20 de janeiro de 2018

Capítulo 14. Ninguém escapa do grandalhão

Miguel olhou mais uma vez para o relógio. Seis horas! Àquela altura, Calu já deveria ter voltado ao hotel para que os dois fossem à igreja encontrar-se com Mike Sierrabrava. O que teria acontecido com o ator dos Karas?
O telefone do quarto tocou. Era da portaria do hotel.
— Tem um recado aqui para o senhor Miguel...
— Um recado? Já vou aí!
O rapaz nem se preocupou em disfarçar a ansiedade. Em um minuto estava na portaria, com o bilhete nas mãos.  A letra de Magri! O Código Vermelho!
“Fombermombers caisptufterraisdombers nomber rinisomber. Sinisgaism Penterquenternomber Pomberlentergaisr”.
Miguel traduziu na hora. Era só substituir “ais” por “a”, “enter” por “e”, “inis” por “i”, “omber” por “o” e “ufter” por “u”...
“Tenho de procurar ajuda” — pensou o garoto. — “Andrade disse que a polícia do mundo inteiro está atrás do ouro da Máfia. Será que devo procurar a polícia?”
Miguel não era de confiar nos adultos, e muito menos na polícia. Se o crime organizado estava agindo com tanta força no Pantanal, não seria de esperar que houvesse bandidos infiltrados dentro da própria polícia? E agora? O que poderia fazer o líder dos Karas? Como procurar, sozinho, seus  três amigos por todo o Pantanal?
Sentado na poltrona semidestruída do saguão do hotelzinho, Miguel ouvia vagamente uma música sertaneja que vinha do radinho da portaria. Em seguida, o locutor anunciou alguém muito importante que estava nos estúdios para uma entrevista. Aos poucos, Miguel começou a interessar-se por aquilo que ouvia.
— Interesses externos estão destruindo o paraíso onde vivemos — declarava uma voz mais grave e mais bonita que a do locutor. — O Pantanal está sendo destruído para garantir o fantástico enriquecimento de uns poucos que, fora de nosso país, controlam o comércio de peles de jacaré, de contrabando de carros roubados e de drogas!
— Mas o que estão fazendo as autoridades, Senador, para combater essa situação? — perguntou o repórter.
— Este não é um problema apenas das autoridades. É um problema de todo o povo pantaneiro. É um problema de todo o Brasil. É um problema de todo o mundo — respondeu a voz grossa. — Precisamos estar unidos nesta hora porque um crime maior está dirigindo sua ganância sobre o Pantanal. Estou colocando meu poder, meu dinheiro e minha influência nesta luta. Peço a confiança da população. Qualquer informação pode nos ajudar nesta cruzada contra a destruição e contra o crime. Ou o Pantanal volta a ser o paraíso que a natureza criou, ou eu morro junto com ele!
Ali estava alguém que falava a mesma língua de Miguel. Alguém que pedia confiança. Alguém que poderia ajudá-lo!
O líder dos Karas conseguiu o número do telefone da estação de rádio e discou.

* * *

— Alô?... Quem?... Um estudante de São Paulo quer falar com o Senador?... Sim, ele ainda está no estúdio... Um momentinho...
A voz grossa e envolvente não se fez esperar. Miguel resolveu falar pouco.
— Senador? Ouvi sua entrevista. Tenho informações sobre o Ente… A voz trovejou do outro lado.
— Quem?! O Ente? Onde você está? No hotel? Chego aí em um minuto!

