20 de janeiro de 2018

Capítulo 16. A batalha do Pantanal

Tia Matilde dormia. Para que acordá-la? Estava exausta, e a expedição do Senador avançava tão lentamente em relação ao C-47, que um cochilo não alteraria em nada a perseguição.
Calu olhou novamente pela luneta eletrônica. A expedição desembarcara e agora tornava-se um pouco mais difícil segui-los. Difícil mas não impossível. De vez em quando, aquela longa fila de homens deixava-se ver em meio às árvores.
Resolveu fazer uma visita à cabine. Deveria ser divertido acompanhar aquele velho piloto em ação. Pepino falava ao microfone quando Calu abriu a porta da cabine.
— Alô... responda, Centurião... Capito?... Ê urgentíssimo...
Não foi possível ouvir a resposta do tal Centurião, fosse lá quem fosse, pois ela passava diretamente para os fones de ouvido de Pepino.
— Estamos em apuros! Capito? O Ente está indo para aí com um garoto metido a esperto... Hein? Não. O Ente não pode se expor. Tem de agir com a maior naturalidade. Qualquer descuido e o Ente será desmascarado... Ouça o que o Ente planejou: vamos libertar os prisioneiros que estão em seu poder... Fique calado, estúpido! Será uma libertação simulada. Eu vou sobrevoar o acampamento e metralhá-lo. Em seguida vou pousar e sair atirando. Vocês devem simular alguma resistência, sem dar na vista, a mais real possível. Aí eu liberto os prisioneiros e levantamos voo. Com todos eles juntos, o Ente não correrá mais perigo... Como? Vou direto para o mar, e os garotinhos mais o gordo detetive vão dar um belo mergulho... E daí? Daí vocês abandonam o acampamento e se dispersam...
Branco como um lençol, Calu fechou silenciosamente a porta da cabine. Até o piloto de tia Matilde era um homem do maldito Ente!
Pepino havia falado nos “garotinhos e no gordo detetive”... Magri, Chumbinho e Andrade! Só poderiam ser eles! Então eles tinham sido aprisionados pelos bandidos? E agora? O Ente não podia expor-se a ser desmascarado numa ação aberta, da qual poderia sobrar alguém que quebraria o segredo de sua identidade. Sua ação teria de ser segura... e fulminante! Se o plano desse certo, ele próprio, Miguel, Chumbinho, Magri e Andrade estariam presos no avião. E, aí, nada mais haveria a fazer... Um mergulho no mar! A mil metros de altura, e sem pára-quedas!
Calu controlou-se. Sentou-se calmamente na poltrona e tomou uma decisão. Tinha um plano. Era arriscado, mas a única chance. Muitas vidas, incluindo a sua, estavam nas mãos dele. Nada poderia ser feito naquele momento. A hora de agir chegaria. Esperá-la era como se espera nos bastidores o momento de entrar em cena em uma estreia de teatro. E, nessas horas, Calu sabia controlar os nervos como ninguém.
Na outra poltrona, tia Matilde começou a roncar.

* * *

Magri não conseguira saber o que o Centurião tinha ouvido pelo rádio, pois o bandido pusera os fones de ouvido, ficando com o som só para si. Agora o bandido desligava o aparelho e parecia preocupado. Passou a mão vigorosamente pelo cabelo imundo, como se pretendesse livrar-se da preocupação.
— Bueno. Si ei Ente dice que vá a dar cierto, es que vá a dar cierto.
Quando olhou novamente para a garota, trazia um sorriso macabro.
— Tenemos tiempo para una fiestita rápida, chica... Una fiesta de despedida…
Com um golpe da faca cortou a corda de náilon. Magri sorriu tentadoramente.
— E a bebida? Não vai oferecer?
O Centurião estendeu-lhe a garrafa.
— Quieres?
— Você primeiro...
No momento em que o Centurião foi beber, Magri, com um golpe violento no fundo da garrafa, enfiou-lhe o gargalo violentamente garganta adentro. Ao mesmo tempo, um chute certeiro no meio das pernas fez o bandido curvar-se de dor.
— Aaaagh... — gemeu o engasgado, enquanto a pinga descia-lhe pela goela.
A menina amarrou o bandido com a corda de náilon. Pegou a chave da casita e espiou cautelosamente pra fora da barraca. Ninguém à vista. Pelo jeito, os bandidos dormiam. Saiu silenciosa como uma gata. Correndo abaixada como um soldado em combate, Magri chegou à casita. Enquanto a menina destrancava o cadeado, Chumbinho sorriu triunfante, olhando para a expressão feliz, mas apalermada do detetive. O pobre amigo ainda não sabia do que os Karas eram capazes...
Como previra Chumbinho, Magri tinha “arrancado o fígado” do Centurião.

