20 de janeiro de 2018

Capítulo 15. Na trilha do Pequeno Polegar

Crânio só conseguia ver, de relance, sombras passageiras como flashes fotográficos cada vez que um dos velhos Taí-pitá passava por uma réstia do luar que se infiltrava por entre as árvores. Eram sombras medonhas, cobertas por assustadoras peles de jacaré, com as bocarras escancaradas. Um grupo de demônios. Um pequeno exército de fantasmas silenciosos, determinados. Guiavam-se na escuridão, por entre as árvores, como se fosse dia.
A sombra mais velha avançava à frente, como um jovem guerreiro. Robson, com uma zagaia curta nas mãos, seguia quase colado ao bisavô.
O gênio dos Karas tropeçava, chocava-se contra os ramos mais baixos, enredava-se nos cipós. Mas sua determinação não diminuía. “Magri! Me espere. Já estou indo! Já estou indo!”
Um trompaço maior, e uma queda. Ao seu lado, um braço forte ergueu-o. Sob a fraca luz da lua, a alvura de dois olhos, arregalados pelo ódio e pela antevisão do sangue de brancos a derramar, fixou-se por um momento naquele garoto para quem a floresta era uma ameaça e não uma salvação. No meio da noite era o rosto de um demônio que parecia estar sendo vomitado por um sáurio infernal. Pacaman empurrou-o, e Crânio seguiu na trilha daqueles fantasmas de pesadelo.

* * *

O antigo mas reluzente Cadillac cor-de-rosa entrou na pista do pequeno aeroporto particular guinchando os pneus e estacionou ao lado do avião. Calu esfregou os olhos. Era um enorme avião cor-de-rosa! Um par perfeito para o Cadillac.
O rapaz estranhou a cor e estranhou ver ali, em pleno Pantanal, um C-47, uma relíquia da 2.a Guerra. A pintura rosa-choque era novinha, como parecia ser o C-47, tão bem conservado, com seu prefixo PT-MSB pintado em preto.
— Gostou do aviãozinho, meu querido? — sorriu tia Matilde. — Isso sim é que é avião! Não é como essas latinhas de hoje em dia, que mais parecem brinquedos. Naquele tempo, sim, é que se faziam máquinas para durar. Você vai ver lá em cima. Você vai ver do que o meu aviãozinho é capaz! Não é, Pepino?
Só neste momento Calu reparou no piloto. Pepino. Um sobrevivente da própria guerra, como o avião, e que trazia em cada ruga uma lembrança do tempo “em que se faziam máquinas para durar”. Um ítalo-americano caladão, sempre de olhos baixos, metido num blusão de couro tão desgastado pelo uso quanto sua cara.
Embarcaram.
Se a preocupação não fosse tanta, Calu não poderia deixar de rir. Todo o interior do C-47 estava decorado em rosa, com veludos, cetins, tafetás, cortinas, móveis antigos, vasos floridos e um fofíssimo divã da cor das flores. Tudo era cor-de-rosa, tudo era fofo, como o quarto de uma madame do século 19. E a tal “madame” estava ao seu lado.
Calu sentiu-se em uma sala de visitas da avó de alguém e não a bordo de um avião que, no passado, devia ter soltado toneladas de bombas na Europa e no Pacífico. Ainda não amanhecera quando as hélices começaram a girar.

* * *

Andrade não conseguia impedir que as lágrimas corressem fartas por suas bochechas. Na escuridão, espremido na casita de bambu, deixou-se consolar por Chumbinho, como se fosse uma criança grande, gorda e careca.
— Nunca! Eu nunca deveria ter permitido que vocês viessem para cá! Magri! Minha filhinha! Se o Centurião tocar em um só fio do cabelo de Magri, eu juro... Ah! eu juro que vou arrancar o fígado daquele canalha, nem que seja a última coisa que...
Chumbinho apertou fortemente a mão do amigo.
— Controle-se, Andrade, por favor! Você não conhece direito a Magri...
— Eu adoro aquela menina!
— Mas não conhece direito. Pode deixar que ela mesma arranca o fígado do Centurião. Ele não tem ideia do problema em que se meteu!
— Magri... Crânio! Onde está você, menino? Por que se meteu nesta história de horror?
Chumbinho abraçou o amigo. Juntos, naquela gaiola escura, os dois estavam abandonados à própria sorte.