* * *

Aquele homem ocupava boa parte do quarto de Miguel. Falava afavelmente. Sua voz era mais impressionante ao vivo do que pelo rádio.
— Acalme-se, garotão. Nós vamos ajudá-lo. E você vai nos ajudar, se tiver alguma pista sobre o Ente...
— É uma longa história, Senador. Lá em São Paulo, um professor de matemática, do colégio onde eu estudo, foi assassinado há quase duas semanas...
— Professor Elias, não é?
— Sim. É ele. Como sabe?
— Sabemos de muita coisa, garotão. Mas fale você primeiro.
— Um colega nosso inventou uma ligação maluca entre o assassinato desse professor e o Pantanal. Decidiu vir para cá, sozinho, para provar sua teoria.
— Meu Deus! — exclamou o Senador. — Não me diga que esse colega é o Crânio!
— Sim! É o Crânio! O senhor o conhece? Onde está ele?
— Estamos vasculhando todo o Pantanal atrás do seu amigo Crânio, garotão...
Tentar localizar Crânio tinha sido o motivo da viagem de Andrade e os Karas para o Pantanal. Agora, a isso se somava a captura de Andrade, Magri e Chumbinho. E ainda havia Calu, que não voltara ao hotel. O líder dos Karas resolveu não falar de Calu para o Senador, nem do seu plano de entregar o amigo disfarçado nas mãos do Mike Sierrabrava e segui-lo depois para descobrir o covil do terrível Ente. De nada adiantaria vasculhar a cidadezinha em busca de um Kara como Calu, que, até indícios em contrário, sabia se virar sozinho. Calu era um ator de grande talento e o rapaz mais bonito do Colégio Elite. Mas não era de posar como um filhinho de papai. Em ação era um gato selvagem.
— Ainda não encontramos Crânio, mas não vamos desistir, garotão — prometeu o Senador. — Confie em mim. Não sou um simples fazendeiro. Estou no comando da única organização que pode ajudá-lo neste momento.
O grandalhão transmitia segurança. Inspirava tranquilidade. Era alguém que se encontra com alívio num momento difícil como aquele. Miguel tinha de colocar-se nas mãos do Senador. Era preciso arrancar seus amigos das garras do supercriminoso que chamavam de O Ente.
— Parece que o Ente apanhou o detetive Andrade, Magri e Chumbinho, Senador. Eles desceram o rio Taquari, em um barco, até a vila de São Francisco, para descobrir como estão indo as investigações sobre a morte do piloto Bezerra e o desaparecimento de Crânio. E, agora, alguém entregou este bilhete no hotel. Foi escrito por Magri. Veja.
O Senador não entendeu coisa nenhuma.
— Está em código, Senador. Uma brincadeira que inventamos no colégio. Achamos que a brincadeira poderia servir, em circunstâncias como estas...
Naturalmente Miguel não revelaria a existência dos Karas como um grupo organizado. Era melhor fazerem-se passar por uma turminha de estudantes inocentes.
— Mas o que está escrito aí?
— “Fomos capturados no rio. Sigam Pequeno Polegar.”
— Que história é essa de Pequeno Polegar? Como vamos...
— É fácil, Senador. O Pequeno Polegar, para não se perder na floresta, foi espalhando pedrinhas coloridas pelo caminho. Magri deve ter pensado em algo assim. Deve ter deixado pistas para serem seguidas. O Senador suspirou, desanimado.
— Histórias de crianças! Pode até ser fácil seguir a pista. O problema é descobrir onde essa pista começa!
— Eles foram capturados no rio Taquari, Senador — argumentou Miguel. — Isso deve ter acontecido, na ida ou na volta, em algum ponto entre a vila de São Francisco e Otília, de onde o barco partiu e para onde deveria voltar.
— De Otília a São Francisco? São mais de 70 quilômetros de rio...
— É nossa única chance, Senador...
O grandalhão levantou-se, decidido.
— Certo! Vou organizar uma expedição e vamos encontrar seus amigos. É melhor você passar a noite no meu casarão. Sairemos lá pelas três da manhã. Devemos chegar antes do amanhecer em Otília. Vamos vasculhar as margens do Taquari, começando de madrugada!

