29 de janeiro de 2018

Capítulo 16

Havia apenas escuridão, e dor.
Ele rugiu contra ela, distantemente ciente do pedaço de couro em sua boca, a crueza em sua garganta.
Queimada viva queimada viva queimada viva.
O vazio mostrou-lhe fogo. Uma mulher com cabelo dourado e pele da mesma cor gritando em agonia para os céus.
Lhe mostrou um corpo quebrado em uma cama sangrenta. Uma cabeça caída no chão de mármore.
Você fez isso você fez isso você fez isso.
Mostrou uma mulher com olhos de chamas azuis e cabelos de ouro puro parada acima dele, punhal erguido e pronto para mergulhar em seu coração.
Ele desejou. Ele às vezes desejava que ela não tivesse sido interrompida.
A cicatriz em seu rosto – das unhas que ela cravara quando o atingiu pela primeira vez... Era nesse ódio que ele pensava quando se olhava no espelho. O corpo na cama, aquela sala fria e aquele grito. O colar em uma garganta bronzeada e um sorriso que não pertencia a um rosto amado. O coração que ele tinha oferecido e deixado cair nas tábuas de madeira das docas do rio. Uma assassina que navegou e uma rainha que retornou. Uma fileira de homens pendurados nos portões do castelo.
Todos mantidos dentro dessa cicatriz fina. O que ele não podia perdoar ou esquecer.
O vazio mostrou a ele, uma e outra vez.
Ele açoitou seu corpo com chicotadas vermelhas e ardentes. E mostrou-lhe essas cenas, de novo e de novo.
Lhe mostrou sua mãe. E seu irmão. E seu pai.
Tudo o que ele tinha deixado. Com o que ele falhara. O que ele odiava e o que ele se tornara.
As linhas entre os dois últimos haviam borrado.
E ele tentara. Tentara por semanas, por meses.
O vazio não queria ouvir.
O fogo negro correu por seu sangue, suas veias, tentando abafar esses pensamentos.
A rosa ardente deixada em uma mesa de cabeceira. O abraço final de seu rei.
Ele tentou. Tentara ter esperança e, no entanto...
Mulheres pouco mais do que crianças tirando-o de um cavalo. Puxando e irritando-o.
A dor atingiu, baixa e profunda em sua coluna vertebral, e ele não conseguiu respirar ao redor, não podia enxergar.
Uma luz branca acendeu.
Um redemoinho. Ao longe e à distância.
Não era dourada, nem o vermelho ou o azul da chama. Mas branca como a luz do sol, limpa e clara.
Uma cintilação através do escuro, um arco como relâmpago surgindo na noite...
E então a dor voltou a convergir.
Os olhos de seu pai, os olhos furiosos de seu pai quando ele anunciou que se juntaria à Guarda Real. Os punhos. A súplica de sua mãe. A angústia em seu rosto na última vez que a viu, quando se afastou de Anielle. A última vez que viu sua cidade, sua casa. Seu irmão, pequeno e encolhido perto de seu pai, à sua sombra.
Um irmão que trocou por outro. Um irmão que ele havia deixado para trás.
A escuridão espremeu, esmagando os ossos em pó.
Isso o mataria.
Isso o mataria, essa dor, isto... esse poço interminável e agitado de nada.
Talvez fosse uma misericórdia. Ele não estava inteiramente certo de sua presença, uma presença que faria alguma diferença. Não era suficiente para justificar a tentativa. Voltar para tudo.
A escuridão gostava disso. Parecia prosperar com isso.
Mesmo quando apertou em torno de seus ossos. Mesmo enquanto o sangue fervia em suas veias. Ele berrou e berrou...
Luz branca o atingiu. Ofuscando-o.
Preenchendo esse vazio.
A escuridão gritou, recuando, depois se elevando como uma onda ao redor dele...
Só para saltar uma concha daquela luz branca, enrolada ao redor dele, uma pedra contra a qual a escuridão quebrou.
Uma luz no abismo.
Era quente, silenciosa e gentil. Não se rendeu à escuridão.
Como se tivesse habitado em tal escuridão por tanto tempo que entendia como ela funcionava.
Chaol abriu os olhos.
A mão de Yrene tinha escorregado de suas costas.
Ela já estava se afastando dele, pegando sua camisa descartada no tapete do quarto.
Ele viu o sangue antes que ela pudesse esconder.
Cuspindo o couro, ele segurou seu pulso, o ofegar alto em seus próprios ouvidos.
— Você está ferida.
Yrene limpou o nariz, a boca e o queixo antes de encará-lo.
Não escondeu as manchas em seu peito, mergulhando no decote do vestido.
Chaol ergueu-se.
— Pelos deuses, Yrene...
— Eu estou bem.
As palavras eram abafadas, entortadas com o sangue ainda escorrendo por seu nariz.
— Isso é... normal? — ele encheu seus pulmões de ar para pedir que alguém buscasse outra curandeira.
— Sim.
— Mentirosa. — Ele ouviu a mentira em sua pausa. Viu em sua recusa em encontrar seu olhar. Chaol abriu a boca, mas ela colocou a mão em seu braço, abaixando a camisa ensanguentada.
— Eu estou bem. Só preciso... descansar.
Ela parecia bem, exceto pelo sangue manchando e escorrendo por seu queixo e boca.
Yrene apertou a camisa dele novamente contra o nariz enquanto o sangue escorria novamente.
— Pelo menos — ela falou apesar do tecido e sangue — a mancha de mais cedo agora combina com o meu vestido.
Uma triste tentativa de humor, mas ele lhe ofereceu um sorriso sombrio.
— Pensei que fosse parte do estilo.
Ela lhe lançou um olhar exausto mas confuso.
— Dê-me cinco minutos e posso voltar e...
— Deite-se. Agora. — Ele deslizou um pouco para o lado no colchão para dar ênfase.
Yrene examinou os travesseiros, a cama grande o suficiente para que quatro dormissem sem se tocar um ao lado do outro.
