15 de janeiro de 2018

Capítulo 16. A outra mensagem de Chumbinho

Silenciosamente como tinha saído, Chumbinho voltou para o dormitório. Estava quase amanhecendo quando subiu para o seu beliche e ficou ali, encolhido, ouvindo o ressonar suave dos pobres meninos obedientes.
Todos tinham tomado a dose noturna da Droga da Obediência e estavam cumprindo direitinho a ordem de dormir.
Menos Chumbinho. O garoto estava só, no meio de tanta gente. Só ele tinha consciência do que estava acontecendo. Esgueirando-se pelas paredes, aproveitando cada sombra para esconder-se, o menino tinha percorrido todos os cantos daquela fábrica dos infernos. E ele tinha tido a sorte de presenciar a discussão do tal Márius Caspérides com aquela silhueta no vídeo, que mais parecia um personagem de filme de terror.
Agora ele sabia. Agora ele compreendia a extensão do perigo que aquela droga representava. E ele não podia sentir medo. Era um Kara. O único que poderia fazer alguma coisa. Ele tinha roubado uma caneta e uma folha de um bloquinho papel em uma das salas por onde passara durante as investigações noturnas.
Aproveitando as primeiras luzes da madrugada, Chumbinho começou
a redigir uma mensagem para os Karas. Ainda não sabia como fazer chegar aquele bilhete às mãos de seus amigos, mas era urgente falar para eles daquela droga maldita. Era preciso também que eles soubessem que havia um aliado, e que esse aliado era o próprio inventor da Droga da Obediência, o bioquímico Márius Caspérides. Cuidadosamente Chumbinho recortou pequenas tiras do papel e tentou escrever em letras bem pequenas, a forma mais curta para dar o seu recado. Mas e se o bilhete fosse interceptado pelos bandidos? Era preciso escrever em código. Mas que código? Ele conhecia alguns dos códigos dos Karas. Só que, se ele os tinha descoberto, não seria também fácil para os bandidos decifrá-los?
Chumbinho tomou uma decisão. Trabalhou febrilmente, com a menor letra que conseguiu e, por fim, a mensagem coube em uma pequena tira de papel.
Olhou para o enorme curativo que sua mãe tinha feito por causa da espetadinha da “iniciação na Ordem dos Karas”. Era como um grande dedal de gaze enrolado com esparadrapo no indicador da mão esquerda. Retirou o curativo como se puxasse um dedo de luva e enfiou ali dentro o papelzinho enrolado. Colocou novamente o curativo no lugar, e estava amassando as tirinhas de papel com os rascunhos do código quando a porta do dormitório se abriu.
O menino fingiu que dormia, mas, através das pálpebras semicerradas, viu entrar um empregado de avental branco. O sujeito trazia uma bandeja cheia de comprimidos, que colocou sobre uma mesa.
— Hora de acordar, menininhos obedientes! Vamos, acordem!
Todos acordaram e puseram-se de pé imediatamente. Nada das normais espreguiçadas e esfregações de olhos. Nenhuma risada, nenhuma brincadeira, nenhuma palavra. Não mais eram jovens inteligentes e cheios de vida. Eram máquinas estúpidas.
— Venham cá — ordenou o empregado. — Cada um pegue um desses comprimidos e tome. Depois, todo mundo para o banheiro. Andem logo, que hoje temos muitos testes a fazer!
Chumbinho colocou-se na fila que caminhava em direção à bandeja de comprimidos para tomar o reforço da droga maldita. “Não posso mais ficar sozinho”, pensou o menino. “Preciso de mais alguém comigo. Quem sabe...”
A ideia lhe ocorreu quando já estava em frente à bandeja.
Rapidamente, pegou dois comprimidos e deixou cair na bandeja a bolinha que tinha feito ao amassar o papel que sobrara. Fingiu que tomava a droga e escondeu os dois comprimidos no macacão. Com o canto do olho, viu quando Bronca chegou junto à bandeja, pegou e engoliu a bolinha de papel como se fosse um comprimido.
