25 de janeiro de 2018

Capítulo 15. Dublê de nazista

O problema dos pais ficou resolvido da forma costumeira: Chumbinho comunicou que dormiria na casa de Calú para receber algumas explicações sobre a matéria que cairia na “prova” do dia seguinte e iria para o colégio com o amigo. Os cinco Karas sabiam como manter seu incrível disfarce: os pais de todos eles estavam convencidos de que seus filhos jamais se metiam em confusões.
O agente de óculos escuros acabou concordando com a maluquice daqueles garotos. Concordando? Bem, na verdade, o plano foi impingido a ele como um purgante. Sua vaidade fora provocada do modo certo e, agora, o plano de Miguel e de Crânio era para ele uma questão de honra.
Os dois garotos quase não descansaram naquela noite, preparando-se para os papéis que desempenhariam na manhã seguinte. Chumbinho estava excitadíssimo, e Calú orientou-o como pôde na arte de representar. Era alta madrugada quando Calú adormeceu, pensando que o amigo daria um Max Godson mais ou menos.
“Tomara que os nazistas não desconfiem...”
Depois de uma noite de sono, ou melhor, depois de ficar acordado rolando na cama a noite inteira, Andrade parecia um grande bebê ranzinza:
— Já estou cheio de fazer tudo o que vocês dizem, seus danadinhos! — desabafou Andrade na manhã seguinte, quando todos se reuniram na sala da Polícia Federal, no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, perto de São Paulo.
— Eu devia estar maluco quando concordei com a maluquice do plano de vocês!
O enorme jato procedente da África do Sul pousou no horário previsto, só que no aeroporto de Viracopos, em Campinas, e não no de Cumbica. Seguindo as orientações recebidas pelo rádio, o comandante da aeronave não comunicou a mudança de destino aos passageiros. Garantiram-lhe que tudo ficaria esclarecido e que a situação estava sob controle. Assim, os passageiros daquele voo desceram normalmente e dirigiram-se para o local onde apresentariam os passaportes.
Ao mesmo tempo, no aeroporto de Cumbica, os alto-falantes anunciaram o pouso do voo procedente da África do Sul, para que nenhuma suspeita fosse despertada nas pessoas que pudessem estar à espera de algum passageiro. Como é normal que passageiros do exterior percam bastante tempo na alfândega antes de sair para o saguão, Calú e Chumbinho tinham tempo para fazer o que tinha de ser feito.
Em Viracopos, os funcionários da alfândega deram um jeito de fazer com que os passaportes e as bagagens de dois jovens passageiros fossem liberados em primeiro lugar.
Naturalmente os documentos dos dois viajantes estavam corretíssimos, com as devidas autorizações de seus responsáveis na África do Sul e com o visto de entrada no Brasil. Assim, os dois garotos saíram para o saguão do aeroporto de Viracopos sem qualquer suspeita de que aquele era o aeroporto errado.
A partir daquele momento, cada movimento dos dois era observado, anotado e relatado a um agente que estava com o celular na mão, em contato com o agente de óculos escuros, no aeroporto de Cumbica.
— Os dois entraram no banheiro, Doutor Pacheco. Quer que a gente vá ver o que eles estão fazendo?
— O que eles estão fazendo no banheiro eu sei, seu cretino! — gritou a voz do Doutor Pacheco, do outro lado da linha. — Verifique apenas se alguém os seguiu. Veja se eles saem sozinhos de lá!
Os dois pareciam agir com calma. Foram até a bonbonnière do saguão e compraram alguma coisa. Saíram do aeroporto e postaram-se no fim da fila dos táxis enfileirados à frente do aeroporto. Se algum deles coçava a cabeça ou metia as mãos nos bolsos, o Doutor Pacheco ficava sabendo na mesma hora.
— Um deles está metendo o dedo no nariz, Doutor Pacheco!
— Um deles está metendo o dedo no nariz, Crânio! — repetiu o Doutor Pacheco para o rapaz ao lado dele.
— Continue ouvindo, Doutor Pacheco. Isso não deve ser um sinal.
Em certo momento, o agente comunicou ao Doutor Pacheco que os nazistinhas mostravam-se perturbados.
— Aí está! — gritou Crânio. — Estão nervosos porque já fizeram o sinal e não apareceu ninguém! Seus agentes não conseguiram perceber o sinal, Doutor Pacheco!
De Viracopos, o agente informou que os garotos tinham voltado à bonbonnière e comprado mais alguma coisa.
— É isso! — exclamou Miguel, batendo na testa. — O sinal é a compra na bonbonnière. Mande os seus agentes esperarem que os garotos se distanciem e depois descubram o que eles disseram à vendedora, o que perguntaram, tudo!
O Doutor Pacheco transmitiu a ordem e, em poucos minutos, veio a resposta:
— Engraçado, Doutor Pacheco... O mais velho falou em português!
— Ele está bem treinado para vir para o Brasil, Doutor Pacheco — comentou Crânio. — Pergunte o que o garoto falou!