Com um gemido, ela pressionou a camisa contra o rosto e caiu sobre os travesseiros, chutando os chinelos e dobrando as pernas para cima. Ela inclinou a cabeça para cima para parar o sangramento.
— O que eu posso fazer... — ele começou, observando-a encarar fixamente o teto.
Ela fizera isso – fizera para ajudá-lo, provavelmente por causa de qualquer humor de merda em que ele estava antes...
Yrene apenas balançou a cabeça.
Em silêncio, ele a viu pressionando a camisa no nariz. O sangue observado floresceu através do tecido de novo e de novo.
Até que finalmente abrandou. Até que parou.
O nariz, a boca e o queixo estavam vermelhos com os traços, seus olhos embebidos com dor ou exaustão. Talvez ambos.
— Como? — ele se viu perguntando.
Ela sabia o que ele queria dizer. Yrene limpou o sangue no peito.
— Eu fui lá, para o lugar da cicatriz, e era o mesmo de antes. Uma parede que nenhuma parte da minha magia conseguia atacar. Acho que me mostrou... — seus dedos apertaram a camisa enquanto ela a pressionava contra o sangue que sujava seu colo.
— O quê?
— Morath — ela sussurrou, e ele poderia jurar que até o canto dos pássaros falhou no jardim. — Me mostrou alguma memória, deixada para trás em você. Me mostrou uma grande fortaleza negra cheia de horrores. Um exército aguardando nas montanhas ao redor.
Seu sangue gelou quando ele percebeu a quem pertencia a memória.
— Era real ou... alguma manipulação contra você? — do modo como suas próprias memórias eram exercidas.
— Eu não sei. — Admitiu Yrene. — Mas então ouvi os seus gritos. Não aqui, mas... lá. — Ela enxugou o nariz novamente. — E percebi que atacar aquele muro sólido era... eu acho que era uma distração. Um desvio. Então segui os sons dos seus gritos. Até você. — Até aquele lugar no fundo dele. — Aquilo estava tão focado em quebrá-lo que não me viu chegando — ela estremeceu. — Eu não sei se isso aconteceu ou qualquer coisa assim, mas... eu não pude encarar. Assistir e ouvir. Eu o assustei quando entrei, mas não sei se estará esperando na próxima vez. Se vai lembrar. Há uma... senciência nele. Não é uma coisa viva, mas como se uma memória tivesse sido liberada no mundo.
Chaol assentiu e o silêncio caiu entre eles. Ela limpou o nariz novamente, a camisa agora encharcada de sangue, então colocou o tecido sobre a mesa ao lado da cama.
Por minutos não contados, a luz do sol atravessou o chão, o vento balançou as palmeiras.
— Sinto muito por sua mãe — Chaol falou então.
Pensando na linha do tempo... provavelmente aconteceu no intervalo de alguns meses do próprio terror e perda de Aelin.
Tantas delas – as crianças em que Adarlan deixara cicatrizes tão profundas. Se Adarlan os tivesse deixadas vivas, ao menos.
— Ela era tudo de bom no mundo — disse Yrene, dobrando-se lado para olhar para as janelas que davam para o jardim. — Ela... eu saí porque ela... — Yrene não terminou.
— Ela fez o que qualquer mãe faria — ele terminou por ela.
Um aceno de cabeça.
Como curandeiras, elas foram algumas das primeiras vítimas. E continuaram a ser executadas muito depois de a magia ter desaparecido. Adarlan sempre perseguiu implacavelmente os curandeiros magicamente talentosos. Os seus próprios vizinhos poderiam tê-las vendido para Adarlan em troca de moeda rápida e barata.
Chaol engoliu em seco. Depois de um segundo, ele disse:
— Eu assisti o rei de Adarlan matar a mulher que Dorian amava na minha frente, e não pude fazer nada para detê-lo. Para salvá-la. E quando o rei se virou para me matar por eu estar conspirando para derrubá-lo... Dorian entrou no meio. Ele segurou seu pai e me deu tempo para correr. E eu fugi, fugi porque... não havia mais ninguém para continuar a rebelião. Para levar a notícia a quem precisava. Eu o deixei assumir as consequências e enfrentar o pai, e fugi.
Ela o observou em silêncio.
— Ele está bem agora, no entanto.
— Eu não sei. Ele está livre e está vivo. Mas bem? Ele sofreu. Muito. De maneiras que não posso começar a... — sua garganta apertou o ponto de doer. — Deveria ter sido eu. Eu sempre planejei que fosse eu em vez dele...
Uma lágrima deslizou pela ponte do nariz dela. Chaol a pegou com o dedo antes que pudesse deslizar para o outro lado.
Yrene manteve o olhar fixo por um longo momento, as lágrimas deixando seus olhos tão brilhantes como o sol. Ele não soube quanto tempo passou. Quanto tempo demorou para ela mesma tentar escapar dessa escuridão, apenas um pouco.
A porta da suíte se abriu e fechou com um ruído mínimo, ele sabia que era Kadja. O olhar de Yrene desviou dele. Sem isso, havia uma sensação de frio. Uma quietude e um frio.
Chaol apertou o punho, aquela lágrima penetrando em sua pele, para não esticar a mão e virar o rosto dela de volta.
Para ler os seus olhos.
Mas ela voltou a cabeça tão rápido que quase acertou seu nariz.
O dourado nos olhos de Yrene brilhava.
— Chaol — ela suspirou, e ele pensou que poderia ter sido a primeira vez que ela o chamou assim.
Mas ela olhou para baixo, arrastando seu olhar.
Por seu torso nu, suas pernas nuas.
Para os seus dedos dos pés.
Para os dedos dos pés, lentamente ondulando e desenrolando. Como tentassem lembrar como se mover.

