20 de janeiro de 2018

Capítulo 17. Morte pantaneira

As armas de todos aqueles homens já não eram necessárias quando Miguel chegou ao aeroporto clandestino, nem cinco minutos depois que viram o avião rosachoque distanciar-se. Não havia mais nenhum bandido vivo. Varados por flechas e lanças, corpos espalhavam-se por todos os lados. O Senador e o tenente juntaram-se ao líder dos Karas.
— índios! — espantou-se o tenente.
— Mas não foram índios que fugiram naquele avião! — disse Miguel. — Meus amigos devem estar lá. Alguém os levou!
— Inferno! — praguejou o tenente. — Vamos demorar um tempão para voltar às lanchas!
— Ei, você! — chamou o Senador. — Venha aqui com o rádio!
O Senador abaixou-se ao lado do aparelho.
— Deixei um helicóptero de sobreaviso. Estará aqui num instante!

* * *

— Chumbinho, você é grande! — e Magri deu um beijo estalado na bochecha do pequeno piloto.
— Vivaaa! Viva Chumbinho! — gritaram Crânio e Calu.
— Você... — gaguejou Andrade, enxugando a careca com o lenço —... você sabe mesmo pilotar essa coisa?
— Até aqui tudo bem, não é, Andrade?
— Foi isso o que disse o sujeito que caiu do vigésimo andar, ao passar pelo terceiro...
— Confie no Chumbinho, Andrade! — animou Calu. — Ele fez o avião decolar, não fez?
— É, mas acontece que eu sempre tive medo de voar... Mesmo com pilotos profissionais... Será que o Chumbinho vai saber pousar esta coisa?
— O pouso é capaz de dar certo — prometeu Chumbinho. — Eu não sei é pra que lado devo levar o avião...
Aquele era mesmo um problema grave. Como guiar-se em direção a algum aeroporto?
— O rádio! — sugeriu Magri. — Vamos tentar algum contato. De terra, alguém pode nos guiar!
— Ei, vejam! — apontou Crânio. — Lá fora! Um pequenino ponto negro destacava-se no céu.
— Um helicóptero!
Magri começou a mexer nos controles do rádio de bordo.
— Alô! Alô! Alguém nos escuta? Estamos num avião, perdidos no céu do Pantanal... Chumbinho, o que se diz nessas horas?
— Não sei. Nunca falei com um computador...
— Nos filmes, eles falam S.O.S., ou “may-day”...
— Isso não vai adiantar nada...
Magri continuava mexendo no rádio. De repente, uma voz invadiu o altofalante da cabine.
— “Alô... Por favor, respondam.
A voz vinha do rádio no helicóptero. Era a voz de Miguel.

* * *

No meio da mata, os Taí-pitá carregavam o corpo ferido de Peorê.
— Araguaçu!
O chamado de Peorê era desnecessário. O bisneto estava a seu lado.
— Araguaçu, chegou a minha hora de conhecer o Morena, onde tudo começou. Vou ao encontro de Maira. Vou falar dos Taí-pitá a Mavutsinín. Passei minha vida ao lado dos brancos, mas agora não quero morrer por ferimento de homem branco. Leve Peorê para o corixo...
Nenhum dos Taí-pitá discutiu o pedido de Peorê. O velho pareceu sentir o cheiro da água. Recusou qualquer ajuda e se pôs de pé. De dentro dos couros tirou a bolsa que carregara a vida toda consigo.
— Aqui está, Araguaçu. O segredo Taí-pitá. O segredo das Formigas-paradas. Aqui está o feitiço que vai fazer com que nosso povo não desapareça. Com que nosso povo volte a caçar livre no Pantanal. O feitiço que vai derrotar os brancos. A guarda do segredo Taí-pitá agora é sua, como foi de Peorê. Adeus. Parto para o Morena.
O velho índio caminhou sozinho para o corixo e entrou lentamente nas águas, até elas lhe cobrirem metade do peito. Seu ferimento já não sangrava mais. Tirou uma faca da cintura e ergueu os dois braços acima da cabeça. Na margem, os Taí-pitá assistiam, sem um movimento.
Peorê, com um golpe brusco, fez um corte profundo no braço. O sangue correu-lhe pelo rosto, desceu pelo pescoço, pelo peito e foi pingar na água. Devagar, olhando para o Morena, o índio centenário mergulhou o braço no corixo. Ninguém desviou a vista quando as águas começaram a se revolver. Atraídas pelo sangue, as piranhas vinham buscar o que restava de carne em Peorê. O velho tinha escolhido uma morte pantaneira. A pior delas. Sem um grito, seu corpo se convulsionou, sacudido pelo turbilhão de piranhas que o devoravam...
Do helicóptero, Miguel passava as instruções do piloto do helicóptero a Chumbinho.
— Não se preocupe com os comandos, Miguel. Isso aqui é fácil demais. Meu
problema é a navegação. Quero saber pra onde ir!
— Você está indo muito bem, Kara! Por sorte tomou o rumo oeste. Vai dar para pousar em Corumbá.
Ao lado do líder dos Karas, o Senador e o tenente não partilhavam do otimismo de Miguel. A bordo do C-47, Andrade tentava lembrar-se de alguma oração que servisse para um momento como aquele.