— O que ele disse? — perguntou o Doutor Pacheco, ao telefone.
— Ele pediu chicletes e disse à moça da bonbonnière que chocolate faz mal para quem tem pele muito branca. Coisa mais idiota de se di...
— Idiota é você! — berrou o Doutor Pacheco. — Preste atenção no serviço e guarde seus comentários para você mesmo!
— Espere, Doutor Pacheco! — a voz vinha preocupada, do outro lado. — O menor deles está chorando!
— Isso deve ser outra senha, Calú — concluiu Miguel, depois de receber a informação através do Doutor Pacheco.
— Estão prontos?
— Claro que sim! — riu Chumbinho muito decidido.
— Então, boa sorte, meninos! — sussurrou Andrade.
— Por que você não deseja “merda” para nós?
— Hein?
— Nada, Andrade... — sorriu Calú. — Você não é de teatro, né?
Em Viracopos, os dois nazistinhas de verdade começaram a mostrar sinais de pânico. Foram até o balcão de informações e o mais velho reclamou esclarecimentos, em bom português.
Depois de algum tempo, uma agente federal muito solícita, que se fazia passar por funcionária da companhia aérea, concordou que aquele não era o aeroporto onde os dois jovens pensavam estar desembarcando.
— Desculpem... — disse ela, sorrindo. — Vamos providenciar para que vocês dois sejam embarcados imediatamente para o aeroporto onde estão sendo esperados. Acompanhem-me, por favor...
Foi assim que, “por engano” e sem que os dois garotos desconfiassem, eles foram gentilmente embarcados em um voo para Sydney, na Austrália, que decolaria naquele momento. Desse modo, os dois nazistinhas só poderiam comunicar-se com a Organização quando o avião fizesse escala!
A Polícia Federal teria cerca de doze horas para agir antes que a troca fosse descoberta.
Carregando sacolas de mão como qualquer passageiro que desembarca, Calú e Chumbinho saíram para o saguão do aeroporto de Cumbica. Na sacola de Calú estava instalado um transmissor, menor que uma moedinha, que emitia bips para um aparelho receptor instalado em um carro da Polícia Federal.
Calú e Chumbinho agiram com a maior tranquilidade do mundo e dirigiram-se à bonbonnière.
Calú pediu chicletes, falando em português, com um leve e perfeito sotaque alemão. A moça da bonbonnière sorriu para ele, falando com um sotaque bem mais carregado:
— Os meninos não querem chocolate?
— Chocolate faz mal para quem tem pele muito branca — respondeu Calú. Sussurrando, a moça informou no mesmo instante:
— Tudo está bem. Podem ir para o local de encontro.
Calú sentiu-se gelar. E agora? Onde era o tal local de encontro? Os dois alemãezinhos haviam saído para o final da fila dos táxis. Seria lá?
— Venha! — comandou Calú.
Chumbinho procurava assumir um ar de “Esperado”, embora ele não fizesse a menor ideia de como deve agir um menino que está sendo esperado por uma associação de nazistas.
Andaram calmamente para o ponto de táxis, na saída do aeroporto. Do ponto de táxis, um dos motoristas começou a vir na direção deles. Naquele momento, Calú concluiu que Chumbinho deveria agir como agira o verdadeiro Max Godson em Viracopos.
— Chore, Chumbinho! — sussurrou Calú.
— Como?
— Chore! Esgoele-se como um garotinho!
E Chumbinho fez o maior escarcéu!
Os motoristas de táxi estranharam ao ver aquele garoto chorando tão desconsoladamente. O motorista que vinha vindo parou. Outros dois começaram a se aproximar, com aquele jeitão de adulto que vem socorrer criança. Em volta, alguns “transeuntes” aproximaram-se. Eram, sem dúvida, os agentes do Doutor Pacheco.
Foi nesse momento que, em diferentes pontos do aeroporto de Cumbica, ouviram-se explosões ensurdecedoras!
Um pandemônio dos diabos tomou conta do aeroporto. As explosões provocaram nuvens de fumaça, e uma gritaria de final de campeonato de futebol ressoou pelos enormes vãos livres do prédio do aeroporto.
Alguma coisa rolou pelo chão entre os garotos e o grupo de “transeuntes”, bateu na parede e começou a silvar, soltando um forte jato branco.
Uma bomba de fumaça!
Quase abafado pelo ruído das explosões, um outro ruído aproximou-se por cima deles. Calú levantou os olhos.
Era o ruído das pás de um helicóptero!
— Kommen Sie! — ordenou uma voz, atrás do garoto.
Calú voltou-se. Era a moça da bonbonnière que segurava seu braço e o empurrava. O motorista de táxi havia agarrado Chumbinho, e os dois foram empurrados por alguns metros na direção do helicóptero que pousava. Braços fortes puxaram os dois para bordo.
— Sieg Heil!
A sacola caiu das mãos de Calú quando o helicóptero levantou voo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!