* * *

Pepino acionou o piloto automático e apareceu na porta da cabine.
— Tia Matilde... Desculpe, mas acabei de receber uma mensagem pelo  rádio...
“Isso é verdade” — pensou Calu.
A velha senhora acordou imediatamente.
— Hein? O que foi?
— Recebi uma mensagem de nossos amigos, tia Matilde. Eles descobriram para onde vai o grupo do Senador com o garoto. Parece que vão para um acampamento de contrabandistas e coureiros, capito? Nesse acampamento há três prisioneiros já. Uma garota, um menino e um homem gordo...
“Isso também é verdade...” — pensou Calu, rindo por dentro por ter conhecimento da trama. Dela, ele só não tinha o controle.
Tia Matilde arregalou os olhos para Calu.
— Uma garota, hum... mas podem ser seus amigos, meu querido!
Representar era com Calu. Naquele momento, sua expressão de espanto e revolta deveria ter sido fotografada.
— São eles, tia Matilde! Só podem ser eles!
— My God! — exclamou a senhora, esquecendo-se do português. O que vamos fazer agora?
Pepino propôs o plano do terrível Ente:
— Posso sugerir um ataque aéreo, tia Matilde? A velha quase pulou na poltrona.
— Um ataque aéreo? Você andou bebendo, Pepino?
— Scusi, signora, mas eu fui um piloto de guerra, lembra-se?
— Isso foi há quarenta anos! E este também não é mais um avião de guerra há quarenta anos! É um avião civil, desarmado!
— Scusi ancora, mas não é. Sempre mantenho as metralhadoras carregadas e em perfeitas condições. Sabe? Io no posso dimenticare la guerra...
A tia pensou um pouco. As novidades, de repente, pareciam demais até para uma pessoa como ela.
— Mas nós só somos três! Como vamos pousar, enfrentar os contrabandistas e ainda libertar os prisioneiros?
— Também temos armas de mão a bordo, tia Matilde... Scusi, é que as minhas lembranças da guerra...
— Esqueça essa guerra! — comandou a velha, que parecia ter tomado uma decisão. — Temos uma outra pela frente. Mostre as tais armas!
Pepino abriu um painel disfarçado no forro cor-de-rosa que cobria o interior do avião. Várias armas modernas estavam enfileiradas e presas à fuselagem.
— Está bem. É uma loucura, mas eu sempre fui de topar todas as loucuras!
Tia Matilde pegou um fuzil-metralhadora M-16.
— Me diga como se usa isso, Pepino.

* * *

— Veja, tenente! — apontou um dos homens que tinham se incorporado à expedição do Senador. — O avião de tia Matilde!
Do alto, o enorme pássaro rosa-choque parecia despencar dos céus. Passou rasante sobre eles e seguiu em frente. Miguel acompanhou o avião e viu-o sumir sobre as árvores. Olhou para o Senador. Ia dizer qualquer coisa, mas desistiu. Falou para si mesmo: “Mike Sierrabrava....”
Nesse momento, todos ouviram o matraquear brutal das metralhadoras.

* * *

Acordados por aquele pássaro rosa-choque a vomitar-lhes fogo em cima, os homens do Centurião saíram atirando pra valer. O chefe, amarrado por Magri, não pudera transmitir-lhes as ordens da farsa combinada com Pepino. Mas nem Pepino nem Calu sabiam disso. A resistência devia apenas estar sendo bem simulada, para não dar na vista. Com a habilidade de um ás da aviação, o velho piloto pousou o C-47.
— Magri! Chumbinho! Andrade! — gritou Calu, tentando suplantar o matraquear das metralhadoras. — Sou eu, Calu! Onde estão vocês?
Agachada na porta do avião, tia Matilde tentava controlar o M-16, que pulava de sua mão a cada tiro. Pepino tinha desembarcado e atirava do chão, a esmo, fazendo saltar pequenos galhos das árvores acima das barracas.
Dois bandidos correram para a barraca do Centurião, em busca de alguma ordem que os orientasse. Lá estava ele, amarrado, dobrado de dor, com a boca machucada.
— Estúpidos! Por que demoraram tanto?
— Centurião! Estamos sendo ataca...
— Es claro que estamos sendo atacados, idiotas! No atirem!
— Como!?
— Quiero decir... atirem! Pero no acertem!
— Não estamos entendendo...
— Errem los tiros! Errar ustedes sabem mucho bién! Vamos!