Pronto! Chumbinho sorriu por dentro. Logo não estaria mais sozinho. O restinho do efeito da droga que Bronca havia tomado na noite anterior já devia estar passando e então Chumbinho teria um companheiro lúcido. Quem sabe se, juntos, não seria mais fácil criar um plano para fugir dali?
O efeito da Droga da Obediência, pelo jeito, era tão seguro que os empregados nem precisavam se preocupar muito com a vigilância dos garotos. Depois de dar a ordem, o empregado de avental saiu do dormitório. Com certeza daria um tempinho para as cobaias idiotas irem ao banheiro. Enquanto isso, foi cuidar de outra coisa qualquer.
O banheiro era grande e não havia separação entre os meninos e as meninas. Drogados, eles eram cobaias sem sexo.
O plano de Chumbinho começou a dar certo: parado no meio do banheiro, Bronca parecia confuso. Olhava espantado para uma linda menina, sentada no vaso de porta aberta. Sacudiu a cabeça, como que para acordar de um sonho.
— Onde estou? O que está acontecendo? O que está havendo comigo?
Chumbinho agarrou o colega pelos ombros, cheio de esperança.
— Bronca! Que bom! Você está acordando! Olhe pra mim. Eu sou Chumbinho, seu colega do Elite, aquele do fliperama. Lembra-se de mim?
— Chumbinho? — Bronca ainda estava meio tonto. — O que você está fazendo aqui? — O que eu estou fazendo aqui? O que está havendo?
— Não temos muito tempo para explicações, Bronca. Você tomou uma droga que o Bino ofereceu lá no Elite, não se lembra?
— Bino? Elite? Sim...
— Aquela era a Droga da Obediência, Bronca. Uma droga terrível que transformou você num morto-vivo. Veja, todos os outros garotos estão drogados. Mas você não está mais. Eu troquei o comprimido que você devia tomar por uma bolinha de papel!
— Droga da Obediência? Que história é essa?
— Fique firme, Bronca. Temos de encontrar um jeito de cair fora daqui. Finja que está drogado. Faça tudo direitinho como os outros. Finja que está obedecendo às ordens. Essa gente é perigosa! Eles...
— Me larga! — berrou Bronca. — Que negócio é esse? Quero ir embora daqui!
Atrás do amigo assustado, Chumbinho viu, na porta do banheiro, dois empregados que olhavam surpresos aquela discussão. Bronca desvencilhou-se das mãos de Chumbinho e correu para a porta, na direção dos empregados.
— Sai da frente! Quero sair daqui! O que vocês estão pensando?
Os dois empregados tentaram agarrar Bronca, mas o garoto era forte e estava enfezadíssimo. Com dois safanões, abriu caminho entre os dois e correu pelo dormitório. Os empregados e Chumbinho correram atrás. Bronca abriu a porta do dormitório e enfiou-se por um longo corredor.
— Pega! Não deixa fugir!
Chumbinho viu quando Bronca empurrou um funcionário que tentava barrar-lhe o caminho. O sujeito caiu, mas, de joelhos, sacou um revólver e apontou para as costas do macacão azul, onde estava bordado D. O. 19.
Um clarão, e o corpo do Bronca foi arremessado para a frente, como se tivesse tropeçado.
Quando Chumbinho chegou junto ao colega, um orifício negro enfeitava a letra D. O menino ajoelhou-se junto ao cadáver e sussurrou, tomando-lhe a mão esquerda nas suas: À sua volta, um grupo de empregados discutia excitadamente:
— O que houve? Esses garotos não tomaram a droga?
— Sei lá! Eu mandei tomar!
— Aqui tem coisa!
— Agarra esse aí! Temos de falar com o Doutor Q.I.!
No momento em que a mão pesada do empregado agarrou o ombro do Chumbinho, o menino havia acabado de tirar o curativo e enfiá-lo no dedo do cadáver.

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