* * *

Era noite fechada quando Calu voltou para o hotel. Ainda estava a uns cem passos quando o que viu gelou-lhe o sangue nas veias: Miguel saía do hotel ao lado de um homem muito grande que lhe segurava o braço. Os dois entraram num Opala, que arrancou velozmente, levantando a poeira das ruas esburacadas de Nhecolândia.
O Senador! O grandalhão tinha perdido um peixe, mas logo em seguida tinha agarrado outro nas malhas de sua rede! E Andrade? E Magri? E Chumbinho? Já deveriam estar de volta. O que teria acontecido com eles?
Qualquer um perderia a cabeça naquele momento. Mas pânico não era a palavra que poderia definir um Kara em ação. Calu controlou a ansiedade e procurou raciocinar. Não podia subir para o quarto. Certamente os bandidos estavam de tocaia. O ruído de motor fez com que ele se escondesse rapidamente. Um espalhafatoso e antigo Cadillac rosa-choque encostava em frente ao hotel. O empregado da portaria apareceu, pressuroso, cheio de sorrisos, e abriu a porta do automóvel.
— Tia Matilde! Que honra receber a senhora em nosso hotel!
Uma mulher alta e magra, vestida de cor-de-rosa, aceitou a mão que o empregado lhe estendia para ajudá-la a sair do carro. Deveria ter uns sessenta anos, mas a ajuda era inútil, pois a mulher parecia em melhor forma física do que o empregado.
— Esta espelunca é a única disponível, não é? Tem algum apartamento decente?
— Para a senhora, temos o melhor!
— Ah, ah! não se envergonhe, meu querido. Eu não sou de luxos. Sou tia Matilde, faço parte do Pantanal! Não se esqueça!
Mesmo de longe dava para perceber a pele de seu rosto esticada por boas operações plásticas. Tia Matilde fazia questão de manter como nova sua velha pele, como mantinha novo o velho Cadillac.
Tia Matilde! A tia de Crânio. Era isso! Uma fazendeira riquíssima e poderosa. Ela poderia ajudá-lo. Talvez fosse a única pessoa, em todo o Pantanal, que poderia ajudar Calu naquele momento.

* * *

Uma janela estava entreaberta. Calu espiou. Era um quarto vazio. Saltou rapidamente a janela, fechou-a por dentro e foi até a porta. Abriu uma fresta mínima. Tia Matilde surgia no começo do corredor e estendia uma gorjeta para o empregado que carregara sua valise cor-de-rosa.
Calu contou mentalmente 30 segundos, para dar tempo de o empregado afastar-se. Atravessou o corredor e bateu levemente na porta do melhor apartamento daquele hotelzinho.
Empurrou a porta logo que ouviu a chave girar do outro lado e entrou, sem pedir licença.
— Por favor, tia Matilde! Não grite. Não se assuste. Sou amigo de Crânio!
Sentada na cama, tia Matilde ouviu atentamente. Tinha passado a última semana empregando todo o seu poder para descobrir o sobrinho desaparecido. Estava informada de tudo. Sabia da morte de Bezerra e de suas últimas palavras. Só não tinha nenhuma pista de Crânio.
— Ele está vivo, tia Matilde. Acredite! Crânio está vivo, em algum lugar do Pantanal!
Tia Matilde voltou-se para o rapaz e beijou-o carinhosamente no rosto.
— Nós vamos encontrá-lo, meu querido!
— É claro, tia Matilde. Posso chamá-la de tia?
— Per que não? Todos chamam...
— Há um caminho a seguir, tia Matilde. Esse caminho é o do Senador. Precisamos descobrir o que ele pretende fazer com Miguel. Tenho certeza que todas as respostas estão com o Senador. Através dele chegaremos ao Crânio. Acho que através dele teremos respostas a todas as nossas perguntas...
Tia Matilde levantou-se. Parecia disposta como nunca. Era aquela mulher cuja alegria e excentricidade tinham feito fama no Pantanal.
— É isso, meu querido. Vamos à luta! Para que serve o dinheiro?
Pediu uma linha à portaria e pôs-se a dar ordens por telefone.

* * *

Uma hora depois, um telefonema trouxe as informações que os dois esperavam. Miguel estava “hospedado” no casarão do Senador e uma expedição deveria subir o rio Taquari naquela madrugada. Miguel iria junto. Calu entendeu o poder que tinha aquela grande fazendeira. Ninguém nem coisa alguma eram mistérios para tia Matilde. A mulher tinha seus jeitos de conseguir o que queria. Todos os jeitos que o dinheiro pode comprar.
— O que faremos, tia Matilde?
— Vamos seguir essa expedição, meu querido. Não vamos perder o seu amigo de vista. Nem o Senador...
— Segui-los? Mas como?
— Pelo ar, meu querido. Meu aviãozinho está aqui, em Nhecolândia. Vamos voar atrás deles!

Um comentário:

  1. Muito sutil seguir não alguém de avião rsrs

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Boa leitura, E SEM SPOILER!