15 de janeiro de 2018

Capítulo 14. Quem será o oferecedor?

No esconderijo secreto dos Karas, com a gaitinha de Crânio fazendo fundo musical, Magrí acabava de relatar a Miguel e a Calú os acontecimentos envolvendo o aparecimento do cadáver do menino baleado:
— A televisão e o rádio não falam de outra coisa, Karas.
— Quer dizer que estão pensando que eu e Miguel também fomos sequestrados? — perguntou Calú, que estava achando muito divertida aquela situação.
— Vai ver, o diabo do Andrade estava na minha casa, procurando por mim, quando você telefonou para lá e imitou a minha voz, Calú — concluiu Miguel. — Mas pode estar certo de que o Andrade não acha que eu também tenha sido sequestrado. Ele sabe que eu estou em algum lugar, escondido. E sabe que eu represento um risco para o esquema todo!
— Belo risco! — gozou Calú. — Nós estamos aqui, parados, escondidos da polícia e dos bandidos, enquanto os estudantes vão aparecendo, um a um, mortos como cachorros loucos!
A gaitinha parou de tocar:
— Não!
Todos voltaram-se para o gênio da turma:
— Não o quê, Crânio?
— Os estudantes não vão aparecer baleados. Não necessariamente.
— Por que você diz isso?
— É muito simples, Karas. Vocês acham que esses bandidos se dariam ao trabalho de recolher um certo número de estudantes especiais, aplicar-lhes uma droga nova, para simplesmente enchê-los de chumbo?
— Sei lá... — respondeu Magrí. — Vai ver são uma espécie de sádicos...
— É claro que são sádicos, Magrí. Mas obedecem a algum tipo de inteligência macabra, que tem alguma finalidade terrível. Os estudantes estão sendo usados de uma forma científica. Louca, mas científica.
— E o Ricardinho?
— Só pode ter sido um acidente de trabalho. Se eu estiver certo, essa morte confirma a minha teoria de que os estudantes estão sendo usados como cobaias para...
Magrí saltou como um gato. Estava repentinamente revoltada, louca por uma ação mais efetiva. Com o rosto quase colado ao rosto do amigo, a menina explodiu:
— Chega de conversa mole, Crânio! Há três dias nós andamos por aí, fazendo perguntas feito trouxas, enquanto os bandidos sequestram o Chumbinho, sequestram o Bino e ainda nos oferecem o cadáver de um garotinho! E você, aí, falando em teorias como um besta! A surpresa de Crânio foi imensa. O lábio do garoto tremeu, os olhos piscaram, ia chorar:
— Ma... Magrí... eu...
A primeira lágrima foi de Magrí. A meio palmo do rosto de Crânio. Os dois se calaram e agarraram-se num longo abraço, um abraço desesperado...
— Desculpe, Crânio... Eu não queria falar assim...
— Tá bem, Magrí. Não faz mal...
Miguel levantou-se e abraçou os dois. Calú veio em seguida e os quatro ficaram ali, abraçados, em silêncio, com os corpos colados, procurando unir suas energias, aumentar suas esperanças.
Unidos, os Karas eram invencíveis.

* * *

Reanalisaram e rediscutiram tudo o que já tinham descoberto até àquele momento. Era preciso encontrar algum ponto comum a todos os desaparecimentos.
— O oferecedor não pode ser nenhum dos professores — informou Crânio. — Verifiquei com todos os grêmios estudantis das nove escolas que tiveram estudantes sequestrados. Comparei as listas de professores com a lista do pessoal do Elite. A maioria é de professores exclusivos de cada escola. Há três que dão aula em duas dessas escolas e apenas um que dá aula em três delas.
Chegou a vez de Calú:
— Eu tinha de investigar nove casas de meninos sequestrados. Mas Miguel teve de fugir do Andrade e me passou mais seis deles. Falei com alguns pessoalmente e com outros por telefone. Só que foi tudo uma decepção. O pessoal só se lamenta e chora. Eles têm muito pouco a informar. Quatro deles eu não consegui encontrar.
— Eu também não encontrei quatro dos meus nove — informou Magrí. — Com os outros foi bem do jeitinho que você contou, Calú. Só choradeira. Esses pais de hoje em dia conhecem muito pouco os próprios filhos...
— Como foi com esses pais que vocês não encontraram? — perguntou Crânio. — Eles não estavam em casa?
— Não. Foi estranho... — explicou Magrí. — Os endereços não conferiam. Nunca havia morado naqueles endereços qualquer família de estudante desaparecido...
— Gozado! — comentou Calú. — Com os quatro que eu não encontrei foi a mesma coisa...
Os olhos do Crânio se arregalaram:
— Espere aí! Quer dizer que não foi possível localizar oito famílias de garotos raptados?
— Nove! — corrigiu Miguel. — Eu só tive tempo de visitar dois da minha lista. O endereço do terceiro também estava errado.
Crânio estava excitadíssimo:
— E quem eram esses nove? Vocês já verificaram? Todos garotos? Ou havia garotos e garotas? Todos de escolas diferentes? Ou mais de um de uma mesma escola? Deixa ver a lista!
Magrí começou a compreender:
— Acho que já percebi aonde você quer chegar, Crânio. Verifique a lista. Eu vou dar um telefonema!
Enquanto a menina sumia pelo alçapão, os três Karas examinaram a lista de desaparecidos. De cada colégio, uma família de um dos meninos desaparecidos não pudera ser localizada.
— Que estranho...
— Estranho? Estranho nada. Claro demais! —declarou Crânio. — Como eu pude ser tão burro?
Nesse momento, Magrí reapareceu. Com o rosto vermelho e uma expressão de assombro no olhar, a menina anunciou:
— Acabei de telefonar pra casa do Bino. Usei o número que está na ficha do Elite. Pois bem: lá nunca morou um garoto chamado Bino!
Crânio deu um tapa na testa:
— É isso! Eu estava errado desde o início. A amostra que está sendo sequestrada de cada colégio é de dois, e não de três estudantes. O terceiro é um falso aluno, que se matricula em uma escola por semana, fornece um endereço falso e provavelmente diz que vai trazer depois os documentos da escola anterior. Oferece a droga para dois colegas e depois desaparece!
— Quer dizer que...
— Que o oferecedor é o Bino!

