29 de janeiro de 2018

Capítulo 14

Yrene não se importava se alguém a matasse durante o sono.
Depois que a vigília solene e à luz de velas no pátio da Torre terminou, depois que Yrene rastejou até seu quarto perto do topo da Torre, duas acólitas apoiando-a entre elas depois que ela desabara na base da escada. Não se importava com nada.
Cook levou o jantar na cama. Yrene conseguiu dar uma mordida antes de desmaiar.
Ela acordou depois da meia-noite, com o garfo sobre o peito e galinha cozida em seu vestido azul favorito.
Ela gemeu, mas sentiu-se um pouco mais viva. O suficiente para sentar-se na quase escuridão do quarto da torre e levantar-se apenas para cuidar de suas necessidades e arrastar sua pequena mesa para frente da porta. Ela empilhou livros e quaisquer objetos pesados que conseguiu encontrar em cima dela, verificou as trancas duas vezes e tropeçou de volta na cama, ainda completamente vestida.
Ela acordou ao nascer do sol.
Precisamente quando falou que encontraria Lorde Chaol.
Amaldiçoando, Yrene arrastou a mesa, os livros, desfez as trancas e desceu correndo pelas escadas da torre.
Ela ordenou que o cavalo dele fosse levado diretamente para o pátio do castelo, e como tinha deixado seus suprimentos no quarto dele no dia anterior, não havia nada para levar além de seu próprio eu frenético enquanto se precipitava pela espiral sem fim da Torre, franzindo o cenho contra as corujas esculpidas que a julgavam silenciosamente enquanto ela voava por portas agora começando a se abrir para revelar curandeiros e acólitos sonolentos piscando com força para ela.
Yrene agradeceu a Silba pelos poderes restauradores de um sono profundo e sem sonhos enquanto passava pelos terrenos do complexo, corria pelas trilhas alinhadas com lavanda, através dos portões abertos.
Antica estava despertando, as ruas misericordiosamente silenciosas enquanto ela corria para o palácio empoleirado do outro lado. Chegou ao pátio trinta minutos atrasada, respirando com força, suando em todas as dobras possíveis de seu corpo.
Lorde Westfall começara sem ela.
Recuperando o ar, Yrene demorou-se entre os altos portões de bronze, as sombras ainda perdurando com o sol baixo no horizonte, e assistiu a cena que se desdobrava.
Como ela havia especificado, o ruão de aparência paciente estava no lado mais baixo, a altura perfeita para ele alcançar o pito de sela com uma mão erguida. O que ele fazia no momento, observou Yrene com pouco grau de satisfação. Mas o resto...
Bem, parecia que ele decidira não usar a rampa de madeira que ela também havia encomendado em vez de um bloco para montar em pé. A rampa estava agora assentada nas sombras da parede oriental do pátio, ao lado das baias, como se ele tivesse se recusado a aproximar-se dela e mandado trazer apenas o cavalo. Para montá-lo por conta própria.
Não a surpreendia nem um pouco.
Chaol não olhou para nenhum dos guardas agrupados ao seu redor, pelo menos, não mais do que o necessário. De costas para ela, ela só podia identificar um ou dois pelo nome, mas...
Um se aproximou em silêncio para permitir que Chaol apoiasse a outra mão em seu ombro coberto por uma armadura quando o lorde forçou seu peso para cima. A montaria manteve-se pacientemente enquanto a mão direita segurava o pito da sela para se equilibrar...
Ela deu um passo a frente quando Lorde Westfall soltou do ombro do guarda e subiu na sela, o guarda mantendo-se próximo enquanto isso. Ele terminou sentado de lado na sela, e Chaol não agradeceu o guarda com nada além de um aceno firme.
Em vez disso, ele estudou silenciosamente a sela diante dele, avaliando como deveria levar uma perna para o outro lado do cavalo. Cor manchava suas bochechas, sua mandíbula era uma linha apertada. Os guardas se demoraram, e ele ficou rígido, mais e mais tenso.
Então moveu-se novamente, recostando-se na sela e passando a perna direita sobre o pito. O guarda que o ajudara se precipitou para segurar as costas dele, outro do outro lado se movendo para evitar que ele caísse, mas o tronco de Chaol permaneceu no lugar. Sem oscilar.
Seu controle muscular era extraordinário. Um homem que tinha treinado o corpo para obedecê-lo, não importa o que, mesmo agora.
E ele estava na sela.
Chaol murmurou algo para os guardas que os fizeram retroceder enquanto se inclinava para ambos os lados para passar as alças da cinta em torno de suas pernas. Elas estavam posicionadas na sela – no comprimento perfeito com base nas estimativas que ela dera à mulher na oficina, projetadas para estabilizar as pernas, substituindo o local onde suas coxas teriam apertado para mantê-lo firme. Apenas até se acostumar a cavalgar. Ele poderia muito bem não precisar delas, mas... era melhor estar seguro neste primeiro dia.