* * *

Deitado no chão, ao lado de Magri e Chumbinho, Andrade viu que era possível correr sob a proteção da vegetação baixa que ladeava a pista até o avião.
— Crânio! — gritou Chumbinho. — Vamos para o avião!
Mesmo com o peso das banhas, Andrade corria quase tanto quanto os garotos. As balas passavam zunindo por sobre o C-47 quando os três chegaram. O rosto de Calu, sorrindo e com a mão estendida para ajudá-los a subir, era a visão mais linda do mundo! Mas o coração do detetive pulou mesmo de alegria quando uma outra figura destacou-se do mato e correu para eles.
— Crânio!
Tia Matilde, com o cano do M-16 apoiado na fuselagem, atirava incompetentemente, para “dar cobertura”, enquanto o detetive e os três meninos subiam, ajudados por Calu.
— Suba, Pepino! — berrou a tia, quando as dificuldades de Andrade foram superadas e o gordo detetive conseguiu embarcar.
Era o momento de Calu. Ele afastou a tia e trancou a porta do avião.
— Querido, o que está fazendo? Pepino ainda não...
— Desculpe, tia Matilde — explicou Calu, com o rosto afogueado pela excitação. — Pepino é um dos bandidos. É um traidor. Eu ouvi uma conversa dele pelo rádio com o tal Centurião.
— Era com esse piloto que o Centurião estava falando? — perguntou Magri.
— Eu ouvi a conversa!
— Foi esse canalha que matou o professor Elias... — revelou Crânio.
Magri olhou para o gênio dos Karas, como se dissesse: “Você estava certo, como sempre, meu querido...”
— Os assassinos combinaram sair daqui com todos nós, antes que o Ente chegasse — continuou Calu. — íamos ser jogados no mar!
Tia Matilde perdeu a fala. Aquela velhinha valente deixou que o cansaço daquilo tudo a dominasse. Parecia frágil, e abraçou o sobrinho.
— Meu querido! Por que tanta confusão, justo quando você resolveu visitar sua velha tia?
Lá fora, os tiros cessaram. Os bandidos não atirariam mais. Isso de nada adiantaria porque as vigias eram de vidro blindado. Um breve silêncio dentro do avião. Todos olhavam para Crânio, abraçado à tia, como se nenhum deles acreditasse que aquele encontro fosse possível. A primeira a quebrar a tensão foi Magri.
— Crânio!
— Magri!
Crânio trocou o abraço de tia Matilde pelo de Magri. Abraçaram-se com o coração apertado de saudade, de dedicação, de amor. Chumbinho e Calu juntaram-se ao abraço, e Andrade tentou envolver a todos, chorando de alegria, sem nenhuma vergonha. Estavam todos reunidos! Ele tinha aqueles meninos queridos novamente junto de si!
— E Miguel?
Calu levantou a cabeça. A alegria do reencontro tinha desaparecido.
— Não há nada que possamos fazer agora. Miguel está nas mãos do maldito Ente!
— O Ente? — espantou-se Chumbinho. — Você descobriu quem é o Ente?
— Eu já sei quem ele é...
— Eu também... — juntou Crânio. — Mas isso de nada nos adianta, agora!
“Miguel!” — choramingou Magri, para si mesma. — “Meu amor... O que vão fazer com você?”
Estavam protegidos dentro do avião, mas o C-47 se tornava também uma prisão. Pelas vigias dava para ver Pepino, falando excitadamente com o Centurião.
— O que vamos fazer? — lembrou Andrade. — Como vamos sair daqui?
Os Karas se entreolharam. Era uma ideia maluca. E foi Calu quem fez a proposta.
— Estamos num avião, não estamos? Então vamos sair voando!
Tia Matilde riu alto.
— Ora, isso é impossível, meu querido! Eu não sei pilotar...
— Nem eu... — lamentou Andrade.
— Mas Chumbinho sabe...
Aquela velha era bem ousada, mas não conseguia entender a maluquice daqueles garotos.
— O quê!? Este garotinho?
Calu colocou as duas mãos nos ombros de Chumbinho.
— Você não disse que já estava dominando perfeitamente os programas de computador feitos para treinamento dos pilotos da NASA, Chumbinho?
— Nunca perdi um voo, Calu.
