25 de janeiro de 2018

Capítulo 16. Os Karas não se entregam facilmente

Quando o efeito das bombas de fumaça se dissipou, parecia que um terremoto havia abalado o aeroporto de Cumbica. Foi preciso muito tempo para todos ficarem convencidos de que ninguém fora ferido, mas todo mundo ainda berrava e tremia, sentindo-se envolvido em um verdadeiro atentado terrorista.
No meio do caos, o Doutor Pacheco era o mais histérico de todos, certo de que seria responsabilizado por todas as consequências.
— Inferno! Eu bem que disse que essa loucura não ia dar certo! E agora? E agora? Vou perder meu cargo!
— Que se dane o seu cargo! — Andrade estava a ponto de agredir o emproado agente federal. — Vocês perderam Chumbinho e Calú! Agora eles estão nas mãos dos bandidos. E vocês não têm nem ideia do lugar para onde eles foram levados!
Miguel apanhou a sacola de Calú, caída no asfalto. Chegou-se perto de Andrade e puxou o detetive pelo paletó:
— Venha, Andrade. De que adianta botar a boca no mundo? Deixe os federais cuidarem dessa confusão. Onde está o seu fusquinha? Vamos voltar para São Paulo.
Em poucos minutos, Andrade estava dirigindo pela Rodovia dos Trabalhadores com Miguel, Crânio e Magrí.
Sua cabeça fervilhava em busca de alguma ponta daquele novelo que ele pudesse puxar a fim de descobrir para onde tinham sido levados Calú e Chumbinho.
Magrí comportara-se como um Kara, com valentia, durante toda a confusão. Mas, ao entrar no fusquinha, deixou que as lágrimas corressem livres por seu lindo rosto:
— Calú... meu querido... Chumbinho! Ai, onde estão vocês? O que é que nós vamos fazer?
Andrade tentou dizer alguma coisa, consolá-la, mas tudo o que pôde fazer foi chorar junto com a menina.
Calú e Chumbinho estavam nas mãos dos bandidos mais fanáticos que Andrade já combatera. Se a farsa fosse descoberta, eles poderiam desaparecer para sempre... Os nazistas não teriam piedade! 
Sentado no banco de trás, junto com Miguel, Crânio passou suavemente as mãos pela maciez dos cabelos de Magrí, como se consolasse uma criança.
— Calma, gente, calma... Não adianta perdermos a cabeça. Nós vamos descobrir para onde Calú e Chumbinho foram levados...
Miguel tomou a liderança:
— Pare na primeira lanchonete que encontrar na estrada, Andrade. Precisamos pôr as ideias no lugar.