Yrene limpou sua testa suada e aproximou-se, oferecendo uma palavra de agradecimento aos guardas, que agora dispersaram-se de volta para seus postos. Aquele que ajudou Lorde Westfall diretamente virou-se para ela, e Yrene lhe deu um amplo sorriso quando disse em halha:
— Bom dia, Shen.
O jovem guarda devolveu o sorriso enquanto continuava a seguir em direção aos pequenos estábulos nas sombras distantes do pátio, piscando para ela enquanto passava.
— Bom dia, Yrene.
Ela encontrou Chaol sentado na sela quando deu outro passo para frente, aquela postura rígida e o maxilar apertado desaparecendo ao vê-la se aproximar.
Yrene alisou o vestido, percebendo exatamente no momento em que chegou até ele que ainda vestia as roupas do dia anterior. Agora com uma enorme mancha vermelha no peito.
Chaol reparou na mancha, depois no cabelo dela... oh, deuses, seus cabelos, e apenas disse:
— Bom dia.
Yrene engoliu seco, ainda ofegante de sua corrida.
— Me desculpe, estou atrasada. — Mesmo de perto, o suporte se misturava o suficiente para que a maioria das pessoas não percebesse. Especialmente com a maneira como ele se comportava. Sentava-se alto e orgulhoso naquele cavalo, ombros eretos, cabelos ainda molhados do banho da manhã. Yrene engoliu em seco novamente e inclinou a cabeça para a rampa para montar não utilizada no pátio. — Aquilo também era para seu uso, sabe.
Ele levantou as sobrancelhas.
— Duvido que haja um prontamente disponível em um campo de batalha — ele disse, com a boca torcida para o lado. — Eu também poderia muito bem aprender a montar sozinho.
De fato. Mas, mesmo com o amanhecer dourado e claro ao redor deles, o que ela vislumbrara dentro de sua lesão, o exército que ambos poderiam enfrentar, brilhou diante dela, estendendo as longas sombras...
Um movimento chamou sua atenção, fazendo Yrene virar-se, alerta, enquanto Shen trazia uma pequena égua branca daquelas mesmas sombras. Selada e pronta para ela. Ela franziu a testa para o vestido.
— Se eu vou cavalgar — Chaol falou simplesmente — você também irá. — Talvez fosse o que ele havia murmurado para os guardas antes de se dispersarem.
— Eu não sei, faz um tempo desde que montei — Yrene respondeu.
— Se eu posso deixar quatro homens me ajudarem a montar este maldito cavalo — ele falou, a cor ainda em suas bochechas. — Então você também pode deixar um ajudá-la.
Pelo tom, ela sabia que deveria ter sido embaraçoso. Ela já tinha visto aquela expressão em seu rosto. Mas ele fizera. Cerrou os dentes e montara.
E com os guardas ajudando-o... ela sabia que havia várias razões pelas quais ele mal podia olhar para eles. Que não era apenas o lembrete do que ele um dia fora que o deixava tenso em sua presença, o fazia recusar a sequer pensar em treinar com eles.
Mas essa não era uma conversa a ser tida agora, não aqui, e não com a luz começando a voltar aos olhos dele.
Então Yrene guardou seu resmungo e deixou Shen ajudá-la a subir no cavalo.
As saias de seu vestido subiram o suficiente para revelar a maior parte de suas pernas, mas ela já tinha visto muito mais ser revelado aqui. Neste mesmo pátio. Nem Shen nem nenhum outro guarda lançaram um olhar para ela. Ela se virou para Chaol para ordená-lo que seguisse em frente, mas encontrou seus olhos nela.
Na pele exposta de seu tornozelo, mais pálida do que o resto de sua pele dourada. Ela se queimava facilmente no sol, mas fazia meses desde que tinha ido nadar e se bronzear na luz do sol.
Chaol percebeu sua atenção e voltou os olhos para os dela.
— Você tem uma boa postura — ele disse a ela, tão clinicamente quanto suas observações quando ela analisava os corpos de seus pacientes.
Yrene lançou-lhe um olhar exasperado antes de acenar com a cabeça em agradecimento a Shen e cutucar seu cavalo para uma marcha. Chaol segurou as rédeas e fez o mesmo.
Ela manteve um olho nele enquanto iam em direção aos portões do pátio. O suporte aguentou. A sela funcionou.
Ele estava olhando para o equipamento, então para os portões, para a cidade despertando além deles, para a torre subindo acima de tudo como se fosse uma mão erguida em boas-vindas.
