensageiro

Magrí havia vasculhado todos os cantos do Colégio Rio Branco sem encontrar nem sinal do Bino. Ela era boa fisionomista e tinha certeza de poder reconhecer o oferecedor, mesmo que ele estivesse disfarçado. Não, Bino não estava no Rio Branco.
Agora era ir ao encontro combinado com os Karas, às sete da noite, numa lanchonete do centro da cidade. Lá, eles tinham certeza de não encontrar nenhum conhecido: a classe alta não frequenta a avenida São João.
Passava um pouco das seis quando Magrí chegou ao centro da cidade. Anoitecia, e a menina achou divertido vagar incógnita pelos calçadões da Barão de Itapetininga e da Conselheiro Crispiniano, misturada à multidão de funcionários que enchiam as ruas, cansados no fim de uma quarta-feira de trabalho.
Magrí sentia-se muito segura em seu disfarce. O cabelo estava diferente e Calú havia colocado uns arames em sua boca, para parecer aparelho de correção dentária. Aquela ferragem mudava a conformação do seu rosto e modificava-lhe a voz. A menina vestia uma jaqueta com enchimentos que lhe alteravam totalmente o porte elegante. Palmilhas dentro dos tênis machucavam-lhe um pouco os pés, mas obrigavam-na a andar de modo diferente. Sobrancelhas unidas completavam o disfarce.
“Como estou horrorosa!”, divertia-se a menina, vendo a própria imagem refletida em uma vitrina.
Aos poucos, uma outra imagem, formada atrás do seu reflexo, chamou-lhe a atenção. Estava em frente a uma loja de eletrodomésticos, e um televisor ligado num noticiário acordou-a do devaneio.
— Desaparecimento de estudantes: outro cadáver encontrado. Vejam no próximo segmento...
O coração da menina disparou. Outro cadáver! Ai, como foi difícil aguentar os comerciais até ver novamente o locutor!
— ... cadáver de um rapaz, encontrado com um tiro nas costas, na estação do metrô de Vila...
A menina mal podia acreditar no que estava vendo. Para variar, os repórteres tinham agido mais rápido do que a polícia e ali, na tela, estava o corpo do Bronca, lívido como um lençol!
Apesar do choque, a rapidez de raciocínio e a atenção treinada de Magrí não se deixaram abalar. Ela era um Kara antes de tudo. E aquele detalhe não lhe escapou: no dedo do cadáver havia um curativo. Um curativo grande, exagerado como o que havia no dedo do Chumbinho! Coincidência? Talvez, mas uma pista suficiente para fazer a menina correr pela Dom José de Barros até à São João.
Magrí sabia que conseguir um táxi àquela hora era uma façanha. Por isso abriu a porta de um que estava parado no sinal e ofereceu ao passageiro:
— Estas cinco notas para o senhor, se me ceder este táxi!
Surpreso, o passageiro concordou.
— Obrigada! — a menina entrou no táxi e estendeu outras notas para o motorista. — Mais cinco para o senhor, se me levar voando para a Teodoro Sampaio com a avenida Doutor Arnaldo!
Era uma boa vantagem não ser pobre naquela hora. Em poucos minutos Magrí estava desembarcando do táxi em frente ao Instituto Médico Legal.

* * *

Todos os funcionários e até os policiais ficaram com pena daquela garotinha desesperada. Afinal, que mal haveria em deixar entrar a infeliz namoradinha do garoto assassinado? Era melhor que ela se despedisse dele antes que o corpo da vítima fosse destruído pela autópsia.
A menina, de aparelho nos dentes, descabelou-se ao ver o cadáver do rapaz estirado numa pedra fria no necrotério.
— Bronca! Meu amor! O que fizeram com você, meu querido? Ai de mim! Assassinaram o meu amor!
A menina atirou-se sobre o cadáver, beijou-o exageradamente e agarrou-se em sua mão.
— Por quê? Por que fizeram uma coisa dessas? O que será de mim agora?
Delicadamente, um funcionário retirou dali a chorosa namoradinha da vítima.

* * *

Ainda abalado pela comovente cena que acabara de presenciar, o detetive gordo, exausto, suado, ficou olhando para o cadáver.
— Bandidos... assassinos! Que crueldade... De repente, seu faro treinado de cão policial deu um alerta. Alguma coisa estava diferente!
— Ei, você! — chamou ele por um funcionário. — Rápido! Quero ver as fotos que tiraram do cadáver!
O funcionário atendeu prontamente e o detetive gorducho examinou as fotos, comparando-as com o cadáver à sua frente.
— Inferno! Está faltando o curativo do dedo! A menina! Cadê a menina? Prendam depressa a menina que acabou de sair daqui!
Mas era tarde demais. Por mais que procurassem, foi impossível encontrar a namoradinha do garoto assassinado.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!