* * *

Os Karas tinham descoberto o detalhe comum a todos os desaparecimentos. O mesmo falso estudante, o mesmo pequeno patife que, sob diferentes nomes, tinha penetrado em dez colégios de São Paulo e tinha feito desaparecer vinte meninos e meninas, sob o efeito de uma droga maldita que deixava todos eles feito idiotas, sem iniciativa nem inteligência.
A mensagem fedorenta do Chumbinho para os Karas não queria dizer que ele e Bino tinham caído nas mãos da quadrilha. Chumbinho tinha avisado aos Karas que Bino era o oferecedor!
Já era um começo. Os Karas tinham levantado uma ponta do véu estendido pela mente maligna que comandava aquela organização.
— Não há qualquer motivo para acreditar que eles vão parar no vigésimo estudante, que é o Chumbinho — raciocinou Miguel. — Se eles precisam de cobaias humanas, eles vão continuar procurando.
— Talvez, neste momento mesmo — previu Calú —, o demônio do Bino esteja, com outro nome, em algum outro colégio, preparando a sua nova vítima!
— O problema é saber qual vai ser o próximo colégio a ser atacado — lembrou Magrí.
Crânio pediu um mapa da cidade de São Paulo e uma lista dos principais colégios. Magrí foi buscar e, em cinco minutos, os quatro Karas examinavam o mapa, aberto sobre o forro do vestiário e sob a luz do meio-dia, que entrava pelas telhas de vidro.
— Vejam — mostrou Crânio. — Eles já atacaram colégios nos Jardins, no Morumbi, em Moema...
Espetou um alfinete de cabeça vermelha no local do mapa onde se localizava cada colégio que já havia sido “visitado” pelo oferecedor. Com alfinetes de cabeça branca, Crânio assinalou outros colégios que poderiam ser os próximos alvos.
— Aqui, aqui, aqui e aqui — apontou Crânio. — Um desses quatro colégios deve estar na mira do falso Bino. Se eu traçar uma circunferência assim, abrangendo toda esta parte, faltam somente estes quatro colégios importantes para a quadrilha atacar.
O raciocínio parecia lógico. Não havia tempo a perder, e o líder dos Karas não perdeu um minuto:
— Temos de agir depressa, Karas. Eu e Calú já estamos queimados. Todos pensam que nós também fomos sequestrados. É um disfarce perfeito. Calú, você acha que pode maquiar nós quatro, de modo que nem as nossas mães possam nos reconhecer?
— É claro Kara.
— Muito bem. Meu plano é este: Magrí e Crânio vão entrar para a lista dos desaparecidos também.
— O quê?!
— É isso mesmo. As famílias de vocês dois vão tomar o mesmo susto que a minha, que a do Calú, que a do Bronca, que a do Chumbinho e que a de todos os outros. Magrí e Crânio, vocês podem aceitar esse sacrifício?
— A causa é boa, Miguel — respondeu Magrí.
— Estou pronto — concordou Crânio.
— Ótimo. Nosso melhor disfarce será constarmos da lista dos sequestrados. Maquiados pelo Calú, poderemos circular livremente, sem a obrigação de aparecer em casa para tranquilizar nossas famílias.
Vai ser duro, mas é o único jeito.
— Conte com a gente, Miguel.
— Então vamos usar a mesma tática que os bandidos, Karas.
— A mesma tática? Como assim?
— Nós vamos ser falsos estudantes infiltrados nos quatro colégios selecionados pelo Crânio. Exatamente como o falso Bino. Só que nós levamos uma enorme vantagem sobre ele. Nós sabemos que ele está em um desses colégios, mas ele não sabe que nós estamos atrás dele.
— Mas o falso Bino também pode estar disfarçado.
— Pois o nosso desafio será descobrir qual é o disfarce do falso
Bino antes que ele descubra qual é o nosso.
— Vamos à luta. Ou nós ou ele!
— Magrí, você vai para o Rio Branco. Calú vai investigar o Porto Seguro.
Crânio fica com o Pueri. Eu vou para o Logos. Calú fez uma lista e entregou-a a Magrí.
— Arranje estes materiais de maquiagem pra mim. Tem tudo nos camarins do anfiteatro.
A menina pegou a lista e, antes de desaparecer pelo alçapão do forro, aproximou-se suavemente de Crânio.
— Desculpe, Crânio. Desculpe eu ter gritado com você. Eu estava nervosa. Nervosa e errada. As suas teorias foram maravilhosas. Como sempre.
A menina beijou Crânio na boca. Foi um beijo rápido, mas o suficiente para fazer o garoto sentir uma tonteira gostosa como... como ele nunca antes tinha sentido na vida...

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!