* * *

Em Otília, balançando-se nas águas calmas do rio Taquari, havia nada menos que dez voadeiras, todas iguais, à espera do Senador e de Miguel. Mais de quarenta homens, com armas modernas, mochilas e um aparelhamento portátil de rádio.
— Vamos subir o rio, devagar — comandou o Senador. — Todo mundo de olho nas margens. Procurem por qualquer marca ou objeto que possa ter sido deixado por alguém, como um sinal. Nada deve ser desprezado.
De pé, na proa, a figura imensa do Senador parecia desequilibrar a primeira lancha. Miguel ocupou a proa da voadeira seguinte, e o homem que estava no leme manobrou-a para a esquerda, de modo que, lado a lado, as duas embarcações liderassem a expedição. Dez motores de 25 Hp roncaram ao mesmo tempo. O líder dos Karas estava em ação. Havia uma esperança.
“Chumbinho... Andrade... Magri... Eu vou encontrar as suas pistas, minha
querida Pequeno Polegar... Eu vou salvar você, meu amor...”
Na primeira curva, porém, duas outras voadeiras, atravessadas no rio, impediam a passagem da expedição. Na proa da primeira, um homem de bigode sorria.

* * *

O Centurião empurrou-a brutalmente para dentro da barraca. Magri rolou, chocando-se com a armação e fazendo balançar o lampião a gás pendurado em um dos ferros.
— Que bela chica! Fuiste um regalo que los cielos me han entregáo. Creo que los dioses están preocupados com la solitud dei Centurión...
O bandido pegou uma corda de náilon e abaixou-se ao lado da garota. Habilmente amarrou-lhe as mãos às costas.
— Para que no penses em fugir. De nada adiantaria, verdad? Adonde iria una chiquita como tu, no meio de Ia noche, en ei Pantanal? Tienes miedo de Ias cobras, chiquita? No Ias tiemas. El Centurión está acá, para proteger-te...
Como se fosse capaz de um carinho, a mão amarela de sarro de cigarro do Centurião tocou a face delicada de Magri...

* * *

— Bom dia, Senador! Saindo para pescar?
Ainda estava escuro, mas as primeiras luzes do dia já podiam ser percebidas. Era como se a luz tivesse cheiro, ao amanhecer. Para Miguel, as sensações confundiam-se. Tudo parecia impregnado do perfume de Magri.
— Bom dia, tenente — respondeu o Senador. — Parece um bom dia para pescar. Acho que vai dar para pegar peixe grande hoje...
— O rio sobe para um lado só, não é, Senador? Por isso acho que vamos para o mesmo lado...
— O rio é público, tenente...
As duas chalanas manobraram e juntaram-se ao grupo, uma de cada lado. Mais dez homens. Todos fortemente armados. O Senador não parecia muito feliz com aquela companhia.

* * *

O C-47 voava alto.
— Como vamos localizar Miguel desta altura, tia Matilde?
— Não se preocupe, meu querido. O importante é que eles, lá debaixo, não nos localizem. O que haveria de pensar o Senador se visse meu aviãozinho sobrevoando o rio o tempo todo? Nada disso. Temos um aparelhinho aqui que vai resolver o problema.
Tia Matilde abaixou-se e fez correr uma tampa no chão do aparelho. Uma vigia de vidro blindado mostrava o Pantanal na glória do amanhecer. Encaixada na borda da abertura, uma aparelhagem sofisticada, unindo máquina fotográfica e luneta eletrônica.
A tia de Crânio colou um olho à luneta e ajustou o aparelho.
— Veja, meu querido. É como se estivéssemos a apenas cem metros de altura.
Calu ocupou o lugar da tia. A luneta estava focalizada sobre o rio Taquari, sobre um grupo de lanchas. Era quase possível reconhecer os ocupantes.
— Viu? Nós podemos seguir até uma mosca! Mas eles, lá embaixo, nem vão desconfiar. É um brinquedo adorável, do tempo da guerra.
— Puxa! já existiam aparelhos como este na 2.a Guerra?
— 2.a Guerra? Que nada! Esse aparelhinho é da guerra do Vietnã!