* * *

As águas do corixo já estavam calmas novamente, Peorê só continuaria existindo na lembrança daqueles velhos, em extinção como os jacarés. Os velhos cercaram Robson, cobrando-lhe uma atitude com a eloquência de seu silêncio. Robson tomou uma decisão. Arrancou os óculos escuros, a camiseta, e jogou-os no corixo. Diante dos velhos índios desaparecia Robson e surgia Araguaçu.
Num ritual, Araguaçu começou a abrir a velha bolsa, desenrolando os couros de jacaré, camada por camada. Um objeto grosso, de forma retangular, amarelecido  pelo tempo, revelou-se à vista de todos.
Um livro! Um livro, o símbolo da cultura dos brancos, ali surgia como o símbolo da esperança de eternidade para a cultura indígena, que nunca fora escrita!  Um livro!
O guia índio tremia, ao voltar-se para os seus:
— Taí-pitá! Aqui está o segredo de Peorê. Este é o segredo das Formigasparadas!
Levantou o livro acima da cabeça. Ele sabia ler. Na velha capa, semidestruída, ainda se podia decifrar: “O engenhoso fidalgo Dom Quixote de Ia Mancha”.
Lágrimas correram pelo rosto do índio, que tudo compreendia, enquanto  explicava:
— Aqui estão as Formigas-paradas! Estão todas aqui. Elas nunca se movem. Nunca se moverão. Mas os brancos movem o mundo com elas. Com elas, os brancos conquistam a terra do índio. Os brancos vencem o índio. Os brancos esmagam o índio. O antepassado de Peorê acreditou que o índio poderia dominar um dia essa tremenda arma das Formigas-paradas. Acreditou que esse feitiço dos brancos poderia ser empregado pelo índio. Acreditou que as Formigas-paradas poderiam libertar o índio!
Araguaçu não falava somente para os velhos Taí-pitá. Falava para todo o Pantanal, para os papagaios e para as onças, para as piranhas e para os jacarés.
— Os brancos usam o feitiço das Formigas-paradas para escrever a história do índio. Assim, a história do índio passa a pertencer aos brancos. Eles roubam os espíritos de nossos antepassados como roubam nossa terra. Porque o índio não acredita na propriedade dos espíritos, não acredita na propriedade das terras. Para o índio, a terra é de todos. Para os brancos, tudo é só deles...
Araguaçu estava preparado para destruir uma esperança no coração dos Taípitá. Mas estava disposto a oferecer-lhes outra.
— Se o índio quiser dominar o segredo das Formigas-paradas, como o brancos, vai deixar de ser índio. E não vai conseguir virar branco. “índio que esquece a própria língua fica mudo!” Isso dizia Peorê. E Araguaçu diz que índio que esquece o espírito de seus antepassados desaparece. O feitiço das Formigas-paradas não serve para o índio. Então o índio não tem esperança? O índio vai desaparecer? Vai desaparecer porque não tem poder, não tem armas, não tem escrita e não acredita na propriedade? Vai desaparecer do Pantanal? De toda parte?
Olhou um a um aqueles velhos. Eles, talvez, não estivessem entendendo. Mas haveriam de entender, com o tempo. Araguaçu passaria o resto da vida com eles, explicando a sua esperança. Araguaçu era o melhor guia do Pantanal, mas já estava cansado de guiar turistas brancos. Daquele momento em diante seria o guia do seu próprio povo.
— Não! Araguaçu conhece outro segredo. Outro feitiço, mais poderoso ainda. Esse segredo é a vida! Continuar vivos, vivendo como índios, é nossa melhor forma de lutar. Vivendo é que se resiste. Se resistirmos, nossas ideias não se perderão. Serão roubadas pelo branco, mas farão parte das ideias dos brancos. Modificarão as ideias dos brancos. Nós sobreviveremos dentro dos brancos! Os brancos não conseguirão nos destruir porque, mortos, faremos parte deles. Os brancos ficarão grávidos de nós, para sempre! Essa será a nossa vitória!
Com os braços para o alto, Araguaçu invocava o testemunho dos papagaios, guardiões das últimas palavras da língua de seus antepassados. Talvez “currupaco” seja uma palavra guaicuru, quem sabe?

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