A luz do sol atravessou a arcada aberta, iluminando os dois, mas Yrene poderia ter jurado que era muito mais do que o amanhecer que brilhava nos olhos castanhos do capitão enquanto eles cavalgavam para a cidade.




Não estava caminhando novamente, mas era melhor do que a cadeira. Mais do que melhor.
O suporte era pesado, indo contra todos os seus instintos de cavaleiro, mas... o mantinha firme. Permitiu-lhe orientar Yrene através dos portões, a curandeira agarrando a parte da frente da sela de vez em quando, esquecendo-se completamente das rédeas.
Bem, ele encontrara uma coisa na qual ela não estava tão segura.
O pensamento trouxe um pequeno sorriso para seus lábios. Especialmente quando ela arrumava continuamente suas saias. Por tudo com que ralhara com ele sobre sua modéstia, vislumbres de suas pernas a fariam pensar melhor.
Homens nas ruas – trabalhadores, vendedores ambulantes e guardas da cidade – olhavam duas vezes. E pareciam querer continuar olhando.
Até perceberem-no encarando e desviarem o olhar.
E Chaol se certificou de que desviassem.
Assim como se certificou de que os guardas no pátio mantivessem sua atenção educada no momento em que ela entrou, respirando pesadamente, beijada de sol e corada. Mesmo com a mancha em suas roupas, mesmo usando o vestido do dia anterior e coberta com um leve brilho de suor.
Tinha sido mortificante ser ajudado a subir na sela como um leigo indisciplinado depois de ter recusado a rampa – foi mortificante ver aqueles guardas em seus uniformes imaculados, a armadura em seus corpos e as suas espadas brilhando na luz do sol da manhã, observando-o. Mas ele lidara com isso. E então se viu esquecendo-se inteiramente disso aos ver os olhares apreciadores que os guardas lançaram a ela. Nenhuma senhora, linda ou comum, jovem ou velha, merecia ser olhada daquela maneira. E Yrene...
Chaol manteve sua montaria perto da dela. Encontrava o olhar de qualquer homem que olhasse para eles enquanto seguiam na direção da Torre, as pedras pálidas como creme na luz da manhã. Todo homem facilmente encontrava algum outro lugar para ver. Alguns até pareciam querer desculpar-se.
Se Yrene percebeu, ele não fazia ideia. Ela estava ocupada demais segurando o pito a sela em quaisquer movimentos inesperados do cavalo, ocupada demais estremecendo quando a égua aumentava o ritmo em uma rua particularmente íngreme, fazendo com que ela se balanceasse e deslizasse para trás em sua sela.
— Incline-se para frente — ele instruiu-a. — Equilibre seu peso. — Ele fez o que instruíra, tanto quanto o suporte permitia.
Suas montarias enfrentavam lentamente as ruas, as cabeças balançando enquanto andavam. Yrene lançou-lhe um olhar afiado.
— Eu sei disso.
Ele levantou as sobrancelhas com um olhar que dizia: Poderia ter me enganado.
Ela franziu o cenho, mas olhou para frente. Inclinou-se como ele a instruíra.
Chaol dormia como um morto quando Nesryn retornara tarde da noite, mas ela o acordou para dizer que não descobrira nada em relação ao potencial valg na cidade. Nenhuma rede de esgoto se conectava à Torre, e com a pesada guarda nos muros, ninguém entraria por ali. Ele conseguiu manter a consciência por tempo suficiente para agradecer e ouvir sua promessa de continuar caçando nesta noite.
Mas este dia sem nuvens e claro... definitivamente não era a escuridão preferida dos valg. Aelin havia dito a ele como os príncipes valg podiam convocar a escuridão consigo, escuridão que atingia qualquer criatura viva em seu caminho, drenando-as, deixando-as secas. Mas mesmo um valg nesta cidade, independentemente de ser um príncipe ou um valg comum...
Chaol empurrou o pensamento de sua mente, franzindo o cenho para a estrutura cor de marfim que crescia mais imponente a cada rua que atravessavam.
— Towers — refletiu ele, olhando para Yrene. — É coincidência você ter esse nome, ou seus antepassados vieram da Torre?
Seus dedos estavam brancos quando ela agarrou a frente da sela, como se olhar para fosse fazê-la cair.
— Eu não sei. — Ela admitiu. — Minha... é algo que nunca soube.
Ele considerou as palavras, o jeito como ela apertou os olhos para o pilar brilhante da torre à frente, em vez de encontrar seu olhar. Uma criança de Charco Lavrado. Ele não se atreveu a perguntar por que ela talvez não conhecesse a resposta. Onde a família dela estava.
Em vez disso, apontou com o queixo para o anel em seu dedo.
— O falso anel de casamento realmente funciona?
Ela examinou o anel antigo e arranhado.
— Eu gostaria de dizer o contrário, mas sim.