* * *

— Mais devagar — pediu Miguel ao homem do leme. — O que é aquilo?
O homem manobrou a lancha e aproximou-se ainda mais da margem. O líder dos Karas pulou rapidamente para terra e correu em direção a algo que só ele percebera. Algo vermelho, balançando ao sabor da brisa.
— Senador! Encontrei! é o lenço de Magri!

* * *

O C-47 voava em círculos e o sol projetava para dentro o reflexo rosa-choque da fuselagem. Tinham muito tempo. Lá embaixo, a expedição arrastava-se pelo rio.
— Bebe alguma coisa, meu querido?
Tia Matilde abriu a geladeira cor-de-rosa. Calu acertou a limonada que ela lhe oferecia. Para si mesma serviu-se de uma farta dose de whisky, com muito gelo.
— Ah, esse calor do Pantanal! Já estava desacostumada ao calor brasileiro...
— A senhora é americana, não é?
— Nada! Sou brasileira da gema, meu querido. Vivi muito tempo nos Estados Unidos, quando estava casada com Vitório. Pobre Vitório! Me deixou à maior rede de restaurantes de comida italiana. Uma herança de macarrão! O melhor macarrão do mundo! Ah, ah! É graças a essa macarronada toda que eu pude voltar para o Brasil e criar gado aqui neste paraíso de sonhos. Agora, Nova Iorque só de visita!
Calu deixou a tia falar de suas saudades e de seu sucesso como fazendeira no Pantanal. Aos poucos, embalada pelo whisky, tia Matilde lembrou-se do sobrinho desaparecido.
— Pobre menino! Eu estava tão contente em recebê-lo... Só o vi desmaiadinho, coitado...
— Desmaiado?! Como assim?
— Bem, meu querido, eu não queria contar. Mas, naquele dia, meu sobrinho foi confundido com algum traficante de cocaína e acabou ferido. Levemente, mas precisou ficar no hospital, enquanto eu saía em um desses jatinhos modernos em busca do meu mecânico, porque este valente C-47 cismou de encrencar. E, na minha ausência, o Senador foi mais esperto...
Tia Matilde entornou o fim do copo de whisky e continuou.
— A responsabilidade pelo desaparecimento do meu sobrinho é do Senador. Ah, isso é! Levou Crânio para a fazenda dele e, depois disso, só ouvimos falar dele nas últimas palavras do pobre piloto comido pelas piranhas...
O Senador tivera Crânio nas mãos. Depois, fora a vez de Calu. Agora era Miguel quem estava em seu poder. Calu teve vontade de dizer que a responsabilidade por tudo de ruim que estava acontecendo no Pantanal era daquele grandalhão. Mas de que adiantava falar? Aquela era a hora de agir...
Tia Matilde recostou-se na ampla poltrona cor-de-rosa.
— Por isso fiz questão de organizar eu mesma as buscas do meu sobrinho. Aqui, a polícia é muito desaparelhada, meu querido. Tive de botar todos os meus empregados, todos os meus amigos, nessa procura. Ninguém deu um passo sem minha ordem. Mas, até agora, nada... Coitado do meu menino! Coitadinho...
O cansaço de uma semana de buscas, a noite mal dormida e o whisky, àquela hora da manhã, fizeram seu efeito. Tia Matilde soltou o copo no chão acarpetado do avião e adormeceu.