10 comentários:

  1. Não sei porque, mas não consigo shippar.

    ResponderExcluir
  2. "Para os dedos dos pés, lentamente ondulando e desenrolando. Como tentassem lembrar como se mover" ALELUIA NÉ

    ResponderExcluir
  3. Chaol tá passando um momento difícil, sem reino pra servir, n tem notícias do Dorian nem da celeana, Nersyn tá ocupada, acho q rola

    ResponderExcluir
  4. O momento pelo qual o Chaol está passando é parecido com o da Aelin em Herdeira do Fogo, ele sairá desse abismo em que se encontra apenas com a ajuda da Yrene.

    "— Eu não sei. Ele está livre e está vivo. Mas bem? Ele sofreu. Muito. De maneiras que não posso começar a... — sua garganta apertou o ponto de doer. — Deveria ter sido eu. Eu sempre planejei que fosse eu em vez dele..."

    Mano pelo amor de Deus né, eu tô cansado do Chaol com esse pensamentos, exatamente, Dorian sofreu muito mais, Aelin nem se fala, então para de coisa. Yrene disse que ele precisa falar sobre o que aconteceu, ele precisa encarar tidos os acontecimentos, erguer a merda dessa cabeça e encarar os fatos, aceitar que o passado não muda, mas o futuro sim. Se ele não fizer isso esse tratamento será perda de tempo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu condordo os outros sofreram bem mais que ele, e estão lutando, per um futuro melhor para eles.. já o Chaol fica só se remoendo.. com esse sentimrnto de Culpa! Esta na hora de lutar! Tentar se curar para poder ajudar os outros..

      Excluir
  5. Só eu estou toda desconfiada com essa criada? Vai dar merda, VAI DAR MER-DA!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu tambem estou.. nao confi9 nela..

      Excluir
  6. Ele está começando a responder ao tratamento? É isso mesmo que eu entendi com esse final?
    Chaol tá igual a Aelin antes e quem vai ajudar ele a sair desse abismo emocional vai ser Yrene. Assim como Rowan tirou Aelin.

    Flavia

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Isso com roean e aelin, um ajudou o outro. Acho que com eles vai ser a mesma coisa. Só não tenho certeza de que vão ficar juntos..

      Excluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!