— Você encontra esse comportamento aqui? — Nesta cidade maravilhosa?
— Muito, muito raramente — ela torceu os dedos antes de colocá-los ao redor do alto da sela novamente. — Mas é um velho hábito de casa.
Por um segundo, ele se lembrou de uma assassina com um vestido branco cheio de sangue, entrando em colapso na entrada do quartel. Relembrou a lâmina envenenada com a qual o homem a cortara e usara em inúmeros outros.
— Fico feliz — disse ele depois de um momento — que não precise temer essas coisas aqui. — Mesmo os guardas, apesar dos olhares, foram respeitosos. Ela até se dirigiu a um pelo nome, e o calor na resposta soara genuíno.
Yrene apertou o pito da sela novamente.
— O khagan responsabiliza todas as pessoas pela manutenção da lei, quer sejam criados ou príncipes.
Não deveria ser um conceito tão utópico, porém ainda assim...
Chaol piscou.
— Verdadeiramente?
Yrene deu de ombros.
— Tanto quanto ouvi e observei. Os lordes não podem comprar escapatória por crimes cometidos, nem confiar em seus nomes de família para poupá-los. E os possíveis criminosos nas ruas veem a mão exigente da justiça e raramente se atrevem a tentá-la. — Uma pausa. — Você...
Ele sabia o que ela desejava perguntar.
— Foi-me pedido para libertar ou olhar para o outro lado da nobreza que cometeu crimes. Pelo menos, aqueles que eram valorosos na corte e nos exércitos do rei.
Ela estudou a frente da sela antes de perguntar:
— E seu novo rei?
— Ele é diferente.
Se ele estivesse vivo. Se tivesse conseguido sair de Forte da Fenda.
— Dorian por muito tempo estudou e admirou o khaganato — Chaol se forçou a acrescentar. — Talvez implemente algumas de suas políticas.
Um olhar longo de avaliação agora.
— Acha que o khagan se aliará a vocês?
Ele não conversara a respeito com ela, mas era bastante óbvio o motivo pela qual viera, supôs.
— Eu só posso esperar que sim.
— Suas forças fariam muita diferença contra... os poderes que você mencionou?
— Eu só posso esperar que sim — Chaol repetiu. Ele não conseguiu expressar a verdade, que seus exércitos eram poucos e dispersos, se existissem. Comparado com o reunido em Morath...
— O que aconteceu nesses meses? — uma pergunta tranquila e cuidadosa.
— Tentando me envolver para falar?
— Eu quero saber.
— Não vale a pena contar. — Sua história não valia a pena. Nenhuma parte dela.
Ela ficou em silêncio, a batida dos cascos de suas montarias o único som por um quarteirão. Então:
— Você precisará falar sobre isso. Em alguma hora. Eu... tive vislumbres dentro de você ontem.
— Não foi o suficiente? — A questão era afiada como a adaga embainhada em sua cintura.
— Não, se é do que a criatura dentro de você se alimenta. Não, se reivindicar o seu domínio puder ajudar.
— E está tão certa disso? — Ele deveria controlar sua língua, sabia disso, mas...
Yrene se endireitou em sua sela.
— O trauma de qualquer lesão requer alguma reflexão interna para a cura o que vem depois.
— Eu não quero isso. Não preciso disso. Só quero ficar de pé para caminhar novamente.
Ela balançou a cabeça.
— E você, então? — ele atirou. — Que tal nós fazermos um acordo: você me conta todos os seus segredos profundos e sombrios, Yrene Towers, e eu te contarei os meus.
A indignação iluminou aqueles olhos notáveis enquanto ela o encarava. Ele encarou de volta. Finalmente, Yrene resmungou, sorrindo fracamente.
— Você é tão teimoso quanto um burro.
— Já fui chamado de coisa pior — ele respondeu, o começo de um sorriso repuxando sua boca.
— Não estou surpresa.
Chaol riu, captando o vislumbre de um sorriso antes de ela abaixar a cabeça para escondê-lo. Como se compartilhar uma piada com um filho de Adarlan fosse um crime.
Ainda assim, ele a observou por um longo momento, o humor persistente em seu rosto, o cabelo pesado e suavemente ondulado que ocasionalmente era erguido pela brisa matinal do mar. E encontrou-se ainda sorrindo enquanto algo apertado em seu peito começava a afrouxar.
Eles seguiram o resto do caminho para a Torre em silêncio, e Chaol inclinou a cabeça para trás quando eles se aproximaram, passando por uma ampla e ensolarada avenida que se inclinava para o complexo da colina.
A Torre era ainda mais dominante.