* * *

O sofisticado aparelhamento de rádio estava sintonizado em um programa sertanejo. Magri estranhou que, entre uma música e outra, entre um anúncio e outro, o locutor viesse com uma fala que parecia totalmente deslocada:
— Atenção, pessoal! O Taquari tá cheio de piranhas!
O Centurião soltou uma gargalhada que encheu toda a barraca com seu hálito
fedido.
— Ah, essos coureiros se defendem! Sabes o que oiste? Es um código. El locutor está avisando a sus cumpadres que la policia anda por ei Taquari. Acá es asi. Todos sabem se defender, chiquita!
Pegou uma garrafa de pinga em uma sacola.
— Pero devemos olvidar los problemas dei Pantanal por ahora, chiquita. Haremos una fiesta! Una fiestita antesl Ah, ah!
Colou o gargalo à boca, tomando um grande gole e deixando a cachaça escorrer pelo queixo. Olhos vermelhos, arrotou e estendeu a garrafa para a menina.
— Quieres um golito? Bebes, chiquita?

* * *

Coruja não pia ao amanhecer. Isso Chumbinho sabia. E não precisou de muito tempo para entender o que a “coruja” queria dizer com aqueles piados.
— Um longo, um curto, um longo... um curto, um longo... um curto, um longo, um curto... um curto, um longo... três curtos! Karas! Mas quem será que...
Na escuridão da casita, Andrade não entendeu o que estava acontecendo.
— O que você está falando, Chumbinho? Ficou maluco?
— Fique quieto, Andrade! Deixe eu ouvir a coruja!
— Coruja!? Mas...
— Quieto! Espere... um longo, um curto, um longo, um curto... um curto, um longo, um curto... um curto, um longo... um longo, um curto... dois curtos... três longos... Crânio!! Crânio está vivo!
— Chumbinho, você está delirando?
— Andrade, Crânio está vivo! Está lá fora! Esses pios de coruja estão em Código Morse!
— Morse? Como eu não percebi?
— Lá estão os piados de novo. Ouça! Um longo... um curto... um longo, um curto... quatro curtos... três longos...
No fim da mensagem, Andrade traduziu:
— “Tenho gente comigo. Vamos libertar vocês...” Chumbinho abraçou, feliz, o amigo detetive.
— Crânio! E a gente que pretendia salvá-lo. Agora ele é que aparece para nos libertar!

* * *

Magri teve de se conter para não chorar de alegria. Um novo código sobrepunha-se ao código dos bandidos, do programa de rádio. E foi como um coro de anjos. A coruja piava em Morse! Crânio estava vivo! E viera libertá-la!
Não estava em condições de responder, mas nem precisava. Ouviu o pio de outra “coruja”. Era Chumbinho. Crânio estava sendo informado de tudo o que acontecia no acampamento dos bandidos.
Resolveu usar todo o charme de que era capaz.
— Vai beber sozinho, Centurião? Não estou convidada para a festa?
O bandido olhou divertido para a menina.
— La fiesta? Pero tu eres la fiesta! Ah, ah, ah!
— Mas como vou participar, amarrada assim?
— Amarrada asi, estoy más tranquilo...
Magri exibiu um daqueles seus sorrisos de derreter bronze.
— Só que, desamarrada, posso fazer coisas que vão deixar você de boca aberta...
O Centurião arreganhou a boca, exibindo seus cacos de dentes. Sacou a faca e aproximou-se de Magri. Nesse instante, o moderno aparelhamento de rádio interrompeu automaticamente a programação sertaneja e passou a emitir uma mensagem.
— Alô, alô... Chamando Centurião... O Ente, chamando Centurião... Ê urgente... responda ao chamado... Capito?... Urgentíssimo,..
O Centurião guardou novamente a faca e ajoelhou-se ao lado do aparelho de rádio.
— Um segundito, chiquita. Nuestra fiesta começará em um segundo, no más...
Passou a chave do aparelho para a posição de transmitir, e falou:
— Alô... Centurión hablando... Estoy en Ia escuta...

* * *

— Veja, Senador! Outro pedaço da blusa de Magri!
Miguel seguia à frente apressado, mas com todos os sentidos ligados em busca de cada marca que a única menina dos Karas havia deixado para guiá-lo. Duas ordens, do Senador e do tenente de bigode, faziam aqueles homens avançarem em silêncio, carregando suas armas e o rádio de campanha.
“Já estou chegando, Magri! Minha querida! Meu Pequeno Polegar! Me espere. Já estou chegando!”

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Boa leitura, E SEM SPOILER!