Pelas vigias viram dois bandidos carregando uma caixa. Nela estava escrito “dinamite”.
— E então, Chumbinho? — insistiu Calu. — É capaz de tirar essa banheira do chão?
— Como se fosse um jogo eletrônico?
— Como se fosse um jogo.
— Nunca perdi nenhum, pessoal. Vamos lá!
Os dois adultos olharam um para o outro, completamente perdidos. Como impedir as loucuras daqueles capetinhas? Por outro lado, de que adiantava ficarem ali, esperando que o Centurião e Pepino explodissem o avião?
Chumbinho parecia minúsculo sentado à frente dos controles. Examinou rapidamente o painel.
— Isto até parece brincadeira! Estou mais acostumado a pilotar um F-4 Phanton II...
Andrade quase engasgou.
— A pilotar o quê?!
— Ahn... quer dizer... a pilotar o simulador de voo do Phanton...
As duas hélices começaram a girar, e os bandidos perderam o rumo. Com uma banana de dinamite em cada mão, Pepino discutia com o Centurião. De repente, pareceu que tinham tomado alguma decisão. O Centurião deu uma ordem, e os bandidos com a caixa de dinamite correram para a cabeceira da pista.
— Eles vão dinamitar a pista! — alertou Magri. — Vão abrir uma cratera, e nós não vamos poder decolar!
— Ande com isso, Chumbinho! — apressou Crânio.
— Ainda não dá. Ainda não temos pressão suficiente!
Era uma corrida de vida e morte. Na cabeceira da pista, o Centurião amarrava as bananas de dinamite e Pepino estendia um fio até o detonador. Do outro lado, os motores do C-47 roncavam, ganhando força, acelerados por um menino.
— Vamos lá, pessoal! — gritou Chumbinho, alegremente, como se fossem iniciar uma louca viagem na montanha russa de um parque de diversões.
Mão esquerda no manche, Chumbinho empurrou lentamente o acelerador com a direita, sem tirar os olhos da pista, de onde os bandidos corriam, protegendo-se atrás dos arbustos.
— Não vai dar! — esgoelou-se tia Matilde. — Eles vão explodir a dinamite quando estivermos passando. Vão nos mandar pelos ares!
O C-47 avançou suavemente. Chumbinho checou o painel. Ainda não havia condições para arremeter.
— Mais alguns segundos e talvez...
— Vamos lá, Chumbinho!
— Grite com o avião! Não grite comigo, Magri. Sei o que estou fazendo!
— Ei! O que está havendo lá?
Somente Crânio conhecia os atores da tragédia que começava a se desenrolar lá fora diante deles. Com o grito de um demônio, uma figura alta e negra, meio coberta por couros de jacaré, correu para cima do Centurião, que estava com as duas mãos no detonador.
Atrás do gigante, um grupo endoidecido de velhos índios avançava gritando, liderado pelo mais velho deles e por um índio de calça, camiseta e óculos escuros. O Centurião largou o detonador e levantou a cabeça.
O mostrador, no painel, indicou que tudo estava pronto para a decolagem. Chumbinho acelerou ao máximo, em direção à batalha. O gigante ergueu a lança a cinco passos do Centurião, mas a metralhadora já estava apontada. A rajada pegou Pacaman no peito, jogando-o para trás, praticamente cortado em dois.
O velho Peorê correu. Agarrou o fio do detonador e arrancou-o. O Centurião girou o corpo e mandou fogo em direção ao velho. Peorê caiu. Ouviu-se o grito de um louco! O índio de óculos escuros jogou-se sobre o Centurião e arrancou-lhe a metralhadora. Por um segundo, os dois se encararam. O Centurião sacou a faca e jogou-se sobre o índio.
O C-47 levantou os pneus do chão, passando por cima daquele espetáculo no momento em que Robson aparava a investida do Centurião com a zagaia, como se apara o bote de uma onça. Do alto, dava para ver a ponta da zagaia saindo rubra de sangue pelas costas do Centurião. Robson vingara o professor Elias. Era o melhor guia do Pantanal. E não pretendia cobrar caro pelo serviço.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!