Era grande, mais uma fortaleza do que qualquer coisa, mas ainda arredondada. Edifícios flanqueavam suas laterais, conectados em níveis mais baixos. Todos fechados por paredes brancas imponentes, os portões de ferro – forjados para parecer uma coruja abrindo suas asas – abertos para revelar plantações de lavanda e canteiros de flores que ladeavam os caminhos de cascalho de areia. Não canteiros de flores, mas camas de ervas.
Os cheiros erguendo-se para o sol da manhã encheram o nariz: manjericão, hortelã, sálvia e mais daquela lavanda. Até seus cavalos, os cascos batendo nas passagens, pareciam suspirar enquanto se aproximavam.
Os guardas no que ele assumiu seres as cores da Torre – azul-centáurea e amarelo – lhes permitiram a entrada sem questionar, e Yrene inclinou a cabeça em agradecimento. Eles não olharam para as pernas dela. Não se atreveram ou não tinham a inclinação para o desrespeito. Chaol desviou o olhar antes de encontrar aqueles olhos indagadores.
Yrene assumiu a liderança, orientando-os através de uma arcada e no complexo pátio. A janela do prédio de três andares erguido em torno do pátio brilhava com a luz do sol nascente, mas dentro do próprio pátio...
Além do murmúrio do despertar de Antica do lado de fora do complexo, além dos cascos de seus cavalos no cascalho claro, havia apenas o gorgolejo de fontes gêmeas posicionadas em paredes paralelas do pátio, esculpidas na forma de corujas guinchando, água saindo de seus bicos e caindo em bacias profundas logo abaixo. Flores rosas e roxas pálidas alinhavam-se nas paredes entre limoeiros, os arbustos organizados, mas livres para crescer para onde quisessem.
Era um dos lugares mais serenos em que ele já estivera. E observando-os aproximarem-se... duas dúzias de mulheres em vestidos de todas as cores, embora a maioria usando os modelos simples que Yrene favorecia.
Elas estavam em fileiras limpas no cascalho, algumas pouco mais do que crianças, outras em seu auge. Algumas idosas.
Incluindo uma mulher de pele escura e cabelos brancos, que caminhou para a frente das fileiras e sorriu amplamente para Yrene. Não era um rosto que já teve alguma beleza, mas havia uma luz nos olhos da mulher, uma gentileza e serenidade que fazia com que Chaol piscasse de admiração.
Todas as outras a observavam como se ela fosse o eixo em torno do qual eram ordenados. Até Yrene, que sorriu para a mulher quando desmontou, parecendo grata por estar fora da sela. Um dos guardas se aproximou para recuperar o cavalo, mas hesitou quando Chaol permaneceu a cavalo.
Chaol ignorou o homem quando Yrene penteou o cabelo emaranhado e falou com a mulher na língua dele.
— Imagino que a boa multidão esta manhã seja graças a você? — palavras claras, talvez uma tentativa de normalidade, considerando o que aconteceu na biblioteca.
A velha sorriu, tanto calor. Ela era mais brilhante do que o sol espreitando acima das paredes compostas.
— As meninas ouviram um rumor sobre um belo cavalheiro vindo para ensinar. Fui praticamente pisoteada na debandada pela escada.
Ela lançou um sorriso irônico para três garotas de rosto vermelho, com cerca de quinze anos, que encaravam os sapatos com culpa. E, em seguida, atiraram olhares para ele sob os cílios.
Chaol sufocou uma risada.
Yrene virou-se para ele, avaliando as correias e a sela, quando o barulho de rodas que se aproximavam no cascalho encheu o pátio.
A diversão desapareceu. Desmontar na frente dessas mulheres...
Basta.
A voz soou através dele.
Se ele não pudesse suportar diante de um grupo das melhores curandeiras do mundo, então ele mereceria sofrer. Ele havia oferecido ajuda. Lidaria com isso.
De fato, havia algumas garotas mais novas nos fundos que estavam pálidas. Arrastando os pés. Nervosas. Este santuário, este lindo lugar... uma sombra baixara sobre ele.
Ele faria o que pudesse para empurrá-la de volta.
— Lorde Chaol Westfall — disse-lhe Yrene, gesticulando para a mulher idosa: — Permita-me apresentar-lhe Hafiza, Alta Curandeira de Torre Cesme.
Uma das meninas coradas suspirou ao som de seu nome.
Os olhos de Yrene dançaram. Mas Chaol apenas inclinou a cabeça para a velha quando ela estendeu as mãos para ele. A pele era coriácea, tão quente quanto o seu sorriso. Apertou os dedos dele com força.
— É tão bonito quanto Yrene falou.
— Eu não falei nada assim — Yrene sibilou.
Uma das meninas riu.
Yrene deu-lhe um olhar de advertência, e Chaol levantou as sobrancelhas antes de dizer a Hafiza:
— É uma honra e um prazer, minha senhora.
— Tão atraente — murmurou uma das meninas atrás dele.