* * *

Calú agiu como o excelente ator que era. Mostrou-se entusiasmado e procurou demonstrar perfeito domínio da situação, como se o garoto que acompanhava dependesse totalmente dele.
O genial ator do grupo dos Karas percebeu aliviado que agira corretamente ao mandar Chumbinho chorar.
Eles haviam usado a senha correta com a mulher da bonbonnière, mas havia alguma outra, que deveria ser dita ao falso motorista de táxi. Como esta eles não conheciam, o próximo procedimento era mesmo fazer o Esperado chorar. E ele estava certo: o choro do Esperado era outra senha que indicava que alguma coisa não estava correndo bem, e era também a ordem para precipitar a operação mais arriscada, com as bombas de fumaça e o helicóptero. Se Chumbinho não tivesse chorado, eles não teriam dito nenhuma senha para o motorista de táxi e todo o plano teria ido por água abaixo.
Apesar de todo o risco que corriam agora, Calú sentiu-se quase satisfeito. Por enquanto, o plano corria bem.  Ele estava na pista do assassino do seu querido professor de teatro!
Chumbinho notou que a sacola de Calú caíra quando eles tinham sido içados para o helicóptero. Agora, a Polícia Federal não poderia segui-los. Estavam sozinhos.
Tudo dependeria somente deles. Inclusive suas próprias vidas... Não sentiu medo, porém. Só um leve tremor, certamente devido ao forte vento provocado pelas pás do helicóptero.
Viu que Calú agia com segurança, rindo, comemorando o sucesso do resgate e falando animadamente em alemão com o piloto, com o falso motorista de táxi e com a moça da bonbonnière. Compenetrou-se no papel do Esperado. O garotinho sabia que seria absurdo permanecer calado. Ele não falava alemão, mas os dois tinham combinado uma saída durante os ensaios daquela noite, na casa de Calú. Voltou-se para o amigo, rindo de modo encantador e falando em Código Vermelho:
— Pomberr enterstais nãisomber enterspenterráisvaismombers, Caislúfter. Omber raisnsminisssomberrcaisinisufter. Enterlenters aisgomberrais vãisomber tenterr denter aiscrenterdinistaisr nais genterntenter, senternãisomber, enterstaismombers frinistombers!
Os dois tripulantes e a mulher olharam espantados para Chumbinho, sem entender o que ele dizia. Calú apressou-se a explicar em alemão:
— O Esperado está falando em afrikaans, que é a língua dos afrikaners, os arianos da África do Sul, Kameraden. Por razões de segurança, ficou decidido que o Esperado só deverá falar em afrikaans, uma vez que, para todos os efeitos, ele é da África do Sul, e em português, pois aqui será erguido o IV Reich. Ele foi perfeitamente treinado em português, para comandar daqui a nossa operação. O Esperado é muito inteligente, Kameraden. Fala qualquer língua. Fala até bantu, que é a língua dos miseráveis negros da África do Sul. Querem ver?
Voltou-se para Chumbinho:
— Enterufter dinisssenter quenter vombercênter faislaisvais ais línisnguais dombers aisfriniscaisnombers, Chuftermbinisnhomber.Dinisgaisquaislquenterr comberinissais paisrais inismprenterssinisombernaisr enterstenters caisnaislhaiss...
Dizer qualquer coisa? Chumbinho adorou a brincadeira:
— Jabaculê! Na tonga da mironga do kabuletê! Sarava!
Aquilo estava começando a ficar divertido!
— Viram?
— O que disse o jovem Fuhrer, Kamerad?
— Ele disse que está muito feliz pelo fato de ter sido resgatado por soldados tão competentes como vocês e que haverá de conceder as primeiras medalhas do IV Reich para todos os três. Disse que a edificação do nosso novo império depende da competência de arianos como vocês!
— Tudo isso?
— É que a língua dos bantu é muito econômica, vocês sabem... Eles são tão pobres...
O helicóptero começou a descer. Embaixo, estendia-se uma imensa propriedade murada, onde campos e jardins muito bem-cuidados circundavam uma grande construção. Aquele deveria ser o destino final da curta viagem. Para Calú foi fácil localizar-se. O helicóptero tinha voado rumo oeste. Embaixo, estava a rodovia Raposo Tavares. O sítio devia ficar em algum ponto entre os municípios de Cotia e Vargem Grande.
Magrí voltou do lavatório da lanchonete com outra expressão. Lavara o rosto, ajeitara o cabelo e já recuperara o controle. Era novamente um Kara. Aproximou-se da mesinha onde os outros três estavam instalados. Andrade devorava um enorme sundae. Crânio e Miguel não quiseram nada. Raciocinando, o gênio dos Karas tocava a sua gaita, baixinho, com uma melodia tão suave que acalmava os espíritos perturbados de todos.
A menina sentou-se e encarou os amigos. Sua voz estava emoldurada pelo delicado fundo musical da gaitinha de Crânio.
— Vamos colocar em ordem tudo o que sabemos: pelo que Calú nos contou, Solomon Friedman e Ferenc Gábor só se conheceram e estiveram juntos no campo de extermínio de Sobibor. Nunca mais se encontraram desde então. Se alguém tem algum motivo para querer eliminar os dois, só pode ser alguém que Gábor e Solomon conheceram naquele inferno. Algum oficial sádico que corra o risco de ser julgado como criminoso de guerra.
Lembram-se do panfleto amarelo? Lá estava escrito: “Ninguém escapa ao meu inferno!” E quem pode ser “dono” do inferno de Sobibor?
— O demônio, como eu já disse... — lembrou Crânio, interrompendo a melodia.
— Ou poderia ser um anjo, Crânio... Um anjo tristemente especial... — aparteou Miguel.
— É aí que eu quero chegar, Miguel — continuou a menina, com uma segurança que fazia esquecer sua frágil reação de ainda há pouco. — O anjo que você citou é a nossa única suspeita lógica. Desses oficiais, temos apenas um nome, relatado a Calú pelo velho Sol. “Ninguém escapa ao meu inferno...” estava escrito no panfleto amarelo. E quem era o “dono” do inferno de Sobibor? Kurt Kraut, o Anjo da morte!
Andrade raspou o fundo da taça de sorvete:
— Esse não serve, Magrí. Esse já morreu.
— Pode não ter morrido. Pode ter conseguido fugir do tal porão, depois da explosão da granada.
— Mas os russos disseram...
— De acordo com o que contou o velho Sol, os russos não tinham registros precisos daquela noite. O que é fácil de se compreender: quem se preocuparia com anotações detalhadas no meio daquele caos?
— Se Kurt Kraut tivesse sobrevivido — observou Crânio —, ele provavelmente usaria o nome de Davi Segai.
Devemos então procurar por algum Davi Segai que, se existir, deverá morar em São Paulo, ou perto daqui, escondido como um tatu, por se sentir em risco de ser desmascarado por Solomon Friedman.
O líder dos Karas voltou-se para Andrade, como se o experiente detetive fosse um simples auxiliar:
— Se esse Davi Segai existe, como você poderia descobrir?
— Posso ver nos registros do Tribunal Eleitoral. Se ele for eleitor, estará registrado lá. Como ele não se naturalizou, pode não ser eleitor. Neste caso, estará registrado na Delegacia de Estrangeiros.
— Você conhece gente lá? Pode investigar por esse lado?
— É claro que posso!

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