Espere até me ver desmontar, ele quase disse.
Hafiza apertou as mãos mais uma vez e as deixou cair. Ela se virou para Yrene. Esperando.
Yrene apenas bateu as mãos juntas e disse às meninas reunidas:
— Lorde Westfall sofreu uma lesão grave na parte inferior da coluna e enfrenta dificuldades para caminhar. Ontem, Sindra da oficina elaborou isso para ele, com base nos desenhos das tribos dos cavaleiros das estepes, que há muito lidam com lesões semelhantes de seus cavaleiros. — Ela fez um movimento de mão para indicar suas pernas, as correias.
A cada palavra, seus ombros se enrijeceram. Mais e mais.
— Quando se é confrontado com um paciente em uma situação similar — prosseguiu Yrene — a liberdade de montar pode ser uma alternativa agradável a uma carruagem ou liteira. Especialmente se ele estiver acostumado a certo nível de independência de antemão... — ela acrescentou em consideração: — Ou mesmo que tenham enfrentado dificuldades de mobilidade suas vidas inteiras, pode oferecer uma opção positiva enquanto você o cura.
Pouco mais do que um experimento. Mesmo as meninas coradas perderam seus sorrisos enquanto estudavam o equipamento. Suas pernas.
— Quem gostaria de ajudar Lorde Westfall a descer de sua montaria para a cadeira? — Yrene perguntou-lhes.
Uma dúzia de mãos se ergueu.
Ele tentou sorrir. Tentou e falhou.
Yrene apontou para algumas, que se aproximaram. Nenhuma olhou para ele acima da cintura, ou até mesmo lhe deu um bom dia.
Yrene ergueu a voz quando as garotas se aglomeraram ao redor dela, certificando-se de que aquelas reunidas no pátio também pudessem ouvir.
— Para pacientes completamente imobilizados, esta pode não ser uma opção, mas Lorde Westfall mantém a capacidade de se mover da cintura para cima e pode conduzir o cavalo com as rédeas. O equilíbrio e a segurança, é claro, continuam sendo preocupações, mas outro ponto é que ele retém o uso e a sensação de sua masculinidade, que também apresenta alguns soluços quanto ao conforto do equipamento utilizado.
Uma das garotas mais jovens soltou uma risadinha, mas a maioria só assentiu, olhando diretamente para a área indicada, como se ele não vestisse nenhuma roupa. O rosto aquecendo, Chaol resistiu ao desejo de se cobrir.
Duas jovens curandeiras começaram a soltar as correias, algumas examinando as fivelas e as hastes. Ainda não o olhavam nos olhos. Como se ele fosse um brinquedo novo – uma nova lição. Alguma excentricidade.
— Lembrem-se de não balançaram demais quando trabalharam. Cuidado — Yrene simplesmente prosseguiu.
Ele lutou para manter suas feições distantes, encontrou-se fitando os guardas do palácio. Yrene deu às garotas conselhos firmes e sólidos enquanto o tiravam da sela.
Ele não tentou ajudar as acólitas, ou lutar contra elas, quando puxaram seus braços, sentindo alguém estabilizar sua cintura, o mundo se inclinando enquanto o levavam para baixo. Mas o peso de seu corpo era grande demais, e ele sentiu-se deslizar mais longe da sela, aproximando-se do chão, o sol iluminando sua pele.
As meninas grunhiram, alguém indo para o outro lado para ajudar a mover sua perna para cima e por sobre o cavalo, ou ele imaginava que sim. Ele só sabia disso porque viu a cabeça de cachos espreitando do outro lado do cavalo. Ela empurrou a perna para cima, e ele ficou ali, pendendo entre três garotas rangendo os dentes enquanto tentavam abaixá-lo, as outras observando em silêncio...
Uma das garotas soltou um “Ahhh” e perdeu o aperto em seu ombro. O mundo mergulhou...
Mãos fortes e infalíveis o pegaram, seu nariz apenas quinze centímetros do cascalho claro, enquanto as outras garotas resmungavam e grunhiam, tentando erguê-lo novamente. Ele estava livre do cavalo, mas suas pernas agora se esparramavam debaixo dele, tão distantes quanto o topo da Torre, muito acima.
Rugido encheu a cabeça.
Uma espécie de desolação crepitava sobre ele. Era pior que ficar de cuecas por horas. Pior do que o banho com a criada.
Yrene, segurando seu ombro de onde apenas o pegara a tempo, disse às curandeiras:
— Isso poderia ter sido melhor, garotas. Muito melhor, por várias razões. — Um suspiro. — Podemos discutir o que deu errado depois, mas por agora, levem-no para a cadeira.
Ele mal conseguia ouvi-la enquanto pendia entre aquelas garotas, a maioria das quais deveria pesar a metade dele. Yrene se afastou para deixar a garota que o deixara cair voltar, respirando bruscamente.
Rodas sibilavam em cascalho de nas proximidades. Ele não se incomodou em olhar a cadeira de rodas com que uma acólita se aproximava. Não se incomodou em falar enquanto o acomodavam nela, a cadeira estremecendo sob seu peso.
— Cuidado —Yrene avisou novamente.
As garotas se demoraram, o restante do pátio ainda assistindo. Foram segundos ou minutos desde que essa provação começou? Ele apertou os braços da cadeira enquanto Yrene dava algumas direções e fazia observações. Apertou os braços com mais força quando uma das garotas se curvou para tocar seus pés calçados com botas para arrumá-los para ele.
As palavras acumularam-se em sua garganta, e ele sabia que elas explodiriam, sabia que poderia fazer pouco para impedi-las de sair enquanto os dedos da acólita se aproximavam do couro preto empoeirado...
Mãos morenas enrugadas pousaram no pulso da menina, parando-a a poucos centímetros de distância.
— Permita-me — Hafiza disse calmamente.
A menina recuou enquanto Hafiza se inclinava para ajudá-lo.
— Prepare as meninas, Yrene — Hafiza falou por sobre um ombro magro, e Yrene obedeceu, levando-as de volta às suas fileiras.
As mãos da velha mulher se demoraram em suas botas, seus pés, atualmente apontando em direções opostas.
— Devo, senhor, ou preferiria fazê-lo sozinho?
As palavras falhavam, e ele não estava certo de poder usar as mãos sem que elas tremessem, então ele deu um aceno à mulher.
Hafiza endireitou um pé, esperando até que Yrene tivesse dado alguns poucos passos para o outro lado e tivesse começado a dar instruções de alongamento às moças.
— Este é um lugar para aprender — murmurou Hafiza. — Os alunos mais velhos ensinam os mais novos. — Mesmo com seu sotaque, ele a entendeu perfeitamente. — Foi instinto de Yrene, Lorde Westfall, mostrar às garotas o que fez com o equipamento, deixá-las aprender por si mesmas o que é ter um paciente com dificuldades semelhantes. Para receber este treinamento, a própria Yrene teve que se aventurar nas estepes. Muitas dessas garotas talvez não tenham essa oportunidade. Pelo menos não por vários anos.
Chaol encontrou finalmente os olhos de Hafiza, achando a compreensão neles mais condenatória do que ser baixado de um cavalo por um grupo de garotas com metade do seu peso.
— Ela quer fazer o bem, a minha Yrene.
Ele não respondeu. Ele não tinha certeza de que tivesse palavras.
Hafiza endireitou o outro pé.
— Há muitas outras cicatrizes, meu senhor. Além da que está no pescoço dela. — Ele queria dizer à velha que sabia muito bem.
Mas abaixou aquela desolação, aquele rugido queimando em sua cabeça. Ele havia feito a essas mulheres uma promessa de ensiná-las, ajudá-las.
Hafiza pareceu ler isso, sentir. Ela passou a mão em seu ombro antes de se erguer a toda a sua altura, gemendo um pouco, e voltar para o lugar que restava para ela na fila.
Yrene se virou para ele, alongamento feito, e estudou-o. Como se a presença persistente de Hafiza tivesse indicado algo que ela havia perdido.
Seus olhos encontraram os dele, sobrancelhas estreitando. O que está errado?
Ele ignorou a questão dentro de seu olhar, ignorou o pouco de preocupação. Ignorou tudo o que sentia profundamente e girou a cadeira em sua direção. Centímetro por centímetro. O cascalho não era ideal, mas ele apertou os dentes. Ele havia dado a essas moças sua palavra. Não fugiria disso.
— Onde paramos a última lição? — perguntou Yrene a uma garota na frente.
— Arranca-olho — ela respondeu com um sorriso largo.
Chaol quase engasgou.
— Certo — disse Yrene, esfregando as mãos. — Alguém demonstre para mim.
Ele observou em silêncio enquanto mãos se erguiam, e Yrene selecionou uma, uma menina de ossos pequenos. Yrene assumiu a posição de atacante, atacando a garota com uma intensidade surpreendente.
Mas as mãos magras da menina foram direto para o rosto de Yrene, os polegares nos cantos dos olhos. Chaol partiu de sua cadeira – ou teria, se a garota não tivesse se afastado.
— E depois? —Yrene simplesmente perguntou.
— Mover os polegares assim... — a menina fez o movimento no ar para que todos pudessem ver — ... e pop.
Algumas garotas riram em silêncio com o pop que a menina fez com a boca. Aelin teria ficado fora de si com satisfação.
— Bom — disse Yrene, e a garota voltou para o seu lugar na fila. Yrene virou-se para ele, a preocupação novamente aparecendo enquanto contemplava o que estava em seus olhos e disse: — Esta é a nossa terceira lição desse trimestre. Nós apenas cobrimos os ataques pela frente. Costumo ter os guardas entrando como vítimas voluntárias. — Alguns risos. — Mas hoje eu gostaria que você nos dissesse o que acha que estas senhoras, jovens e velhas, fortes e frágeis, poderiam fazer contra qualquer tipo de ataque. Sua lista de principais manobras e dicas, por gentileza.
Ele treinou homens jovens prontos para derramar sangue – não para curar pessoas.
Mas a defesa foi a primeira lição que ele aprendeu, e que era ensinada os jovens guardas.
Antes que eles terminassem pendurados nos portões do castelo.
O rosto maltratado de Ress apareceu em sua mente.
Que bem fizera quando importava?
Nenhum. Nenhum para os principais grupos em quem confiava e treinava, com quem trabalhou durante anos... nenhum sobrevivente. Brullo, seu mentor e antecessor, ensinou-lhe tudo o que sabia, e o que resultara? Qualquer um que ele encontrou, que ele tocou... sofreu. As vidas que jurou proteger...
A luz do sol desbotou, o gargarejo das fontes gêmeas, uma melodia distante. Que bem fez para sua cidade, seu povo, quando ela foi saqueada?
Ele olhou para cima e encontrou as fileiras de mulheres que o observavam, curiosidade em seus rostos.
Esperando.
Houve um momento, quando ele atirou sua espada no Avery. Quando não conseguiu suportar aquele peso em seu quadril, em sua mão, e atirara a ela e tudo o que o Capitão da Guarda tinha sido, tinha significado, nas águas escuras e revoltantes.
Ele já estava afundando e se afogando desde então. Muito antes da coluna vertebral.
Não estava certo se até mesmo tentara nadar. Não desde que a espada tinha entrado no rio. Não desde que ele deixou Dorian naquele quarto com seu pai e disse a seu amigo, seu irmão, que o amava e sabia que era um adeus. Ele... o deixou. Em todos os sentidos da palavra.
Chaol se forçou a respirar. A tentar.
Yrene se aproximou ao seu lado enquanto seu silêncio se esticava, novamente parecendo tão intrigada e preocupada. Como se não conseguisse descobrir por que – por que ele teria o menor...
Ele afastou o pensamento. E os outros. Empurrou-os para o fundo da mente, do Avery, onde aquela espada com pomo de águia agora estava deitada, esquecida e enferrujada.
Chaol ergueu o queixo, olhando cada garota e mulher e idosa no rosto. Curandeiras, criadas, bibliotecárias e cozinheiras, e Yrene.
— Quando um atacante vem até você — ele falou finalmente — provavelmente tentará leva-las para outro lugar. Nunca deixe que façam isso. Se deixarem, aonde quer que a levem, será o último lugar que você verá. — Ele estivera em locais suficientes de assassinato em Forte da Fenda, lido e visto casos suficientes, para saber a verdade nisso. — Se tentarem movê-la de sua localização atual, você faz dele seu campo de batalha.
— Nós sabemos disso. — Disse uma das meninas coradas. — Essa foi a primeira lição de Yrene.
Yrene assentiu com gravidade para ele. Ele novamente não se deixou olhar seu pescoço.
— Pisão no peito do pé? — Ele mal conseguia trocar uma palavra com Yrene.
— Primeira lição também — respondeu a mesma garota em vez de Yrene.
— E quão debilitante é receber um golpe na virilha?
Assentimento ao redor. Yrene certamente conhecia sua justa parcela de manobras.
Chaol sorriu severamente.
— E quanto a maneiras derrubar de costas um homem do meu tamanho ou maior em menos de dois movimentos?
Algumas garotas sorriram quando balançaram a cabeça. Não foi reconfortante.

2 comentários:

  1. "Algumas garotas riram em silêncio com o pop que a menina fez com a boca. Aelin teria ficado fora de si com satisfação."

    Teria focado Orgulhosa, na verdade kkkk

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  2. "Ainda assim, ele a observou por um longo momento, o humor persistente em seu rosto, o cabelo pesado e suavemente ondulado que ocasionalmente era erguido pela brisa matinal do mar. E encontrou-se ainda sorrindo enquanto algo apertado em seu peito começava a afrouxar."

    Pronto, agora tenho certeza de que eles vão ficar juntos, de certa forma esse "relacionamento" deles me lembra da Aelin e Rowan. Pra falar a verdade, não duvido nada que o Chaol e a Yrene se casem, não depois da surpresa que tive quando li que a Aelin e Rowan se casaram. Sim, isso vai dá casamento, pelo menos eu espero heuehue

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Boa leitura, E SEM SPOILER!